De repente... Percebi que já estava perto demais do altar. Perto demais dele.
Meu passo desacelerou por um segundo, quase imperceptível, como se meu corpo tivesse percebido antes da minha mente que não havia mais volta, não havia mais como parar.
Quando meus olhos encontraram João Miguel, ele já estava me observando. Imóvel, firme, como se aquele momento estivesse completamente sob controle. Mas não era só ele. Algo ao redor estava errado.
Observei com mais atenção e foi então que percebi Enzo à direita do conselheiro sueco, posicionado de forma estratégica, com a arma discretamente apontada para o homem que conduzia a cerimônia. Do outro lado, sua esposa Rebeca mantinha a mesma postura. Aquilo não era apenas segurança. Era pressão. Era garantia de que tudo aconteceria exatamente como deveria. Talvez fosse pelo atraso da cerimônia.
Segurei o braço de Hugo com um pouco mais de firmeza, mas continuei andando. Não demonstraria fraqueza ali. Não hoje.
Quando parei diante de João Miguel, senti a presença dele de forma mais intensa do que esperava. O calor, o cheiro, a proximidade... tudo parecia mais real do que deveria.
O conselheiro iniciou a cerimônia sem rodeios. Suas palavras não tinham nada de românticas, eram diretas, carregadas de poder, responsabilidade e território. Ele não falava sobre amor, falava sobre domínio, aliança e controle ao lado do juiz. Sobre o peso de governarmos juntos.
- Astrid Eriksson, você aceita governar ao lado deste homem, proteger a aliança e sustentar o poder que lhe pertence por direito?
- Aceito. - respondi sem hesitar.
Ele então voltou-se para João Miguel.
- João Miguel Prass Fernandes, você aceita tomar esta mulher como sua esposa e, com ela, assumir o trono que lhe será concedido, protegendo-a como parte do seu poder como Don da máfia Suéca?
- Aceito.
As alianças foram colocadas sem cerimônia. Frio, direto, definitivo. O juiz cumpriu com seu curto papel e ambas as assinaturas, então veio o momento que eu já sabia que chegaria.
- Pode beijar a noiva, e selar o casamento. - Olhei para os lados, parecia ter tantas pessoas agora.
Meu corpo travou instantaneamente. Afastei levemente o rosto e levantei a mão, oferecendo-a no lugar do beijo.
- Está tudo bem? - João Miguel perguntou em voz baixa, enquanto vinha bem perto e beijava minha mão..
- Tudo ótimo. Afinal, estamos casados. Em alguns minutos você será o Don.
Antes que qualquer coisa avançasse, o conselheiro interveio, firme.
- Sem o beijo oficial, o casamento não é validado. E, sem isso, ele não poderá ser nomeado Don.
Senti todos os olhares sobre nós. O peso, a cobrança, a expectativa. Meu corpo ficou rígido.
Eu não consigo. Nunca imaginei que beijá-lo perante todos fosse necessário.
Levantei os olhos para João. Ele não parecia surpreso, nem irritado. Apenas me observava, como se estivesse esperando exatamente esse momento.
- Você ouviu - disse ele, com firmeza. - É hora de beijar a noiva.
Meu coração disparou, mas não houve tempo para pensar, e ele me puxou.
O movimento foi rápido, firme, decidido. Meu corpo colidiu contra o dele e, por um segundo, perdi completamente o equilíbrio, sendo sustentada pelos braços dele que me prenderam com facilidade. Senti meus pés quase saírem do chão, meu corpo sendo envolvido, dominado pela presença dele.
João Miguel então me beijou. Não foi um beijo leve. Não foi protocolar. Foi intenso, profundo, quente demais para algo que deveria ser apenas uma formalidade. Ele não pediu permissão. Não hesitou. Simplesmente tomou.
Senti sua mão firme em mim, segurando como se não houvesse espaço para recuo. O beijo aprofundou de forma natural, como se ele já soubesse exatamente o que estava fazendo, como se aquilo fosse genuíno.
Meu corpo deveria reagir. Deveria travar. Deveria rejeitar. Mas não aconteceu. Nenhuma náusea. Nenhuma repulsa. Nenhum bloqueio. Só um calor.
Um calor que subiu rápido demais, quebrando tudo o que eu levei meses construindo depois do que aconteceu comigo. Minha respiração falhou por um segundo, minha mente simplesmente parou, completamente perdida naquela sensação que eu não estava preparada para sentir.
Quando percebi, já estava de volta ao chão, mas os braços dele ainda demoraram um segundo a mais para me soltar.
Os aplausos começaram ao redor, altos, firmes, aprovando aquela união como se tudo tivesse acontecido exatamente como deveria.
Respirei fundo, tentando recuperar o controle, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Mas então levantei o olhar e vi. João Miguel não estava mais olhando para mim. O olhar dele estava direcionado para os convidados.
Mais precisamente... Para ela. A mulher do hotel.
Meu estômago revirou na mesma hora. O calor desapareceu, substituído por algo muito mais familiar.
A raiva. Fria, cortante, imediata.
Meu maxilar travou enquanto acompanhava a direção do olhar dele.
Então é isso? Esse safado... Tá mesmo com ela.