- Isso é o que acontece quando alguém tenta brincar dentro de um sistema que eu mesmo criei. - Falei enquanto a observava.
Karl levantou o olhar com respeito imediato.
- Sua mira é perfeita, Don João Miguel.
Ignorei o comentário, mantendo os olhos no corpo estendido no chão. Astrid, ao meu lado, não desviava a atenção, mas eu percebia cada pequena mudança na respiração dela.
- Por que matou esse homem? - perguntou, desconfiada.
Inclinei levemente a cabeça, analisando mais uma vez os detalhes que já tinha registrado.
- Ele tem uma pulseira azul. Não é membro da Suécia e nem da Strondda. Não foi convidado. - Fiz uma pausa curta. - E sei disso porque perguntei o nome dele antes de puxar o gatilho... e ele não soube responder corretamente.
Olhei para Karl por um segundo, depois voltei para ela, lembrando das últimas palavras desse maledetto no chão.
- Eu sei exatamente cada nome que estava na nossa lista.
- E simplesmente matou?
Aproximei um pouco mais do corpo.
- Ele se aproximou de uma criança... e o semblante dele... - Minha voz ficou mais baixa. - Me lembrou Anders. O assassino e antigo Don que enganou a todos. Eu não pude deixá-lo viver.
O efeito foi imediato. Astrid travou.
Por fora, manteve a postura firme, o rosto controlado, o olhar frio... mas eu vi. Pequeno demais para qualquer outro perceber, mas não para mim. O modo como o peito dela subiu um pouco mais rápido. O leve tensionar do maxilar.
Aquilo mexeu com ela. E mexeu muito.
Mas, como sempre... ela não deixou transparecer. Ergueu o rosto, colocou a mão na cintura.
- E o que isso tem a ver com o Nils ter sumido? - perguntou, forçando firmeza na voz.
Cruzei os braços, voltando ao ponto principal.
- Tem tudo a ver com tempo. - Ela franziu o cenho. - No exato momento em que Nils desaparece das câmeras e eu passo por lá... esse homem aparece nas imagens em outro corredor. Inclinei o rosto.
- E nesse mesmo momento... eu já estava com o Karl lidando com ele.
Deixei o silêncio completar o raciocínio.
- Como eu teria carregado o Nils... se Karl e o soldado estavam comigo?
Os olhos dela se estreitaram, pensando. Então assentiu, ainda séria.
- Não faz sentido. Não daria tempo.
- Exato. Virei levemente. - Karl, termina aqui.
Ele assentiu imediatamente.
- Sim, Don.
- Bem branquinha. Agora acho que podemos continuar o que paramos...
Segurei o braço de Astrid, puxando-a comigo de volta para fora. Ela não resistiu, mas também não relaxou. Caminhava ao meu lado como se ainda estivesse avaliando tudo... inclusive a mim.
Quando passamos por um dos corredores laterais, algo chamou a atenção dela.
Ela parou de repente. Meu olhar seguiu o dela.
Uma porta estava entreaberta, e, pela fresta... um sapato.
- Nils? - a voz dela saiu rápida.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela já tinha aberto a porta. O nosso soldado estava no chão, imóvel. O corpo jogado de lado.
Por um segundo, o silêncio pesou. Astrid deu um passo à frente.
- Nils? Ele está morto? - Ela perguntou pra mim
Nada dele acordar.
- Hugo! - chamei em voz firme.
Ele apareceu rápido, seguido por Ragnar.
Hugo se abaixou ao lado do corpo, analisando com precisão.
- Calma... - murmurou, tocando o pescoço do rapaz. - Ele só desmaiou.
Astrid soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.
- Alguém bateu na cabeça dele - completou Hugo. - Foi forte o suficiente pra apagar, mas não pra matar.
Ela cruzou os braços, voltando ao controle e perguntou:
- Será que foi o cara que você matou, João?
- Claro que foi - Karl respondeu, surgindo atrás de nós. - Vou encontrar o erro nas câmeras, Don. Pode ficar tranquilo. Mas aquele lá tava envolvido. Certeza.
Assenti uma única vez.
- Faça isso.
O ambiente começou a se reorganizar, cada um assumindo sua função, mas eu não tirei os olhos dela. Hugo foi rápido e realizou vários procedimentos. Ragnar foi com Karl pra cuidar lá fora e depois voltou pra trazer água que Hugo pediu.
Me inclinei levemente, aproximando minha boca do ouvido da branquinha.
- Viu só, meu bem? - murmurei baixo. - Está me devendo uma. Duvidou de mim de graça.
Ela virou o rosto de leve, me olhando de lado.
- Que tal dar uma volta comigo pelos quartos? Ainda não me disse qual será o nosso.
Os olhos dela arregalaram por um segundo, e então veio o rubor. Suas bochechas ficaram vermelhas como tomates.
Fui bem perto do ouvido dela e sussurrei:
- Tá sexy pra caralho agora.
Hugo soltou uma risada curta. Tinha ouvido.
- Vão mesmo. Eu cuido do Nils. Karl e Ragnar vão me ajudar a manter tudo em ordem. - Ele olhou para Astrid com um leve sorriso. - O bom é que aproveito pra passar instruções pra nova equipe sueca.
Ela claramente não gostou da exposição. Mas também não demonstrou fraqueza. Endireitou a postura.
- Claro - disse, com um sorriso sem humor. - Vamos pro outro prédio e escolhemos nosso quarto.
Assenti, satisfeito. Estou louco pra ficar com ela.
Saímos. O silêncio entre nós voltou, mas dessa vez era diferente, mais denso. Eu podia sentir.
E, principalmente... podia sentir ela.
O grande corredor estava vazio quando entramos. Parei no meio do caminho e a puxei levemente, encostando-a na lateral de uma das portas com bastante cuidado. Sabia que o dia havido sido intenso pra ela também. Só que precisava dizer:
- Estou ansioso pra ficar sozinho com você - falei baixo. - Observei o peito dela subir e descer. Seu coração estava acelerado. - Pelo visto... você também.
Levei a mão lentamente em direção ao colo dela, como se fosse sentir o ritmo do coração... mas ela me empurrou. Não foi forte, mas foi o suficiente pra saber que algo estava errado.
Franzi o cenho.
- O que foi?
Ela desviou o olhar por um segundo antes de responder.
- Nada... é que pensei que, por se tratar de um acordo, teríamos quartos separados. - Se afastou um pouco. Inclinei a cabeça, um leve sorriso surgindo.
- Separados, branquinha? Aqui no reduto? - Ela realmente não tinha entendido. - Primeiro... - me aproximei de novo - deixa eu te lembrar que todos os convidados vão ficar pelo menos até amanhã.
Ela respirou fundo.
- Por causa da coroação... amanhã receberemos o novo brasão que mandei fazer e seremos os novos líderes da Suécia. Isso eu sei.
- Sim - interrompi, mais perto agora - mas também porque esperam uma consumação do nosso casamento. - Vi o desconforto passar pelos olhos dela. - Hugo disse que não precisamos provar nada, tipo mostrar lençol ou sangue nas roupas - continuei - mas nossa palavra precisa ser verdadeira. Se descobrirem que não nos comportamos como marido e mulher... esse casamento perde validade.
Aproximei mais.
- E nós não podemos dar margem a ninguém.
Ela assentiu devagar.
- Eu sei... você está certo. - sorri aliviado, respirei tranquilo colocando a mão direita na parede.
A proximidade aumentou. Encostei o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro suave da pele... mas ela falou, firme:
- Não. - Afastei só o suficiente para olhar.
- Não?
Queria entender o que estava acontecendo. Será que falou sério quando disse que não se relacionaria comigo normalmente?
- Não aqui.
Segurei o maxilar por um segundo, controlando a reação... e então soltei um leve sorriso. Como não percebi que ela era tímida?
- Claro. - Abri a porta ao lado. - Entra. - Passei primeiro, observando o espaço. - Já andei vendo alguns. Esse é ótimo.
Ela entrou atrás de mim.
- Não quis o quarto de Anders? Era o mais luxuoso... - disse entre dentes. Mas é claro que eu sabia disso. Como também sei da raiva que ela deve ter dele, então não quero saber daquele lugar.
Eu soltei uma pequena risada e menti.
- Não gostei. Antigo demais. - Fechei a porta com a chave.
Afrouxei a gravata, começando a soltá-la com calma. Me aproximei novamente, tentando retomar o contato... mas ela recuou.
- Por favor... assim não. - Parei. Observei.
- O que foi? Quer tomar um banho? Ou-
- Um banho seria bom - interrompeu.
Inclinei levemente a cabeça.
- Ou você não quer ter contato comigo? - Ela hesitou.
- Não é isso... - Os olhos dela finalmente voltaram para os meus, e havia algo ali. Algo que não estava antes.
- Tem algo que não contei... - disse, mais baixa.