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Capítulo 7 Não contei

Capítulo 7

João Miguel Prass Fernandes

- Isso é o que acontece quando alguém tenta brincar dentro de um sistema que eu mesmo criei. - Falei enquanto a observava.

Karl levantou o olhar com respeito imediato.

- Sua mira é perfeita, Don João Miguel.

Ignorei o comentário, mantendo os olhos no corpo estendido no chão. Astrid, ao meu lado, não desviava a atenção, mas eu percebia cada pequena mudança na respiração dela.

- Por que matou esse homem? - perguntou, desconfiada.

Inclinei levemente a cabeça, analisando mais uma vez os detalhes que já tinha registrado.

- Ele tem uma pulseira azul. Não é membro da Suécia e nem da Strondda. Não foi convidado. - Fiz uma pausa curta. - E sei disso porque perguntei o nome dele antes de puxar o gatilho... e ele não soube responder corretamente.

Olhei para Karl por um segundo, depois voltei para ela, lembrando das últimas palavras desse maledetto no chão.

- Eu sei exatamente cada nome que estava na nossa lista.

- E simplesmente matou?

Aproximei um pouco mais do corpo.

- Ele se aproximou de uma criança... e o semblante dele... - Minha voz ficou mais baixa. - Me lembrou Anders. O assassino e antigo Don que enganou a todos. Eu não pude deixá-lo viver.

O efeito foi imediato. Astrid travou.

Por fora, manteve a postura firme, o rosto controlado, o olhar frio... mas eu vi. Pequeno demais para qualquer outro perceber, mas não para mim. O modo como o peito dela subiu um pouco mais rápido. O leve tensionar do maxilar.

Aquilo mexeu com ela. E mexeu muito.

Mas, como sempre... ela não deixou transparecer. Ergueu o rosto, colocou a mão na cintura.

- E o que isso tem a ver com o Nils ter sumido? - perguntou, forçando firmeza na voz.

Cruzei os braços, voltando ao ponto principal.

- Tem tudo a ver com tempo. - Ela franziu o cenho. - No exato momento em que Nils desaparece das câmeras e eu passo por lá... esse homem aparece nas imagens em outro corredor. Inclinei o rosto.

- E nesse mesmo momento... eu já estava com o Karl lidando com ele.

Deixei o silêncio completar o raciocínio.

- Como eu teria carregado o Nils... se Karl e o soldado estavam comigo?

Os olhos dela se estreitaram, pensando. Então assentiu, ainda séria.

- Não faz sentido. Não daria tempo.

- Exato. Virei levemente. - Karl, termina aqui.

Ele assentiu imediatamente.

- Sim, Don.

- Bem branquinha. Agora acho que podemos continuar o que paramos...

Segurei o braço de Astrid, puxando-a comigo de volta para fora. Ela não resistiu, mas também não relaxou. Caminhava ao meu lado como se ainda estivesse avaliando tudo... inclusive a mim.

Quando passamos por um dos corredores laterais, algo chamou a atenção dela.

Ela parou de repente. Meu olhar seguiu o dela.

Uma porta estava entreaberta, e, pela fresta... um sapato.

- Nils? - a voz dela saiu rápida.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela já tinha aberto a porta. O nosso soldado estava no chão, imóvel. O corpo jogado de lado.

Por um segundo, o silêncio pesou. Astrid deu um passo à frente.

- Nils? Ele está morto? - Ela perguntou pra mim

Nada dele acordar.

- Hugo! - chamei em voz firme.

Ele apareceu rápido, seguido por Ragnar.

Hugo se abaixou ao lado do corpo, analisando com precisão.

- Calma... - murmurou, tocando o pescoço do rapaz. - Ele só desmaiou.

Astrid soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.

- Alguém bateu na cabeça dele - completou Hugo. - Foi forte o suficiente pra apagar, mas não pra matar.

Ela cruzou os braços, voltando ao controle e perguntou:

- Será que foi o cara que você matou, João?

- Claro que foi - Karl respondeu, surgindo atrás de nós. - Vou encontrar o erro nas câmeras, Don. Pode ficar tranquilo. Mas aquele lá tava envolvido. Certeza.

Assenti uma única vez.

- Faça isso.

O ambiente começou a se reorganizar, cada um assumindo sua função, mas eu não tirei os olhos dela. Hugo foi rápido e realizou vários procedimentos. Ragnar foi com Karl pra cuidar lá fora e depois voltou pra trazer água que Hugo pediu.

Me inclinei levemente, aproximando minha boca do ouvido da branquinha.

- Viu só, meu bem? - murmurei baixo. - Está me devendo uma. Duvidou de mim de graça.

Ela virou o rosto de leve, me olhando de lado.

- Que tal dar uma volta comigo pelos quartos? Ainda não me disse qual será o nosso.

Os olhos dela arregalaram por um segundo, e então veio o rubor. Suas bochechas ficaram vermelhas como tomates.

Fui bem perto do ouvido dela e sussurrei:

- Tá sexy pra caralho agora.

Hugo soltou uma risada curta. Tinha ouvido.

- Vão mesmo. Eu cuido do Nils. Karl e Ragnar vão me ajudar a manter tudo em ordem. - Ele olhou para Astrid com um leve sorriso. - O bom é que aproveito pra passar instruções pra nova equipe sueca.

Ela claramente não gostou da exposição. Mas também não demonstrou fraqueza. Endireitou a postura.

- Claro - disse, com um sorriso sem humor. - Vamos pro outro prédio e escolhemos nosso quarto.

Assenti, satisfeito. Estou louco pra ficar com ela.

Saímos. O silêncio entre nós voltou, mas dessa vez era diferente, mais denso. Eu podia sentir.

E, principalmente... podia sentir ela.

O grande corredor estava vazio quando entramos. Parei no meio do caminho e a puxei levemente, encostando-a na lateral de uma das portas com bastante cuidado. Sabia que o dia havido sido intenso pra ela também. Só que precisava dizer:

- Estou ansioso pra ficar sozinho com você - falei baixo. - Observei o peito dela subir e descer. Seu coração estava acelerado. - Pelo visto... você também.

Levei a mão lentamente em direção ao colo dela, como se fosse sentir o ritmo do coração... mas ela me empurrou. Não foi forte, mas foi o suficiente pra saber que algo estava errado.

Franzi o cenho.

- O que foi?

Ela desviou o olhar por um segundo antes de responder.

- Nada... é que pensei que, por se tratar de um acordo, teríamos quartos separados. - Se afastou um pouco. Inclinei a cabeça, um leve sorriso surgindo.

- Separados, branquinha? Aqui no reduto? - Ela realmente não tinha entendido. - Primeiro... - me aproximei de novo - deixa eu te lembrar que todos os convidados vão ficar pelo menos até amanhã.

Ela respirou fundo.

- Por causa da coroação... amanhã receberemos o novo brasão que mandei fazer e seremos os novos líderes da Suécia. Isso eu sei.

- Sim - interrompi, mais perto agora - mas também porque esperam uma consumação do nosso casamento. - Vi o desconforto passar pelos olhos dela. - Hugo disse que não precisamos provar nada, tipo mostrar lençol ou sangue nas roupas - continuei - mas nossa palavra precisa ser verdadeira. Se descobrirem que não nos comportamos como marido e mulher... esse casamento perde validade.

Aproximei mais.

- E nós não podemos dar margem a ninguém.

Ela assentiu devagar.

- Eu sei... você está certo. - sorri aliviado, respirei tranquilo colocando a mão direita na parede.

A proximidade aumentou. Encostei o rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro suave da pele... mas ela falou, firme:

- Não. - Afastei só o suficiente para olhar.

- Não?

Queria entender o que estava acontecendo. Será que falou sério quando disse que não se relacionaria comigo normalmente?

- Não aqui.

Segurei o maxilar por um segundo, controlando a reação... e então soltei um leve sorriso. Como não percebi que ela era tímida?

- Claro. - Abri a porta ao lado. - Entra. - Passei primeiro, observando o espaço. - Já andei vendo alguns. Esse é ótimo.

Ela entrou atrás de mim.

- Não quis o quarto de Anders? Era o mais luxuoso... - disse entre dentes. Mas é claro que eu sabia disso. Como também sei da raiva que ela deve ter dele, então não quero saber daquele lugar.

Eu soltei uma pequena risada e menti.

- Não gostei. Antigo demais. - Fechei a porta com a chave.

Afrouxei a gravata, começando a soltá-la com calma. Me aproximei novamente, tentando retomar o contato... mas ela recuou.

- Por favor... assim não. - Parei. Observei.

- O que foi? Quer tomar um banho? Ou-

- Um banho seria bom - interrompeu.

Inclinei levemente a cabeça.

- Ou você não quer ter contato comigo? - Ela hesitou.

- Não é isso... - Os olhos dela finalmente voltaram para os meus, e havia algo ali. Algo que não estava antes.

- Tem algo que não contei... - disse, mais baixa.

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