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Capítulo 2 Ninguém vai levar você!

Capítulo 2

João Miguel Prass Fernandes

"Ah! Porque mulher só complica as coisas?"

"Numa hora é uma porra de acordo de negócios e na outra vem com crise de ciúmes?" - Respirei profundamente pra não perder o controle.

O cheiro de fumaça ainda ardia na minha garganta quando saímos do hotel, misturado ao som das sirenes e da confusão que se espalhava pela rua. Pessoas corriam sem direção, funcionários gritavam ordens que ninguém parecia ouvir, mas nada daquilo importava.

Meu foco foi direto para a calçada, procurando os carros que deveriam estar nos esperando pra levar até o casamento.

E o que encontrei foi... nada.

- Cadê os carros? - Astrid perguntou ao meu lado.

Observei com mais atenção o ponto onde deveriam estar. Não havia vidro quebrado, nem marcas de colisão, nem qualquer sinal de retirada forçada.

Olhei pra cima e também notei algo estranho. A fumaça começou exatamente no andar onde estávamos.

Soltei o ar devagar. Vi que Astrid também olhava para a mesma direção.

- Isso não foi um incêndio comum João Miguel.

- Ela virou o rosto para mim imediatamente, os olhos frios e atentos. - Foi premeditado.

Assenti.

- E fizeram isso pra nos tirar do caminho. - rosnei.

- Ragnar e os seus familiares da Strondda podem estar em perigo. O que faremos? - disse enquanto erguia o vestido do chão.

Foi então que meu olhar encontrou o Mustang preto parado no final do quarteirão. O motor ainda estava ligado, o carro eu reconheceria em qualquer lugar.

Minha expressão endureceu.

- Aquele é o carro do nosso Consigliere.

Astrid estreitou os olhos, analisando a situação com rapidez.

- Tem certeza? Porque parece que tem muita pressa. Olha a arrancada dele.

- Absoluta. - O silêncio entre nós durou apenas um segundo. - Alguma coisa aconteceu com Ragnar, o Consigliere. Precisamos ir atrás dele.

Ela não perdeu tempo. Atravessou a rua com decisão, segurando o vestido para não atrapalhar seus movimentos. Eu ainda tentei questionar, mas fui interrompido pelo som do vidro que ela quebrou.

Astrid havia estilhaçado a janela de um carro estacionado com o cotovelo, acionando o alarme imediatamente. Nem piscou, apenas virou o rosto para mim.

- Sabe fazer ligação direta? - Vi que tinha um pouquinho de sangue na luva branca, mas ela arrancou as duas e jogou dentro do carro sem se importar.

Caralho! Ela é esperta.

Parte do seu cabelo completamente loiro ficou no rosto e seus olhos azuis piscaram bem devagar, contrastando os cílios marrons e bem aparentes.

Um sorriso rápido surgiu no canto da minha boca. Ela parece uma boneca, mas age como uma mafiosa perfeita.

- Eu fui criado pra isso, ragazza. - respondi sem rodeios.

Entrei no carro sem hesitar, puxei o painel inferior e conectei os fios com precisão. Em poucos segundos, o motor respondeu e o alarme parou .

- Entra. - Ela já estava no banco do passageiro quando liguei o carro. No mesmo movimento, puxou a arma de dentro do vestido com naturalidade, como se aquilo fizesse parte do traje.

- Agora sim estamos falando a mesma língua - murmurei... Astrid colocou a arma pra fora da janela, se antecipando a um possível ataque. - Ficou linda nessa posição. - Me perdi alguns segundos olhando pra ela.

Mas bufou, me ignorando.

Arranquei com força, fazendo os pneus cantarem no asfalto. O Mustang à frente começou a se mover quase no mesmo instante.

- Ele viu a gente - Astrid comentou.

- Ótimo. Então não é coincidência. Esses maledettos estão nos esperando.

Acelerei, costurando entre os carros com precisão. O trânsito virou apenas um detalhe, algo a ser evitado no último segundo. O Mustang não estava tentando desaparecer. Estava mantendo distância e controlando o ritmo.

- Ele não está fugindo - falei, já entendendo o padrão.

- Está guiando a gente - ela respondeu.

- Exatamente. O plano é nos atrair.

Dobrei uma esquina fechada e entrei em uma rua mais aberta, ganhando velocidade. O Mustang reduziu de repente, como se esperasse por nós.

- É uma armadilha - Astrid disse.

- Sem dúvida. Mas ninguém vai tentar estragar meu casamento e sair sem uma bala na testa.

Pisei no freio quando ele parou bruscamente à nossa frente, girando o volante para evitar a colisão. O carro deslizou e ficou atravessado na rua. Foi nesse momento que tudo aconteceu.

Um segundo carro surgiu de lado em alta velocidade, derrapando até fazer um cavalo de pau no meio da rua, levantando poeira e fumaça enquanto bloqueava completamente o caminho. As portas se abriram e homens armados começaram a sair.

- Agora começou - murmurei, já abrindo a porta.

Astrid foi rápida. O primeiro tiro veio dela, preciso, direto. O homem caiu antes mesmo de reagir. Outro tentou avançar pela lateral, mas eu já estava com a arma em mãos. Dois disparos, secos, e ele também caiu.

Mais dois vieram logo atrás. Astrid girou o corpo com uma fluidez impressionante, segurei sua cintura e nosso olhar se encontrou por um segundo quando ficou na minha frente. Eu jurei que a maledetta iria me beijar, mas ela trocou o ângulo e saiu atirando sem hesitar.

Um deles tentou se aproximar demais, dei cobertura, matando quem tentasse encostar nela, e ela não recuou. Deu um passo à frente, bateu com a arma no rosto dele e finalizou à queima-roupa.

Fria. Controlada. Letal.

- Atrás! - gritei.

Ela se abaixou no mesmo instante, e eu atirei por cima dela, derrubando outro homem que vinha em nossa direção.

O silêncio caiu rápido demais, mas ainda não era o fim. A porta do Mustang abriu. Olhei imediatamente.

Ragnar estava lá dentro, amarrado, com o rosto marcado de sangue. Meu corpo tensionou ao ver aquilo.

- Figlios de puttana... - murmurei, avançando.

Mas Ragnar não esperou, reagiu. Com um movimento brusco, conseguiu se soltar, arrancou a fita que o prendia e puxou uma arma escondida. Dois tiros rápidos e precisos, e os últimos homens de pé caíram.

Ele saiu do carro respirando pesado.

- Chegaram rápido - disse, limpando o sangue do rosto e olhando o carro. - Tomara que nenhum tenha acertado meu carro novo.

- Você tá bem? - perguntei.

- Já estive pior. - Ragnar respondeu com um sorriso debochado - Mas que jeito melhor de assumir a máfia Sueca se não for atirando e limpando a casa, não é? Isso tá bem interessante... Don.

Balancei levemente a cabeça. Era a primeira vez que alguém me chamava de Don.

Astrid se aproximou, ainda com a arma firme nas mãos.

- Você foi a isca Ragnar. - ele assentiu.

- Sim. O alvo era você. - respondeu olhando pra ela.

- Certamente alguém não me quer no comando... - Ela falou enquanto recarregava sua arma com frieza. Hmmm... Pelo visto tem muito mais coisa do que imagino por baixo desse vestido branco. - Olhei seu corpo por inteiro.

- Ou então havia mais algum interessado em casar com você. - Ragnar comentou baixo, e agora teve minha total atenção - Ouvi alguém falando em Suéco que se a noiva morresse todos morreriam junto.

O silêncio que veio depois foi mais pesado. Então eu tinha um concorrente?

Mas de repente, ouvimos outro motor. Mais grave, mais controlado, sem a pressa dos outros.

Viramos ao mesmo tempo.

Um carro preto, uma Ferrari Roma de quatro lugares, claramente blindado, se aproximou devagar e parou alguns metros à frente. Não havia desespero naquele movimento, nem tentativa de ataque eminente.

As janelas escuras impediam qualquer visão do interior. Ninguém saiu. Ninguém atirou. Aquilo não era um confronto. Era um aviso?

Senti Astrid ficar mais tensa ao meu lado.

- Esse não veio lutar - ela disse.

- Não... - respondi, mantendo os olhos fixos no carro.

- Talvez seja o cara que queira Astrid. - Ragnar disse e apertei minha Taurus 9 milímetros.

Puxei Astrid pra perto de mim pela cintura, a colocando atrás de mim.

- Eu sei me virar sozinha... - rosnou tentando me irritar.

- Quieta, porra. Ninguém vai te levar daqui hoje. - falei virando pra ela e Astrid quase conseguiu me desconcertar olhando para meus lábios. Mas voltei a si e apontei a arma para o carro.

Ele permaneceu ali por alguns segundos.

- No dois a gente ataca, Ragnar...

Olhei para Astrid, depois para os corpos espalhados pelo chão, e por fim para a direção em que o carro estava. Minha mandíbula travou.

- Parece que alguém não quer que você case comigo ragazza... Vamos ver quantos terei que matar.

Mas quando a porta abriu e Ragnar levantou a mão com a arma, eu gritei:

- Espera!

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