Precisei respirar fundo e fingir que não vi que ele olhou pra ela.
A recepção aconteceu no próprio reduto, como tudo naquela máfia: discreto por fora, impecável por dentro. Mesas bem distribuídas pelo jardim, iluminação baixa e elegante, criando sombras suficientes para esconder conversas que não deveriam ser ouvidas. O cheiro da comida se misturava no ar, pratos suecos tradicionais, carnes bem preparadas, molhos fortes... e, claro, toques italianos trazidos pela família Strondda. Uma fusão que não era apenas culinária, era política.
Caminhei entre os convidados com calma, cumprimentando alguns membros do conselho, observando outros com atenção. Meu sorriso era controlado, medido, exatamente como deveria ser, mas por dentro eu analisava tudo, cada movimento, cada olhar, cada ausência.
Foi quando vi a mulher que me estressou no hotel caminhando normalmente, sem qualquer sinal de dor. O nariz estava roxo pelo soco que eu dei, mas isso não é problema meu.
Meu olhar a acompanhou de forma discreta enquanto ela atravessava o jardim em direção ao interior do reduto, e aquilo foi o suficiente para acender um alerta silencioso dentro de mim. No hotel, ela mal conseguia se manter de pé, chegou a pedir ajuda... justamente a João Miguel. E agora andava perfeitamente?
Mudei de direção sem pressa, sem chamar atenção. Apenas segui.
O interior do reduto estava mais silencioso, o som da recepção ficando abafado conforme eu avançava pelo corredor até o banheiro feminino. Quando entrei, ela estava diante do espelho, impecável, sem qualquer sinal de fragilidade, terminando de encher o nariz de reboco de maquiagem. Ela me viu pelo reflexo antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa e sorriu.
- Achei que viria.
Encostei levemente na bancada, cruzando os braços com tranquilidade.
- Achei que não conseguiria andar. - Ela riu baixo, como se aquilo fosse leve demais para ser levado a sério.
- Adrenalina faz milagres.
- Faz mesmo - respondi, sem desviar o olhar.
Ela se virou de frente para mim, analisando cada detalhe com a mesma precisão que eu analisava nela.
- Não fomos apresentadas corretamente - disse com calma. - Sou a Chiara.
Inclinei levemente a cabeça.
- Astrid.
- Eu sei - respondeu, com um leve sorriso. - Difícil não saber quem você é hoje.
- Você parece conhecer bem o ambiente para alguém que não pertence a máfia Sueca. Nunca te vi aqui, estava passando mal a uma hora no quarto ao lado do meu no hotel e ainda aparece no meu casamento. - Virei para o espelho e puxei um pequeno batom que estava no espartilho.
- E você parece perceber coisas demais para alguém que acabou de se casar.
Quase sorri.
- É um hábito.
Ela deu um passo à frente, não invasiva, mas ousada o suficiente.
- Eu admiro isso.
- Não deveria. Quando pareço simpática é quando sou mais perigosa.
- Deveria sim. Mulheres como você não são comuns.
- Nem deveriam ser. - O olhar dela mudou, ficou mais atento, mais interessado.
- Concordo.
Me afastei da bancada, mantendo a postura firme depois de passar o batom.
- Você está muito confortável para alguém que acabou de aparecer no meu casamento sem ser chamada.
- Eu vou considerar isso um elogio.
- Não foi. Quem te convidou?
Ela sorriu, mas não respondeu de imediato, apenas me observou por mais alguns segundos, como se estivesse avaliando algo mais profundo.
- Você escolheu bem - disse por fim. - João Miguel é um homem bonito. Com todo respeito, antes que termine de quebrar meu nariz.
- Eu não escolhi por gosto. Só que exijo respeito.
- Ninguém escolhe nesse mundo da máfia por gosto.
Inclinei levemente o rosto.
- E você sabe disso por experiência própria... ou por observação?
- Os dois. - Aquilo ficou registrado. Guardado.
O que ela estava querendo dizer?
- Você não faz ideia com quem acabou de casar - ela disse então, com naturalidade demais para algo daquele peso.
Meu olhar não mudou, mas minha atenção se fechou completamente nela.
- E você faz?
- Mais do que você imagina.
Antes que eu pudesse avançar, a porta abriu.
- Astrid. - Virei imediatamente.
Era Manuela, e o tom dela já dizia que não era algo simples.
- Hugo está te chamando.
- Já vou.
- Agora, Astrid.
Algo no jeito dela fez com que eu não insistisse.
- O que foi? - fui andando até ela.
Ela se aproximou um pouco mais, abaixando a voz.
- Nils sumiu.
Meu corpo ficou imóvel por um segundo.
- Como assim?
- Hugo foi procurá-lo pra passar algumas informações pra ele junto ao Ragnar e o Karl, mas ninguém o encontrou. As câmeras pegaram movimentação estranha em um dos corredores laterais, mas não entrou ninguém.
Franzi o cenho.
- Isso não faz sentido.
- Eu sei. Por isso Hugo quer você lá agora.
Saímos juntas, mas antes de atravessar a porta olhei para trás. Chiara ainda estava ali, me observando, como se já soubesse exatamente o que estava acontecendo. E aquilo me incomodou mais do que deveria.
Caminhei ao lado de Manuela de volta ao jardim, mas minha mente já estava em outro lugar. Câmeras, movimentação interna, nenhuma invasão externa. Então não foi alguém de fora. Ou o invasor é muito bom em não deixar rastros.
Meu pensamento foi direto em João Miguel. Me veio a lembrança do ciúme, o olhar mais cedo. A tensão quando mencionei Nils. O maxilar travado. O incômodo que ele não tentou esconder.
Respirei fundo. Aquilo ainda não era prova. Mas poderia ter sido ele a fazer algo para Nils.
Quando entramos na sala de monitoramento, as imagens já estavam abertas, e foi ali que algo dentro de mim se ajustou de forma perigosa.
- Ele foi sequestrado, pelo visto. - Hugo mencionou.
Fixei nas imagens e estranhei.
Porque em um dos corredores... Antes de Nils desaparecer... João Miguel aparecia sozinho. Indo exatamente na direção onde tudo aconteceu.
Meu olhar travou na tela. Por fora, permaneci impecável, controlada, até fria. Mas por dentro...
Algo não encaixava. E eu não gostava quando as coisas não encaixavam.
Principalmente... Quando envolviam meu marido.
- João Miguel vem comigo. - Rosnei.