O pronto-socorro, que já vivia no limite, virou um campo de guerra em segundos. O terremoto ainda não havia terminado, mas os primeiros feridos já chegavam, alguns carregados pelos próprios familiares, outros pelos poucos paramédicos que conseguiram atravessar a cidade em meio à destruição. O chão tremia sob nossos pés, e mesmo assim continuávamos. Porque era isso que fazíamos.
Um garoto ensanguentado foi colocado sobre a maca à minha frente. Não devia ter mais do que sete anos. Seu braço estava completamente esmagado, os olhos arregalados de pavor.
- Vamos precisar amputar. - A voz da enfermeira ao meu lado estava tensa, mas firme.
Pisquei, tentando focar no presente, no que estava diante de mim.
- Sedação agora! Se não fizermos rápido, ele não vai resistir à hemorragia.
Minhas mãos estavam trêmulas. Meu coração pulsava em um ritmo acelerado, mas eu precisava continuar. Fizemos a amputação ali mesmo, no chão do hospital, sem tempo para protocolos ou equipamentos sofisticados. A sala de cirurgia não existia mais, tinha desmoronado junto com parte do prédio.
E isso era só o começo.
O terremoto durou longos e excruciantes minutos, mas a verdadeira devastação veio depois. Não havia eletricidade, os geradores falhavam, os celulares estavam sem sinal. E o hospital, que deveria ser um refúgio, agora era apenas mais uma ruína na paisagem de destruição.
Me apoiei contra uma parede, tentando recuperar o fôlego. Olhei ao redor, contando mentalmente os médicos e enfermeiros que ainda estavam de pé. Era menos da metade da equipe original.
Meu peito apertou. Rafael.
Não sabia onde ele estava. Não sabia se estava vivo.
Não podia pensar nisso agora.
- Precisamos organizar os pacientes! - gritei, tomando a frente da situação.
Os que estavam menos feridos ajudavam os que estavam em pior estado. O chão estava coberto de sangue, poeira e destroços. Mas eu continuei. Porque era isso que sempre fiz.
Só não sabia por quanto tempo mais conseguiria.
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Rafael Castellano
Meu mundo virou de cabeça para baixo.
Literalmente.
Quando o tremor começou, eu e minha equipe estávamos no pátio da base dos bombeiros, preparando as viaturas para um possível resgate. Mas nada nos preparou para o que veio a seguir.
O solo se abriu, como se o próprio inferno estivesse tentando escapar. Um dos nossos caminhões foi engolido pela fenda que se formou no meio da rua, levando consigo dois colegas. Não houve tempo para gritos ou despedidas.
Eles se foram.
Tentei me segurar em algo, mas o chão se movia como se estivéssemos em um navio no meio de uma tempestade. Prédios desabavam ao nosso redor, poeira e escombros enchiam o ar, dificultando a visão e a respiração. O barulho era ensurdecedor.
Sabíamos que isso poderia acontecer de novo. Mas nunca imaginamos que seria tão brutal.
Quando o tremor finalmente cessou, caí de joelhos, sentindo o gosto metálico do sangue na boca. Meu ombro latejava - devia ter batido em alguma coisa na queda. Mas eu estava vivo.
Olhei ao redor. O quartel dos bombeiros estava destruído. Viaturas capotadas, colegas feridos, alguns mortos.
Não podíamos parar.
O rádio chiou. Uma voz trêmula veio do outro lado da linha.
- Precisamos de ajuda na região central. O hospital... foi atingido.
Meu coração congelou. Sofia.
Me levantei imediatamente, ignorando a dor no corpo. Peguei um dos rádios ainda funcionando e respondi:
- Aqui é Rafael Castellano. Estamos a caminho.
Abracei a adrenalina e corri em direção ao caos.
Eu precisava encontrá-la.
Eu precisava salvá-la.
Porque se algo tivesse acontecido com minha irmã, não haveria mais nada para reconstruir.
{...}