- Sofia! - A voz de uma enfermeira me despertou dos meus pensamentos.
Virei-me e vi Mariana, seu rosto pálido e coberto de suor.
- O que foi? - perguntei, temendo a resposta.
- A ala infantil está desabando. Ainda tem crianças lá dentro.
Meu coração parou por um segundo.
Sem pensar, corri.
Os corredores estavam bloqueados por escombros, mas consegui atravessar um buraco na parede para chegar à ala pediátrica. O teto rangia acima de nós, como se estivesse prestes a ceder. O chão estava repleto de cacos de vidro e sangue.
- Tem alguém aqui?! - gritei, minha voz ecoando.
Um choro baixo me guiou até um canto do corredor. Três crianças estavam encolhidas debaixo de uma mesa, assustadas, segurando as mãos umas das outras. Me agachei para alcançá-las.
- Vai ficar tudo bem. Eu vou tirar vocês daqui.
Uma das meninas soluçava, o rostinho sujo de poeira e lágrimas. Ela agarrou minha mão com força.
- Minha mãe... - sua voz era um fio.
Não tive coragem de dizer que talvez sua mãe já estivesse morta.
- Primeiro, precisamos sair daqui, tá bom? - falei, forçando um sorriso tranquilizador.
Peguei a menor nos braços, enquanto as outras duas seguravam minha roupa. Meus músculos gritavam de exaustão, mas eu continuei. O teto rangia, a poeira caía sobre nós como neve suja, e eu sabia que tínhamos pouco tempo.
Corri o mais rápido que pude.
Assim que atravessamos o corredor, uma explosão sacudiu o hospital. O teto cedeu atrás de nós.
Saímos por segundos. Apenas segundos.
Respirei fundo, tentando acalmar minha pulsação frenética.
Olhei para as crianças em meus braços. Elas estavam salvas.
Mas quantas mais eu ainda perderia antes do dia acabar?
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Rafael Castellano
O calor das chamas fazia o suor escorrer pelo meu rosto, mas eu não parei.
A cidade estava um inferno.
Corpos pelas ruas, pessoas presas sob os escombros, chamas consumindo prédios inteiros. Meu rádio apitava sem parar, chamando socorro para todos os cantos. Mas não havia socorro suficiente.
Meu primeiro instinto era ir até Sofia, mas se eu parasse agora, mais gente morreria.
Uma senhora idosa estava presa sob uma viga metálica caída. Me ajoelhei ao seu lado.
- Vou te tirar daqui - prometi, mesmo sem saber se conseguiria.
Pedi reforço pelo rádio, mas não havia tempo. Peguei um pedaço de cano e usei como alavanca para levantar a viga o suficiente para puxá-la.
Ela gritou de dor, mas quando a tirei dali, desabou em meus braços, chorando.
- Você está segura agora - murmurei.
Mas será que alguém realmente estava?
Mal terminei esse resgate e já fui chamado para outro. E outro.
Cada pessoa salva parecia insignificante diante da destruição. Mas eu continuei. Porque, se eu não continuasse, ninguém mais o faria.
Foi então que ouvi um nome pelo rádio.
- Castellano... - a voz estava cheia de estática, mas entendi o suficiente. - Hospital. Sua irmã...
Minha respiração falhou.
Larguei tudo e corri.
Corri sem olhar para trás.
Se Sofia estivesse morta, não haveria mais nada para salvar.
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Sofia Castellano
O caos dentro do hospital parecia não ter fim. As paredes tremiam a cada réplicas do terremoto, e os gritos de dor e desespero se misturavam ao som de sirenes distantes.
Depois de tirar as crianças da ala infantil, voltei para ajudar mais feridos. Meu corpo implorava por descanso, mas eu não podia parar. Passei por um corredor onde enfermeiros tentavam conter o sangramento de um homem com o rosto coberto de poeira e um pedaço de vidro atravessando a coxa.
- Ele precisa de cirurgia urgente! - gritou Mariana, a enfermeira que me ajudava.
Olhei ao redor. A sala de cirurgia estava destruída, e os equipamentos, espalhados pelo chão, inutilizados.
- Vamos fazer aqui mesmo - decidi, puxando meu kit médico improvisado.
Mariana arregalou os olhos.
- Aqui?!
- Se esperarmos, ele morre.
Ajoelhei-me ao lado do homem e comecei a trabalhar. Meus dedos tremiam, mas minha mente estava focada. A adrenalina tomava conta, me guiando por instinto.
A cada segundo que passava, mais pessoas eram trazidas em macas improvisadas. A maioria estava ferida, mas alguns... alguns já não tinham mais chance.
Engoli em seco e continuei.
Não tinha tempo para luto.
Não tinha tempo para medo.
Até que um estrondo ensurdecedor ecoou pelo prédio, seguido de um tremor violento. O teto da recepção desabou.
O choque congelou meu corpo por um segundo.
- Sofia! - alguém gritou.
Então, vi.
Os escombros bloqueavam completamente a entrada.
Eu estava presa.
Com dezenas de feridos ao meu redor, sem saída e sem esperança.
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Rafael Castellano
Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir o som no fundo dos ouvidos enquanto corria para o hospital.
A visão que me esperava fez meu estômago revirar.
O prédio estava parcialmente destruído, e uma parte havia desabado. Bombeiros e paramédicos corriam de um lado para o outro, tentando resgatar sobreviventes.
- Minha irmã! - gritei, procurando alguém que soubesse de Sofia. - Alguém viu a Dra. Castellano?!
Um paramédico olhou para mim, ofegante.
- Ela estava lá dentro quando a recepção caiu.
Minha visão escureceu por um momento.
Ela estava presa.
Sem pensar duas vezes, peguei meu capacete e corri para os escombros.
- Rafael! - alguém segurou meu braço.
Era meu chefe.
- Não posso deixar você entrar. Está instável.
- É a minha irmã!
Ele me encarou por um longo momento antes de suspirar pesadamente.
- Então vá. Mas tome cuidado.
Não esperei outra palavra.
Peguei uma lanterna e comecei a me enfiar pelos escombros.
O cheiro de poeira e sangue impregnava o ar. Cada passo era perigoso, cada movimento podia causar um novo desabamento.
Até que ouvi.
Um gemido fraco.
- Sofia?!
Um silêncio aterrorizante.
Mas então, uma resposta.
- Rafael...
Minha garganta se apertou.
- Aguenta firme! Eu vou tirar você daí!
Comecei a mover os destroços com toda a força que tinha. Cada segundo parecia uma eternidade.
Quando finalmente consegui abrir um espaço, vi o rosto dela.
Sujo de poeira, cortado, mas vivo.
Seus olhos encontraram os meus, e por um instante, fui o irmão mais novo outra vez, apenas querendo protegê-la de tudo.
- Você demorou. - ela sussurrou, com um sorriso cansado.
Eu ri, apesar das lágrimas ardendo nos meus olhos.
- Vamos sair daqui, doutora.
Peguei sua mão e a puxei para fora.
Quando finalmente emergimos dos escombros, o mundo ao redor ainda estava em ruínas. Mas, por um momento, só o que importava era que nós dois estávamos vivos.
E juntos.
{...}