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A Guardiã do Lobo-Rei
img img A Guardiã do Lobo-Rei img Capítulo 2 Os Portões de Corvenhall
2 Capítulo
Capítulo 6 O Silêncio do Morto img
Capítulo 7 As Chaves da Ala Velada img
Capítulo 8 O Cheiro da Neve img
Capítulo 9 Catálogo Interdito img
Capítulo 10 A Primeira Advertência img
Capítulo 11 O Brasão do Lobo img
Capítulo 12 Baile de Inverno img
Capítulo 13 Uma Dança que Não Era Convite img
Capítulo 14 O Sorriso de Seraphine img
Capítulo 15 Sangue na Neve img
Capítulo 16 Sob Ordem do Rei img
Capítulo 17 Escolta em Silêncio img
Capítulo 18 Nomes Apagados img
Capítulo 19 Corredor de Velas img
Capítulo 20 O Toque que Ficou img
Capítulo 21 O Fólio Ausente img
Capítulo 22 Debaixo da Capela img
Capítulo 23 Vigília na Floresta Branca img
Capítulo 24 A Voz do Juramento img
Capítulo 25 O Nome que Foi Cortado img
Capítulo 26 Seda e Vigilância img
Capítulo 27 Lições de Etiqueta e Guerra img
Capítulo 28 Rainhas sem Coroa img
Capítulo 29 O Chamado Privado img
Capítulo 30 Perigo com Nome Próprio img
Capítulo 31 A Mulher que a Corte Preferia img
Capítulo 32 Olhos Demais à Mesa img
Capítulo 33 Dança Longa Demais img
Capítulo 34 O Beijo no Arco de Pedra img
Capítulo 35 Rumores com Dentes img
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Capítulo 2 Os Portões de Corvenhall

A carruagem subiu pela encosta oeste de Corvenhall em silêncio, como se até as rodas compreendessem que aquele não era um caminho para ser anunciado.

Lyra sentiu a mudança antes de vê-la.

As ruas de Asterwyn, ainda que cobertas de neve, tinham vida própria: o ruído baixo de portas abrindo, mercadores chamando entre dentes, ferraduras batendo em pedra, o vento levando fumaça de lareira de um telhado a outro. Ao se aproximarem do castelo, tudo isso pareceu recuar. O ar se tornou mais limpo, mais alto, mais vazio. Como se a colina real estivesse separada do resto da cidade não apenas por muralhas, mas por outra espécie de regra.

Ela afastou a cortina da janela com dois dedos.

O flanco oeste surgia entre a neve como uma sucessão de paredões escuros, torres angulosas e muralhas tão espessas que pareciam parte da própria montanha. Ali, Corvenhall não se parecia com os salões elegantes descritos nas crônicas da corte. Parecia uma fortaleza antiga demais para ter sido construída por mãos humanas e teimosa demais para ceder ao tempo.

Neve se acumulava nas gárgulas de pedra.

Correntes grossas corriam por roldanas de ferro sobre um portão secundário mais baixo, reforçado por placas negras de metal. De um lado, tochas ardiam dentro de caixas de proteção, a chama dourada se debatendo contra o azul morto do fim de tarde. Do outro, dois guardas de capa escura e lanças longas observavam a aproximação da carruagem sem curiosidade aparente.

O brasão do lobo estava em toda parte.

Nas bandeiras rígidas pelo frio.

Nos broches dos homens armados.

Nos selos pintados sobre as caixas que cruzavam o pátio interno.

Na própria ferragem do portão, onde garras estilizadas fechavam um círculo em torno da coroa.

Lyra baixou a cortina no instante em que a carruagem diminuiu mais uma vez.

Houve vozes abafadas. O som seco de uma confirmação. O arrastar de correntes.

Quando o veículo tornou a avançar, o mundo do lado de fora mudou.

O interior do castelo não era mais acolhedor do que a muralha. Apenas mais calculado.

A carruagem passou por um primeiro pátio estreito, usado evidentemente para serviços, depois por uma galeria coberta onde criados atravessavam em passos rápidos com cestos, lenha, baús menores, tecidos dobrados. Ninguém olhava diretamente para a carruagem, mas todos sabiam que ela passava. Lyra sentia isso na forma como os movimentos diminuíam por um instante, como o ruído das conversas baixava meio tom.

Ela ajustou o manto sobre os ombros.

O tecido ainda guardava o frio da rua.

A carruagem parou sob uma arcada de pedra. Desta vez, a porta se abriu imediatamente. O mesmo mensageiro da casa de guarda estendeu a mão sem realmente oferecer ajuda. Lyra aceitou apenas o espaço e desceu sozinha.

O primeiro impacto foi o cheiro.

Pedra úmida.

Cera quente.

Fumaça de lenha boa.

Ferro.

E, por baixo de tudo, um perfume antigo de inverno guardado em corredor fechado.

Acima dela, a arcada conduzia a um pátio interno mais amplo, quadrado, cercado por alas altas do castelo. Fileiras de janelas iluminadas lançavam retângulos dourados sobre a neve. Uma fonte de pedra ao centro jazia adormecida sob gelo fino. À direita, uma escadaria larga subia para uma galeria coberta. À esquerda, um corredor mais escuro conduzia para a parte interna da fortaleza.

Não era a entrada principal. Nem de longe.

Isso bastou para deixá-la ainda mais atenta.

Um homem de vestes sóbrias a esperava junto à base da escadaria. Não usava armadura, mas o castelo parecia moldado na postura dele do mesmo modo que nos guardas. Alto, magro, cabelos grisalhos penteados para trás, mãos cruzadas com perfeição diante do corpo. O tecido negro da sobrecasaca caía sem uma dobra fora do lugar. O rosto era fino demais para ser chamado de bondoso e calmo demais para ser chamado de cruel.

Quando Lyra se aproximou, ele curvou a cabeça num gesto mínimo.

- Senhora Ainsworth.

A voz era baixa, limpa, educada ao ponto de parecer calculada.

- Sim.

- Sou Alistair Vane, intendente da ala interna. Fui encarregado de recebê-la e conduzi-la ao setor reservado.

Setor reservado.

Nem uma palavra além do necessário.

Lyra retribuiu a inclinação de cabeça.

- Disseram-me que eu deveria me apresentar antes da nona hora.

- E a senhora o fez.

Ela percebeu que o homem não dizia "bem-vinda". Nem pretendia.

O mensageiro entregou a ele a caixa de instrumentos de Lyra e se afastou sem mais cerimônia, já apagado na rotina do castelo como se jamais tivesse existido. Vane tomou a dianteira e indicou com dois dedos o corredor à esquerda.

- Por aqui.

Lyra o seguiu.

O corredor interno era aquecido por braseiros presos às paredes, mas o calor não vencia a sensação de pedra fechada ao redor. Tapeçarias escuras amorteciam parte do som dos passos. Nichos altos abrigavam velas em fileiras. Entre eles, retratos antigos observavam de molduras douradas: homens de mandíbula rígida, mulheres de olhos claros e postura austera, crianças vestidas como pequenos adultos. Em muitos dos quadros, havia lobos. Bordados em mantos. Pintados ao fundo. Gravados em anéis ou descansando, quase invisíveis, junto aos pés da família retratada.

Lyra percebeu o padrão cedo demais para ser acaso.

- O castelo inteiro parece gostar do mesmo símbolo - comentou, sem olhar diretamente para o intendente.

- Valenor foi erguido sobre continuidades - respondeu Vane.

- E sobre segredos?

Ele não reduziu o passo.

- As duas coisas costumam crescer juntas.

Lyra absorveu a resposta em silêncio.

Não era uma abertura. Era um aviso elegante.

Passaram por um cruzamento onde duas criadas carregavam cestos de roupa limpa. Ambas baixaram os olhos ao ver Vane. Um homem de libré cinza, talvez algum secretário inferior, encostou-se discretamente à parede para deixá-los passar. Mais adiante, um par de guardas armados montava vigia diante de uma porta dupla de carvalho escurecido por ferragens antigas.

Vane não diminuiu diante deles. Virou à direita antes de alcançá-los, entrando numa galeria mais estreita, de teto abobadado, com janelas longas que davam para um pátio interno menor. Lá fora, a neve seguia caindo em fios oblíquos sob a luz azul do crepúsculo.

Lyra percebeu então outra coisa: aquela parte do castelo era mais silenciosa do que deveria.

Não o silêncio natural de um lugar nobre.

O silêncio de uma região onde ordens já haviam circulado.

- A morte do guardião Hale fechou esta ala inteira? - perguntou.

Vane demorou meio segundo a mais do que o natural para responder.

- O acesso foi temporariamente restringido.

- Por cautela?

- Por necessidade.

- Necessidade de proteger o quê?

Ele enfim voltou o rosto para ela.

Os olhos dele eram de um cinza tão claro que, à meia-luz, pareciam quase sem cor.

- Senhora Ainsworth, Corvenhall aprecia eficiência. A senhora foi chamada porque possui mãos cuidadosas, memória confiável e reputação de discrição. Recomendo que preserve essa reputação.

Lyra encontrou o olhar dele sem recuar.

- Discrição e ignorância não são a mesma coisa.

Uma pausa breve.

Pequena demais para ser ofensiva.

Longa demais para ser amigável.

Então Vane voltou a andar.

- Não, não são.

Havia pessoas que mentiam. Outras que se recusavam a dizer. E havia homens como aquele, que escolhiam frases capazes de significar duas coisas ao mesmo tempo. Lyra não decidira ainda qual dos três tipos era mais perigoso.

Desceram uma escadaria curta em espiral. O ar mudou de novo. Ficou mais frio, embora mais protegido do vento. O cheiro de pergaminho antigo apareceu antes mesmo que ela visse as primeiras portas arquivísticas.

Seu corpo reconheceu o ambiente antes da razão.

Biblioteca.

Ou algo suficientemente próximo dela para que as mãos de Lyra quase se lembrassem sozinhas do peso das luvas, da pressão exata ao apoiar um fólio antigo, da delicadeza necessária para afastar pó sem ferir tinta.

Só que aquilo não se parecia com o arquivo menor onde trabalhava.

As portas aqui eram altas demais.

As fechaduras, pesadas demais.

As dobradiças, reforçadas demais.

E havia guardas.

Três portas em sequência, todas com selos de cera escura ou placas de restrição pendendo de correntes finas. Entre uma e outra, nichos com velas baixas tremulavam contra paredes revestidas de pedra lisa. No fim da galeria, uma janela estreita mostrava o branco indistinto da neve batendo do lado de fora.

Vane parou diante da segunda porta.

No metal escurecido, abaixo da fechadura principal, estava gravado em letras discretas:

ARQUIVO DE NOCTIS

ACESSO INTERNO

O peito de Lyra apertou de leve.

Não por medo do trabalho.

Por reconhecimento de escala.

O arquivo menor onde passara tantos anos era uma antecâmara da memória do reino. Aquilo ali era outra coisa. O núcleo. O que sobrevivia quando o resto era reorganizado para ser visto.

Vane pousou a mão sobre a fechadura, mas não a abriu de imediato.

- Antes de entrar, há regras.

- Imagino que várias.

- Apenas as que importam hoje. A senhora não circulará desacompanhada pelas alas que eu não autorizar. Não comentará o conteúdo do arquivo com ninguém fora da lista que lhe será entregue. Não removerá material sem registro duplo. Não aceitará pedidos verbais de consulta, mesmo que venham de nomes superiores ao seu. E, acima de tudo, se encontrar algo fora do catálogo, não improvisará.

Lyra ergueu uma sobrancelha.

- "Fora do catálogo" costuma significar exatamente o tipo de coisa que não se deixa à espera.

- Ainda assim, não improvisará.

A frieza na voz dele não aumentou. Tornou-se apenas mais nítida.

- Entendido - disse ela.

- Outra questão.

Vane tirou de dentro da manga um pequeno estojo rígido e o abriu. Dentro, sobre veludo escuro, havia uma chave comprida de metal negro e um selo circular pendurado em fita estreita.

- Este selo lhe permitirá circular entre esta galeria, a sala de triagem e seus aposentos provisórios. Não em outros setores. A chave abre apenas a mesa-lacre que lhe foi destinada. Não tente usá-la em fechaduras diferentes.

Lyra fitou o objeto por um instante antes de pegá-lo.

O metal estava frio como gelo.

- A senhora parece acreditar que eu sou mais curiosa do que prudente.

- A senhora está aqui porque alguém acredita que a curiosidade dela pode ser útil, desde que enquadrada.

Não "porque a coroa confia".

Não "porque a senhora é a melhor escolha".

A sinceridade seca da frase lhe agradou mais do que teria gostado de admitir.

- E se eu decidir que não gosto de ser enquadrada?

- Então Corvenhall decidirá isso pela senhora.

Vane abriu a porta.

O ar que saiu lá de dentro era mais frio do que o corredor, mas também mais vivo. Cheirava a pó antigo, couro, madeira encerada, cera recém-trocada e algo metálico enterrado sob tudo isso - não exatamente sangue, mas perto o suficiente para que a lembrança dele viesse sem convite.

A primeira sala era de triagem.

Longa, alta e severa.

Mesas de carvalho ocupavam o centro, cada uma com pesos de latão, suportes de leitura, panos, vidros de óleo fino e pequenas placas numeradas. Estantes fechadas por grades de ferro subiam ao redor. Escadas móveis corriam sobre trilhos estreitos presos às prateleiras superiores. Candelabros de braço múltiplo lançavam luz dourada sobre o ambiente, mas não conseguiam aquecer a pedra do piso nem o teto abobadado, onde sombras escuras se encontravam acima.

Num canto, duas caixas de documentos estavam abertas, cada uma marcada com fita preta.

Em outro, uma mesa isolada guardava o que claramente fora interrompido às pressas: penas largadas, areia secante derramada, um pano dobrado ao meio, um registro aberto.

Lyra não precisou perguntar de quem era.

A sensação que tivera no anexo voltou com mais força. Não vazio. Não calmo.

Errado.

Ela deu um passo lento para dentro.

Os olhos percorreram a mesa interrompida, a posição dos objetos, a cadeira levemente afastada, o tinteiro tampado de qualquer maneira. Hale era meticuloso demais para deixar uma estação assim. Mesmo morto, o traço da pressa parecia quase ofensivo nele.

- Ninguém tocou aqui? - perguntou.

- Apenas o necessário para lacrar a área.

- O necessário segundo quem?

- Segundo quem manda.

Lyra aproximou-se mais.

Havia um risco na madeira ao lado do registro. Um sulco pequeno, recente, como se algum objeto de metal tivesse raspado ali ao cair ou ser retirado com brusquidão. O pano dobrado tinha uma mancha escurecida perto de uma das pontas. Tinta, talvez. Talvez não.

Ela conteve a vontade de tocar.

- Onde foi a queda?

- Na escadaria da ala superior.

- Dentro do arquivo?

- Sim.

- Então por que a sala de triagem parece ter sido abandonada no meio de uma tarefa?

Vane observou-a por um momento.

- Porque foi.

Lyra virou-se.

- Isso é resposta ou teste?

- Ambas as coisas costumam servir.

Antes que pudesse pressioná-lo mais, outra porta se abriu ao fundo da sala, desta vez sem aviso. Um homem de vestes clericais escuras entrou trazendo um maço de folhas, viu Lyra, hesitou, e baixou os olhos num reflexo rápido demais para ser casual. Entregou o material a Vane sem uma única palavra e saiu quase no mesmo fôlego em que chegara.

Lyra acompanhou o movimento.

- Até os monges do registro interno parecem nervosos.

- Padre Coris não gosta de mudanças.

- Nem de testemunhas?

- Nem de perguntas.

Vane depositou as folhas sobre uma mesa lateral e então puxou, dentre elas, um documento menor.

- Sua lista de acesso. Seus horários provisórios. Refeições serão enviadas aos aposentos ou à sala de trabalho, conforme a senhora preferir. A ala norte permanece fechada. A ala superior só será aberta na minha presença ou por ordem direta da coroa.

- A ala superior é onde Hale caiu.

- É.

- E onde eu provavelmente acabarei trabalhando.

- Eventualmente.

Lyra passou os dedos pelo próprio punho enluvado.

- Há mais alguém no inventário?

- Não neste momento.

- Isso não faz sentido.

- Faz dentro do sentido que importa.

Ela soltou o ar pelo nariz, quase sem som.

- O castelo gosta muito dessa frase, ao que parece.

Pela primeira vez, algo próximo de expressão tocou o rosto de Vane. Não humor. Não exatamente. Apenas uma variação mínima na linha da boca.

- O castelo gosta pouco de quase tudo, senhora Ainsworth.

Antes que Lyra pudesse responder, um ruído correu pelo corredor externo.

Não alto.

Não caótico.

Mas imediato o bastante para alterar o ar da sala.

Passos.

Mais de um par. Firmes. Sincronizados. Não apressados, embora ninguém naquele castelo fosse tolo o bastante para obrigá-los a esperar.

Vane ficou imóvel.

A mão dele, que segurava a lista de acesso, baixou meio palmo. Não em susto. Em cálculo.

Lyra virou o rosto na direção da porta aberta, instintivamente.

Os passos se aproximaram, acompanhados por um silêncio diferente do resto do castelo - o tipo de silêncio que não vem da ausência de voz, mas da presença de autoridade.

Uma sombra passou pelo corredor além da moldura da porta.

Alta.

Larga nos ombros.

Preta contra a luz do corredor.

Lyra sentiu a mudança no próprio corpo antes de saber por quê. Não medo. Não ainda. Mas uma tensão súbita, limpa, como se o ar tivesse se tornado fino demais.

Os passos pararam.

Vane curvou a cabeça de imediato, apenas o suficiente para reconhecer hierarquia.

Lyra não teve tempo de decidir o que fazer.

A voz veio do corredor.

Baixa. Grave. Controlada demais para ser confundida com gentileza.

- Ela chegou.

Não foi pergunta.

Vane respondeu com a mesma precisão com que um homem fecha um cofre.

- Sim, Majestade.

O sangue de Lyra pareceu desacelerar por um instante.

Ela não viu o rosto dele.

Não ainda.

Apenas a linha escura da figura além da porta, metade oculta pela pedra, imóvel como se o castelo inteiro tivesse sido feito para sustentar aquele silêncio.

Então a voz tornou a vir, ainda sem elevar um tom sequer.

- Deixe a senhora Ainsworth trabalhar.

Uma pausa.

- E não a perca de vista.

Os passos recomeçaram.

A sombra se moveu.

Desapareceu.

Só então Lyra percebeu que havia prendido a respiração.

Vane demorou um segundo antes de erguer a cabeça outra vez. Quando o fez, o castelo parecia exatamente o mesmo. A luz das velas, idêntica. O frio, idêntico. A mesa interrompida de Hale, idêntica.

E, ainda assim, tudo havia mudado.

Lyra falou primeiro.

- Então é assim.

- Assim como?

Ela olhou para a porta vazia.

- Antes mesmo de tocar num único livro, eu já pertenço à lista das coisas que o rei mandou vigiar.

Vane ajeitou as folhas na mesa, devolvendo ao gesto uma neutralidade que, àquela altura, soava quase insolente.

- Em Corvenhall, senhora Ainsworth, há listas mais perigosas que essa.

Lyra fitou a sala de triagem mais uma vez.

As estantes gradeadas.

A mesa interrompida.

Os selos pretos.

A poeira que não combinava com a pressa.

O nome do rei pairando sobre o arquivo antes mesmo de ele se mostrar inteiro.

Ela pousou a caixa de instrumentos na mesa vazia que lhe havia sido destinada.

Abriu o fecho de metal devagar.

- Ótimo - disse, sem desviar os olhos do trabalho à frente. - Então vamos descobrir em qual delas colocaram meu nome.

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