Valeria encostou a testa no vidro frio. Viu passar seu restaurante favorito, a boutique onde comprava seus sapatos, o parque onde costumava correr de manhã. Tudo parecia estar a anos-luz de distância, como se estivesse assistindo a um filme de uma vida que já não lhe pertencia.
- Chegamos, senhorita - anunciou Boris, parando o carro em frente a um edifício residencial ultraexclusivo na área mais alta da cidade.
Não houve porteiro para cumprimentá-la com um sorriso, como na mansão de seu pai. Boris a escoltou até um elevador privativo que exigia um scanner de retina para abrir.
- O senhor Volkov tem acesso exclusivo à cobertura - disse o homem, digitando um código de segurança. - Ninguém sobe sem a permissão dele. Ninguém desce sem a permissão dele.
A mensagem era clara: Você é uma prisioneira.
Quando as portas do elevador se abriram diretamente no apartamento, Valeria prendeu a respiração. Se o escritório de Dante era intimidador, sua casa era um mausoléu de gelo e solidão.
O lugar era imenso. Teto com pé-direito duplo, paredes de concreto polido e grandes janelas do chão ao teto que mostravam a cidade inteira brilhando a seus pés como um mar de joias. Mas não havia calor. Não havia fotos de família, nem tapetes persas, nem a bagunça aconchegante de um lar habitado. Tudo era cinza, preto e branco. Móveis de design italiano tão afiados que pareciam capazes de cortar se você se sentasse de mau jeito.
- Bem-vinda, senhorita De la Vega.
Valeria deu um sobressalto. Uma mulher mais velha, vestida com um uniforme preto impecável e o cabelo grisalho preso em um coque apertado, havia surgido do nada.
- Sou Greta, a governanta - disse a mulher com um tom que não admitia réplicas nem simpatias. - O senhor Volkov me informou da sua chegada. Suas coisas já foram... processadas.
- Processadas? - repetiu Valeria, sentindo um nó no estômago. - Onde está a minha bagagem? Meu pai deve ter enviado minhas malas...
- Siga-me - disse Greta, virando-se sem esperar resposta.
Valeria a seguiu por um corredor longo e escuro, decorado apenas com obras de arte abstrata que pareciam manchas de violência sobre telas brancas.
- Este será o seu quarto - anunciou Greta, abrindo uma porta no final do corredor.
Valeria entrou, esperando encontrar um quarto de hóspedes padrão. O que encontrou foi um quarto que parecia uma cela de luxo.
Era espaçoso, sim, com uma cama king size de lençóis cinza e móveis minimalistas. Mas não havia televisão. Não havia prateleiras. Apenas uma cama, uma mesa de cabeceira vazia e um enorme closet com as portas abertas.
Valeria correu para o armário, procurando algo familiar. Procurando seus suéteres de caxemira, seus jeans confortáveis, seus vestidos floridos.
Estava vazio de memórias.
Em vez disso, penduradas em fileiras perfeitas e separadas por cor, havia roupas que ela jamais teria escolhido. Vestidos de seda justos ao corpo em cores escuras: vinho, preto, azul-marinho. Saias lápis com fendas perigosas. Saltos agulha que pareciam armas. Lingerie de renda fina exposta em gavetas de vidro como se fosse mercadoria em uma loja.
- Onde estão as minhas roupas? - perguntou Valeria, virando-se para Greta com a voz trêmula de raiva. - Meus livros. Meu porta-joias. As fotos da minha mãe.
Greta manteve as mãos cruzadas na frente do avental, imperturbável.
- O senhor Volkov deu instruções precisas. Tudo o que vinha da sua vida anterior foi doado ou descartado. Ele insistiu que "a nova Valeria" não precisa de fardos do passado.
- Ele não tem o direito! - gritou Valeria, sentindo as lágrimas queimarem seus olhos. - São as minhas coisas! São as minhas lembranças!
- Ele tem todo o direito, senhorita - respondeu Greta com frieza. - Você assinou o contrato. Agora, sugiro que tome um banho e se troque. O senhor Volkov chegará em uma hora para jantar. E ele gosta de pontualidade.
A governanta saiu e fechou a porta com um clique suave, porém definitivo.
Valeria ficou sozinha no silêncio daquele quarto estranho. Correu até a janela, procurando uma saída, mas estava selada. Estava no quinquagésimo andar. A única saída era o elevador codificado ou a queda livre.
Ela se deixou cair na cama, que cheirava a detergente caro e nada mais. Pegou um dos vestidos pendurados no armário. Era um vestido de veludo preto, lindo, mas cruel, desenhado para exibi-la.
Dante não apenas a havia comprado. Ele a estava apagando. Estava desmantelando Valeria de la Vega peça por peça para reconstruí-la à sua imagem e semelhança.
Ela olhou para as próprias mãos. Ainda usava seu terninho branco, agora amassado e sujo da viagem.
- Você quer uma boneca, Dante? - sussurrou para o quarto vazio, enxugando as lágrimas com raiva. - Tudo bem. Serei a boneca mais cara que você já teve. Mas tenha cuidado, porque bonecas de porcelana, quando quebram, cortam.
Ela se levantou e caminhou em direção ao banheiro de mármore.
A guerra havia começado. E ela estava presa no território inimigo.