Dorian permaneceu em silêncio ao seu lado durante toda a viagem. Ele não a olhou, não tentou confortá-la - nem mesmo com uma mentira piedosa. Ele estava mergulhado em seu tablet, lendo relatórios de mercado com a mesma indiferença com que se lê o menu de um café da manhã. Para ele, Isadora não era uma noiva; era um ativo. Um troféu de guerra que ele acabara de conquistar.
Quando a porta do veículo se abriu, o ar da noite cortou o rosto de Isadora como uma lâmina. Victor Volkov, o homem que ela vira brevemente no hotel, já estava lá, imóvel como uma estátua de granito. Ele não fez uma reverência, apenas assentiu para Dorian e seus olhos cinzentos fixaram-se em Isadora por um segundo - um olhar impenetrável que a fez sentir-se, pela primeira vez, como se estivesse sendo escaneada.
- Bem-vinda ao lar, Isadora - Dorian disse, saindo do carro e estendendo a mão para ela. Não era um convite; era uma ordem.
Ela aceitou a mão dele, sentindo o calor da pele contra o frio da sua. Enquanto subiam os degraus de mármore, o peso do que havia acontecido nas últimas horas parecia cada vez mais real. O escândalo no Pierre, o abandono de Julian, a queda de seu pai. Ela era uma morta-viva andando em um mundo de titãs.
Ao entrarem no hall principal, o luxo era tão opressor que causava náusea. O teto de vidro revelava o céu noturno, e uma escadaria em caracol ocupava o centro da sala. No topo dela, uma mulher esperava. Julianna Cavendish. Ela não parecia ter envelhecido um único dia em vinte anos; seu porte era rígido, seus olhos, idênticos aos de Dorian, carregavam uma crueldade que não precisava de palavras para ser sentida.
- Você trouxe lixo para dentro da minha casa, Dorian? - A voz de Julianna ecoou pelo salão, clara e afiada como cristal quebrado. Ela desceu os degraus lentamente, ignorando Isadora como se ela fosse um móvel mal posicionado.
Dorian não hesitou. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre Isadora e sua mãe, uma proteção que, no fundo, Isadora sabia que era apenas a proteção de um dono sobre a sua propriedade.
- Ela é a minha escolha, mãe. E, a partir de hoje, ela é o que define o futuro dos nossos ativos. Sugiro que você se acostume com a presença dela antes que eu decida que a sua opinião não é mais necessária nesta casa.
Julianna soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ela parou diante de Isadora, analisando-a com um desdém que queimava.
- Ela é fraca. O cheiro de derrota da família Vance ainda está impregnado nela. Você está brincando com fogo, Dorian. Se você acha que essa garota vai ajudá-lo a lidar com o Marcus, você é mais tolo do que eu pensava.
Marcus. O nome pairou no ar, trazendo consigo uma tensão palpável. Isadora não sabia quem era Marcus, mas a forma como Dorian endureceu a mandíbula foi uma resposta suficiente.
- Victor - Dorian chamou sem desviar os olhos da mãe. - Leve Isadora para o quarto. Garanta que ela tenha tudo o que precisa. E certifique-se de que ninguém entre sem a minha autorização direta.
Victor aproximou-se, mantendo uma distância profissional, mas eficiente.
- Siga-me, Srta. Vance.
Isadora olhou para Dorian uma última vez. Ele estava preso em uma troca de olhares frios com a mãe, uma guerra silenciosa que ela mal conseguia compreender. Ela se virou e seguiu o segurança. Enquanto subiam, ela sentiu, pela primeira vez, que a mansão não era apenas um prédio. Era um labirinto, e ela acabara de entrar no centro dele.
Enquanto isso, a quilômetros de distância, em um apartamento modesto nos arredores de Manhattan, Sebastian Vance observava o noticiário com uma garrafa de uísque pela metade na mão. Ele jogou o controle remoto contra a parede, vendo o rosto de sua irmã estampar as telas.
- Maldito Cavendish - ele sibilou, os olhos injetados de raiva.
Ele não se importava com a ruína do pai; Arthur Vance sempre fora um homem que merecia o que lhe acontecera. Mas Isadora... Isadora era a única coisa que ele ainda respeitava. E ela estava nas garras de um homem que não tinha piedade.
O celular sobre a mesa vibrou. Era uma mensagem de um número bloqueado: "Ela está na mansão de Connecticut. O jogo começou, Sebastian. Se você quer tirá-la de lá, vai precisar de mais do que coragem. Você vai precisar de um aliado que odeia o Dorian tanto quanto você."
Sebastian releu a mensagem, um sorriso torto e perigoso surgindo em seus lábios. Ele sabia exatamente quem havia enviado aquilo. Julian Thorne. O noivo desprezado.
- O inimigo do meu inimigo - ele murmurou, levantando-se.
Ele foi até o armário, afastando algumas camisas velhas para revelar um cofre escondido na parede. Digitou a senha e retirou um envelope pardo contendo documentos que poderiam destruir não apenas Dorian Cavendish, mas toda a dinastia de sua família.
Ele sabia que seria uma missão suicida. Sabia que se fosse pego por Victor , não sairia vivo. Mas ele tinha uma carta na manga, algo que ninguém, nem mesmo o onipotente Dorian, sabia que existia. Ele iria para Connecticut. Ele iria buscar a irmã.
De volta à mansão, Isadora estava sentada à beira da cama em um quarto que parecia mais uma suíte de um hotel cinco estrelas do que um quarto de dormir. O luxo não a confortava; o silêncio era ensurdecedor. Ela sentia-se vigiada por cada canto, por cada câmera escondida nos sensores de movimento.
A porta abriu suavemente e Clary Miller entrou. A melhor amiga de Isadora tinha sido autorizada a vir, provavelmente como uma concessão de Dorian para manter a calma de sua nova "aquisição".
- Isa! - Clary correu para ela, abraçando-a com força.
Isadora sentiu as lágrimas que ela vinha segurando desde a manhã finalmente transbordarem.
- Clary... eu perdi tudo. Eu sou uma prisioneira aqui.
Clary soltou-a e olhou ao redor, os olhos brilhando com uma mistura de medo e determinação.
- Eu vi o que aconteceu lá fora, Isa. Eu vi a cobertura da imprensa. Mas você não está sozinha. Sebastian me mandou uma mensagem antes de eu vir. Ele está tramando alguma coisa.
- Ele não pode! - Isadora exclamou, sentindo o medo pelo irmão. - Dorian vai destruí-lo se ele tentar qualquer coisa.
- Sebastian não é o mesmo garoto mimado de antes - Clary disse, baixando a voz. - Ele mudou. E eu... eu vou ajudar. Eu consegui entrar, não consegui? Dorian acha que somos apenas garotas assustadas. Ele subestima a gente.
Isadora olhou para a amiga. Clary sempre fora a mais ousada das duas.
- E Victor? - Isadora perguntou, lembrando-se do homem que a trouxe até ali.
- O guarda-costas? - Clary soltou uma risada nervosa. - Ele é assustador. Mas até as máquinas mais perfeitas têm falhas, Isa. Eu vou descobrir a dele.
Naquele momento, Isadora percebeu que a vida dela não seria apenas a submissão que Dorian esperava. Com Sebastian tramando nas sombras e Clary ao seu lado, ela percebeu que, talvez, a "queda da herdeira" fosse apenas o primeiro paço de uma guerra que ela estava começando a aprender a lutar.
A porta do quarto abriu-se novamente. Victor estava lá. O rosto dele era uma máscara impassível.
- Srta. Miller - ele disse, a voz profunda e sem emoção. - O tempo de visita terminou. Sr. Cavendish a espera lá embaixo.
Clary deu um último aperto de mão em Isadora, um sinal silencioso de que elas tinham um pacto. Enquanto ela saía do quarto, Isadora viu Victor observar o movimento da garota com uma intensidade que, por um milésimo de segundo, não pareceu fria. Pareceu... curiosidade.
Isadora estava sozinha novamente. Ela se levantou e caminhou até a janela, olhando para a vasta floresta lá fora. Ela era uma herdeira em um palácio de sombras, mas enquanto olhava para o horizonte escuro, ela percebeu que Dorian Cavendish cometera um erro fatal: ele a trouxera para dentro de seu castelo, sem perceber que, às vezes, o maior perigo para um rei não é o exército lá fora, mas a rainha que ele tranca no quarto.