Isadora sentiu o estômago dar um nó. O simples pensamento de enfrentar Arthur e Elena Vance fazia suas mãos suarem.
Ao cruzarem as portas douradas, o salão caiu em um silêncio seletivo. Centenas de olhares, cada um mais afiado que uma navalha, perfuravam a pele de Isadora. Ela viu, a poucos metros, um grupo de elite reunido em torno de uma taça de cristal: Arthur , com os ombros curvados sob o peso da desonra, e Elena , cujas joias brilhavam tanto quanto o seu desdém.
Elena, ao ver a filha, não correu para abraçá-la. Ela deu um passo à frente, com a elegância predatória de uma pantera, e avaliou o vestido de Isadora - uma peça de alta costura que Dorian encomendara especificamente para aquela noite.
- Você parece... domesticada, Isadora - Elena disse, a voz destilando veneno. Ela ignorou Dorian completamente, focando apenas no olhar vitrificado da filha. - É fascinante ver a rapidez com que a linhagem Vance se curva diante do primeiro homem que oferece um teto e uma refeição.
Arthur deu um passo incerto. Seus olhos estavam injetados, o brilho da ambição substituído pelo medo do álcool e da ruína.
- Isadora... querida - ele começou, a voz trêmula. - Dorian, nós precisamos conversar sobre os ativos...
- Não há nada para conversar, Arthur - Dorian interrompeu, sua voz fria como o inverno lá fora. - Você não é mais um jogador nesta mesa. Você é apenas um convidado por cortesia da minha noiva. Agradeça por eu não ter deixado que vocês morassem debaixo da ponte.
Elena lançou um olhar assassino para Dorian, mas seu foco voltou a Isadora.
- Ele a controla, não é? Como uma boneca. Espero que você saiba que, no momento em que ele cansar de você, não restará nada além de cinzas.
Isadora sentiu a pressão da mão de Dorian na base de sua espinha. Ele a estava empurrando para o fogo.
- Ela sabe exatamente qual é o seu papel, Elena - Dorian afirmou. - Diferente de você, que nunca soube quando parar de apostar o que não tinha.
Antes que Isadora pudesse intervir, uma nova figura surgiu entre os convidados, partindo a tensão com uma risada alta e estridente. Era Marcus Cavendish. Ele era tudo o que Dorian não era: expansivo, caótico e perigosamente imprevisível. Ele vestia um smoking de veludo vinho, um desvio de estilo que parecia um insulto ao conservadorismo de seu irmão mais velho.
- Irmão! - Marcus exclamou, dando um tapa nas costas de Dorian com uma força exagerada. Ele então se virou para Isadora, seus olhos escuros varrendo-a de cima a baixo com uma lascívia que fez Isadora recuar um passo. - Então esta é a famosa "herdeira caída". Ela é muito mais bonita na vida real do que nos jornais de escândalo, Dorian.
Dorian permaneceu imóvel, mas seus olhos endureceram.
- Marcus. O que você está fazendo aqui? Achei que tivesse deixado claro que sua presença não era solicitada nesta noite.
- Ah, mas a mamãe me convidou - Marcus piscou, lançando um olhar sugestivo para Julianna Cavendish, que observava a cena do outro lado do salão com uma expressão de desaprovação gélida. - E eu não perderia a chance de ver como você está se saindo no papel de salvador. Ouvi dizer que você está tendo problemas com os ativos em Hong Kong. Talvez eu pudesse ajudar?
- Ajude a si mesmo a se manter longe dos meus negócios, Marcus - Dorian respondeu, a voz perigosamente baixa.
Marcus riu novamente e virou-se para Isadora, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido:
- Se ele se tornar muito chato, boneca, me procure. Eu gosto de herdeiras que têm muito a perder. É muito mais divertido quando elas param de fingir que são virtuosas.
Ele se afastou com uma graça debochada, deixando um rastro de insegurança no ar. Isadora sentiu o coração acelerar. Ela percebeu, pela primeira vez, a fragilidade real de Dorian. Ele tinha inimigos internos. Ele tinha uma mãe que o desprezava e um irmão que ansiava pelo seu trono.
- Ele é perigoso - Isadora sussurrou para Dorian, assim que Marcus se afastou.
- Ele é um tolo - Dorian corrigiu, embora a tensão em seus dedos, que apertavam discretamente a cintura de Isadora, revelasse a verdade. - E você, Isadora, precisa aprender que, nesta sala, não se confia em ninguém. Especialmente naqueles que compartilham o meu sangue.
Isadora olhou para a mãe, que a observava com um misto de decepção e ódio, e para o pai, que parecia um homem quebrado em busca de uma saída. Ela olhou para Marcus, que trocava risadas com investidores, e para Dorian, que a segurava como se ela fosse a única coisa real em um mundo de fantasmas.
Ela não era mais a herdeira da família Vance. Ela não era mais a noiva de um político. Naquela noite, sob as luzes de cristal, ela compreendeu que o seu verdadeiro treinamento começara. Para derrubar o homem que a aprisionara, ela primeiro precisaria entender como sobreviviam os Cavendish.
Ela ergueu o queixo, encontrou o olhar de Dorian e, pela primeira vez, não desviou.
- Eu não confio em ninguém, Dorian - ela declarou. - E isso inclui você.
Um brilho de algo novo, talvez um respeito relutante, passou pelos olhos de Dorian antes que ele voltasse a ser a máscara de pedra.
- Bom - ele respondeu. - Isso significa que você está começando a aprender.
Enquanto isso, escondido atrás de uma coluna de mármore, Sebastian observava tudo através da lente de uma câmera profissional. Ele não estava ali para tirar fotos de gala. Ele estava ali para capturar o momento exato em que a sua irmã, sua única família, começava a se transformar em algo que ele não reconhecia.
Ele viu Victor se aproximar de Clary, que circulava pelo salão com uma bandeja de taças, disfarçada entre os garçons. O olhar de Victor não estava no salão; estava em Clary. E Sebastian percebeu que, naquela noite, entre as alianças de sangue e dinheiro, havia um jogo muito mais perigoso sendo jogado nas sombras.