Dorian a levara de volta em silêncio. A tensão entre os dois era um animal vivo, confinado no banco de trás da limousine, rugindo sem que uma única palavra fosse dita. Ao chegarem à mansão, ele a deixou no hall, indicando com um aceno que ela deveria subir para o quarto, enquanto ele se trancava no escritório com Victor para discutir os "ajustes" financeiros que Marcus sugerira.
Isadora subiu a escadaria em caracol, mas, ao passar pelo corredor de serviço que levava à ala leste, ouviu um ruído metálico. Um rangido. Ela parou, o coração martelando contra as costelas.
- Victor? - ela chamou, esperando ver a silhueta alta do segurança.
Mas o que viu foi uma sombra se movendo contra a luz da lua que filtrava pelas janelas altas. Era alguém mais magro, mais nervoso. Quando a figura se virou, o fôlego de Isadora foi sugado de seus pulmões.
- Sebastian?
O irmão dela estava ali, vestindo o uniforme de um dos técnicos de manutenção que faziam a revisão do sistema de segurança da mansão. O boné cobria parte de seu rosto, mas o desespero em seus olhos era inconfundível.
- Shhh! - ele sibilou, puxando-a para um nicho atrás de uma estátua de mármore. - Você está louca? Se o Dorian ou aquele cão de guarda dele te virem aqui, você nunca mais sai deste corredor.
- O que você está fazendo aqui? Como você entrou? - Isadora sussurrou, tremendo. Ela não sabia se o abraçava ou se o batia pela imprudência.
- Eu não podia ficar sentado em Nova York esperando você ser devorada - Sebastian respondeu, agarrando os ombros dela. - Eu fiz um acordo com o Julian Thorne. Nós temos provas, Isadora. Documentos que o pai escondeu sobre as contas offshore que o Dorian usa para lavar o dinheiro dos Cavendish. Se lançarmos isso agora, ele perde o poder. Ele cai.
- Você está brincando com fogo, Seb! - ela olhou para a porta do escritório de Dorian lá embaixo, sentindo o terror de ser descoberta. - Você não conhece esse homem. Ele não é apenas rico; ele é absoluto. Se você tentar algo, ele não vai apenas te destruir, ele vai te fazer desaparecer.
- Ele já está nos destruindo! - Sebastian retrucou, com a voz embargada. - Olhe para você. Você parece um fantasma. Eu não vim aqui para conversar sobre segurança, Isa. Eu vim te tirar daqui.
Antes que ela pudesse responder, o som de botas pesadas ecoou pelo mármore do andar de baixo. Victor estava subindo.
- Ele está vindo - Isadora sussurrou, sentindo o pânico tomar conta. - Sebastian, vai embora! Por favor!
- Eu não vou sem você.
- Você tem que ir! Se ele te pegar, eu não poderei fazer nada. Volte para o Julian, diga a ele que eu estou bem... por enquanto. Eu preciso descobrir como derrubá-lo por dentro. Se você fizer algo agora, ele vai desconfiar de mim.
O som dos passos de Victor estava no meio da escada. Sebastian hesitou, o conflito estampado em seu rosto, mas a realidade da situação o atingiu. Ele pressionou um pequeno dispositivo na mão de Isadora - um rastreador de sinal que parecia um botão de abotoadura.
- Se precisar de ajuda, acione isso. Eu e Julian estaremos monitorando o perímetro. Fique segura, Isa.
Ele desapareceu pela fresta de uma porta de serviço segundos antes de Victor dobrar o corredor.
Victor parou, seus olhos cinzentos percorrendo o corredor com a precisão de um scanner. Ele olhou para o lugar onde Sebastian estivera segundos antes, depois para Isadora. Ela estava com o rosto pálido, tentando controlar a respiração descompassada.
- Você está bem, Srta. Vance? - a voz de Victor não tinha tom.
- Estou apenas... cansada. O evento foi desgastante - ela respondeu, tentando manter a voz firme.
Victor deu um passo à frente. Ele chegou tão perto que ela podia sentir o cheiro de óleo de arma e frio que emanava dele. Ele olhou para a estátua atrás dela, depois para o chão, onde uma pequena marca de bota, quase invisível no mármore polido, denunciava a presença recente de alguém.
Ele olhou para Isadora. Por um momento, ela teve certeza de que ele a entregaria. Ela viu algo em seu olhar - uma suspeita gelada. Mas então, Victor deu um passo para trás e inclinou a cabeça.
- O Sr. Cavendish solicitou que você tome um chá de camomila antes de dormir. Eu mesmo trarei. Boa noite, Srta. Vance.
Ele se afastou, deixando-a paralisada. Ele sabia. Ela teve certeza disso. Ele sabia que Sebastian estivera ali, e por algum motivo, ele a protegeu. Ou melhor, ele decidiu manter o segredo para seu próprio uso futuro.
Lá embaixo, no escritório, Dorian encarava Marcus, que bebia seu uísque como se estivesse em um bar de beira de estrada.
- Você é um lixo, Marcus. Mas você ainda carrega o nome da família - Dorian disse, sem tirar os olhos de um documento no monitor. - Por que você veio aqui hoje com a mamãe?
- Adoro ver você sob pressão, irmãozinho - Marcus sorriu, os dentes brancos contrastando com o terno escuro. - A herdeira Vance não é tão submissa quanto você pensou, é? Eu vi o jeito que ela te olhou hoje. Ela não está apaixonada. Ela está estudando você. E, honestamente? Eu adoraria ver você falhar.
- Eu nunca falho.
- Todos falham. E quando você cair, eu estarei lá para herdar a cadeira. E quem sabe... talvez eu herde a esposa também.
Dorian levantou-se. O movimento foi tão rápido que Marcus não teve tempo de reagir. Em um segundo, Dorian estava atrás da mesa; no próximo, ele tinha o colarinho de Marcus preso em seu punho, empurrando-o contra a parede de vidro.
- Tente encostar nela, Marcus - Dorian sibilou, a voz baixa, carregada de uma ameaça primitiva. - Tente tocar em qualquer coisa que seja minha, e eu vou garantir que você passe o resto da sua vida em um buraco onde nem o nome Cavendish vai te salvar.
Marcus, embora visivelmente tenso, deu um sorriso desafiador.
- Você está perdendo o controle, Dorian. Por causa de uma mulher. Isso é patético.
Dorian soltou-o e ajustou as abotoaduras.
- Eu não estou perdendo o controle. Eu estou me divertindo. E você está prestes a descobrir que o seu jogo não é nada comparado ao que eu tenho planejado para você.
Dorian virou-se, deixando o irmão sozinho na sala, e subiu as escadas em direção ao quarto de Isadora. Ele precisava vê-la. Precisava garantir que aquela estranha nova faísca de desafio que ele vira nela durante o baile não fosse, na verdade, um incêndio que ele ainda não sabia como apagar.
Ele entrou no quarto sem bater. Isadora estava na cama, os olhos fixos no teto. Ela não se moveu quando ele entrou, mas ele sentiu a tensão no corpo dela. Dorian aproximou-se e sentou-se na borda da cama, sua presença pesada e dominante.
- O que você está escondendo, Isadora? - ele perguntou, sua mão subindo para tocar o rosto dela, mas parando centímetros antes. - Eu sinto um cheiro de segredo no ar.
- Talvez - ela respondeu, olhando-o nos olhos - seja apenas o seu medo de que eu não seja a boneca que você comprou.
Dorian sorriu, mas não chegou aos olhos.
- Eu nunca comprei uma boneca, Isadora. Eu comprei um desafio. E eu adoro desafios. Mas saiba de uma coisa: se eu descobrir que você está jogando atrás das minhas costas... eu não vou te destruir. Eu vou destruir todos que você ama, um por um, até que a única pessoa que sobrar na sua vida seja eu.
Ele se levantou e saiu, fechando a porta com uma leveza que foi mais aterrorizante do que uma batida violenta. Isadora levou a mão ao pescoço, onde Sebastian a beijara antes de partir. Ela sabia que Dorian não estava blefando. O jogo estava apenas começando.