Ele entrou com a precisão de um predador que marca seu território. Vestia um terno impecável, o colete ajustado ao corpo, a gravata perfeitamente nódulo. Ele trazia consigo o cheiro de café amargo e o ar gélido da madrugada.
- O café está servido na sala de estar privada - ele disse, a voz desprovida de qualquer calor humano. - Você tem trinta minutos para se vestir.
- E se eu não quiser? - Isadora desafiou, levantando-se. A coragem era um espasmo, mas ela precisava testar as correntes.
Dorian atravessou o quarto em três passos largos. Ele não a tocou, mas a sua presença era tão física quanto uma parede de concreto. Ele inclinou-se, o olhar fixo no dela com uma intensidade que fazia o ar parecer denso.
- Você não está em posição de querer nada, Isadora - ele respondeu, a voz perigosamente baixa. - Seus pais assinaram a transferência da dívida. Você é legalmente, contratualmente e praticamente minha responsabilidade. O "não" é uma palavra que você vai esquecer de usar dentro desta casa.
Ele virou-se para sair, mas parou na porta.
- Ah, e vista algo discreto. Hoje você vai acompanhar uma reunião importante. Quero que todos vejam que a herdeira que caiu está sendo bem cuidada... pelo homem certo.
Isadora sentiu o estômago revirar. Ele não a queria como esposa; ele a queria como troféu. Como uma forma de humilhar a elite que a descartara e, ao mesmo tempo, exibir o seu novo brinquedo.
Enquanto ela se vestia, seus pensamentos divagavam. Onde estava Clary? O que Sebastian estaria fazendo naquele exato momento? Ela precisava de um plano, de uma brecha. Ela não era apenas uma Vance; ela era uma mulher que tinha sido criada para liderar, para negociar, para entender a política por trás das cortinas de veludo. Ela não seria submissa para sempre.
A reunião de negócios ocorreu em um escritório que mais parecia o centro de comando de uma empresa de defesa. Mesa de mogno, telas de alta definição mostrando flutuações de ações em tempo real e homens em ternos caros que falavam em números e mortes corporativas.
Isadora sentava-se ao lado de Dorian, as mãos dobradas no colo. Ela era o objeto de análise. Ela via os olhares que os sócios de Dorian lançavam em sua direção - desejo misturado com desprezo. Eles a viam como a mulher que perdera tudo, a herdeira caída.
- O contrato está pronto - disse um dos investidores, um homem chamado Elias Thorne, primo distante de Julian. Ele olhou para Isadora com um sorriso lascivo. - É uma excelente oportunidade, Cavendish. Mas, me diga, o que você pretende fazer com a sua esposa quando a utilidade dela... expirar?
Dorian, que estava assinando papéis, parou a caneta. O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. Ele não olhou para Elias; ele olhou para Isadora. Seus olhos eram dois buracos negros de possessividade.
- A utilidade de Isadora é algo que só eu tenho o direito de medir - Dorian respondeu, a voz gelada. - Se você estiver preocupado com o futuro dela, talvez deva se preocupar mais com o seu próprio. Seus fundos de investimento estão sob auditoria interna, Elias. Eu sugiro que você se concentre na sua própria falência.
O investidor empalideceu. Ele não sabia que Dorian tinha acesso a essas informações. Isadora sentiu um calafrio. Ela percebeu que Dorian não a estava "protegendo" do insulto; ele estava mostrando aos seus rivais que ele era o dono da verdade, do dinheiro e da vida de todos ali.
Após a reunião, enquanto caminhavam pelos corredores de vidro, Isadora finalmente falou:
- Você está usando a minha humilhação para chantageá-los.
- Estou usando a sua presença para estabelecer limites - ele respondeu, parando em frente a uma enorme parede de vidro que dava vista para o skyline de Connecticut. - Eles precisam entender que o que é meu, é intocável. Até mesmo as coisas que não me amam.
Isadora engoliu em seco. A honestidade dele era pior do que a crueldade.
Em um hangar isolado nos arredores, Sebastian encontrava-se com Julian . O ambiente era frio e cheirava a combustível de aviação.
- Você tem os documentos? - Julian perguntou, os olhos brilhando com uma mistura de ódio e ganância.
- Eu tenho tudo o que você precisa para derrubar a Cavendish Corp - Sebastian disse, entregando uma pasta. - Mas, em troca, eu quero a minha irmã fora daquela casa. E quero que o Dorian pague.
- Eu não quero a sua irmã - Julian disse, rindo sarcasticamente. - Eu quero o império que ele me roubou. Se para isso eu precisar usar a Isadora como isca, eu usarei.
Sebastian sentiu um aperto no peito. Ele sabia que Julian era um canalha, mas ele não tinha outra escolha. Ele precisava de recursos, e Julian tinha os contatos no submundo.
- Se você tocar um fio de cabelo dela, eu mesmo te mato - Sebastian avisou, a voz grave.
- Não se preocupe, Vance. Ela ainda é a joia da coroa. Mas se Dorian Cavendish cair, a joia volta para quem pagou o preço.
Eles apertaram as mãos. Um acordo entre dois homens que se detestavam, unidos pelo desejo comum de destruir o homem que os fizera sentir impotentes. Enquanto Julian saía, Sebastian olhou para o horizonte. Ele sentia que algo terrível estava prestes a acontecer. Ele precisava avisar Isadora. Mas como entrar em uma fortaleza de vidro onde nem o som conseguia atravessar as paredes?
De volta à mansão, Clary encontrava-se na cozinha, tentando manter uma fachada de calma enquanto observava Victor limpar uma arma de fogo na mesa de jantar. A tensão entre eles era elétrica, um jogo de gato e rato que começara na noite anterior.
- Você gosta de armas, Victor? - ela perguntou, tentando soar casual enquanto servia um chá que, na verdade, ela não queria.
Victor não desviou o olhar da peça que ele lubrificava.
- Gosto de coisas que funcionam exatamente como foram projetadas. Sem surpresas. Sem falhas.
- E você acha que pessoas são assim? - Clary aproximou-se, o perfume floral dela invadindo o espaço do homem de gelo. - Projetadas para serem perfeitas e nunca falharem?
Victor finalmente levantou o olhar. Seus olhos cinzentos eram profundos, quase analisando a alma de Clary.
- As pessoas são as criaturas mais falhas do mundo, Srta. Miller. É por isso que eu sou pago para garantir que as falhas delas não custem vidas.
Ele guardou a arma no coldre e levantou-se, aproximando-se de Clary até que a distância entre eles fosse quase proibitiva. Ela não recuou.
- Você parece achar que é uma exceção - ele murmurou, a voz um rosnado baixo perto do ouvido dela.
- Talvez eu seja - ela respondeu, desafiadora.
Ele a encarou por um longo momento. Era um duelo de vontades, um jogo onde a atração era disfarçada de suspeita. Clary não sabia, mas Victor já a tinha investigado. Ele sabia quem ela era, sabia que ela era amiga de Isadora, e sabia que ela estava ali para algo mais do que apenas visitar. Mas, por algum motivo que ele ainda não conseguia explicar, ele não a entregou para Dorian. Ainda não.
A mansão dos Cavendish era um barril de pólvora, e cada personagem - Sebastian, Julian, Clary, Victor - estava segurando um fósforo aceso. Isadora, no centro de tudo, começou a perceber que, para sobreviver, ela não teria apenas que aprender as regras de Dorian Cavendish; ela teria que aprender a quebrá-las sem ser percebida.