Conforme os dias iam passando, as coisas só pioravam. No começo tentei manter a calma, pensando que era apenas uma fase ruim, mas depois de tantas tentativas frustradas comecei a acreditar que havia algo muito errado comigo... ou com o meu currículo. Aquela parecia ser a única explicação lógica para o fato de ninguém sequer me dar uma chance.
Liguei para inúmeros números telefônicos, mandei mensagens, pedi indicações, entreguei currículo pessoalmente em diversos lugares, sempre tentando manter um sorriso no rosto e alguma esperança no peito. Mas nada vinha. Nenhuma resposta positiva, nenhum retorno, nenhum sinal de que eu estava perto de conseguir alguma coisa.
O tempo passava, e junto com ele, o pouco dinheiro que ainda me restava.
A situação começou a ficar desesperadora de verdade quando fiz as contas e percebi que não teria como me manter por muito mais tempo. Foi aí que um pensamento pesado começou a rondar minha mente: vender a casa.
Era o único bem que me restava. A única coisa que ainda me ligava diretamente aos meus pais. Só de cogitar aquilo, meu peito apertava, mas ao mesmo tempo... o que mais eu poderia fazer?
Foi no meio desse caos que algo inesperado aconteceu.
Meu celular tocou.
E, pela primeira vez em dias, senti algo diferente... uma pequena faísca de esperança. Meu coração acelerou, e por um instante, tive a sensação de que talvez, só talvez, aquela fosse a oportunidade que eu tanto precisava.
Atendi e conversei.
E conforme a ligação avançava, o gosto de vitória começou a surgir, tímido, mas presente. Até que a realidade bateu novamente quando percebi um detalhe importante: eu teria que ir até o local de trabalho.
E eu não tinha dinheiro para isso.
Respirei fundo e fui honesta com a mulher do outro lado da linha. Expliquei minha situação, disse que não tinha condições financeiras nem para me deslocar até entrevistas simples, quem dirá para uma viagem mais longa.
Por alguns segundos, achei que aquilo seria o fim da conversa. Mas não foi.
Para minha surpresa, ela pediu meu número de conta bancária e, pouco tempo depois, fez um depósito generoso, suficiente para cobrir minha passagem e ainda sobrar um pouco.
Fiquei sem reação.
Aquilo era estranho... mas ao mesmo tempo, era exatamente o tipo de oportunidade que eu não podia recusar.
A cidade era distante, localizada em uma área mais florestal, e tudo indicava que havia muitos shifters por lá. Só esse detalhe já seria suficiente para me deixar desconfortável em qualquer outra situação, mas naquele momento... eu não tinha o direito de escolher.
Eu precisava do dinheiro.
Precisava daquele emprego.
E foi assim que me vi, poucas horas depois, com uma mochila nas costas contendo duas mudas de roupa, meus documentos, uma pasta com meu currículo e um pequeno lanche improvisado para a viagem.
Era tudo o que eu tinha, e sem dúvidas teria que ser suficiente.
O percurso levava cerca de três horas, talvez mais dependendo do trânsito e do horário. Só de pensar nisso, meu estômago já se revirava, mas eu engoli o medo e segui em frente. Não havia espaço para hesitação.
Saquei o dinheiro, comprei a passagem e entrei no ônibus tentando ignorar a sensação ruim que crescia dentro de mim.
Assim que me sentei, minhas mãos ficaram frias. Meu corpo estava tenso, como se já esperasse algo ruim acontecer. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando me acalmar, tentando me convencer de que era apenas nervosismo.
Mas minha mente... não colaborou.
Como em um passe de mágica, fui puxada de volta para aquele dia.
O acidente..o fogo...o lobo.
Meu coração disparou, e mesmo dormindo, meu corpo reagia como se estivesse vivendo tudo novamente. O medo me envolveu completamente, deixando tudo pesado, sufocante, quase impossível de suportar.
Quando o ônibus deu um solavanco, acordei de repente, com o corpo rígido e o coração acelerado.
Demorei alguns segundos para entender onde estava.
Passei a mão na testa e senti o suor frio escorrendo. Respirei fundo algumas vezes, tentando me recompor enquanto olhava pela janela. O cenário já era diferente, mais fechado, com árvores densas ocupando grande parte da paisagem.
Eu estava chegando.
Peguei a garrafa de água e bebi alguns goles, tentando afastar o mal-estar. Meu corpo ainda estava estranho, mas pelo menos eu estava acordada.
Assim que o ônibus parou e desci, fui recebida por uma rodoviária enorme. O movimento era intenso, pessoas indo e vindo, vozes misturadas, sons de malas sendo arrastadas pelo chão. Aquilo me deixou um pouco perdida no início.
Lembrei da mensagem que havia recebido: um carro estaria me esperando.
Olhei ao redor, mas não vi nada de imediato.
_ Moça, licença, por acaso sabe me dizer onde fica a área de espera? _ perguntei para uma atendente próxima.
Ela apenas apontou na direção indicada, sem dizer uma palavra.
Agradeci mesmo assim e segui até o local, sentando em um dos bancos disponíveis enquanto tentava organizar meus pensamentos.
Pouco depois, meu celular vibrou.
"Seu motorista chegou!"
Levantei na mesma hora, olhando em volta novamente. Demorei alguns minutos até finalmente encontrar o carro com a placa indicada.
Caminhei até ele com certa cautela.
_ Bom dia, senhorita Gabriela. Meu nome é Cris, e vou acompanhá-la até a mansão Black Wolf.
_ Bom dia, Cris. _ respondi, observando-o com atenção.
Ele era um senhor de idade avançada, cabelos grisalhos e postura tranquila. Confesso que, à primeira vista, fiquei surpresa por ele ainda trabalhar como motorista, mas assim que entramos no carro, percebi que havia julgado rápido demais.
A direção dele era firme, segura e ágil.
O carro avançava pelas estradas enquanto o cenário ao redor mudava gradualmente. A cidade foi ficando para trás, dando lugar a uma estrada mais isolada, cercada por árvores altas e densas.
Quanto mais avançávamos, mais inquieta eu ficava.
A floresta parecia... viva.
E aquilo despertava algo dentro de mim.
Algo antigo, algo que eu não queria sentir.
As lembranças começaram a surgir novamente, e precisei desviar o olhar da janela para não me perder nelas.
Quando o carro finalmente diminuiu a velocidade e parou, ergui o olhar.
E então vi a mansão. Era enorme..
Com portões gigantes e o símbolo de um lobo negro entalhado no metal. O mesmo símbolo estava presente na porta de entrada e até mesmo no chafariz no centro do pátio, onde uma escultura de um lobo dominava o espaço.
Meu corpo reagiu na mesma hora. Um arrepio percorreu minha espinha. Porque, sem esforço algum, minha mente fez a ligação.
O lobo do símbolo... e o lobo do meu passado.
_ Droga... _ murmurei, sentindo o suor escorrer pelas minhas costas.
_ A senhora está bem? _ perguntou Cris ao abrir a porta para que eu descesse.
_ S-Sim, só um pouco nervosa. _ respondi, tentando parecer mais firme do que realmente estava.
_ Fique tranquila, senhorita, não há ninguém da família presente. Apenas a governanta que fará sua entrevista e o pequeno Vic.
_ Vic? É o garotinho que vou cuidar? _ perguntei enquanto ajustava a mochila nas costas.
_ Isso mesmo. _ ele confirmou. _ A senhora está usando algum perfume?
_ Não, nada que contenha cheiro forte.
Eu sabia o quanto o olfato dos shifters era sensível. Qualquer detalhe poderia arruinar minha chance, então estava tomando cuidado com tudo.
Cris assentiu e pediu que eu o seguisse.
Subi as escadas da entrada da mansão com passos mais lentos do que gostaria, tentando controlar a ansiedade. As portas se abriram, e assim que entrei, fui recebida por um ambiente luxuoso, muito diferente de qualquer lugar onde já estive.
A decoração era impecável, elegante, com móveis sofisticados, quadros pintados a óleo e um carpete macio que fazia meus passos parecerem silenciosos demais.
Aquilo tudo me deixava deslocada.
Pequena.
Segui Cris pelos corredores até que ele parou diante de uma porta.
_ É aqui. _ disse ele.
Assenti, agradeci e, antes que pudesse desistir, empurrei a porta e entrei.
A sala era ampla, organizada como um escritório.
_ Olá, Gabriela. _ disse uma mulher com os cabelos presos em um coque alto, vestindo um uniforme preto impecável. Ela se levantou e caminhou até mim.
_ Olá, senhora Valéria, é um prazer conhecê-la. _ respondi, estendendo a mão.
O aperto foi firme.
E foi o suficiente para eu perceber.
Assim que olhei nos olhos dela, soube.
Ela não era totalmente humana.
Os olhos castanhos carregavam pontos amarelados quase imperceptíveis, mas presentes. Havia algo em sua expressão, em sua postura... algo selvagem.
Mesmo coberta dos pés à cabeça, era evidente que ela era forte.
Muito mais do que parecia.
_ Fique à vontade, venha. _ ela disse, me guiando até a cadeira.
Sentei, tentando esconder o desconforto.
Agora era o momento.
A entrevista.
E, sendo completamente honesta comigo mesma...
Eu não tinha certeza se estava preparada para aquilo.