Quando percebo, estou estacionado diante de um bar decadente. Horrível. Um buraco sujo e mal iluminado. Mas nada disso é importante. Preciso beber. Preciso apagar. Nem que seja por algumas horas.
Desligo o celular. Ninguém pode me encontrar agora.
Entrei e me joguei sobre uma das banquetas no balcão. Minha voz sai áspera, sem vida:
- Duas doses de uísque. Com gelo.
O rapaz do outro lado me olhou preocupado. Minha expressão deve estar uma merda.
- Melhor... me dê logo a garrafa.
Ele hesita por um instante, e eu aproveito para olhar ao redor. O lugar é alimentado com álcool barato e desespero. As luzes são fracas, piscando em tons avermelhados. Algumas garotas dançam sobre as mesas, quase nuas, se contorcendo ao som abafado da música. Não sinto nada. Não desejo nada. Apenas dou de ombros e viro para o balcão.
O garçom volta e coloca uma garrafa na minha frente.
Sem dizer uma palavra, agarro o copo com força, como se ele fosse minha única âncora, e o encho até a borda. Viro de uma só vez.
O líquido âmbar desce queimando, rasgando minha garganta, mas não chega nem perto da dor latejante que detona meu peito.
Eu deveria parar. Mas não consigo.
Sirvo outra dose. Engulo sem hesitar.
Desta vez, um zumbido agudo ecoa na minha cabeça junto à garganta, raspando e a dormência em minha língua. Como um alerta. Como um grito sujo.
Minha mão está trêmula quando pego o copo novamente, pronto para me afogar em mais um gole. Mas antes que eu consiga, uma mão firme envolve meu pulso.
Quente. Firme. Impedindo-me de continuar.
- Quer que eu ligue para alguém?
Aquela voz é forte, grossa, máscula, sexy... Tento encará-lo, mas minha vista está embaçada, minha cabeça começa a doer, mas me forço a dizer.
- Na... não! Eu... eu quero su... mir...
Ele deve ter negado com a cabeça, porque vira apenas um vulto, depois volta a ser dois.
- Aqui vocês vendem, vendem, bebi... bebida, então, me... me deixe be... ber.
Ele se afasta e viro outro copo, batendo em seguida no balcão. O ambiente começa a escurecer, vejo pontinhos brancos, então apago.
...
Acordo com uma dor de cabeça insuportável e em minha cama.
Como vim parar aqui? - Penso com a mão em minha cabeça.
Sinto um peso em minha perna e dou um pulo da cama quando vejo Phil de cueca espalhado e dominando minha cama.
- Que porra está fazendo na minha cama? - Grito histérica.
Ele acorda assustado.
- Fui te buscar ontem, amor, o barman me ligou. Acho que meu número está como emergência. - Ele diz, coçando os olhos, sonolento.
- E, por que caralho está de cueca em minha cama?
- Amor, volta para a cama, está muito cedo. Voltamos tarde ontem devido ao seu surto.
- Surto! Você acha que foi a porra de um surto? Saia da minha casa agora.
- O quê? Amor foi uma foda só, não vai acontecer de novo, eu prometo.
- Vai se foder, você e sua foda, longe de mim. Sai agora ou chamou a polícia.
- Ok, você está nervosa, a gente conversa de...
- Eu não quero conversar com você, eu não quero te ver nunca mais! E muito menos ter algo a ver com você!
Pego uma mala vazia e começo a jogar todas as coisas dele na mala. Eu colocava e ele tirava.
- PARA DE TIRAR AS COISAS DA MALA!
- Amor, não seja precipitada, estamos juntos há anos.
Pego o meu celular e disco o número da polícia.
- Eu vou completar a ligação ou você vai sair. Agora?
- Estou indo. Calma! Estou indo - ele diz cabisbaixo, repetindo como se eu fosse louca e não entendesse o que ele dizia.
- Leve suas coisas.
- Amor.
- NUNCA MAIS ME CHAME ASSIM, para você a partir de agora, sou doutora Riddle.
- Meg, estou ouvindo a gritaria do corredor, você está bem?
- Kara, estou indo ao banheiro, ajude Philip a recolher seus pertences, quando voltar não quero ver a cara deslavada dele. E se ficar alguma coisa dele aqui, vou jogar pela janela.
Minha amiga me olha confusa, mas ajuda-o a arrumar as coisas. No banheiro, eu desabo, escorrego pela porta fechada às minhas costas e sento no chão, abraço meus joelhos e choro em silêncio.
Passa um tempo, escuto algumas batidinhas na porta.
- Amiga, ele já foi. Quer conversar? Me arrasto para o lado e abro a porta, Kara entra e senta ao meu lado, deito minha cabeça em seu colo e choro até minhas lágrimas secarem com ela fazendo carinho em meu cabelo. Mais calma, começo a contar o que aconteceu, até eu acordar ao lado dele.
- Eu vou matar esse filho da puta desgraçado.
- Amiga, pode tirar uns dias de folga? Quero sumir por um tempo.