- Sei... Vamos almoçar? O Jeff começa a trabalhar daqui a pouco, mas acho que ainda temos um tempinho para sentar juntos.
Mal sentamos à mesa com nossa refeição, Jeff se junta a nós, segurando um bandejão cheio de comida.
- Vocês não têm nada para fazer, não? Estão fofocando de quem? - Ele nos encara, brincalhão.
- Relaxa, Jeff. A gente fala na sua cara - Cléo responde, roubando uma batata frita do prato dele.
- Senta logo, cara, e aí onde vai trabalhar hoje? - Pergunto para Jeff.
- No PUB de sempre, no sábado, na boate, quer ir? - Jeff e leva o garfo na boca. - Sarah deve estar com saudades. - Ele diz com um sorriso malicioso.
Cléo se inclina para frente, abaixa a voz como se fosse revelar um segredo.
- Ele está completamente encantado pela general, essa Sarah já era. - dando uma risadinha.
- Dr.ᵃ Riddle - corrijo, revirando os olhos. - E eu não estou encantado por ninguém.
Jeff observa minha expressão por um instante, então solta um assobio baixo.
- Cléo pode estar exagerando, mas eu não duvidaria se tivesse um fundinho de verdade aí.
- O que vocês têm contra mim hoje? - Suspiro enquanto levo o garfo à boca novamente.
- Nada, só achamos divertido ver você, o grande faxineiro gostoso e sedutor, desviando o olhar sempre que a Dr.ᵃ Riddle está por perto - Cléo diz, cutucando meu ombro.
- Vai trabalhar, Cléo.
Ela ri alto, balança a cabeça e se levanta, pegando sua bandeja.
- Tudo bem, mas se um dia precisar de um conselho amoroso, você sabe onde me encontrar. - Ela pisca e sai rebolando, se divertindo às minhas custas.
Jeff se levanta também, mas antes de ir, me dá um tapinha no ombro.
- Boa sorte, cara. Você vai precisar.
Fico ali por um tempo, observando a Dr.ᵃ Riddle do outro lado do refeitório. Boa sorte! Nem isso vai ajudar, nosso mundo é completamente diferente. Quem sabe, nos meus, se os pesadelos colaborarem.
...
Os dias passaram e eu continuei observando a Dr.ᵃ Riddle, como descobri que é chamada. O mais curioso? Ela não faz ideia de quem sou. Não sabe que foi na minha frente que se mostrou mais vulnerável. E, mesmo assim, eu permaneço ali, atento, sem revelar nada.
Às vezes, a acho rude demais com as pessoas. Outras, me irrito com o apelido que deram a ela. Mas nada me surpreendeu tanto quanto descobrir que ela está solteira desde que pegou o noivo com uma enfermeira, provavelmente o dia em que foi para a boate afogar as mágoas.
Curioso como sou, fui atrás de detalhes. Perguntei o que aconteceu com o ex-noivo e a enfermeira. Afinal, ambos trabalhavam no mesmo hospital.
Segundo Cléo, minha fonte de informações, a Dr.ᵃ Riddle viajou com sua melhor amiga, Kara, no dia seguinte ao ocorrido. Kara. Isso lá é nome? Automaticamente, me recordo que era o segundo número no celular da Dr.ᵃ devia ter ouvido a Sarah.
Depois de um mês, ela voltou e descobriu que o ex já não trabalhava mais aqui. O pai dele, sócio do pai dela, o transferiu para outro país com a desculpa de que ele iria se especializar. - Cléo revira os olhos e eu sorri. - Já a enfermeira, por outro lado, achava que nada lhe aconteceria. Mas teve o desprazer de ser dispensada pela própria Dr.ᵃ Riddle assim que ela retornou.
- Já que gosta de ficar com homens comprometidos, então está na rua! Assim, você pode se juntar com suas amigas putas e passar o rodo. Mas não no meu hospital! - Cléo dramatiza, tentando imitar a Dr.ᵃ Riddle, e eu não consigo segurar o riso.
- Como você sabe disso tudo se nem trabalhava aqui na época?
- Só sei que foi assim. Agora me diz... por que tanto interesse? Não me diga que... - Ela leva as mãos à boca de forma exagerada, arregalando os olhos. - Você gosta da general!
- Ela tem nome, Cleonice - rebato, enfatizando o nome dela de propósito.
- Aff, odeio esse nome!
- Então, para de chamá-la de general. Duvido que ela goste desse apelido ridículo - digo, tomando um gole do meu café.
- Sabia que o apelido veio justamente depois que ela voltou da tal viagem? Sabe, após ser corna.
- Cléo! - a repreendo com um olhar severo.
- O quê? Ela não foi corna, não?
- Não precisa falar assim. Aposto que ela detestou tanto esse título quanto esse apelido ridículo. Seja mais humana e tente se colocar no lugar dela.
- Aff, você acordou de pé esquerdo hoje, foi?
Minha vontade era responder: "Não, só tive mais um pesadelo dos infernos, como todas as outras". Mas, em vez disso, apenas tomo outro gole de café.
- Olha quem acabou de entrar no refeitório - Cléo diz, com um sorriso malicioso.
Sigo seu olhar e, por um instante, esqueço até de respirar. Deus, como essa mulher é linda.
- Sabia! Você é apaixonado por ela! - Cléo sussurra animada.
- Para de ser louca, tica. Deixa eu ir, tenho muita coisa para fazer. E você também.
O que eu jamais admitiria para ela, ou para qualquer outra pessoa, é que a Dr.ᵃ Riddle mexe comigo desde o primeiro instante em que a vi naquela boate, muito menos que, nos meus momentos de folga, gosto de desenhar. E ultimamente, apenas um rosto me inspira: o dela.