Abro o armário, pego uma fatia de pão e começo a mastigar mecanicamente. Não tenho fome de verdade, apenas uma necessidade de preencher o vazio que me acompanha desde meu primeiro pesadelo, ou seja, há muito tempo. Eles vêm e vão, mas nunca desaparecem por completo. Tomo um copo de água para empurrar o pão seco, escuto o piso ranger sob meus pés cansados.
No quarto, jogo a mochila no chão, vou tomar um banho rápido, após o banho sinto meus músculos parecerem uma gelatina, hoje à noite foi pesada, fico apenas de cueca e me deixo cair sobre a cama. O colchão que ganhei de segunda mão afunda sob o peso do meu corpo, e os músculos relaxam automaticamente. Fecho os olhos e o mundo desaparece.
...
Acordo com um grito preso na garganta, o peito subindo e descendo descontroladamente. A escuridão do quarto me sufoca por um instante, e demoro a perceber onde estou. Meu corpo está encharcado de suor, e as mãos tremem enquanto tento afastar as poucas lembranças do pesadelo. Mas não é tão simples. Será que é apenas um pesadelo? Ou uma memória perdida e confusa que tenta me dizer algo?
Um barulho incessante de batidas ecoa pelo quarto. Demoro alguns segundos para perceber o que vem da porta da minha casa.
Quando eu abria a porta, o sol quente fez meus olhos se fecharem. Fiquei surpreso ao ver Jeff na minha porta, um amigo que fiz na boate onde trabalho.
- Que merda, cara, tentei te ligar a manhã inteira! Vai colocar uma calça! - Ele fala, entrando em casa, fecho a porta dizendo:
- Deve ter descarregado. Essa merda não está mais segurando bateria.
- Vai conseguir comprar outro no próximo mês. Agora se arruma logo, cara! Consegui uma entrevista para você no hospital. Temos exatos quarenta minutos para chegar lá.
- Jura? Vou me arrumar rapidinho!
Olho para o relógio na mesa de cabeceira. São meio-dia e vinte. O sol está quente lá fora. Pego meus documentos e me visto às pressas antes de sair com Jeff.
- Vai acabar a mamata de acordar meio-dia. - Ele fala rindo enquanto chama um carro de aplicativo.
- Como se eu quisesse sair da boate às seis horas da manhã! Como conseguiu a entrevista?
- Uma amiga me ajudou, vai gostar dela.
...
A entrevista foi com uma senhora extremamente rigorosa, mas, graças a Deus, correu bem. Consegui o emprego e começaria hoje mesmo.
Envio uma mensagem para Jeff agradecendo pela oportunidade. Em seguida, sigo para o setor de Recursos Humanos do hospital para entregar meus documentos. O exame de admissão seria feito ali mesmo.
Após algumas horas, já estava com meu novo uniforme, limpando os corredores das salas de descanso dos médicos no hospital, o mesmo que leva para o elevador principal.
Nossa, nem acredito que finalmente me livrei do cheiro de uísque barato, dos cigarros nojentos e dos perfumes enjoativos das meninas. - Penso sorrindo como um bobo. Eu odiava meu antigo emprego.
Estou distraído quando duas médicas se aproximam. Elas nem percebem minha presença, já estou acostumado com isso. Mas paro no mesmo instante ao olhar para uma delas. Há algo familiar nela... De onde eu conheço?
De repente, minha mente é invadida por uma lembrança.
Uma noite, anos atrás, precisei cobrir um garçom da boate beira de estrada onde trabalhei. Foi naquela noite que uma mulher linda, mas visivelmente abalada, entrou no bar.
Ela parecia carregar o peso do mundo nos ombros, muito tristeza, quase esvaziou uma garrafa inteira de uísque. Tentei impedi-la, mas ela não deixou. Então, tudo o que pude fazer foi observá-la de perto e cuidar para que nenhum cliente a perturbasse. Dava para ver que ela tinha dinheiro e que aquele cenário não tinha nada a ver com ela, me fazendo perguntar o que levaria uma mulher tão linda a se entregar daquela maneira.
A perda de um familiar?
Um namorado idiota que a traiu?
A todo momento ela dizia palavras desconexas, das quais não conseguia entender, devido ao barulho alto do som horrível da boate.
Quando ela desabou sobre o balcão, peguei seu celular sem pensar duas vezes. Precisava chamar alguém. Precisava tirá-la daquele ambiente, que não era o dela.
- Ei Will, ela apagou? - Sarah, uma das meninas com quem eu mais conversava, tentava dar conselho para ela sair daquela vida.
- Sim, Sarinha, me ajuda a pegar o celular dela.
Usei sua digital para desbloquear a tela, meu peito doeu quando meus olhos encontraram a tela de fundo, ela com um sorriso lindo e um homem loiro ao lado, sorrindo também, ambos estavam com jalecos de médicos. Comecei a vasculhar as últimas chamadas.
- Esse filho da puta deve ser o causador por estar assim.
Ignorei o que ela disse e fui aos contatos, ela só liga para duas pessoas, um contato salvo como Kara que não passa muita confiança e outro salvo como "Amor".
- Liga para o Kara - Sarah falou.
- Mas e se for outro babaca, esse pelo menos está escrito, amor. Olha, ela usa aliança de noivado. - Sarah deu de ombros.
Engoli seco. Mas apertei para completar a ligação para o "amor".
O telefone chamou algumas vezes antes de uma voz masculina atender. Firme. Alarmado.
- Onde você está? - ele disse, sem rodeios.
- Apagada no balcão da boate Nigth Clube, na rodovia principal.
Ele xingou do outro lado, mas, sem hesitar, afirmou que estava a caminho. Não demorou muito para entrar um homem loiro, vestido com roupas de marca, o mesmo da foto do celular.
Os olhos carregados de culpa e preocupação... A Sarah estava certa, ele foi o culpado que a fez beber até cair.
Olhei para ele e perguntei:
- Você vai cuidar dela? Ela vai ficar bem?
Ele deu um sorriso que indicava: quem é você para se preocupar com a minha mulher?
Pagou a conta, deixando uma gorjeta gorda sobre o balcão, pegou-a nos braços, como se fosse algo natural. Como se já estivesse habituado a resgatá-la.
Então, sem uma palavra sequer, ele a levou embora.
Desperto do meu transe com Cléo me chamando, sigo o olhar na direção por onde as duas mulheres desaparecem. Depois, volto minha atenção para a morena latina à minha frente e apenas balanço a cabeça.
- Precisa de alguma coisa? - Ela ri, divertido e eu a olho confuso.
Sabe quando sua mãe ou avó diz "meu santo bateu com o de fulano"! Foi exatamente isso que aconteceu com Cléo. Desde o primeiro instante, gostei do jeito descomplicado como ela vive a vida. E foi impossível não me tornar amigo dela.