Meu círculo de amigos sempre foi pequeno. Kara e ele. Só que Philip Sanchear e Kara nunca se deram bem. Ela sempre diz que ele é um falso, que eu deveria ficar esperta. Mas sei que é apenas implicância.
O plantão começou tenso. Um acidente de moto com um carro. Fiz de tudo pelo motociclista, mas sei que as chances de ele sobreviver são mínimas. Philip vai levá-lo para a cirurgia, mas o prognóstico é ruim.
A manhã passou tão rápido, só percebo que já é hora do almoço porque Philip envia uma mensagem que está me esperando no vestiário.
Como sempre, assim que ficamos a sós, ele me agarra e me beija, amo seus beijos, eles me deixam molinha.
- Vamos, meu amor. - Philip pergunta, ainda enlaçado em minha cintura.
Pego minha bolsa e saímos de mãos dadas.
Ele me leva em um dos meus restaurantes preferidos.
- Amo esse restaurante. - Sorrio.
- Eu também. Vamos sentar ali no cantinho? - Ele fala, apontando.
- Pode ser.
Philip sempre tem esse jeito encantador. Ele puxa minha cadeira e, quando estamos em casa, às vezes prepara um lanche ou até mesmo um jantar completo, fazendo questão de me servir. Ele gosta de me mimar, de me fazer sentir especial. Sempre atento aos meus gostos, me surpreende com pequenos gestos que demonstram o quanto me conhece. Foi isso que me fez apaixonar por ele.
Pedimos o de sempre, lagostim para mim, costela com barbecue para ele e suco para os dois, afinal, ainda precisamos voltar ao trabalho.
Enquanto aguardamos nosso pedido chegar, ele me surpreende entregando uma caixinha preta com detalhes dourados. Abro a caixa e meus olhos não acreditam no que vejo, é o lançamento da Bella Vitta. Uma correntinha com um pingente de diamante em formato de coração.
- Amor, é lindo! - Meus olhos brilham, emocionados.
- Sempre o melhor para você, minha linda. - Ele diz enquanto coloca em meu pescoço.
Nosso almoço é regado a amor, mas o que é bom dura pouco. Logo tivemos que voltar ao hospital, e cada um segue para sua área.
Ele me prometeu que, hoje à noite, vai me levar ao cinema para ver a adaptação de um livro que amo. Sei que essas adaptações nunca são cem por cento, só que estou disposto a ir, e ele vai me acompanhar só para me fazer feliz... é o que eu pensava...
Eu o amo demais!
Ele sempre é tão perfeito para mim...
Hoje foi um dia interminável. Duas cirurgias à tarde, além dos atendimentos no pronto-socorro. Estou a um passo de cancelar o cinema e simplesmente me jogar na cama e ficar agarradinha no Phil.
Caminho a passos arrastados até o vestiário. O cansaço pesa sobre mim. Meu turno deveria ter terminado às quatro da tarde, mas, devido às cirurgias, já passa das dezoito. Mesmo que eu corra, duvido que consiga chegar ao tempo para a sessão.
Então, um pressentimento estranho me invade. Um aperto sufocante no peito, como se algo estivesse fora do lugar. Minha respiração falha por um instante, e um frio inquietante percorre minha espinha.
Sem entender o motivo, meus passos se aceleram sozinhos. Uma urgência irracional me domina, como se eu precisasse pegar minhas coisas e sair dali o mais rápido possível. Phil provavelmente já está em casa... me aguardando.
Entro no vestiário, caminho até meu armário quando escuto sins vindo do banheiro.
Gemidos abafados. Um riso baixo e rouco.
Minha pele se arrepia. Meu coração bate forte no peito, descompassado.
Não...
Não pode ser. - Nego com a cabeça enquanto sussurro com a boca.
Empurro a porta devagar, e o que vejo faz meu mundo desmoronar.
Philip está ali, pressionando a garota contra a pia, os lábios explorando o pescoço de uma enfermeira loira. Suas mãos deslizam pelo corpo dela, segurando-a com a mesma urgência com que costuma me segurar.
Meus joelhos fraquejam. Sinto meu estômago revirar.
Mas, como se a traição visível não fosse suficiente, suas palavras me acertam como um tiro.
- Ela é grudenta demais. Se eu não estivesse preso nessa merda devido ao meu pai, já teria dado um pé na bunda dela faz tempo.
A enfermeira ri baixinho.
- Então, termina logo, Philip. Você não precisa dela.
- Ele não vai deixar. - Ele rosnou, segurando os cabelos dela, enquanto socava mais fundo dentro dela. - Não aguento mais. Meg me sufoca, me enoja com esse amor todo...
O ar some dos meus pulmões.
Eu o enojo?
A dor é tão cortante que sinto que vou desmaiar. Um soluço escapa antes que eu possa conter.
Philip se vira. Seu olhar choca-se com o meu, e o pânico toma conta de seu rosto.
A enfermeira arregala os olhos e se afasta rapidamente.
- Meg... - Ele dá um passo em minha direção.
Meu corpo treme. Minha mente se recusa a processar.
A mesma boca que sussurrou promessas de amor, agora hoje mais cedo, agora profere palavras de desprezo.
A mesma boca que dizia que eu era tudo para ele... estava sobre outra mulher.
Coloco a mão em meu coração que bate forte. Dessa vez, não de amor, mas de ódio.
Pego o colar que ele me deu mais cedo, o anel de noivado e jogo contra ele.
- Passe em casa para pegar suas coisas, e quando me ver na rua, atravesse, pois não quero mais respirar o mesmo ar que você. - Minha voz sai baixa, carregada de uma dor que ele nunca vai entender.
Engulo meu choro, não vou deixar que ele veja a minha dor.
Ele abre a boca para responder, mas ergo a mão.
- Não diga nada. Só suma da minha frente.
Ele fecha os olhos, frustrado, talvez tentando pensar em uma desculpa. Mas não há desculpa para o que vi e ouvi.
Engulo seco, segurando o choro.
- Meg... eu te...
Viro as costas e saio dali, ignorando seu chamado, ignorando sua voz, ignorando tudo que um dia senti.
Porque agora, tudo o que resta é uma mentira.
Um amor que só existia na minha cabeça.