O ar que respira
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Capítulo 6 O ar que respira img
Capítulo 7 O ar que respira img
Capítulo 8 O ar que respira img
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Capítulo 2 O ar que respira

Na manhã seguinte, Kathy e Lincoln chegaram bem cedo, animados para levar Emma para um final

de semana repleto de aventuras. Já estava pronta para sair quando ouvi alguém bater na porta. Assim

que a abri, tive que forçar um sorriso ao ver minhas três vizinhas - três mulheres que não me

fizeram a menor falta.

- Oi, Marybeth, Susan e Erica.

Eu devia ter imaginado que não demoraria muito para as três maiores fofoqueiras da cidade

aparecerem na minha porta.

- Ah, Liz - falou Marybeth ofegante, me abraçando. - Como você está, querida? Ouvimos

alguns rumores de que você tinha voltado, mas você sabe, nós odiamos fofocas, então decidimos vir

aqui pessoalmente para confirmar.

- Fiz rocambole de carne! - exclamou Erica. - Você foi embora tão rápido quando Steven

morreu que nem tive tempo de fazer um agrado. Então aqui está, finalmente pude fazer esse prato

para ajudá-la nesse momento de luto.

- Obrigada. Na verdade, eu estava indo para...

- Como está Emma? - interrompeu Susan. - Ela está superando a perda? Minha Rachel

sempre pergunta por ela. Será que elas podem brincar juntas lá em casa? Acho que seria ótimo. -

Ela fez uma pausa e se aproximou de mim. - Mas cá entre nós, Emma não está com depressão, né?

Ouvi dizer que pode contagiar outras crianças.

Que ódio. Que ódio. Que ódio.

- Ah, não, Emma está bem. Estamos bem. Está tudo ótimo - respondi sorrindo.

- Então você vai voltar ao nosso clube do livro? Estamos nos reunindo todas as quartas na casa

da Marybeth. As crianças ficam brincando no andar de baixo enquanto nós comentamos sobre o

romance da vez. Esta semana, estamos lendo Orgulho e preconceito.

- Eu... - Não quero ir de jeito nenhum. Elas ficaram me observando, e eu sabia que, se dissesse

não, causaria mais problemas. Além do mais, seria bom para Emma passar um tempo com meninas

da idade dela. - Eu vou, sim.

- Perfeito! - Marybeth olhou ao redor. - Seu jardim tem uma personalidade e tanto -

comentou com um sorrisinho nos lábios, mas o que ela queria mesmo dizer era: "Quando você vai

cortar essa grama? Isso é uma vergonha para todas nós."

- Vou dar um jeito nele - respondi. Peguei o rocambole de Erica, coloquei-o dentro de casa e

fechei a porta, esforçando-me para deixar claro que eu estava de saída. - Obrigada pela visita,

meninas. Preciso ir à cidade.

- O que você vai fazer na cidade? - quis saber Marybeth.

- Vou dar uma passada na Doces & Sabores para ver se o Matty precisa de alguma ajuda.

- Mas ele acabou de contratar uma pessoa. Duvido que tenha vaga pra você - retrucou Erica.

- Ah, então é verdade? Você não vai mesmo reabrir a empresa? Faz sentido, agora que você não

tem mais Steven - disse Marybeth.

- Ele era muito competente - acrescentou Susan, concordando. - E sei que você só tem o

diploma de designer de interiores. Deve ser difícil deixar um negócio tão interessante e voltar para

um trabalho tão... inferior, como garçonete. Eu não conseguiria. É dar um passo para trás.

Vão se ferrar, vão se ferrar, vão se ferrar.

- Bem, vamos ver. Foi ótimo revê-las. Com certeza nos encontraremos em breve - falei,

sorrindo.

- Quarta, às sete! - Susan riu.

Revirei os olhos ao passar por elas e as ouvi cochichar, dizendo que engordei e que estava com

olheiras profundas.

Andei na direção da Doces & Sabores e tentei disfarçar meu nervosismo. E se eles não

precisassem mesmo de ajuda no café? O que eu ia fazer? Os pais de Steven disseram que eu não

deveria me preocupar com dinheiro, que eles ajudariam por um tempo, mas eu não queria ajuda.

Precisava encontrar uma maneira de me sustentar. Assim que abri a porta do café, ri ao ouvir um

grito vindo de trás do balcão.

- Por favor, me diga que não é um sonho e que minha melhor amiga voltou! - berrou Faye,

pulando e me agarrando. Assim sem me soltar, ela olhou para o dono do café. - Matty, me diga que

você está vendo o mesmo que eu e que não estou tendo alucinações por causa das drogas que usei

antes de vir trabalhar.

- Ela está aqui mesmo, sua maluca.

Ele riu. Matty era bem mais velho e sempre revirava os olhos e dava risinhos afetados diante da

personalidade vibrante de Faye. Seus olhos castanhos encontraram os meus, e ele acenou para mim.

- Bom te ver, Liz.

Faye se aconchegou no meu peito como se fosse o travesseiro dela.

- Agora que voltou, você nunca, nunca mais vai embora.

Faye era bonita de uma maneira singular. Seus cabelos eram tingidos num tom prateado com

mechas cor-de-rosa e roxas, algo incomum para uma mulher de 27 anos. As unhas estavam sempre

pintadas com cores vibrantes, e seus vestidos sempre ressaltavam suas curvas perfeitas. O que a fazia

ser tão bonita, no entanto, era sua autoconfiança. Faye sabia que era deslumbrante, mas não pela

aparência. Ela tinha orgulho de si mesma, não precisava da aprovação de ninguém.

Eu a invejava por isso.

- Bom, vim até aqui pra saber se vocês estão contratando. Sei que não trabalho aqui desde a

época da faculdade, mas estou precisando de um emprego.

- É claro que estamos! Ei, Sam - chamou Faye, apontando para um rapaz que eu não conhecia

-, você está despedido.

- Faye! - protestei.

- O quê?!

- Você não pode simplesmente demitir as pessoas - eu a repreendi ao ver o medo nos olhos de

Sam, coitado. - Você não está demitido.

- Ah, está, sim.

- Cala a boca, Faye. Não, não está. Como você pode demitir alguém?

Ela levantou a cabeça e bateu no crachá com seu nome, apontando para o seu cargo.

- Alguém tinha que ser gerente, mulher.

Virei para Matty, em choque.

- Você promoveu Faye à gerência?

- Acho que ela me drogou - disse ele, rindo. - Mas se precisa mesmo de emprego, sempre

vamos ter um lugar pra você aqui, mesmo que por meio período.

- Meio período seria ótimo. Qualquer coisa está bom - respondi sorrindo, agradecida.

- Ou eu posso demitir Sam - insistiu Faye. - Ele já tem outro emprego de meio período e é

meio esquisitão.

- Eu estou ouvindo - interveio Sam, envergonhado.

- Não interessa. Está demitido.

- Não vamos demitir Sam - interveio Matty.

- Você é sem graça. Mas quer saber de uma coisa? - Ela tirou o avental e soltou um grito: -

Hora do almoço!

- São nove e meia da manhã - retrucou Matty.

- Hora do café, então! - corrigiu Faye, me pegando pelo braço. - Voltamos em uma hora.

- Os intervalos são de apenas trinta minutos.

- Tenho certeza de que Sam vai me dar cobertura. Sam, você não está mais demitido.

- Você nunca foi demitido, Sam. - Matty riu. - Uma hora, Faye. Traga-a de volta, Liz, ou ela é

que vai ser demitida.

- Ah, é? - Faye colocou as mãos na cintura, quase... sedutora? Matty deu um sorrisinho e

passou os olhos pelo corpo dela, de um modo quase...sexual?

Mas o que foi isso?

Saímos do café, o braço de Faye agarrado ao meu, enquanto eu tentava entender o que havia

acabado de acontecer entre ela e Matty.

- O que foi aquilo? - Ergui a sobrancelha.

- Aquilo o quê?

- Aquilo - falei, apontando na direção de Matty. - Aquela ceninha sensual entre vocês dois?

- Ela não respondeu e mordeu o lábio. - Meu Deus! Você dormiu com Matty?

- Cala a boca! Quer que a cidade inteira escute? - Ela olhou para os lados, envergonhada. -

Foi sem querer.

- Ah, sério? Sem querer? Você estava distraída, andando pela rua principal, quando Matty veio

em sua direção, e o pau dele saiu da calça por acidente? E aí bateu um vento forte e o pau dele foi

parar dentro da sua vagina? Foi esse tipo de acidente? - perguntei, tirando sarro.

- Não foi bem assim. - Ela passou a língua pelos cantos da boca. - O vento meio que levou o

pau dele até a minha boca primeiro.

- PELO AMOR DE DEUS, FAYE!

- Eu sei, eu sei! É por isso que as pessoas não deveriam sair de casa quando venta. As pirocas

ficam agitadas nos dias de ventania.

- Não estou acreditando nisso. Ele tem o dobro da sua idade.

- O que eu posso fazer? Acho que estou curtindo homens mais experientes... Uma figura

paterna.

- Bom, seu pai é incrível.

- Exatamente. Nenhum cara da nossa idade se compara a ele! E Matty... - Ela suspirou. -

Acho que estou gostando dele.

Aquilo foi um choque. Faye nunca usou a palavra "gostar" para se referir a um cara. Ela era a

maior pegadora que eu conhecia.

- O que significa "gostar dele"? - perguntei, com a voz cheia de esperança de que minha

amiga, finalmente, fosse sossegar.

- Calma aí, Nicholas Sparks. O que eu quis dizer é que gosto do pau dele. Até dei a ele um

apelido. Quer saber qual é?

- Pelo amor de tudo que é mais sagrado nesse mundo, não.

- Ah, mas agora vou dizer.

- Faye - murmurei.

- Matty Grossinho - contou ela, com um sorriso safado.

- Você sabe que não precisa me contar essas coisas. Tipo nunca, nunca, nunca mesmo!

- Estou falando: pensa em duas salsichas alemãs. Esse é Matty Grossinho. É como se o deus da

salsicha finalmente tivesse ouvido minhas preces. Você se lembra do Peter Dedinho e do Nick

Cabeludo? Então, é muito melhor! Matty Grossinho é o paraíso das salsichas.

- Estou quase vomitando. Literalmente. Dá pra mudar de assunto?

Ela riu e me puxou para perto.

- Como senti sua falta! Vamos para o nosso lugar de sempre? O que acha?

- Claro.

Andamos por alguns quarteirões, e Faye me fez rir muito. Perguntei-me por que fiquei tanto

tempo longe. Talvez uma parte de mim se sentisse culpada por saber que, se eu ficasse aqui, me

recuperaria aos poucos. Essa ideia me apavorava. Mas, naquele momento, rir era exatamente o que

eu precisava. Quando eu ria, não tinha muito tempo para chorar, e eu já estava cansada das lágrimas.

- É estranho estar aqui sem Emma - comentou Faye, sentando na gangorra do parquinho.

Começamos a subir e descer no brinquedo, rodeadas de crianças correndo e brincando com seus pais

e suas babás. Uma delas olhou para nós como se fôssemos loucas, mas Faye foi bem rápida e gritou:

- Nunca cresçam, crianças! É uma armadilha!

Ela era ridícula o tempo todo.

- Então, há quanto tempo está rolando esse lance com Matty? - perguntei.

- Sei lá... tipo, um mês ou dois - respondeu ela, corando.

- Dois meses?

- Talvez sete. Ou oito.

- O quê? Oito?! Nós nos falamos pelo telefone quase todos os dias. Como você nunca comentou

nada?

- Não sei. - Faye deu de ombros. - Você estava passando por tantas coisas... E parecia um

pouco insensível falar do meu sex-cionamento. - Faye nunca teve relacionamentos, mas era

profissional nos sex-cionamentos. - Meus problemas eram pequenos, mas os seus... - Ela franziu a

testa, deixando-me no alto da gangorra. Faye quase nunca assumia uma expressão séria, mas Steven

era como um irmão para ela. Eles brigavam o tempo todo, muito mais do que quaisquer irmãos de

verdade que conheci, mas também se importavam muito um com o outro. Foi ela quem nos

apresentou, na faculdade. Os dois se conheciam desde a quinta série e eram grandes amigos. Eu

nunca havia visto tristeza nos olhos dela até o dia em que Steven morreu, e eu tinha certeza de que

agora esse sentimento era mais frequente em seu semblante. Eu provavelmente estava vivendo o meu

próprio desespero e não percebi que minha melhor amiga também sofria com a morte de seu irmão

postiço. Ela pigarreou e abriu um meio sorriso. - Meus problemas eram pequenos, Liz. Os seus,

não.

- Olha, quero que você saiba que sempre pode me dizer tudo, Faye. - Ela se colocou no alto da

gangorra. - Quero saber tudo sobre essas aventuras sexuais com o velho Matty. Além do mais, não

há nada na sua vida que seja pequeno. Pelo amor de Deus, olha o tamanho dos seus peitos!

- Eu sei! Esses peitos não são brincadeira. - Ela riu alto, jogando a cabeça para trás. Quando

Faye ria, o mundo inteiro sentia sua felicidade.

- Temos que voltar antes que você seja demitida.

- Se Matty me demitir, as bolas dele vão ficar roxas pelo resto da vida.

- Faye... - Ruborizei, olhando para as pessoas a nossa volta. - Você precisa de um filtro.

- Filtros são para cigarros, não para humanos, Liz - brincou ela.

Começamos a andar na direção do café, seu braço agarrado ao meu, nossos pés caminhando

juntos.

- Estou tão feliz por você meio que ter voltado, Liz - murmurou, apoiando a cabeça no meu

ombro.

- Meio que ter voltado? Como assim? Estou aqui, estou de volta.

Ela olhou para mim com um sorriso sábio.

- Ainda não. Mas daqui a pouco você chega lá, meu docinho.

A forma como ela enxergava a minha dor, muito além das aparências, era impressionante. Eu a

puxei para perto e, com certeza, não a soltaria tão cedo.

Capítulo 5

Elizabeth

- Liz, você teve coragem de ir embora com a Emma sem nem me ligar! - reclamou mamãe, muito

irritada. Emma e eu já tínhamos voltado há dois dias, e ela só estava ligando agora. Existiam apenas

duas explicações para a atitude dela: ou estava muito magoada por termos ido embora e deixado só

um bilhete, ou estava passeando pela cidade com algum desconhecido e havia acabado de chegar em

casa.

Achei que a segunda opção fazia mais sentido.

- Sinto muito, mas você sabia que eu estava pensando em ir embora. Precisamos de um novo

começo - tentei explicar.

- Um novo começo na sua velha casa? Isso não faz sentido.

Eu sabia que ela não ia entender, então mudei de assunto.

- Como foi o jantar com Roger?

- Richard - corrigiu ela. - Não finja que não sabe o nome dele. Foi incrível. Acho que

encontrei o cara certo.

Revirei os olhos. Todos os homens que ela conhecia eram "o cara certo", até que deixavam de ser.

- Você está revirando os olhos? - perguntou ela.

- Não.

- Está sim, não está? Às vezes você consegue ser tão grosseira...

- Mamãe, preciso ir para o trabalho - menti. - Posso ligar pra você depois?

Talvez amanhã.

Talvez na próxima semana.

Só preciso de um tempo.

- Tudo bem. Mas não se esqueça de quem ficou ao seu lado quando você não tinha ninguém,

filhinha. É claro que os pais do Steven devem estar ajudando, mas vai chegar o momento em que

você vai perceber quem é sua verdadeira família e quem não é.

Nunca me senti tão aliviada por desligar o telefone.

De vez em quando, eu olhava para o jardim coberto de mato, tentando me lembrar de como era

antes. Steven havia transformado aquele espaço em um lugar lindo; ele era um ótimo paisagista e

cuidava dos mínimos detalhes. Eu quase conseguia sentir o aroma das flores que ele plantou - que,

obviamente, estavam mortas agora.

- Feche os olhos - sussurrou Steven, apoiando a mão nas minhas costas. Fiz o que ele pediu. -

Qual é o nome dessa flor? - perguntou. O aroma chegou ao meu nariz, e eu sorri.

- Jacinto.

Abri um sorriso ainda maior quando senti seus lábios nos meus.

- Jacinto - repetiu ele. Eu abri os olhos, e ele colocou a flor atrás da minha orelha. - Pensei em

plantar mais algumas perto do lago.

- É minha flor favorita.

- Você é a minha garota favorita.

Pisquei e, em um instante, estava de volta, sentindo falta do cheiro do passado.

Olhei para a casa do meu vizinho; seu jardim estava muito pior que o meu. A casa era toda de

tijolos marrom-avermelhados, com colunas brancas de marfim dos dois lados. A grama estava dez

vezes maior que a minha, e vi pedaços do que um dia foi um anão de jardim na varanda dos fundos

da casa. Tinha um taco de beisebol de brinquedo, feito de plástico amarelo, escondido na grama alta

junto com um pequeno dinossauro.

Uma mesa vermelha, toda descascada, estava ao lado de um galpão. Havia também algumas

pilhas de madeira apoiadas ali, e me perguntei se alguém, de fato, já havia morado naquele lugar.

Parecia mais abandonado do que nunca, e me preocupei com a sanidade do meu vizinho.

Atrás das casas do meu quarteirão ficava o bosque de Meadows Creek. Eu sabia que, bem mais

adiante, quase escondido no meio daquela floresta sombria, havia um riacho que se estendia por

vários quilômetros. A maioria das pessoas nem sabia que ele existia. Steven e eu o descobrimos ainda

nos meus tempos de faculdade. Na margem havia uma pequena pedra e, nela, estavam gravadas as

iniciais ST e EB. Fizemos isso no dia em que ele me pediu em casamento. Sem me dar conta, acabei

entrando no bosque e me sentei em meio às árvores, encarando meu reflexo na água.

Uma respiração de cada vez.

Pequenos peixes nadavam ali tranquilamente, até que ouvi o som da água se agitando e percebi

uma ondulação em sua superfície. Virei a cabeça em busca de alguma explicação e fiquei vermelha

ao ver Tristan de pé ao lado do rio, sem camisa e vestindo apenas um short de corrida. Ele se

abaixou e começou a lavar o rosto, passando os dedos com força pela barba grossa. Olhei para ele de

cima a baixo, para seu peitoral definido coberto de pelos, e o vi jogar a água no corpo. Seu braço

esquerdo era repleto de tatuagens, que se estendiam pelo tórax. Fiquei observando os desenhos em

seu corpo, incapaz de desviar o olhar. Eram muitos, nem consegui contá-los, mas tentei distinguir

cada um deles. Conheço essas tatuagens. Eram clássicos infantis: Aslam, de As crônicas de Nárnia; o

monstro, de Onde vivem os monstros; O vagão de trem, de The boxcar children. No peito, a frase

"We're all mad here", de Alice no país das maravilhas.

Achei aquilo brilhante. Não existia nada mais impressionante do que um homem que não apenas

conhecia as histórias mais clássicas da literatura, mas também havia transformado o próprio corpo

numa biblioteca particular.

A água escorreu do cabelo até o peitoral. E, de repente, fiquei imóvel. Será que ele sabia o quanto

era bonito e, ao mesmo tempo, assustador?

Meu Deus, por quanto tempo posso continuar olhando esse homem, antes de ser politicamente

incorreta?

Não sei, Liz. Vamos descobrir. Um, dois, três...

Ele não tinha me visto, e comecei a me afastar do riacho com o coração disparado, na esperança

de que ele não percebesse minha presença.

Mas Zeus estava amarrado a uma árvore e, assim que me viu, começou a latir.

Droga!

Tristan olhou na minha direção com a mesma frieza de antes. Ele parou, e a água começou a

escorreu do seu tórax até o cós do short. Continuei encarando-o e percebi que minha atenção estava

voltada para o volume dentro de sua roupa. Ergui o olhar rapidamente de volta para seu rosto, que

continuava sem se mover um centímetro sequer. Zeus continuou latindo e abanando o rabo, tentando

se soltar da coleira.

- Você está me seguindo? - perguntou ele. As palavras foram ríspidas e diretas, sem dar

margem à conversa.

- O quê? Não.

Ele ergueu a sobrancelha.

Continuei observando suas tatuagens. Ah, Ovos verdes e presunto, do Dr. Seuss. Ele notou meu

olhar.

Que merda, Liz. Pare com isso.

- Desculpe - murmurei, meu rosto pegando fogo, tamanho constrangimento. O que ele estava

fazendo ali?

Tristan olhou para mim sem sequer piscar. Ele poderia ter falado qualquer coisa, mas tive a

impressão de que se divertia muito mais me deixando envergonhada e ansiosa. Era difícil olhar para

ele. Parecia um homem devastado, mas cada uma das cicatrizes de sua existência me atraía.

Continuei observando-o enquanto ele tirava a coleira de Zeus da árvore e voltava pelo mesmo

caminho que eu tinha vindo. Eu o segui, rumo à minha casa.

Ele parou.

Virou-se devagar.

- Pare de me seguir - sibilou.

- Não estou seguindo você.

- Está sim.

- Não.

- Está.

- Não, não, não!

Ele ergueu a sobrancelha de novo.

- Você parece uma criança de 5 anos.

Ele se virou e continuou andando. Também continuei. De vez em quando, ele olhava para mim e

grunhia, mas não falou nada. Chegamos ao final da trilha, e ele e Zeus seguiram para o jardim

maltratado ao lado da minha casa.

- Acho que somos vizinhos - observei, com uma risada sem graça.

O modo como Tristan olhou para mim me provocou um frio na barriga. Um desconforto persistia

em meu peito, mas, por trás daquilo, eu ainda podia perceber aquela pontada familiar que eu sentia

todas as vezes em que o encontrava.

Nós dois seguimos para nossas respectivas casas sem nos despedirmos.

Jantei sozinha à mesa da sala de jantar. Quando olhei pela janela, vi Tristan, também sentado a

uma mesa, comendo. A casa dele parecia muito escura e vazia. Solitária. Ele olhou pela janela e me

viu. Acenei e sorri para ele. Ele se levantou, foi até a janela e fechou a cortina.

Não demorei muito para perceber que as janelas dos nossos quartos ficavam uma de frente para a

outra, e ele fechou a cortina novamente, bem depressa.

Liguei para checar se estava tudo bem com Emma e, pelo barulho, deu para perceber que ela

estava muito agitada. Provavelmente por ter comido muitos doces e por estar se divertindo muito na

casa dos avós. Mais ou menos às oito da noite, sentei-me no sofá da sala, olhando para o nada e

tentando não chorar, quando recebi uma mensagem de texto de Faye.

Faye: Você está bem?

Eu: Sim, estou.

Faye: Quer companhia?

Eu: Hoje, não. Cansada.

Faye: Tem certeza?

Eu: Quase dormindo...

Faye: Absoluta?

Eu: Amanhã.

Faye: Amo você, vadia.

Eu: Amo você, piranha.

O barulho de alguém batendo na porta assim que enviei a última mensagem não me surpreendeu.

Eu tinha certeza de que Faye viria, porque ela sabia que, quando eu falava que estava bem, na

verdade queria dizer o contrário. O que me surpreendeu foi ver outras pessoas além dela na minha

porta. Amigos. Faye segurava a maior garrafa de tequila do mundo.

- Quer companhia? - Ela riu.

Meu olhar foi do meu pijama para a garrafa de tequila.

- Com certeza!

- Achei que você fosse bater a porta na nossa cara - falou uma voz familiar atrás de mim

enquanto eu servia quatro shots na cozinha. Eu me virei e vi Tanner me observando, jogando para o

alto a moeda que ele sempre trazia consigo. Eu me joguei em seus braços, abraçando-o bem

apertado. - Oi, Liz - murmurou ele, retribuindo meu abraço com força.

Tanner era o melhor amigo de Steven, e eles eram tão próximos que cheguei a pensar que meu

marido ia me trocar por um homem. Ele era forte, tinha olhos escuros e cabelos loiros. Trabalhava na

oficina mecânica do pai, que passou a administrar depois que ele ficou doente. Ele e Steven

tornaram-se melhores amigos quando dividiram o quarto no primeiro ano da faculdade. Apesar de

Tanner ter desistido da universidade para trabalhar com o pai, ele e meu marido continuaram muito

próximos.

Tanner deu um sorriso amigável e me soltou. Pegou dois shots, me passou um deles e bebemos

juntos. Em seguida, ergueu os outros dois e fizemos o mesmo. Sorri.

- Sabe, essas quatro doses eram para mim.

- Eu sei. Só estou tentando poupar seu fígado.

Vi quando ele colocou a mão no bolso e pegou uma moeda. A mesma moeda que ele sempre

girava entre os dedos. Era um hábito estranho que ele já tinha antes de nos conhecermos.

- Você ainda tem sua moeda.

- Nunca saio de casa sem ela - respondeu, rindo, antes de guardá-la no bolso.

Estudei seu rosto. Provavelmente ele não sabia disso, mas, de vez em quando, dava para ver a

tristeza em seu olhar.

- Como você está?

Ele deu de ombros.

- É muito bom ver você de novo. Cara, faz tanto tempo. E você praticamente sumiu depois... -

Ele parou de falar. Ninguém sabia o que dizer sobre a morte do Steven. O que eu achava bom.

- Agora estou de volta. - Fiz um gesto enquanto servia mais quatro shots. - Emma e eu

voltamos pra ficar. Só precisávamos de um tempo. Só isso.

- Você ainda dirige aquela lata-velha? - perguntou Tanner.

- Sim, com certeza. - Mordi o lábio. - Outro dia atropelei um cachorro.

- Não!

Ele ficou boquiaberto.

- Verdade. O cachorro está bem, mas a droga do freio não funcionou direito e quase passei por

cima dele.

- Vou cuidar disso pra você.

- Tudo bem. Eu normalmente vou andando pra todos os lugares da cidade. Sem problemas.

- Vai ser um problema quando o inverno chegar.

- Não se preocupe, Tanner Michael Chase, vai dar tudo certo.

- Odeio quando você me chama pelo nome completo - disse ele, fazendo uma careta.

- É exatamente por isso que eu te chamo assim.

- Então vamos fazer um brinde - sugeriu ele. Faye veio correndo e pegou um dos copos.

- Adoro fazer brindes com tequila. - Ela soltou uma risada. - Ou vodca, uísque, rum, álcool...

Sorri, e nós três levantamos os copos. Tanner pigarreou:

- A velhos amigos e novos começos. Sentimos falta de você e da Emma, Liz. Estamos muito

felizes com o retorno de vocês. Que os próximos meses sejam mais fáceis, e que você nunca se

esqueça de que não está sozinha.

Com um único movimento, viramos as doses rapidamente.

- Aqui vai uma pergunta aleatória. Eu queria mudar todas as fechaduras da porta. Você conhece

alguém que possa fazer esse serviço?

- Sam, com certeza - respondeu Faye.

- Sam?

- Sabe aquele cara que eu tentei demitir pra contratar você? Aquele esquisitão do café? O pai

dele tem uma loja, e ele trabalha meio período lá fazendo esse tipo de coisa.

- Sério? Será que ele me ajudaria?

- Claro que sim. Vou pedir pra ele te ajudar, caso contrário eu o demito novamente. - Faye

piscou. - Ele é esquisito, mas trabalha bem e é rápido.

- E desde quando você gosta de caras rápidos? - debochei.

- Às vezes, tudo que uma garota precisa é de um pau, uma cerveja e um reality show, tudo isso

em meia hora. Nunca subestime o poder de uma rapidinha - retrucou Faye enquanto enchia seu

copo e saía dançando para beber com meus outros amigos.

- Sua melhor amiga talvez seja a única mulher que conheço que pensa como um homem -

brincou Tanner.

- Você sabia que ela e o Matty estão...

- Fodendo? Claro que sim! Depois que você foi embora ela precisava de uma amiga para

despejar suas reclamações e decidiu que eu tinha uma vagina. Ela ia até a oficina todo dia falar do

"Matty Grossinho", o que aliás me deixava bastante constrangido.

- Você não se interessa pelos apelidos e sex-cionamentos dela? - Soltei uma risadinha.

- Frankie Descamado? É sério? - perguntou ele.

- Faye não é de contar mentira.

- Coitado do Frankie.

Eu ri. Não sei se por causa do álcool ou porque ver Tanner me lembrava de coisas boas. Ele se

sentou no balcão da cozinha e deu um tapinha ao seu lado, me convidando para sentar também.

Aceitei na hora.

- Então, como está a senhorita Emma?

- Moleca como sempre - respondi, pensando na minha garotinha.

- Igualzinha à mãe. - Ele sorriu.

Bati de leve no ombro dele.

- Ainda acho que ela herdou isso do pai.

- Verdade. Ele dava muito trabalho. Lembra aquele Halloween em que ele achou que poderia

lutar com todo mundo só porque estava vestido de ninja? Ele ficou dando aqueles gritinhos de ninja

para quem se aproximava da gente, mas, em vez de ser um ninja de verdade, acabou com um olho

roxo e nós três fomos presos. - Gargalhamos, lembrando como meu marido era terrível quando

bebia.

- Se bem me recordo, você também nunca foi uma boa influência. Sempre bebia demais e virava

um babaca, provocando as pessoas até elas baterem em Steven.

- Verdade. Não sou flor que se cheire depois de algumas doses, mas Steven me entendia. Droga,

sinto falta daquele cretino. - Ele suspirou. Paramos de rir, e meus olhos se encheram de lágrimas,

assim como os dele. Ficamos em silêncio, sentindo saudades. - Bom - disse Tanner, mudando de

assunto -, o jardim está uma merda. Posso cortar a grama se você quiser. E aumentar um pouco a

cerca, também para você ter mais privacidade.

- Não precisa. Na verdade, eu mesma quero cuidar disso. Estou trabalhando só meio período, e

vai ser bom ter o que fazer enquanto não encontro um emprego fixo.

- Você pensou em voltar a trabalhar com decoração?

A pergunta da semana. Dei de ombros.

- Não pensei muito neste último ano.

- Entendo. Tem certeza de que não quer uma mãozinha aqui? Não seria problema nenhum pra

mim.

- Tenho, sim. Cheguei ao ponto em que preciso começar a fazer as coisas sozinha, sabe?

- Sei. Mas acho que você deveria dar uma passada na oficina no domingo. Queria te dar uma

coisa.

- Um presente? - Sorri.

- Mais ou menos.

Cutuquei o ombro dele com o meu e disse que poderíamos nos encontrar qualquer dia desses.

Perguntei se Emma poderia ir junto.

Ele concordou, olhou para mim e perguntou baixinho:

- Qual é a pior parte?

Essa era fácil de responder.

- Tem horas que Emma faz algo muito engraçado, e eu chamo Steven pra ver. Depois, paro e

lembro. - A pior parte de perder uma pessoa amada é que você também se perde. Levei o dedo à

boca e comecei a roer a unha. - Chega de falar de tristeza. E você? Ainda namorando Patty?

Ele se encolheu.

- Nós não nos falamos mais.

Não fiquei surpresa. Tanner levava os relacionamentos tão a sério quanto Faye.

- Bem, somos parecidos e tristes.

Ele riu e ergueu a garrafa de tequila, servindo mais um shot.

- Um brinde a nós.

O resto da noite meio que passou batido. Lembro que ri de coisas que não eram engraçadas,

chorei por coisas que não eram tristes e foi a melhor noite que tive nos últimos tempos. Quando

acordei na manhã seguinte, estava deitada na minha cama sem saber como tinha chegado lá. Eu não

dormia ali desde o acidente. Peguei o travesseiro de Steven e o abracei. Senti o cheiro da fronha de

algodão e fechei os olhos. Eu não podia mais negar que aquela era a minha casa, mesmo que não

sentisse isso naquele momento. Essa era minha nova normalidade.

Capítulo 6

Elizabeth

Sam apareceu durante a semana para trocar as fechaduras. Eu sabia que Faye o chamava de esquisito,

mas ele era tão simpático que achei fácil gostar dele. Seu cabelo loiro era todo espetado, e os óculos

retangulares escondiam seus olhos castanhos e suaves. Ele falava comigo bem baixinho,

desculpando-se o tempo todo, gaguejando um pouco e achando que havia me ofendido quando não

tinha feito nada de mais.

- Algumas estão bem ruins, mas a maioria das fechaduras, na verdade, está em bom estado. Quer

que eu troque todas? Tem certeza? Desculpe, foi uma pergunta idiota. Eu não estaria aqui se você

não quisesse trocar todas elas. Me perdoe - desculpou-se.

- Imagina, está tudo bem. - Sorri. - Só quero recomeçar minha vida com tudo novo.

Ele ajeitou os óculos no nariz.

- É claro. Acho que consigo terminar tudo em algumas horas.

- Perfeito.

- Olha, deixa eu te mostrar uma coisa. - Ele correu até o carro e voltou com um objeto pequeno

na mão. - Acabou de chegar uma câmera de segurança na loja do meu pai, caso você tenha

interesse. Elas são pequenas e bem fáceis de esconder. Poderíamos colocar algumas para você se

sentir mais segura. Se eu fosse uma mulher bonita como você, e morasse sozinha com uma filha

pequena, iria querer me sentir mais segura.

Sorri, mas dessa vez com cautela.

- Vou pensar no assunto. Muito obrigada, Sam.

- Sem problemas. - Ele riu. - A única pessoa que comprou até agora foi o Tanner. Acho que as

câmeras não vão vender tanto quanto meu pai esperava.

Sam era ágil e muito bom. Antes que eu me desse conta, todas as fechaduras da casa estavam

trocadas, novinhas em folha.

- Posso ajudar em algo mais? - perguntou.

- Não, só isso mesmo. Preciso ir, tenho que estar no café em dez minutos. Meu carro

simplesmente morreu, e vou andando até lá.

- De forma alguma. Eu te dou uma carona - ofereceu ele.

- Não precisa. Posso ir andando.

- Já está garoando, e a chuva pode ficar mais forte. Não tem problema, eu te levo.

- Tem certeza?

- Claro que sim. - Ele abriu a porta do passageiro de sua caminhonete. - Sem problemas.

Durante o caminho, Sam me perguntou por que Faye não gostava dele, e tentei explicar, da

melhor maneira possível, que Faye não gostava de ninguém à primeira vista.

- Dê um tempo a ela, vocês vão acabar se entendendo.

- Ela disse que eu tinha todas as características de um psicopata.

- Eu sei. Ela é um pé no saco.

- E é sua melhor amiga.

- A melhor que alguém poderia ter - respondi, orgulhosa.

O restante do caminho foi tranquilo. Sam apontava para todas as pessoas pelas quais passávamos

e relatava tudo que sabia sobre elas. Ele me contou que, como todos o achavam esquisito,

normalmente o ignoravam, e ele acabava ouvindo todas as fofocas da cidade.

- Aquela ali é a Lucy - indicou Sam, apontando para uma garota que estava ao celular. - Ela é

a melhor soletradora da cidade. Ganhou o concurso anual de soletração nos últimos cinco anos. E

aquela ali é a Monica. O pai dela é um alcoólatra que finge estar sóbrio, mas, cá entre nós, sei que ele

bebe no bar da Bonnie Deen todas as sextas-feiras. E aquele lá é o Jason. Ele me deu uma surra

alguns meses atrás porque achou que eu o xinguei. Depois se desculpou e disse que estava chapado.

- Uau! Você realmente sabe tudo sobre todo mundo.

Ele concordou:

- Você tem que ir comigo a um desses conselhos de moradores da cidade. Vou te mostrar a

loucura que é esse lugar.

- Ótima ideia. - Sorri.

Quando estacionamos o carro, senti um frio na barriga ao olhar para o outro lado da rua.

- E aquele ali? - perguntei ao ver Tristan passar correndo, com fones no ouvido. Quando

chegou à loja do Sr. Henson, ele tirou os fones e entrou. - Qual é a história dele?

- Tristan? Ele é grosseiro e meio desequilibrado.

- Desequilibrado?

- Bom, ele trabalha para o Sr. Henson. A pessoa tem que ter um parafuso a menos pra lidar com

ele. O Sr. Henson pratica vodu e essas esquisitices no quartinho dos fundos. É muito bizarro. Ainda

bem que Tanner está tentando fechar a loja.

- Por quê?

- Você não soube? Tanner quer aumentar a oficina, e a loja do Sr. Henson está impedindo a

expansão. Parece que ele está tentando iniciar uma campanha para forçar o Sr. Henson a desistir da

loja, com o argumento de que o local é um desperdício de espaço para a cidade, já que ninguém

entra lá.

Fiquei imaginando qual era a verdadeira história por trás da loja do Sr. Henson e o motivo de

Tristan estar trabalhando lá.

Durante meu turno, eu olhava de vez em quando para a loja do outro lado da rua, onde Tristan

estava arrumando alguns objetos. O local era cheio de coisas esotéricas; cristais, cartas de tarô,

varinhas mágicas...

- Você tem um vibrador?

Quando a pergunta saiu da boca da minha melhor amiga, quase derrubei os três pratos de

hambúrguer com fritas que estava carregando.

- Faye! - protestei baixinho, nervosa e ruborizada.

Seu olhar percorreu o café; ela estava chocada com minha reação diante da pergunta, digamos,

inapropriada.

- O que foi? Parece até que estou perguntado se você tem herpes. Vibradores são objetos

normais nos dias de hoje, Liz. Outro dia mesmo eu estava pensando em sua pobre vagina, velha e

seca.

Meu rosto pegou fogo.

- Quanta consideração. - Ri, colocando os pratos diante de três senhoras que olhavam para nós

com desprezo. - Mais alguma coisa? - perguntei a elas.

- Talvez sua amiga precise de um filtro.

- Acreditem, eu já disse isso a ela. - Dei um sorriso e caminhei até Faye, suplicando para que

ela fosse mais discreta com relação a vaginas e afins.

- Liz, só estou dizendo que já faz tempo, né? Como está a situação aí embaixo? Está tipo George,

o rei da floresta encontra As supergatas? Você tem mais cabelo aí embaixo do que aqui em cima? -

Ela deu um leve tapinha na minha cabeça.

- Eu me nego a responder isso.

Ela colocou a mão no bolso do avental e tirou um caderninho preto que antigamente sempre nos

metia em encrenca.

- O que você está fazendo? - perguntei, preocupada.

- Vou procurar um pau pra te ajudar hoje à noite.

- Faye, não estou pronta para sentir qualquer coisa por alguém.

- E o que sexo tem a ver com sentimentos? - argumentou ela, séria. Eu não sabia nem como

abordar o assunto. - Enfim, conheço um cara que pode tirar as ervas daninhas do seu jardim. O

nome dele é Edward. Ele é um gênio criativo pra essas coisas. Uma vez, ele até fez um coraçãozinho

lá embaixo pra mim no dia dos namorados.

- Você é muito perturbada.

Faye sorriu.

- Eu sei, mas posso marcar um horário pra você com o Edward mãos de tesoura, e depois você

vai escolher um cara bem legal no meu caderninho e vai passar uma noite com ele - sugeriu ela.

- Uma noite de sexo casual... Isso não é para mim.

- Tudo bem. Pode ser de manhã, se você preferir. - Ela deu um risinho. - É sério, Liz. Você já

pensou em voltar a namorar? Pelo menos sair com alguns caras? Não precisa ser nada sério, mas

poderia fazer bem a você. Não quero que fique presa nesse limbo!

- Não estou presa num limbo - retruquei, um pouco ofendida. - É só que... eu tenho uma filha

e faz apenas um ano que Steven morreu.

Uau.

O modo como aquela frase saiu da minha boca, quase sem emoção, me deixou impressionada.

- Não falei por mal. Você sabe que eu te amo e o quanto Steven era importante pra mim.

- Eu sei...

- Olha, sei que sou meio promíscua, mas mesmo pessoas como eu já tiveram decepções

amorosas, e, pra mim, quando as coisas estão complicadas, sexo sempre ajuda.

- Acho que não estou pronta pra isso, mas prometo que vou pensar no assunto.

- Eu entendo, amiga. Quando você achar que chegou a hora e que precisa do meu caderninho, é

só avisar.

- Seu caderninho está meio pequeno. Jurava que ele era maior. - Dei uma risada.

Ela colocou a mão no bolso do avental de novo e pegou mais dois cadernos iguais ao primeiro.

- Imagina. Eu só estava fingindo humildade mostrando um de cada vez.

Na hora do intervalo, fui vencida pela minha curiosidade e acabei entrando na loja do Sr. Henson.

Em poucos segundos, pude perceber que ele vendia todo tipo de artigo esotérico. Metade do espaço

da loja era ocupado por um café, e a outra metade mais parecia um closet repleto de objetos que eu

conhecia apenas de histórias sobrenaturais.

A sineta da porta tocou quando eu entrei, e o Sr. Henson e Tristan se entreolharam, confusos.

Tentei agir da forma mais natural possível. Explorei a loja, mesmo sabendo que eles ainda me

observavam.

Parei por um momento e peguei um livro de uma prateleira. Um livro de feitiços? Ok, tudo bem.

As páginas estavam unidas por um barbante e cobertas de poeira. Peguei outro. Os dois pareciam

mais velhos do que empoeirados, mas mesmo assim eram bonitos. Meu pai adorava descobrir

grandes pérolas da literatura em sebos. Ele tinha uma coleção enorme de livros de diferentes gêneros

e idiomas em seu escritório. Muitos não tinham qualquer utilidade para ele, mas ele adorava sentir a

textura das capas e admirá-las.

- Quanto por esses dois? - perguntei ao Sr. Henson. Ele continuou em silêncio e ergueu a

sobrancelha. - Desculpe, a loja está fechada? - Quando vi o olhar de Tristan, segurei os livros

junto ao peito e fiquei vermelha na hora. - Oi.

Para meu alívio, o Sr. Henson interveio.

- Ah! Não, não. Está aberta. É que não recebemos muitas clientes. Especialmente, tão bonitas

como você - respondeu o dono da loja, sentando-se no balcão. - Qual é o seu nome, minha

querida? - A pergunta dele fez com que eu parasse de olhar para Tristan, e então pigarreei, aliviada

pela distração.

- Elizabeth. E o do senhor?

- Sou o Sr. Henson. Se eu não fosse quatrocentos anos mais velho que você e não me sentisse tão

atraído pela anatomia masculina, provavelmente iria convidá-la para dançar.

- Dançar? Por que o senhor acha que uma garota como eu gostaria de dançar?

O Sr. Henson não respondeu, mas ficou com aquela expressão de deleite no rosto.

Sentei-me ao lado dele e perguntei:

- Essa loja é sua?

- É, sim. Cada pedacinho e metro quadrado. A não ser que você a queira. - Ele riu. - Porque,

se você quiser, ela é sua. Cada pedacinho e metro quadrado.

- É uma oferta tentadora. Mas tenho que confessar que já li todos os livros de Stephen King pelo

menos umas cinco vezes, e a ideia de ter uma loja como esta chamada Artigos de Utilidade me

assusta.

- Cá entre nós, pensei no nome Artigos Para Sua Prece Ser Atendida, mas não sou muito

religioso.

Tristan e eu rimos.

Olhei para ele, feliz por estarmos achando graça da mesma coisa, mas, na mesma hora, ele fechou

a cara.

Voltei a olhar para os livros.

- Tudo bem se eu levar estes?

- São seus, pode levar. De graça.

- Ah, não... quero pagar.

Acabamos entrando numa discussão sobre eu pagar pelos livros ou não, mas eu não cederia. O Sr.

Henson entregou os pontos.

- É por isso que prefiro homens. As mulheres são muito parecidas comigo. Volte outro dia e vou

fazer uma leitura de tarô de graça pra você.

- Parece uma ótima ideia.

Ele se levantou e começou a andar.

- Tristan, cuide dela. - O Sr. Henson virou-se na minha direção e assentiu levemente com a

cabeça antes de desaparecer no estoque.

Tristan foi até o caixa, e eu o segui.

Coloquei os livros lentamente sobre o balcão. Vi algumas fotos em preto e branco de uma floresta

emolduradas em uma parede atrás dele.

- Que bonito - falei, admirando o trabalho.

Tristan calculou o valor dos livros.

- Obrigado.

- Foi você quem tirou?

- Não - respondeu ele, olhando para as fotos. - Esculpi e acrescentei a tinta preta.

Meu queixo caiu quando cheguei mais perto da imagem. Ao observá-la com atenção, vi que as

"fotos", na verdade, eram desenhos entalhados em madeira.

- Que lindo! - murmurei novamente. Quando nossos olhares se cruzaram, senti de novo aquele

frio na barriga. - Oi - repeti, suspirando. - Como vai?

Ele continuou a fazer as contas, ignorando minha pergunta.

- Vai pagar por essa porra ou não vai?

Franzi a testa, mas ele nem ligou.

- Desculpe. Sim. Aqui está - falei, entregando-lhe o dinheiro. Agradeci antes de sair da loja e

olhei para ele mais uma vez. - Você age com estupidez o tempo todo, e a cidade acha que você é

um grosso, mas eu te vi naquela sala de espera quando soube que Zeus ia ficar bem. Vi você chorar.

Você não é um monstro, Tristan. Só não entendo por que finge ser.

- Esse é o seu maior erro.

- Qual? - perguntei.

- Você pensa que sabe alguma coisa sobre mim.

            
            

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