Alguns dias depois, Sam ligou para saber se eu queria sair com ele na sexta-feira. Achei até que ele
tinha esquecido, porque já fazia um tempo desde que ele me convidou para dar uma volta pela
cidade, mas acho que algumas pessoas são mais lentas mesmo. Na sexta, ele apareceu na minha casa
dirigindo a caminhonete da loja do pai. Da janela, observei-o sair do carro e ajeitar a gravata-
borboleta. Ele começou a andar na direção da casa, mas depois parou e voltou. Fez isso umas cinco
vezes antes de, finalmente, chegar à varanda. Diante da porta, hesitou, tentando decidir se batia ou
não.
Tristan se aproximou por trás de mim e ficou analisando os movimentos de Sam.
- Ahh, você tem um encontro hoje à noite?
Tristan passava uns dias no meu quarto de hóspedes enquanto a casa dele estava sendo pintada.
Naquela noite, apresentei a ele algumas ideias e avaliamos minhas sugestões de decoração. Ele não
parecia nem um pouco interessado, mas eu estava muito feliz em trabalhar novamente numa coisa
que amava.
- Não é bem um encontro - respondi. - Só vamos passear um pouco pela cidade, sair de casa.
- Tristan ergueu a sobrancelha. - Por quê? Algum problema? - perguntei.
- Você sabe que pra ele isso é um encontro, não sabe?
- O quê? Não, nada disso. Ele só não quer que eu fique trancada em casa. - Tristan me dirigiu
um olhar do tipo "a quem você pensa que está enganando?". - Cala a boca, Tris.
- Eu só quero dizer que, na cabeça do nosso amigo stalker, é um encontro, sim.
- O quê? Como assim, stalker? - perguntei baixinho. Tristan olhou para mim, rindo, e se
afastou. - Tristan! O que quer dizer com isso?
- Desde que se mudou pra cá, ele tem fama de ser muito... assertivo, só isso. Eu já o vi seguindo
várias garotas na cidade durante as minhas corridas. Ele falou aonde vai te levar?
- Sim, e não é um lugar nada propício a um encontro. Acho que você está totalmente enganado.
- Na reunião do conselho da cidade?
- Exato! - exclamei, animada com a ideia. - E você não levaria alguém à reunião do conselho
se quisesse ter um encontro romântico. - Tristan comprimiu os lábios, como se estivesse segurando
o riso. - Para com isso! - Ouvi uma batida na porta. - Ele não pode achar que é um encontro,
certo?
- Aposto 10 dólares que o stalker vai perguntar, durante o discurso do xerife Johnson, se você
não quer ir depois da reunião naquele bar-karaokê que sempre tem peixe frito e música pra dançar.
- Você não vai querer me pagar os 10 dólares.
- Isso mesmo, não quero. Mas não faz diferença, porque sei que vou ganhar a aposta -
debochou ele, confiante. - O stalker vai dar em cima de você.
Segunda batida na porta.
- Pare de chamá-lo de stalker! - sussurrei, sentindo meu batimento acelerar. - Ele não vai me
convidar pra ir ao bar.
- Quer apostar ou não? - perguntou Tristan, estendendo a mão.
Apertei a mão dele.
- Tudo bem, 10 dólares que não é um encontro.
- Ah, Lizzie, esse é o dinheiro mais fácil que já ganhei.
O apelido saiu de seus lábios naturalmente. Quando soltei sua mão, tentei disfarçar o quanto isso
havia me deixado abalada.
Terceira batida na porta.
- O que foi?
- Você me chamou de Lizzie. - Ele ergueu a sobrancelha, confuso. - É que... só Steven me
chamava assim.
- Desculpe. Foi sem querer.
- Não, não. Eu gostei.
Senti falta disso... Dei um sorriso. Ficamos nos olhando como se nossos pés estivessem presos no
chão. Desviei o olhar para a pequena tatuagem inacabada na mão esquerda de Tristan; às vezes, olhar
direto nos olhos dele era muito difícil.
- Eu gostei - repeti.
- Então vou continuar a te chamar assim.
Quarta batida na porta.
- Bom, acho que você deveria...
Tristan inclinou a cabeça na direção da porta. Assenti e corri para abrir a porta para Sam, que
estava com um sorriso imenso no rosto, segurando um buquê de flores.
- Oi, Elizabeth. - Sam me entregou as flores. - Nossa, você está muito bonita. São pra você.
Eu estava lá fora e percebi que não tinha comprado nada, nem sei por quê. Então, peguei essas flores
do seu jardim. - Ele olhou para Tristan, que estava em pé, perto de nós. - O que esse idiota está
fazendo aqui?
- Ah, Sam. Esse é Tristan. Tristan, esse é Sam. A casa do Tristan está sendo pintada, e ele está
passando uns dias aqui, comigo e com Emma.
Tristan estendeu a mão para Sam, com seu belo sorriso no rosto.
- Prazer em conhecê-lo, Sam.
- O prazer é meu - disse Sam, cauteloso.
Tristan deu uns tapinhas nas costas dele, sarcástico.
- Não precisa ser tão formal. Fique à vontade pra me chamar de idiota.
Eu ri. Que babaca.
Sam pigarreou.
- Desculpe pelas flores. Eu deveria ter comprado alguma coisa na cidade, mas...
- Não se preocupe, cara - falou Tristan, ciente de que estava deixando Sam ainda mais
desconfortável. - Por que você não entra e senta na sala com Elizabeth enquanto eu procuro um
vaso para colocar as flores?
- Tá. Tudo bem - concordou Sam, permitindo que eu pegasse as flores da mão dele. -
Cuidado. Tem espinhos.
- Não se preocupe. Obrigada, Sam. Sente um pouco, eu já volto.
Tristan já estava rindo quando pus os pés na cozinha.
- Se você continuar a me olhar desse jeito, vou te bater, Tristan. Isso não é um encontro. - Ele
riu, dissimulado. - Não mesmo!
- Ele roubou flores do seu jardim pra te dar. É muito mais sério do que eu pensava. Ele te ama.
Um amor tipo Bonnie e Clyde.
- Você é muito bobo.
Tristan começou a encher o vaso de água. Quando dei as flores para ele, um espinho espetou meu
dedo e praguejei ao ver o sangue.
- Droga!
Ele pegou as flores, ajeitou-as no vaso e segurou minha mão, examinando o pequeno ferimento
no meu dedo.
- Não é nada profundo - disse ao limpar o sangue com um pano. Senti um frio na barriga.
Tentei ignorá-lo ao máximo, mas a verdade era que cada toque de Tristan era gentil, amável e bem-
vindo. - Sam acertou uma coisa - acrescentou ele, olhando para o meu dedo.
- O quê?
- Você está muito bonita. - Ele chegou perto, ainda segurando minha mão. Eu gostava dessa
proximidade. Adorava essa proximidade. A respiração dele estava ofegante. - Lizzie?
- Sim?
- Seria loucura se eu te beijasse? Quer dizer, se eu beijasse você e não a memória de Jamie? -
Seus olhos perscrutaram meus lábios. Meu coração disparou quando ele colocou uma mecha de
cabelo solto atrás da minha orelha. Ele pigarreou e se afastou. - Desculpe. Deixa isso pra lá. -
Pisquei algumas vezes, tentando dissipar o nervosismo. Não funcionou. Tristan passou a mão pela
nuca. - É melhor você voltar para o seu encontro.
- Não é um... - comecei a dizer, mas, quando percebi que ele estava rindo, desisti. - Tenha
uma boa noite.
Ele assentiu.
- Você também, Lizzie.
Na tribuna, Tanner discursava sobre a razão pela qual a Artigos de Utilidade deveria ser fechada.
Eu me senti mal ao ouvi-lo falar do Sr. Henson, que estava sentado numa fileira ao fundo, mas não
parecia nem um pouco preocupado com Tanner.
Eu nunca tinha visto aquele lado de Tanner, de empresário ambicioso. Aquele que diria qualquer
coisa para conseguir o que queria, mesmo que para isso tivesse que passar por cima de um velhinho
bonzinho.
Aquilo me deu nojo.
- Tanner tem bons argumentos para a loja ser fechada. Ele diz que é uma perda de espaço,
porque ninguém nunca vai lá - comentou Sam.
- Acho que a loja é ótima.
Ele demonstrou surpresa.
- Você já foi lá?
- Várias vezes.
- E não apareceu nenhuma verruga ou algo do tipo em você? O Sr. Henson pratica vodu e magia
negra no quarto dos fundos. Quando Molly, a gata dos Clinton, sumiu, alguém a viu perto da loja. E
depois ela se tornou um pit bull. Sem brincadeira! Até respondia quando a chamavam pelo nome.
Foi muito bizarro.
- Você não acredita nisso de verdade, acredita?
- Claro que acredito. Estou até surpreso por você não ter saído de lá com um terceiro olho ou
outra coisa estranha.
- Eu saí, sim. É que eu sou ótima com maquiagem.
Ele riu.
- Você me faz rir, Elizabeth. Eu gosto disso.
Sam ficou me encarando. Ah, não...
Quebrei o clima e apontei para outra pessoa.
- E eles? Qual é a história deles?
Não deu tempo de aguardar a resposta, pois o xerife Johnson se dirigiu à tribuna.
Na hora em que ele pegou o microfone para falar, eu soube que tinha perdido a aposta e que
estava devendo 10 dólares para Tristan. Exatamente como ele disse, Sam se aproximou e sussurrou
no meu ouvido.
- Eu estava pensando, que tal irmos comer um peixe frito depois? O lugar é muito legal, com
música e tal. É divertido.
Sorri. Não queria desapontá-lo. Ele parecia tão esperançoso.
- Bem... - Os olhos de Sam brilhavam de excitação. - Eu adoraria.
Ele tirou o boné da cabeça e bateu-o no joelho.
- Legal, legal, legal, legal.
Sam não conseguia parar de sorrir, e eu não conseguia parar de pensar que acompanhá-lo seria
um grande erro. Além do mais, eu já estava 10 dólares mais pobre.
Sam e eu nos sentamos e ficamos assistindo às pessoas dançando, já meio bêbadas. Eu o fiz contar
um pouco da história de cada uma delas. Em determinado momento, ele se virou para mim.
- Espero que esteja se divertindo.
- Estou.
Dei um sorriso.
- Talvez a gente possa repetir esse encontro...
Meu rosto assumiu uma expressão tensa.
- Sam, você é uma pessoa maravilhosa, mas não estou preparada para um novo relacionamento.
Você entende? Minha vida está uma bagunça.
Ele riu, nervoso, e assentiu.
- Eu entendo. Só pensei... - Ele colocou a mão no meu joelho, e nossos olhos se encontraram.
- Eu tinha que tentar. Tinha que correr o risco.
- Fico feliz por você ter feito isso.
- Você disse que não está pronta para um relacionamento... Tem certeza de que isso não tem
nada a ver com seus sentimentos por Tristan?
- O quê?
- Eu conheço as pessoas, lembra? Vi o modo como ele olhou pra você na sua casa. Ele te deixa
feliz. Acho que isso é legal.
- Somos apenas amigos.
Ele não tocou mais no assunto. Aproveitei para dar um leve esbarrão em seu ombro:
- Tem certeza de que você não quer dançar?
Ele cruzou os dedos e baixou os olhos.
- Não sou muito bom dançando. Prefiro observar.
- Vamos lá - falei, estendendo a mão para ele. - Vai ser divertido.
Sam hesitou um pouco antes de pegar minha mão. Fomos até a pista, e vi que ficava cada vez
mais nervoso. Ele baixou os olhos para seu tênis branco, e parecia contar mentalmente os passos da
dança.
Um.
Dois.
Três.
Um.
Dois.
Três.
- Estabelecer contato visual ajuda - sugeri, mas ele nem retrucou. Continuou contando, seu
rosto ficando vermelho de nervoso. - Acho que quero beber água...
Seus olhos encontraram os meus.
- Posso pegar pra você - ofereceu Sam, aliviado por não ter que dançar mais. Voltei para o
nosso lugar, e logo ele chegou com a água. - Aqui é legal, não é?
- É sim.
Ele pigarreou e apontou para uma pessoa na pista.
- Aquela ali é Susie. Acho que ela já ganhou várias vezes o primeiro lugar no concurso de quem
come mais cachorros-quentes na feira da cidade. E ali está...
- E você, Sam? Me conte algo sobre você.
Percebi a hesitação em seu olhar. Ele piscou e deu de ombros.
- Não tenho muito pra contar.
- Acho que não é verdade. Por que você trabalha no café se seu pai ofereceu uma vaga em
período integral na loja dele?
Ele avaliou meu rosto, e eu o dele. Sam tinha olhos lindos, e através deles pude notar seu
desconforto.
Ele desviou o olhar.
- Meu pai quer que eu cuide dos negócios, mas não é isso que eu quero.
- E o que você quer?
- Ser chef. Achei que trabalhar no café seria um começo, eu poderia aprender um pouco e
economizar pra faculdade. Mas nunca me deixam entrar na cozinha. É meio que andar pra trás.
- Posso falar com Matty e pedir que você fique na cozinha de vez em quando.
Um sorriso genuíno surgiu em seus lábios. Ele agradeceu, mas recusou minha oferta, dizendo que
precisava fazer aquilo sozinho. E então se levantou.
- Bom, isso aqui está muito "sessão de terapia" para o meu gosto, então vou lá pegar mais peixe
frito. Você quer?
Eu balancei a cabeça e o vi se afastar.
- Graças a Deus você ainda está viva - murmurou uma voz perto de mim. Virei-me e vi Tristan
se sentando no lugar que antes tinha sido ocupado por Sam.
- O que você está fazendo aqui? - Estou tão feliz por você estar aqui. Gosto da sua companhia.
Faz de novo aquela pergunta sobre o beijo.
- Bom - começou ele a explicar -, quando uma amiga sai num encontro com um stalker, é
responsabilidade do amigo ter certeza de que ela está bem.
Amigo.
Fiquei na friendzone. Pergunta do beijo, por favor!
- E desde quando você é um amigo responsável? - perguntei brincando, parecendo bastante
tranquila, quando, na verdade meu estômago estava dando piruetas e unicórnios e gatinhos
dançavam loucamente dentro de mim.
- Faz uns... - Ele deu uma olhada em um relógio invisível no braço direito. - Cinco segundos.
Achei que seria divertido vir aqui e observar essa baboseira de vocês.
Ele bateu com os dedos no joelho de leve, evitando estabelecer contato visual comigo..
Ai, meu Deus...
Ele estava com ciúmes.
Eu jamais zombaria dele com relação a isso.
- Quer dançar comigo? - perguntei.
Quando ele estendeu a mão, meu coração deu um salto. Segurei a mão dele e fomos para a pista.
Ele me girou antes de me puxar para perto do seu corpo. Senti minha respiração ofegante e olhei nos
olhos de Tristan. O que será que está se passando nesses olhos sombrios? Ele era mais alto que eu, e
seus braços me seguravam bem firme. Eu conseguia sentir todos os olhares voltados para nós, quase
podia ouvir os comentários maldosos, os murmúrios.
Abaixei a cabeça e olhei para o chão. Senti o dedo dele erguer meu queixo, me forçando a encará-
lo novamente. Eu gostava de olhar para Tristan, de ver a forma como ele me fitava. Nós dois ali, nos
perdendo um no outro... Eu não sabia muito bem o que isso significava.
- Você mentiu pra mim - disse a ele.
- Nunca.
- Mentiu, sim.
- Não sou mentiroso.
- Mas mentiu.
- Sobre o quê?
- As plumas brancas. Eu vi o recibo. Você falou que as tinha encontrado na loja do Sr. Henson.
Ele riu e ergueu a sobrancelha.
- Talvez eu tenha mentido sobre isso.
Cheguei bem perto de seus lábios, a segundos de beijá-lo, a segundos do primeiro beijo em que
seríamos eu e ele.
Minhas mãos pousaram em seu peito e senti as batidas de seu coração. A música parou, mas nós
continuamos próximos, respirando juntos, ofegantes e nervosos. Agitados e ansiosos. O dedo dele
percorreu minha nuca, e ele se aproximou. Eu gostava dessa proximidade. Eu a temia. Ele inclinou
levemente a cabeça e sorriu, como se prometesse nunca mais desviar os olhos de mim.
Todos falavam mal de Tristan, imploravam para que eu não me aproximasse dele. Ele é um grosso,
um desequilibrado, um homem devastado, Liz, todos diziam. Ele não é nada além das cicatrizes do
passado, garantiam.
Mas as pessoas não o viam como ele era. Ignoravam o fato de que eu também era meio esquisita,
meio desequilibrada e estava completamente devastada.
Mas, quando estava com ele, eu me lembrava de como respirar.
- Você se importa se trocarmos de par? - interrompeu uma voz familiar. Vi Tanner sorrindo,
com Faye em seus braços.
Retribuí o sorriso, mesmo querendo fechar a cara.
- Claro que não.
Tanner pegou minha mão, Tristan pegou a de Faye. Eu já sentia falta dele, mesmo estando a
poucos passos de distância.
- Não fique tão desapontada - disse Tanner. - Sei que tenho dois pés esquerdos, mas ainda
consigo mexer o quadril muito bem - brincou ele.
- Lembro de uma festa em que você foi eleito o pior dançarino.
Ele fez uma careta.
- Ainda acho que deveria ter vencido aquele concurso, com aquela performance do carrinho de
compras. Mas com seu marido como jurado, eu sabia que estava ferrado.
Eu ri.
- Aquela performance? Como foi mesmo?
Ele deu dois passos para trás e fingiu que estava empurrando um carrinho de compras e
colocando coisas dentro. Ele começou a pegar itens invisíveis para passar no caixa, e em seguida
fingiu colocá-los nas sacolas. Eu não conseguia parar de rir. Ele também riu e voltou a dançar
comigo.
- Perfeito. Você realmente deveria ter vencido naquela noite.
- Verdade? - Ele mordeu o lábio inferior. - Fui sacaneado.
- Não se preocupe. Tenho certeza de que haverá muitas festas no futuro e você ainda vai
conseguir a vitória.
Ele assentiu e ajeitou meu cabelo atrás da orelha.
- Meu Deus, como senti sua falta, Liz.
- Poxa, eu também senti falta de todo mundo. É tão bom sentir algo novamente...
- Sim, isso deve ser maravilhoso. Bom... Não tem jeito, esse é o momento em que preciso limpar
a garganta e dar um pequeno salto no escuro. Liz, você quer sair pra jantar comigo?
- Jantar? - perguntei, assustada com o convite. - Como um encontro? - Com o canto do
olho, vi Tristan dançando com Faye.
- Bom, não como um encontro. Só uma saída mesmo. Eu e você. Sei que pode até parecer
estranho, mas...
- Eu meio que estou ficando com alguém, Tanner.
Seu rosto ficou sério, e ele pareceu confuso.
- Ficando com alguém? - Ele se empertigou, perplexo. - Você está ficando com Sam? Sei que
vocês vieram juntos, mas não imaginei que ele fosse seu tipo. Não pensei...
- Não é o Sam.
- Não? - Ele olhou em volta e parou em Tristan e Faye. Quando olhou para mim novamente,
toda a alegria de minutos atrás tinha desaparecido. O rosto dele estava branco, e dava para ver sua
irritação. - Tristan Cole?! Você está saindo com Tristan Cole?! - perguntou quase gritando.
Recuei. Eu não estava exatamente saindo com Tristan. Eu nem tinha ideia do que ele sentia por
mim, mas sabia que sentia algo por ele e não podia mais ignorar isso.
- Você volta à cidade e escolhe a pior pessoa do universo pra namorar - continuou Tanner.
- Ele não é tão mau como todos pensam.
- Tem razão, ele é muito pior.
- Tanner... - Pousei as mãos em seu peito. - Não planejei nada. Eu não queria sentir o que
sinto por ele, mas você sabe que não escolhemos por quem nos apaixonamos.
- Sim, nós podemos escolher sim. Tristan e o Sr. Henson não são pessoas com as quais você
deveria conviver.
- Qual é o seu problema com a loja do Sr. Henson? Ele é um dos homens mais gentis que
conheci.
Ele coçou o nariz.
- Você está enganada, Liz. Temo por você, porque sei que ele vai te machucar.
- Ele não vai me machucar. - Tanner não acreditava em mim. Estava convicto de que Tristan e
eu juntos éramos a pior coisa do mundo, exatamente como o resto da cidade. - Isso não vai
acontecer. Para com isso - falei, puxando-o para perto, sentindo a tensão em seu corpo. - Apenas
dance com sua amiga e pare de se preocupar tanto.
- Temo pelo seu coração, Liz. Depois do Steven, você ficou destruída. Não quero ver seu coração
despedaçado de novo.
Ah, Tanner.
Encostei a cabeça em seu peito e ele passou os dedos pelo meu cabelo.
- Vou ficar bem. Prometo.
- E se não ficar?
- Bem, então vou precisar que você me abrace de vez em quando.
Capítulo 22
Tristan
- Acho que ainda não fomos apresentados oficialmente - disse Faye, enquanto dançávamos
juntos. - Então você é o pênis que está passeando pela vagina da minha melhor amiga.
Bem, não deixa de ser.
- E você é a melhor amiga totalmente inconveniente.
Ela abriu um grande sorriso.
- Sou mesmo. Olha, esse é o momento em que eu falo que se você machucar Liz, eu te mato.
Eu ri.
- Nós somos só amigos.
- Você está de brincadeira, não está? Meu Deus. Vocês dois são os seres humanos mais
ignorantes do planeta. Sério, você não percebeu que minha melhor amiga está se apaixonando por
você?
- O quê?
- Olha pra ela! - exclamou Faye, voltando-se na direção de Elizabeth. - Ela não para de olhar
pra nós, porque está com medo de você me fazer rir, ou de que eu toque suas bolas, ou de que bata
um vento e seu pau vá parar na minha boca!
- Peraí, o quê?
- Ah, cacete! Vou ter que desenhar? Ela está com ciúmes, Tristan!
- De nós?
- De qualquer pessoa que olhar pra você. - Faye ficou séria. - Só vai com calma, tá? Não
destrua o coração dela. Já está em pedaços.
- Não se preocupe. - Dei de ombros. - O meu também está. - Percebi Tanner me encarando.
- E ele? Também está com ciúmes e secretamente apaixonado por mim?
Faye encarou Tanner com desprezo.
- Não. Ele só te odeia mesmo.
- Por quê?
- Porque, por alguma razão, Liz escolheu você e não ele. Posso contar um segredo?
- Acho que não. Não.
Ela sorriu.
- Não importa, vou te contar de qualquer jeito. Na véspera do casamento da Liz e do Steven, à
noite, Tanner apareceu cambaleando, bêbado, na casa dela. Ela já estava dormindo, e por sorte eu
abri a porta. Ele disse que Liz estava cometendo um erro, que ela deveria se casar com ele, e não com
Steven.
- Ele é apaixonado por ela esse tempo todo?
- Amor, tesão, querer o que não pode ter, eu não sei. De qualquer forma, ele está arrasado,
porque ela voltou para a cidade e não deu a menor bola para ele. Provavelmente, Tanner pensou que,
quando ela voltasse, eles ficariam juntos, mas levou um baita soco no estômago quando ela pegou o
maior idiota da cidade. - Ela parou e sorriu. - Sem ofensa.
- Obrigado pela parte que me toca.
Girei e puxei-a para perto de mim.
- Só para registrar, não te acho mais um idiota. - Faye abriu um sorriso ainda maior. - Dentro
de algumas semanas será aniversário da Liz, e você está convidado para a festa. Vai ser uma
excelente oportunidade pra ela dançar em cima do balcão de um bar e se livrar dos demônios que a
assombram de vez em quando, e você terá total permissão pra usar a vagina dela nessa noite.
Eu ri.
- Você é muito generosa.
- O que posso dizer? - Ela piscou. - Sou uma amiga maravilhosa.
Depois de dançar com Faye, sentei no canto do salão, tentando absorver tudo que havia
descoberto. Vi Elizabeth falando com Sam e abraçando-o, antes de ele ir embora. Acho que a noite
deles acabou. Bom. Quando Elizabeth sentou-se à minha frente, não consegui ignorar as batidas
descompassadas do meu coração.
- Parece que você e Faye se entenderam muito bem - comentou ela.
- Posso dizer a mesma coisa de você e do Tanner - respondi.
- Não é a mesma coisa. Eu e Tanner somos só amigos. Então... ela te convidou pra uma noite de
sexo casual? Aposto que você disse sim. Mas não acho que seja uma boa ideia, com todos os
problemas pelos quais você está passando. - Ela mordeu o lábio inferior. - Ela te convidou para
sair?
Ergui uma sobrancelha diante de sua pergunta atrevida.
- Essa pergunta é séria?
- Só estou dizendo que enfiar seu pau numa mulher não é a melhor forma de lidar com o
estresse da vida.
- Mas não era exatamente isso que nós estávamos fazendo?
- E não funcionou, não é mesmo?
Faye estava certa. Quando observei as feições de Elizabeth, tudo ficou claro. Seu rosto estava
vermelho, e ela esfregava as mãos nas coxas. Nosso olhar se encontrou. Puxei a cadeira para mais
perto, coloquei suas pernas entre as minhas e sussurrei:
- Agora eu entendi.
Um suspiro escapou de seus lábios, e Elizabeth avaliou o quão próximos estávamos um do outro.
- Entendeu o quê?
- Você está com ciúmes.
Ela bufou alto e riu.
- Ciúmes? Não seja ridículo, Narciso.
Com uma voz suave, peguei suas mãos.
- Não precisa ficar envergonhada. É completamente normal se sentir atraída pelo vizinho depois
de um tempo. Por que você acha que é ridículo?
Elizabeth arrancou as mãos das minhas, e segurei o riso ao ver que ela estava ainda mais
vermelha.
- Por quê? Você quer as razões, então? Para começar, você nem faz a barba e parece um
lenhador, o que é asqueroso. Com esse gorro e essa barba grossa, fico até surpresa por você não estar
vestindo uma camisa xadrez. Você toma banho?
- Tomo. Se você quiser, podemos voltar pra minha casa e tomar banho juntos pra economizar
água.
- Não sabia que você era um ativista ambiental.
- Nada disso. Eu só gosto de deixar você molhada. - As bochechas dela coraram, e eu observei
suas sardas. Ela era bonita pra cacete. - Além do mais - continuei, tentando não pensar no fato de
que sentia por ela tudo o que imaginava que ela sentia por mim -, vi que você instalou o Tinder no
seu celular. Não precisa esconder sua preferência pelo tipo lenhador. Ninguém está apontando o
dedo na sua direção, te julgando. Talvez estejam fazendo isso em silêncio, com um olhar de
esguelha, e na boa, isso nem conta.
- Esse aplicativo estava aparecendo o tempo todo no feed do Facebook! Faye me obrigou a
instalar esse troço, só fiquei curiosa, só isso!
Elizabeth estava cada vez mais vermelha, e meu corpo começou a reagir à proximidade entre nós.
Queria acariciar seu rosto e sentir seu calor. Queria acariciar seus seios e sentir o coração batendo
rápido, tamanho o nervosismo dela. Queria provar seus lábios...
- Qual é o lance entre você e Tanner? - perguntei novamente.
- Já falei, somos apenas amigos.
- Parecia muito mais que isso, pela forma como ele te abraçava.
Ela baixou os olhos.
- Quem está com ciúmes agora?
- Eu.
- O quê? - Ela ergueu a cabeça, seu olhar encontrando o meu.
- Eu disse que senti ciúmes. Senti ciúmes da mão dele nas suas costas. Senti ciúmes quando ele
falou algo com você ao pé do ouvido. Senti ciúmes quando ele olhou em seus olhos, e eu fui
obrigado a ficar quieto vendo tudo.
- O que você está fazendo? - perguntou ela, confusa, a respiração entrecortada. Meus lábios
tocaram levemente os dela. Suas mãos repousaram na minha calça jeans. Meus dedos envolveram os
seus. Estávamos tão próximos que, por um instante, achei que ela estava sentada no meu colo e que
eu podia ouvir as batidas de seu coração.
Aos poucos, o lugar se tornou mais barulhento. As pessoas começaram a ficar bêbadas, a comer e
falar sobre coisas medíocres. Mas meus olhos... estavam fixos em seus lábios. Nas curvas de sua
boca. Na cor de sua pele. Nela.
- Tris, pare - murmurou Elizabeth. Ela parecia tão confusa quanto eu, mas seu corpo se
recusava a fazer o que sua mente ordenava.
- Diga que você não me quer - supliquei. Afaste-se de mim.
- Eu... - gaguejou ela.
Sua voz estava trêmula, e eu conseguia ouvir o medo em alto e bom som. Em meio aos temores e
dúvidas, porém, notei um suspiro de esperança. Eu queria me agarrar o máximo possível àquilo.
Queria ver a esperança que ela escondia no fundo de sua alma.
- Tristan... Você acha... - Ela riu, ansiosa, e passou a mão pela testa. - Você pensa em mim?
Quero dizer... - gaguejou Elizabeth novamente e ficou em silêncio. O nervosismo consumia seus
pensamentos, confundia-os. - Você já pensou em mim como algo mais do que sua amiga?
Elizabeth viu a resposta em meus olhos. Senti a alma dela tocando a minha, seu olhar repleto de
surpresa e curiosidade, sua beleza envolta em uma aura de mistério.
Eu pisquei.
- A cada segundo. Cada minuto. Todos os dias.
Ela assentiu, fechando os olhos.
- Eu também. A cada segundo. Cada minuto. Todos os dias.
Afaste-se, Tristan.
Afaste-se, Tristan.
Afaste-se, Tris....
- Quero beijar você. A Lizzie triste, devastada. A verdadeira Lizzie.
- Isso mudaria as coisas.
Ela tinha razão. Seria como cruzar uma linha invisível. Sei que a beijei antes, mas era diferente.
Foi antes de me apaixonar por ela. De me apaixonar perdidamente. Soltei o ar que estava preso em
meu peito e vi que ela fez o mesmo.
- E o que aconteceria se eu não te beijasse? - perguntei.
- Acho que eu iria te odiar um pouquinho - respondeu ela suavemente, meus lábios a
milímetros dos dela. - Na verdade, acho que eu iria te odiar muito.
Meus lábios tocaram os de Elizabeth, que se inclinou em minha direção, as mãos agarrando
minha camisa. Quando minha língua deslizou para dentro de sua boca, fazendo amor com a dela,
Elizabeth soltou um gemido baixo. Ela retribuiu meu beijo com intensidade, quase sentando em meu
colo, entregando-se a mim.
- Quero que você me deixe entrar na sua vida - murmurou.
Tive que me controlar muito para não abraçá-la e levá-la para minha casa para explorar cada parte
de seu corpo. Queria senti-lo junto do meu. Queria me perder nela. Mordi seu lábio inferior e a
beijei gentilmente.
- Quero conhecer você, Tristan. Quero saber aonde você vai quando deseja esquecer tudo.
Quero saber o que faz você acordar de seus pesadelos. Quero ver a escuridão que você luta
diariamente para esconder. Você pode fazer uma coisa por mim? - perguntou ela.
- Qualquer coisa.
As mãos de Elizabeth pousaram em meu coração, e ela sentiu meu peito subir e descer com a
ponta dos dedos.
- Mostre pra mim o que você tenta esconder. Mostre onde dói mais. Quero ver sua alma.