O ar que respira
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Capítulo 4 O ar que respira

Capítulo 14

Tristan

4 de abril de 2014

Três dias antes do adeus

- Esse aqui é muito bom, se você quiser algo mais forte - disse o diretor da funerária, Harold, para

minha mãe. Estávamos ali, de pé, escolhendo caixões. - É todo de cobre, então resiste muito melhor à

corrosão. É bem melhor que o de aço e garante um repouso extraordinário aos seus entes queridos.

- Sim, parece muito bom - assentiu minha mãe enquanto eu continuava ali, completamente

desinteressado.

- Se você deseja alguma coisa com mais classe, talvez queira dar uma olhada nessa maravilha. -

Os dedos de Harold alisavam o cavanhaque ao passar a mão pelo outro caixão. - Esse aqui é de bronze

puro, feito de um material que dura muito mais do que qualquer outro caixão. Se quisesse algo para se

despedir dos seus entes queridos com estilo, eu escolheria este. Temos também as opções em madeira. Veja

bem, eles não são tão fortes, mas são resistentes ao impacto, o que também é bom. Temos diferentes tipos

de madeira, como cerejeira, carvalho e imbuia. O meu preferido é o de acabamento em cerejeira, mas

quando se trata de gosto, cada um tem o seu.

- Isso é muito estranho - resmunguei. Minha mãe foi a única que me ouviu.

- Tristan - repreendeu ela, virando de costas para o diretor da funerária. - Seja educado.

- Ele tem um caixão favorito. Isso é muito estranho - sibilei, irritado com Harold, irritado com

minha mãe, irritado porque Jamie e Charlie se foram. - Dá pra acabar logo com isso? - reclamei,

olhando aqueles caixões vazios que em breve seriam preenchidos com tudo que eu tinha.

Voltem para mim.

Minha mãe franziu o cenho, mas tomou todas as decisões e cuidou dos detalhes que eu fingia que não

existiam.

Harold nos levou até seu escritório, com aquele sorriso estranho que me irritava mais a cada segundo.

- Para as lápides, também oferecemos coroas, vasos e flores para cobrir o corpo...

- Você está de brincadeira comigo? - murmurei. Minha mãe segurou minha mão, tentando me

impedir de falar daquela maneira, mas já era tarde demais. Eu estava no limite. - Deve ser muito bom

pra você, não é, Harold? - perguntei, debruçado na mesa, com os punhos cerrados. - Deve ser um

trabalho do caralho oferecer uma porra de uma coroa de flores para as pessoas que amamos. Fazer as

pessoas gastarem todo seu dinheiro com coisas ridículas, que não mudam merda nenhuma, só porque

estão vulneráveis. Flores pra cobrir o corpo? FLORES PRA COBRIR O CORPO? Eles morreram. Eles

morreram, droga - gritei, levantando da cadeira. - Mortos não precisam de vasos. Eles não precisam

de coroas. E não precisam de flores. Para quê? Para que, Harold? - berrei, batendo as mãos na mesa e

fazendo todos os papéis voarem.

Minha mãe se levantou e tentou me segurar, mas puxei o braço com força. Meu peito subia e descia

rapidamente, e minha respiração ficava cada vez mais curta e difícil de controlar. Senti a loucura em

meus olhos. Eu estava descontrolado. Estava mais devastado a cada segundo que passava.

Saí correndo do escritório e me apoiei na parede mais próxima. Minha mãe se desculpou com Harold

enquanto eu esmurrava a parede. Várias vezes. Meus dedos ficaram vermelhos, e meu coração se tornava

mais frio à medida que a ficha começava a cair.

Eles se foram.

Eles se foram.

Minha mãe saiu da sala e ficou ao meu lado, com os olhos cheios de lágrimas.

- Você encomendou o cobertor de flores para os caixões? - perguntei, sarcasticamente.

- Tristan... - sussurrou ela. Eu conseguia perceber a dor em suas palavras suaves.

- Porque, se comprou, deveria ser verde para Charlie e roxo para Jamie. Eram as cores favoritas

deles... - Balancei a cabeça, sem querer mais falar no assunto. Não queria o conforto da minha mãe.

Não queria mais respirar.

Foi o primeiro dia em que percebi que eles estavam realmente mortos. O primeiro instante em que me

dei conta de que tinha somente mais três dias para dizer adeus às pessoas que eram meu mundo. Balancei

a cabeça mais uma vez, levei a mão à boca e, com um gemido, dei vazão à toda minha tristeza.

Eles se foram.

Eles se foram.

Voltem para mim.

- CHARLIE! - gritei, sentando na cama. Estava tudo escuro, e meus lençóis, encharcados de

suor. Senti uma brisa vindo da janela e tentei esquecer aquele pesadelo, cada dia mais real. Eram as

lembranças que sempre voltavam para me assombrar.

Vi uma luz se acender na casa de Elizabeth. Ela foi até a janela e espiou na minha direção. Não

acendi a minha. Sentei na beira da cama, meu corpo ainda quente. A luz inundou seu rosto, e vi os

lábios dela se movendo.

- Você está bem? - perguntou Elizabeth, cruzando os braços.

Ela era tão bonita que chegava a me irritar.

Mas eu também ficava irritado com o fato de que meus gritos provavelmente a acordavam todas as

noites. Caminhei até a janela, meus olhos ainda carregando a culpa por não ter estado com Jamie e

Charlie.

- Vai dormir - eu disse.

- Tá - respondeu ela.

Mas ela não voltou para a cama. Sentou-se no parapeito da janela, e eu me encostei na minha.

Ficamos olhando um para o outro até nossos corações desacelerarem, e Elizabeth fechou os olhos.

Silenciosamente, agradeci a ela por não ter me deixado sozinho.

Capítulo 15

Elizabeth

- Estão dizendo por aí que você está trepando com aquele idiota - falou Faye ao telefone alguns

dias depois do pesadelo de Tristan. Eu não o tinha visto desde então, mas não parava de pensar nele.

- Jura que estão dizendo isso?

- Não, mas eu preferia que fosse isso em vez de Tanner choramingando que você deixou outro

cara cortar sua grama, embora eu tenha oferecido o Ed para aparar o seu matagal. Mas, me conta,

você está bem? Devo me preocupar que nem o Tanner?

- Eu estou bem.

- Porque aquele Tristan é um babaca, Liz. - Era triste perceber a preocupação em cada palavra

que ela dizia. Eu odiava o fato de ela estar preocupada comigo.

- Eu só converso com ele - eu disse baixinho. - Sobre Steven, só converso com ele.

- Você pode conversar comigo também.

- Sim, eu sei. Mas é diferente. Tristan perdeu a esposa e o filho.

Faye ficou em silêncio por um momento.

- Eu não sabia disso.

- Duvido que alguém saiba. Acho que as pessoas o julgam pela aparência.

- Olha só, Liz. Vou dizer uma coisa que você pode não gostar, mas ser sua melhor amiga

significa que tenho que ser honesta com você, mesmo quando não quer ouvir. É triste, muito triste

saber que Tristan perdeu a família. Mas como você consegue confiar nesse cara? E se ele tiver

inventado essa história?

- O quê? Ele não inventou essa história.

- Como você sabe?

Porque os olhos dele são assombrados como os meus.

- Por favor, não se preocupe, Faye.

- Amiga... - Faye suspirou ao telefone. Por um momento, pensei em desligar, algo que nunca

tinha feito com ela. - Você acabou de voltar à cidade, sei que está sofrendo. Mas esse tal de Tristan

é uma pessoa ruim. Ele é violento. E acho que você precisa de estabilidade na sua vida. Você já

pensou em fazer terapia ou algo do tipo?

- Não.

- Por quê?

Porque, supostamente, a terapia ajuda a pessoa a seguir em frente, e eu não queria seguir em

frente. Eu ansiava por voltar ao passado.

- Olha, preciso ir. Falamos depois, tá?

- Liz...

- Tchau, Faye. Te amo. - Amava mesmo, apesar de não estar gostando muito dela naquele

momento.

- Também te amo.

Assim que desliguei, fui até a janela observar o entardecer. Uma tempestade se formava. Uma

parte de mim gostava disso, porque a grama ia crescer mais rápido com a chuva - o que significava

que Tristan teria que voltar logo para me ver.

No sábado à noite, eu me sentei na varanda com a caixa em formato de coração da mamãe e li

pela milésima vez suas cartas de amor. Tristan estava cortando a grama, o que não poderia me deixar

mais feliz. Quando Tanner estacionou o carro na frente da casa, guardei tudo e escondi a caixa num

canto. Senti um estranho constrangimento ao me dar conta de que Tanner estava prestes a dar de

cara com Tristan ali.

Quando o motor foi desligado e Tanner saiu do carro, sorri timidamente e me levantei.

- E aí, cara, o que veio fazer aqui? - perguntei. Ele olhou para Tristan imediatamente e franziu

o cenho.

- Estava indo pra casa e pensei em parar aqui e ver se você e Emma não querem jantar ou comer

uma pizza.

- Nós já pedimos pizza, e Emma está vendo Frozen pela segunda vez.

Ele se aproximou, ainda com a cara fechada.

- A grama não parece tão alta.

- Tanner - repreendi, com a voz baixa.

- Por favor, me diga que você não está dando dinheiro pra esse cara, Liz. Ele provavelmente vai

comprar drogas ou algo do tipo.

- Não seja ridículo.

Ele ergueu a sobrancelha.

- Ridículo? Estou sendo realista. Não sabemos nada sobre ele, exceto que trabalha com o louco

do Henson. Olha pra ele. Parece um psicopata, assassino, Hitler ou alguma coisa do tipo. Dá medo.

- Se você parar com essa bobagem, pode entrar e comer um pedaço de pizza. Senão, é melhor

nos falarmos outra hora, Tanner.

Ele fez que não com a cabeça.

- Vou entrar e dar um oi pra Emma. Depois vou largar do seu pé. - Tanner respirou fundo e

entrou na casa com as mãos no bolso. Quando saiu, me deu um sorriso cauteloso. - Você está

diferente, Liz. Não sei por que, mas você está agindo de maneira muito estranha desde que voltou. É

como se eu não te conhecesse.

Talvez você nunca tenha me conhecido.

- Falamos depois, tá?

Ele assentiu e foi para o carro.

- Ei - gritou ele na direção de Tristan, que olhou de volta, estreitando os olhos. - Você

esqueceu de cortar do lado esquerdo.

Tristan piscou e voltou ao que estava fazendo. Tanner saiu com o carro.

Quando terminou, Tristan foi até a varanda e me deu um meio-sorriso.

- Elizabeth?

- Sim?

- Será que eu... - Ele gaguejou e pigarreou, coçando a barba, e se aproximou de mim. Vi o suor

escorrendo do couro cabeludo até a testa, e tive uma vontade enorme de passar a mão ali para

enxugá-lo.

- Será que eu o quê? - sussurrei, olhando mais tempo do que deveria para os lábios dele.

Ele deu mais um passo em minha direção, fazendo meu coração acelerar. Prendi a respiração e

simplesmente fiquei olhando para ele. Inclinei a cabeça bem devagar, e os olhos de Tristan também

pareceram se deter em minha boca.

- Será que eu... - gaguejou ele de novo.

- Será que... - repeti.

- Você acha que...

- Eu acho que...

Ele olhou bem no fundo dos meus olhos. Meu coração não sabia se desacelerava ou se disparava

com toda força.

- Será que eu posso usar seu chuveiro? Estou sem água quente.

Um leve suspiro saiu dos meus lábios, e assenti.

- Sim, um banho, é claro. - Ele sorriu e me agradeceu. - Você pode pegar uma roupa do

Steven emprestada, assim nem precisa ir até sua casa.

- Não precisa fazer isso.

- Mas eu quero. Eu quero.

Entramos. Fui até meu quarto e separei uma camiseta e uma calça de moletom para Tristan. Em

seguida, peguei esponja e toalhas para ele.

- Aqui está. Tem sabonete e xampu no banheiro. Desculpe, mas são femininos.

Ele riu.

- Aposto que são melhores do que o meu cheiro nesse momento.

Não tinha ouvido sua risada antes. Era um som muito bem-vindo.

- Tá. Olha, se precisar de mais alguma coisa, dê uma olhada no armário embaixo da pia.

Qualquer coisa é só chamar.

- Obrigado.

- De nada.

Ele mordeu a parte interna da bochecha e entrou no banheiro. Um suspiro escapou do meu peito

quando fui buscar Emma e colocá-la para dormir. Precisava me ocupar até que Tristan saísse do

banho.

Caminhei pelo corredor na direção do banheiro e parei quando cheguei na porta. Tristan estava

em pé, diante da pia, vestindo só a calça de moletom que dei para ele. Ele passou as mãos pelo

cabelo e o prendeu no topo da cabeça em um coque estilo samurai. Em seguida, levou a gilete até a

área acima dos lábios, o que fez meu corpo se retrair.

- Você vai fazer a barba?

Ele parou e olhou em minha direção antes de raspar o bigode. Depois, aparou a barba até que ela

ficasse bem curta, quase invisível.

- Você fez a barba. - Suspirei, olhando para aquele homem que era tão diferente há alguns

minutos. Os lábios dele pareciam mais grossos, os olhos mais, brilhantes.

Tristan voltou a concentrar sua atenção no espelho, analisando seu rosto despido.

- Não quero parecer um assassino. Ou pior, Hitler.

Meu estômago se revirou.

- Você ouviu o que Tanner disse.

Ele não respondeu.

- Você não parece Hitler - continuei, forçando-o a se virar em minha direção, admirando cada

movimento de seu corpo. Tentei pôr meus pensamentos dispersos em ordem. - O comentário dele

não faz o menor sentido, porque você sabe que Hitler tinha... - Coloquei o dedo debaixo do nariz.

- ... Ele tinha um bigodinho. E você... - Passei a mão pelo meu queixo. - ... Você tinha uma barba

bem estilo lenhador. Tanner estava sendo... não sei... estava tentando me proteger, de uma forma

muito estranha. Ele é como um irmão mais velho. Mas não foi legal ele ter dito aquilo. Passou dos

limites.

O rosto de Tristan ficou paralisado; seus olhos se fixaram nos meus. Ele tinha um porte tão rijo

que era difícil não apreciá-lo. Pegou a camiseta, vestiu-a e, em seguida, passou por mim, roçando

meu ombro.

- Mais uma vez, obrigado - disse ele.

- E, mais uma vez, de nada.

- É difícil? Olhar pra mim usando as roupas dele?

- Sim. Mas ao mesmo tempo me dá vontade de te abraçar, porque seria como abraçar o Steven.

- Isso é estranho. - Ele sorriu, brincando.

- Eu sou estranha.

Quando ele me abraçou, eu derreti. Não esperava por aquilo. Não fiquei triste, o que era

surpreendente. A forma como ele encostou o queixo no topo da minha cabeça e passou a mão pelas

minhas costas, bem devagar, me trouxe uma paz que eu não sentia há muito tempo. Eu me senti

egoísta por querer abraçá-lo ainda mais forte, pois não estava preparada para abandonar minha

solidão. Durante aqueles minutos com Tristan, não consegui pensar no quão solitária eu era. Por

alguns instantes silenciosos, encontrei o conforto de que eu sentia tanta falta.

Não percebi que estava chorando até sentir os dedos dele secando minhas lágrimas. Estávamos

muito próximos, e minha mão agarrava a camiseta dele, enquanto as dele me puxavam para mais

perto de seu corpo. Ele abriu os lábios, também abri os meus, e nós ficamos ali, respiramos o mesmo

ar, juntos. Fechamos os olhos e permanecemos em silêncio. Não sei se foi a boca dele que tocou a

minha primeiro, ou o contrário, mas elas se encontraram. Não nos beijamos; simplesmente ficamos

ali, unidos, um liberando ar para o pulmão do outro, impedindo que ambos caíssemos na escuridão.

Tristan inspirava; eu expirava.

Pensei em beijá-lo.

- Minha água quente não acabou - disse ele, suavemente.

- Sério?

- Sério.

Pensei em beijá-lo de novo.

Olhei para aqueles olhos sombrios e vi um pouquinho de vida. Meu coração disparou, sem querer

deixá-lo ir embora tão cedo.

- É melhor eu ir - disse ele.

- É melhor você ir.

Pensei novamente na minha vontade de beijá-lo.

- A não ser que você fique - sugeri.

- A não ser que eu fique.

- Minha melhor amiga disse que eu deveria usar o sexo para tentar seguir em frente depois da

morte de Steven. - Suspirei. - Não estou pronta para esquecê-lo. Não estou pronta pra seguir em

frente. Mas eu quero isso. - Suspirei novamente. - Quero você aqui comigo, porque isso me ajuda.

Isso me faz lembrar como é me sentir desejada. - Abaixei a cabeça, envergonhada pela minha

confissão. - Sinto falta de alguém cuidando de mim.

Os lábios de Tristan roçaram na minha orelha, e ele falou baixinho:

- Vou te ajudar. Vou te ajudar a não se esquecer dele. Vou te ajudar a lembrar. Vou cuidar de

você.

- Vamos nos lembrar deles usando um ao outro?

- Só se você quiser.

- Isso me parece uma ideia horrível, mas cheia de boas intenções.

- Uma parte enorme de mim sente falta de Jamie todos os dias. E abraçar você... - ele deslizou

a língua gentilmente pelo meu lábio inferior - ... me faz lembrar de como era abraçá-la.

- Sentir as batidas do seu coração... - coloquei a palma da mão no peito dele - ... me faz

lembrar das batidas do coração dele.

- Passar a mão pelo seu cabelo... - seus dedos percorreram os fios, me fazendo suspirar - ...

me ajuda a lembrar dos dela.

- Sentir sua pele na minha... - levantei a camisa dele bem devagar - ... me lembra a dele.

Ergui a cabeça e estudei seu rosto. O queixo quadrado e bem-definido, as pequenas rugas no

canto dos olhos. A respiração ofegante. Todos na cidade tinham certeza de que ele corria para fugir

de seu passado, mas isso estava muito longe de ser verdade. Tristan corria para se lembrar dele. Não

queria se tornar um atleta. Se quisesse, não teria tanta tristeza em seu olhar.

- Então, brinca de faz de conta comigo por um tempo - murmurei antes de aproximar ainda

mais meus lábios dos dele. - Me ajuda a lembrar de Steven hoje - sussurrei, um pouco

envergonhada.

Seu quadril se esfregou no meu, suas pupilas se dilataram. Tristan levou a mão direita à parte de

baixo das minhas costas, forçando-me a pressionar meu corpo contra o dele. Senti sua ereção entre

minhas coxas, e meu corpo se derreteu. Sim. Encostamo-nos na parede mais próxima. Ele apoiou a

mão esquerda com o punho fechado acima da minha cabeça. Seu rosto se aproximou do meu, e ele

soltou um suspiro profundo.

- Não deveríamos...

Sim.

Abri a boca e mordisquei seu lábio inferior enquanto passava a mão pela sua calça, tocando sua

ereção. Isso. Tristan soltou um gemido e pressionou seu corpo ainda mais no meu. Senti sua língua

lamber meu pescoço, me fazendo tremer. Faz isso de novo.

Sua mão deslizou por dentro do meu vestido, chegando até a parte interna da coxa. Quando seus

dedos abriram caminho pela minha calcinha molhada, meu coração disparou. Isso, isso...

Gemi quando ele afastou a calcinha e introduziu seu dedo em mim.

Nossas bocas se encontraram, e Tristan sussurrou um nome, mas eu não consegui distingui-lo.

Também murmurei o nome de alguém, mas não tinha certeza se era o dele. Ele me possuía, me

beijava, sua língua explorando cada parte de mim. Tristan introduziu mais um dedo e começou a

circular meu clitóris com outro.

- Meu Deus, isso é tão bom... - gemeu ele, sentindo minha excitação, sentindo meu corpo.

Meus dedos se esgueiraram para dentro de sua cueca boxer e comecei a movê-los para cima e para

baixo, ouvindo seus gemidos de prazer.

- Perfeito - murmurou ele, os olhos fechados e a respiração entrecortada. - Absolutamente

perfeito.

Era errado.

Mas era tão bom.

Minha mão se movia cada vez mais rápido, e seus dedos acompanhavam meu ritmo. Nós dois

ofegamos juntos, nos perdendo, nos encontrando, perdendo as pessoas que amamos, encontrando-as.

Naquele instante, eu o amei, porque era como amar Steven. Naquele instante, eu o odiei, porque

sabia que tudo era uma grande mentira. Mas não conseguia parar de tocá-lo. Não conseguia parar de

ansiar por ele. Não conseguia parar de desejá-lo.

Nós dois juntos era uma ideia terrível. Éramos instáveis, estávamos destruídos, não havia como

negar. Ele era o trovão, e eu, a nuvem escura. Estávamos a segundos de criar a tempestade perfeita.

- Mamãe. - Ouvi uma voz frágil atrás de mim. Tive um sobressalto e me afastei de Tristan,

ajeitando meu vestido, confusa. Meus olhos se viraram para o corredor, onde vi a sombra de Emma.

- Oi, filha, o que aconteceu? - perguntei, passando a mão pela boca, limpando-a. Corri até ela.

Emma segurava Bubba e bocejava.

- Não consigo dormir. Você pode ficar comigo e com o Bubba?

- Claro. Já estou indo, tá?

Ela concordou e voltou para o quarto. Quando virei para trás, vi culpa nos olhos de Tristan

enquanto ele arrumava a calça.

- É melhor eu ir - murmurou ele.

- É melhor você ir.

Capítulo 16

Tristan

Devíamos ter parado naquela noite. Devíamos ter pensado que era horrível nos lembrar de Steven e

Jamie dessa forma, usando um ao outro. Éramos como bombas-relógios, prestes a explodir.

Mas não nos importamos.

Quase todos os dias, ela me beijava.

Quase todos os dias, eu retribuía o seu beijo.

Ela me contou a cor favorita dele. Verde.

Contei qual era o prato favorito de Jamie. Massa.

Algumas noites, eu saía pela janela do meu quarto e ia para o dela. Em outras, era ela que

escapulia para minha cama. Quando eu entrava no quarto, ela nem afastava os lençóis. Quase nunca

me deixava deitar do lado dele na cama. Eu entendia aquilo muito mais do que qualquer pessoa

poderia imaginar.

Ela se despia e fazia amor com seu passado.

Eu a penetrava e fazia amor com meus fantasmas.

Não era certo, mas mesmo assim fazia sentido.

A alma dela estava ferida, e a minha, devastada.

Mas quando estávamos juntos, doía menos. Quando estávamos juntos, o passado não parecia tão

doloroso. Junto dela, nunca me senti, nem por um momento, sozinho.

Tinha dias em que eu estava bem. E muitos dias em que eu sentia a dor escondida dentro de mim,

sem se manifestar. E havia os dias das grandes recordações. Era aniversário de Jamie, e eu sofri

muito naquela noite.

Os demônios do passado, que ficavam enterrados no fundo da minha alma, estavam sendo

exorcizados. Elizabeth foi ao meu quarto. Eu devia tê-la mandado embora. Devia ter deixado a

escuridão me engolir.

Mas eu não podia deixá-la sozinha.

O corpo dela estava embaixo do meu, e trocávamos carícias. Os olhos de Elizabeth sempre me

deixavam maravilhado. Assim como seu cabelo esparramado pelo meu travesseiro.

- Você é deslumbrante - sussurrei, antes de erguer seu queixo para que sua boca encontrasse

meus lábios.

Naquela noite, ela era minha droga. Minha alucinação.

Eu adorava o gosto de morango do gloss em seus lábios.

Adorava seu corpo nu, que se arqueava quando meus lábios exploravam seu pescoço.

- Você tem ideia do quanto seus olhos são lindos? - perguntei, sentando-me e prendendo-a

embaixo de mim.

Ela sorriu novamente. Isso também é lindo. Passei os dedos pelas curvas de seu corpo.

- São só castanhos - respondeu ela, passando a mão pelo cabelo.

Ela estava errada. Eles eram muito mais que castanhos, e a cada noite eu percebia mais um

detalhe enquanto a tinha em meus braços. De perto, dava para perceber o tom dourado em torno das

íris.

- São lindos.

Não havia nada nela que não fosse lindo.

Passei a língua por seus mamilos rijos, e ela gemeu. Elizabeth parecia derreter em minhas mãos,

suplicando que eu explorasse seus medos mais profundos e seus sabores mais doces. Coloquei as

mãos em suas costas e a levantei, e nós dois nos vimos sentados no quarto escuro. Fiquei admirando

a beleza de seus olhos enquanto abria suas pernas. Elizabeth assentiu, permitindo que eu desse a ela

exatamente o que ela veio buscar no meu quarto.

Peguei uma camisinha no criado-mudo e a coloquei.

- Como você quer? - perguntei.

- Como assim?

Meus lábios repousaram nos dela, e sussurrei:

- Posso ser agressivo. Ou gentil. Posso fazer você chorar ou gritar. Posso foder com tanta força

que você nem vai conseguir se mexer. Ou posso ir tão devagar que você vai pensar que estou

apaixonado. Então, você decide. Você que manda. - Acariciei a base de suas costas. Eu precisava

que ela mandasse em mim. Precisava que ela tomasse a decisão, porque eu já estava perdendo a

noção da realidade.

- Nossa, que cavalheiro! - respondeu ela, nervosa.

Ergui a sobrancelha.

Suspirando, ela evitou olhar para mim.

- Gentil e devagar... como se você me amasse - sussurrou, tentando não soar tão desesperada.

Não falei nada, mas era exatamente disso que eu precisava.

Era exatamente assim que eu faria amor com Jamie em seu aniversário.

Meu Deus, minha cabeça estava uma zona.

Os pensamentos de Elizabeth eram como cópias exatas dos meus. E isso me dava medo.

Como duas pessoas tão imperfeitas e tão devastadas conseguiram estabelecer uma ligação?

No início, penetrei Elizabeth bem devagar, observando as reações de seu corpo ao meu. Os olhos

dela se fecharam quando fui mais fundo, os lábios se abriram, gemendo. Pensei que estava numa

plantação de morangos quando passei novamente a língua por seu lábio inferior.

Minhas mãos tremiam, mas controlei meu nervosismo e me concentrei em Elizabeth. Ela respirou

fundo e apoiou a mão no meu peito. Abriu os olhos e fixou-os nos meus, como se nunca mais

fôssemos nos ver. Ambos estávamos morrendo de medo de nos perdermos naquele pequeno

momento de consolo.

Será que ela o via quando olhava para mim? Será que ela lembrava dos olhos dele?

Eu sentia o coração dela bater tão rápido quanto o meu, tão intenso.

- Posso passar a noite aqui? - sussurrou ela ao apoiar as costas na cabeceira da cama.

- Claro. - Suspirei, passando minha língua em seus ouvidos, massageando seus seios. Ela não

deveria passar a noite aqui. Mas eu queria. Estava tão apavorado com a ideia de ficar sozinho com

meus pensamentos que a resposta escapou da minha boca, suplicante. - Podemos brincar de faz de

conta até de manhã.

Ela não deveria passar a noite aqui. O que você está fazendo?!

Mais forte. Nós dois queríamos mais e mais, nossos olhos fixos um no outro o tempo todo. Nossos

quadris se movendo em harmonia.

- Isso, assim... - Ela estava ofegante. As batidas dos nossos corações se tornaram mais rápidas

enquanto eu a penetrava, e ela arquejou, pedindo mais. Por um breve momento, deixamos nossos

corpos se tornarem um só.

- Steven... - sussurrou ela, mas eu não liguei.

- Jams... - murmurei, e ela não se importou.

Nós erámos completamente loucos.

Mais fundo. Puxei os cabelos dela, e seus dedos envolveram os meus. Aos poucos fui me tornando

mais agressivo, mais incontrolável.

- Porra. - Eu adorava estar entre as pernas dela, amava o suor que escorria por seu corpo. Era

bom demais estar dentro de Elizabeth, era seguro.

Mais rápido. Queria senti-la por inteiro. Queria me enterrar fundo nela, para que ela nunca se

esquecesse de que eu era o cara que a fazia fugir da realidade. Queria trepar com ela como se ela

fosse minha amante, e eu, o dela.

Levantei sua perna esquerda e a apoiei em meu ombro. Quando ela pediu que fizéssemos amor

com mais força, permiti que ela sentisse cada centímetro meu. Será que ela se deu conta do que

disse? Ela falou mesmo fazer amor? Sei que foi isso que combinamos, mas ouvir essas palavras da

sua boca fizeram com que eu perdesse o foco por um momento.

Eu não era Steven.

Ela não era Jamie.

Mas, meu Deus, era tão bom mentir para nós mesmos.

Ela estava ofegante, e eu gostava da maneira como a cabeça dela se inclinava para trás na

cabeceira. E também de suas unhas cravadas na minha pele, como se nunca mais quisesse se afastar.

Depois, ela piscou, e vi que tentava conter as lágrimas. Seu esforço para não derramá-las buscava

uma válvula de escape. Em vez de dar vazão a elas, Elizabeth apenas respirou fundo.

Mais devagar. Elizabeth perguntou mais uma vez se podia realmente passar a noite comigo.

Provavelmente estava com medo de que eu a mandasse embora logo depois, o que a forçaria a

encarar a solidão. E eu estava só. O temor da rejeição marejava seus olhos. Mas prometi que sim e

não iria voltar atrás. Eu via naqueles olhos castanhos que ela odiava ficar sozinha com seus

pensamentos.

Tínhamos isso em comum.

Mais gentil.

Tínhamos muitas coisas em comum.

Deitei-a na cama e permaneci dentro dela, mas me movi devagar, com cuidado.

- Posso parar - eu disse, vendo as lágrimas caírem de seus olhos.

- Por favor, não pare - suplicou ela, balançando a cabeça. Cravou novamente as unhas nas

minhas costas, como estivesse se agarrando a algo que, na verdade, não existia mais.

Isso é apenas um sonho.

- Estamos sonhando, Elizabeth. Estamos sonhando. Não é real.

Ela levantou o quadril.

- Não, continue.

Enxuguei suas lágrimas e parei.

Era errado.

Ela estava destroçada.

Eu também.

Saí de dentro dela e me sentei na beirada da cama, minhas mãos agarrando o colchão. Os lençóis

amassados. Ela se sentou do outro lado. Estávamos de costas um para o outro, mas ainda assim eu

podia jurar que sentia seu coração bater.

- O que há de errado com a gente? - sussurrou.

Passei os dedos pela testa e, suspirando, disse:

- Tudo.

- Hoje era dia de ter uma daquelas grandes recordações? - ela quis saber.

Assenti, mesmo sabendo que ela não ia ver.

- Aniversário da Jamie.

Ela riu. Eu me virei e vi que ela enxugava as lágrimas.

- Foi o que pensei.

Ela se levantou e vestiu a calcinha e o sutiã.

- Como você sabia?

Ela veio até mim e ficou de pé entre minhas pernas. Seus olhos me estudando, passando a mão

nos meus cabelos. Colocou a mão no meu peito, sentindo as batidas rápidas do meu coração.

Aproximou seus lábios dos meus, sem me beijar, apenas para sentir minha respiração.

- Percebi o quanto você precisava dela. Vi nos seus olhos sombrios que estava desapontado por

eu não ser a Jamie.

- Elizabeth... - falei, sentindo-me culpado.

Ela balançou a cabeça e se afastou.

- Tudo bem. - Pegou a camiseta e a vestiu no corpo mignon. Colocou o short do pijama e foi até

a janela para sair. - Acho que você também percebeu o quão desapontada eu estava por você não

ser ele.

- Talvez seja melhor pararmos com isso.

Elizabeth fez um rabo de cavalo e sorriu.

- Sim. Talvez. - Ela subiu na janela. - Mas acho que, provavelmente, não vamos parar. Nós

dois estamos viciados no passado. Até mais.

Eu caí na cama e soltei um gemido, sabendo que ela estava certa.

Capítulo 17

Elizabeth

- Então você está saindo com aquele Tristan Cole, certo? - perguntou Marybeth em um dos

encontros do clube do livro.

Ergui a sobrancelha enquanto segurava meu exemplar de Mulherzinhas.

- O quê?

- Ah, querida, não precisa ficar com vergonha. Todo mundo na vizinhança já viu vocês juntos.

Não se preocupe, pode contar tudo pra gente. Ninguém vai comentar nada.

Claro.

- Ele corta a grama do meu jardim. Nós mal nos conhecemos.

- É por isso que outro dia você saiu da casa dele pela janela à uma da manhã? Por que ele corta a

grama do seu jardim? - perguntou uma mulher que eu mal conhecia.

- Desculpe, quem é você?

- Dana. Sou nova na cidade.

Precisei me esforçar muito para me controlar. Ela havia se adequado perfeitamente aos hábitos

locais.

- Então é verdade? Você pulou da janela dele? Falei para Dana que eu não podia acreditar nisso.

Você acabou de perder seu marido e não iria manchar a memória dele com outro homem - interveio

Marybeth. - Seria como dar um tapa na cara do seu casamento. Como se vocês tivessem escrito os

votos de casamento na areia, e não no coração.

Meu estômago se revirou.

- Talvez devêssemos falar sobre o livro - sugeri.

Mas elas continuaram a fazer perguntas. Perguntas para as quais eu não tinha respostas.

Perguntas que eu não queria responder. Isso se prolongou durante toda a noite e tudo parecia se

passar em câmera lenta. Quando acabou, me senti infinitamente feliz.

- Tchau, meninas! - despediu-se Susan, acenando para Emma. - Lembrem-se de ler

Cinquenta tons de cinza em duas semanas. Tragam anotações.

Acenei para todas. No final da noite, não tínhamos falado nada sobre o livro, e eu me senti

extremamente menosprezada por todas aquelas mulheres.

23 de agosto.

Para a maioria das pessoas era só uma data. Para mim, era muito mais do que isso.

Era aniversário de Steven.

Dia de ter grandes recordações.

Eu deveria lidar melhor com elas. As pequenas lembranças normalmente doíam mais.

Apoiei-me na árvore do meu jardim e olhei para o céu brilhante, os raios de sol iluminando tudo.

Emma brincava com Zeus numa pequena piscina de plástico que eu tinha comprado. Tristan estava

construindo uma mesa de jantar em seu galpão.

Não sei de onde veio, mas uma pluma branca pousou em mim. Uma pluma pequena, delicada,

que adentrou minha alma. Um sentimento de perda esmagador me dominou, e eu levei a palma da

mão à testa, batendo nela repetidas vezes. Meu coração disparou no peito, as lembranças de Steven

me inundaram. Afoguei-me nelas. Não conseguia respirar, minhas costas deslizando pela árvore,

tremendo incontrolavelmente.

- Me perdoa. - Chorei por mim. Por Steven. - Desculpe se eu não consegui... - gritei de dor,

fechando os olhos.

Senti duas mãos no meu ombro e pulei, assustada.

- Shhh, sou eu - murmurou Tristan ao se sentar no chão e me abraçar. - Estou aqui.

Puxei a camiseta dele e molhei-a com minhas lágrimas.

- Eu não consegui salvá-lo, não consegui. - Eu gemia. - Ele era tudo para mim, e eu não o

salvei. Ele lutou por mim, e eu... - Não consegui dizer mais nada. Não consegui achar as palavras

certas no meu coração sufocado.

- Shh, Elizabeth. Estou aqui. Estou aqui. - A voz dele me confortava, mas eu desabei

completamente. Meu primeiro surto em muito tempo. Agarrei-me a Tristan, suplicando

silenciosamente que ele não me abandonasse.

Ele me abraçou com mais força.

Em seguida, senti mãos pequenas em meu corpo. Emma estava tentando me trazer algum

conforto.

- Sinto muito, minha querida - sussurrei, tremendo, abraçada a Tristan e a minha filha. -

Mamãe sente muito.

- Tá tudo bem, mamãe - consolou ela. - Tudo bem.

Mas ela estava errada.

Nada estava bem.

E eu não tinha certeza de que um dia ficaria.

Choveu naquela noite. Fiquei sentada no quarto por um tempo, só de roupão, vendo o dilúvio

cair. Chorei com a chuva, sem conseguir me controlar. Emma estava dormindo no outro quarto, e

Tristan deixou que Zeus passasse a noite com ela.

Faça isso parar, supliquei ao meu coração. Faça essa dor parar.

Pulei a janela e fui até a casa de Tristan. Fiquei encharcada em segundos, mas não me importei.

Dei uma leve batida na janela dele, e ele a abriu, sem camisa, me encarando por alguns segundos.

Seus braços se apoiaram no parapeito da janela, o que deixou seus músculos à mostra.

- Hoje não - disse ele baixinho. - Vá pra casa, Elizabeth.

Meus olhos ardiam de tanto chorar. Meu coração doía de saudade.

- Hoje - retruquei.

- Não.

Desamarrei meu roupão e o deixei cair no chão. Fiquei na chuva só de calcinha e sutiã.

- Sim.

- Meu Deus - murmurou ele, abrindo a janela. - Entre.

Obedeci. Uma poça de água se formou aos meus pés. Eu tremia de frio. De dor.

- Pergunte como eu quero hoje.

- Não. - A voz de Tristan era ríspida, e ele não olhava para mim.

- Quero que você me ame hoje.

- Elizabeth...

- Você pode ser agressivo, se quiser.

- Pare.

- Olhe para mim, Tristan.

- Não.

- Por que não? - perguntei, aproximando-me quando ele deu as costas para mim. - Você não

me quer?

- Você sabe a resposta.

Balancei a cabeça.

- Você não me acha bonita? Não sou tão bonita quanto ela? Tão boa quanto...

Ele se virou rapidamente e segurou meus ombros.

- Não faça isso, Elizabeth.

- Me come agora, por favor... - implorei, os dedos deslizando por seu peitoral. - Por favor,

faça amor comigo.

- Não posso.

Bati em seu peito.

- Por que não? - As lágrimas começaram a deixar minha visão embaçada. - Por que não?

Deixei você me tocar quando a quis, deixei você trepar comigo quando precisou. Deixei... - Minhas

palavras se transformaram em soluços. - Deixei você... Por que não...

Ele agarrou meus pulsos, impedindo-me de continuar batendo em seu peito.

- Porque você não está bem. Está completamente devastada hoje.

- Só faça amor comigo.

- Não.

- Por que não?

- Porque não posso.

- Isso não é resposta.

- É, sim.

- Não, não é. Pare de ser covarde. Me diga, por que não? Por que não?

- Porque eu não sou ele! - berrou Tristan, fazendo meu corpo estremecer. - Não sou Steven,

Elizabeth. Não sou o que você quer.

- Mas você pode ser. Você pode ser ele.

- Não - respondeu, rispidamente. - Não posso.

Eu o empurrei

- Eu te odeio! - gritei, minha garganta queimando, as lágrimas escorrendo pelo rosto. - Eu te

odeio! - Mas eu não estava falando com Tristan. - Eu te odeio por ter me deixado! Eu te odeio por

ter ido embora. Não consigo respirar. Não consigo...

Desabei nos braços de Tristan.

Desabei de uma forma que eu nunca tinha experimentado na vida.

Estremeci, gritei, e uma parte de mim morreu.

Mas Tristan me abraçou, fazendo de tudo para que minha alma sobrevivesse àquela noite.

Capítulo 18

Elizabeth

Só consegui olhar para Tristan de novo depois de duas semanas. Fiquei extremamente

envergonhada, constrangida pelo que aconteceu na noite do aniversário de Steven. Porém, quando

ele me chamou para falar sobre a decoração de sua casa, decidi engolir meu medo.

- Você está bem? Parece estranha - observou Tristan quando eu e Emma chegamos à casa dele.

Eu me sentia muito desconfortável, não apenas pela minha atitude, mas também pela forma como

desabei diante dele.

- Não. Estou bem - respondi. - Só estou olhando tudo.

Dei um sorriso falso, e ele percebeu na hora.

- Tá. Bem, você pode fazer praticamente tudo o que quiser aqui. Tem sala de estar, sala de

jantar, banheiro, meu quarto e a cozinha. E eu adoraria que meu escritório não estivesse tão

bagunçado.

Fui até o escritório e vi muitas caixas empilhadas. A mesa estava repleta de coisas e, quando ele

saiu com Emma e Zeus, vi um recibo meio escondido debaixo de uns papéis. Peguei-o e li.

Cinco mil plumas brancas.

Entrega expressa.

Abri uma das caixas, e meu coração quase saiu pela boca ao encontrar outros sacos com plumas.

Ele não as encontrou na loja do Sr. Henson. Ele as comprou. Encomendou milhares delas só para

Emma não sofrer.

Tristan...

- Você vem, Elizabeth? - escutei-o chamar. Fechei a caixa e corri para fora do escritório.

- Sim, estou aqui. - Pigarreei. - E o galpão? Posso ajeitá-lo também.

- Não. O galpão não... - Ele fez uma pausa e franziu o cenho. - Não.

Entendi na hora.

- Certo... bem, acho que já vi tudo que precisava. Vou fazer alguns esboços e escolher alguns

tecidos e cores. Conversamos depois. Preciso ir.

- Você está com pressa.

- Pois é. - Dei uma olhada na direção de Emma, que parecia estar em um mundo à parte,

brincando com Zeus. - Emma vai dormir na casa de uma amiguinha, e preciso arrumá-la.

Tristan deu um passo em minha direção.

- Você está zangada comigo? - perguntou gentilmente. - Por causa daquela noite?

- Não. - Suspirei - Estou zangada comigo mesma. Você não fez nada de errado.

- Tem certeza?

- Absoluta, Tristan. Você me ajudou quando eu mais precisava, mas talvez seja melhor pararmos

com tudo isso... É óbvio que não estou conseguindo lidar com essa situação.

Ele ergueu a sobrancelha e baixou os olhos, como se estivesse desapontado. Em seguida, levantou

a cabeça e deu um sorriso.

- Quero mostrar uma coisa a vocês.

Tristan nos levou até a parte de trás da casa e segurou a porta dos fundos para passarmos. Ouvi os

grilos da noite, e parecia até que eles estavam conversando entre si. Era um som reconfortante.

- Aonde estamos indo? - perguntei.

Ele virou a cabeça, apontando para o bosque e pegando uma lanterna. Não perguntei mais nada.

Segurei a mão de Emma e o segui. Andamos pelo bosque, e ele nos levou cada vez mais para longe.

O céu estava estrelado e, à medida que avançávamos entre as árvores, o cheiro da primavera nos

dava as boas-vindas. Abrimos caminho pelo bosque, os galhos estalando aos nossos pés.

- Estamos quase chegando - anunciou ele.

- Mas aonde?

Quando finalmente chegamos, percebi de imediato que aquele era o lugar aonde ele queria nos

levar, só pela vista maravilhosa. Levei as mãos à boca, pois tive medo de que, se eu emitisse algum

som, aquela beleza desapareceria. Diante de nós havia um riacho. A correnteza era quase silenciosa,

como se as criaturas que navegassem ali estivessem descansando. Atrás do riacho, havia o que

parecia ser uma antiga ponte. Flores cresciam nas ruínas, tornando a vista perfeita ao luar.

- Descobri esse lugar com Zeus - contou Tristan, andando até a ponte e sentando-se. -

Sempre que preciso esvaziar a cabeça, venho aqui.

Sentei ao lado dele, tirei os sapatos e coloquei os pés na água gelada. Emma e Zeus brincavam,

espirrando água alegremente.

Ele sorriu para mim, e retribuí na mesma hora. Tristan conseguia fazer as pessoas se sentirem

valorizadas apenas pelo modo como sorria para elas. Eu queria que ele fizesse isso mais vezes.

- Quando me mudei pra cá, sentia raiva o tempo todo. Sentia falta do meu filho, da minha

esposa. Odiava meus pais, mesmo sabendo que eles não tinham feito nada. Por alguma razão, eu

achava mais fácil culpá-los, responsabilizá-los pela morte dos dois. Era mais fácil sentir raiva do que

ficar triste. O único momento em que não me sentia mal era quando eu vinha aqui e respirava o ar

dessas árvores.

Ele estava se abrindo.

Por favor, continue.

- Fico feliz por você ter encontrado algo que te trouxe um pouco de paz.

- Sim. Eu também. - Ele passou a mão pela barba, que estava crescendo bem rápido. - Já que

não estamos mais nos "ajudando", você pode vir até aqui, se quiser. Pra encontrar paz.

- Obrigada.

Ele simplesmente assentiu.

Emma pulou e a água espirrou para todos os lados, praticamente nos encharcando. Mesmo

querendo repreendê-la, o sorriso em seu rosto e a agitação de Zeus eram contagiantes.

- Obrigada por trazer a gente aqui, Pluto! Adorei! - gritou ela, erguendo as mãos, animada.

- Venha sempre que quiser.

- Que bom que minha filha gosta de você. Senão, nunca mais nos falaríamos.

- E que bom que o meu cachorro gosta de você. Senão, eu já teria me convencido de que você

era uma psicopata. As pessoas sempre devem confiar no instinto dos animais. Os cachorros sabem

julgar o caráter de uma pessoa muito melhor que humanos.

- Ah, é?

- Sim. - Ele parou e passou a mão pelo cabelo. - Por que sua filha me chama sempre de

Pluto?

- Ah... Porque da primeira vez que nos encontramos, chamei você de puto. Ela perguntou o que

significava e, quando percebi que era uma péssima mãe, disse a ela que tinha dito Pluto, e expliquei

que você era grande e desengonçado.

- Então ela acha que sou desengonçado?

- É, pelo visto sim.

Ele riu.

- Bom, isso faz com que eu me sinta bem melhor.

Eu retribuí o sorriso.

- Deveria.

- Bom, se Emma vai continuar me chamando de Pluto, vou pensar em um nome para ela... Que

tal Fifi? É a namorada do Pluto.

- Somos uma dupla! - disse Emma, pulando de alegria. - Pluto e Fifi! Pluto e Fifi!

- Acho que ela gostou da ideia - observei.

- Elizabeth? - Ele se virou na minha direção, bem sério.

- Sim?

- Sei que não podemos mais fazer as coisas que estávamos fazendo antes, mas será que podemos

ser amigos? - perguntou ele, constrangido.

- Achei que você não sabia ter amigos.

- Não sei. - Ele suspirou, coçando a nuca. - Mas espero que você possa me ensinar.

- Por que eu?

- Porque você acredita em coisas boas, mesmo quando seu coração está partido. E eu não

consigo me lembrar das coisas boas.

Aquilo me entristeceu.

- Quando foi a última vez que você se sentiu feliz, Tristan?

Ele não respondeu.

O que me entristeceu ainda mais.

- Claro que podemos ser amigos - acrescentei.

Todo mundo merece ter pelo menos um amigo em quem possa confiar seus medos e segredos.

Suas culpas e alegrias. Todos merecem ter uma pessoa que vai olhar em seus olhos e dizer: "Você é

autossuficiente, você é perfeito, mesmo com todos os seus problemas." Eu achava que Tristan

merecia isso muito mais do que os outros. Os olhos dele carregavam muita tristeza, muita dor, e tudo

que eu queria era abraçá-lo e dizer que era autossuficiente.

Mas eu não queria ser amiga dele por pena. Não. Queria sua amizade porque, diferente das outras

pessoas, ele enxergava além da minha felicidade fingida e, às vezes, me encarava como se dissesse:

"Você é autossuficiente, Elizabeth. Você é autossuficiente... apesar de todos os problemas."

Ele estreitou os olhos como se estivesse me vendo pela primeira vez. Fiz o mesmo. Nenhum de

nós dois queria piscar. A seriedade daquele momento começou a nos deixar constrangidos. Ele

pigarreou, e eu também.

- Fui longe demais? - perguntei.

- Sim, foi. Mudando de assunto... - disse ele, passando a mão pelo cabelo. - Notei que você

estava lendo Cinquenta tons de cinza na última vez que cortei a grama do seu jardim.

Ruborizei na hora, e meu ombro esbarrou no dele.

- Não me julgue. É para o clube do livro. E, além do mais, o livro é bom.

- Não estou te julgando. Bom, estou sim, mas só um pouquinho.

- Não fale mal sem ao menos tentar lê-lo.

- É? E quanto do livro você já "tentou"?

Ele me dirigiu um olhar convencido, e juro que meu rosto pareceu pegar fogo.

Sorri, dissimulada, e comecei a andar de volta para casa.

- Você é um babaca - resmunguei. - Vamos, Emma, você precisa se arrumar para dormir na

casa da sua amiguinha.

- Você está indo para o lado errado - observou Tristan.

Parei e virei na direção contrária, passando por ele.

- Você continua sendo um babaca.

Sorri, e ele fez o mesmo. Caminhamos lado a lado de volta para nossas casas, seguidos por Emma

e Zeus.

Eram dez e meia quando ouvi um barulho alto. Eu me esgueirei para fora da cama e abri a porta.

Susan estava parada com os braços cruzados ao lado de Emma, que ainda vestia pijama, segurando

Bubba e sua mochila.

- Susan, o que houve? - perguntei, preocupada. - Emma, você está bem? - Ela não

respondeu e olhou para o chão, envergonhada. Virei para Susan e insisti: - O que aconteceu?

- O que aconteceu? - sibilou ela. - O que aconteceu é que sua filha achou que era legal contar

histórias de zumbis para as outras meninas e deixou todas elas apavoradas. Agora tenho dez crianças

na minha casa que não querem dormir com medo de pesadelos!

Fiz uma cara de espanto.

- Sinto muito. Tenho certeza de que ela não fez por mal. Posso ir até lá e falar com as meninas,

se você quiser. Certamente foi um mal-entendido.

- Um mal-entendido? - Susan bufou. - Ela começou a imitar um zumbi e disse que ia comer o

cérebro das outras! Você me disse que ela não estava traumatizada com a morte do seu marido.

- Ela não está - respondi, sentindo o sangue ferver. Olhei para Emma e vi as lágrimas caírem.

Eu me abaixei e a abracei. - Está tudo bem, querida.

- Obviamente, ela não está bem. Ela precisa de ajuda profissional.

- Emma, meu amor, tape os ouvidos rápido. - Ela obedeceu. Senti meu sangue ferver e encarei

Susan, irada. - Vou dizer uma coisa a você, da melhor maneira possível. Se você falar mais uma vez

sobre a minha filha dessa forma, eu quebro a sua cara. Arranco esses seus cabelos falsos de aplique e

ainda conto para o seu marido que você está trepando com o entregador do mercado.

- Como você se atreve? - perguntou ela, horrorizada.

- Como eu me atrevo? Como você se atreve a vir até aqui e falar da minha filha assim, dessa

forma grosseira e mal-educada? É melhor você ir embora.

- É isso que vou fazer! Talvez seja melhor você não aparecer no nosso clube do livro também.

Sua energia e seu estilo de vida não são boas influências. E mantenha sua filha longe da Rachel -

ordenou ao se afastar.

- Não se preocupe - berrei. - Vou manter mesmo.

Até as pessoas mais calmas se descontrolam quando alguém fala de seus filhos: isso transforma

qualquer mãe num bicho capaz de qualquer coisa para proteger sua cria de todas as feras do mundo.

Não me orgulhei do que disse a Susan, mas, do fundo do coração, era exatamente o que eu sentia.

Sentei ao lado de Emma na sala.

- Mamãe, as meninas falaram que sou esquisita porque gosto de zumbis e múmias. Não quero

ser esquisita.

- Você não é esquisita - falei, puxando-a para perto. - Você é perfeita exatamente como é.

- Então por que elas ficaram falando isso? - perguntou ela.

- Porque... - Suspirei, tentando achar as palavras certas. - Porque, às vezes, as pessoas têm

dificuldade em aceitar as diferenças. Você sabe que zumbis não existem, certo? - Ela assentiu. - E

você não quis amedrontar as outras meninas, quis?

- Não! - respondeu ela, rapidamente. - Eu só queria que elas brincassem comigo como os

personagens do Hotel Transilvânia. Não queria assustar ninguém. Só queria que elas fossem minhas

amigas.

Meu coração ficou despedaçado.

- Quer brincar com a mamãe? - perguntei.

Ela balançou a cabeça.

- Não.

- Então, que tal assistirmos a um desenho no Netflix e fazermos a nossa própria festa do pijama?

Os olhos dela brilharam, e as lágrimas pararam de cair.

- Podemos ver Os Vingadores? - perguntou.

Ela adorava super-heróis tanto quanto o pai.

- Claro que sim.

Ela dormiu assim que o Hulk apareceu na tela. Coloquei-a na cama e beijei sua testa. Mesmo

adormecida, Emma sorriu e, em seguida, fui para a minha cama em busca dos meus próprios sonhos.

Capítulo 19

Elizabeth

- Tristan - murmurei, sem forças. Minha respiração estava ofegante.

Ele passou a mão pelo meu rosto.

- Chupa devagar - mandou ele, passando o polegar pelo meu lábio inferior. Em seguida,

introduziu o polegar na minha boca, deixando que eu o chupasse lentamente, deslizando-o para

dentro e para fora antes que seu dedo percorresse meu pescoço, a alça do meu sutiã, meu decote.

Meus mamilos ficaram rijos, suplicando que sua boca os tocassem.

- Você é linda - disse ele. - Você é linda demais.

- Nós não deveríamos... - gemi, sentindo sua ereção contra minha calcinha. Deveríamos sim, eu

pensei. - Não deveríamos fazer isso de novo...

Minha respiração estava irregular, desesperada por ele, desesperada para senti-lo dentro de mim.

Queria que ele me virasse, abrisse minhas pernas e entrasse com tudo em mim. Ele ignorou meus

protestos, exatamente como eu queria que fizesse, puxando meu cabelo com uma mão e passando a

outra pelo meu corpo, detendo-se na calcinha de renda preta.

- Você está molhada - observou Tristan, inclinando-se sobre mim, passando a língua pelo meu

rosto antes de deslizá-la na minha boca. - Quero provar você inteira. - Seus dedos se esgueiraram

pela minha calcinha, tocando meu clitóris através da renda fina.

- Por favor - supliquei, ofegante. Arqueei minhas costas, ansiando que ele removesse a tênue

barreira que nos separava.

- Aqui, não - falou ele, fazendo-me sentar. Ele moveu minha calcinha para o lado e se abaixou,

deixando sua língua provar minha excitação. Meu quadril involuntariamente se moveu em sua

direção, e passei as mãos pelo seu cabelo. Em seguida, Tristan me beijou, permitindo que eu sentisse

meu gosto, o gosto dele. - Quero te mostrar uma coisa - murmurou.

Qualquer coisa. Pode me mostrar qualquer coisa.

Meus olhos se fixaram na ereção escondida em sua cueca boxer, e um sorriso se abriu em meus

lábios. Ele me levantou da cama, e seu corpo foi de encontro ao meu, levando-nos até a porta mais

próxima.

- Tem certeza?

Absoluta, pensei, sem conseguir falar. Meu coração disparou, e tive medo de que ele parasse de

bater, incapaz de acompanhar minha vontade, meus desejos. Eu queria me perder em Tristan. Seu

quadril pressionou o meu.

- Quero mostrar o quarto - sussurrou no meu ouvido, movendo a língua para cima e para baixo

e depois chupando meu lóbulo.

- Hummm - respondi, ele me conduziu pelo corredor. Havia um quarto à esquerda; eu ainda

não havia notado a existência dele. - O que é...?

Ele me silenciou com um beijo.

- É o meu quarto verde - murmurou, abrindo a porta.

- Seu o quê? - Antes mesmo que ele respondesse, olhei em volta e vi um quarto com mobília

verde. Chicotes verdes, vibradores verdes, tudo verde. - O quê...? - Eu me calei e continuei

olhando ao redor. - Isso é meio estranho...

- Eu sei - admitiu ele com uma voz grave. Quando virei para trás, senti minha garganta

queimar com o grito que dei. Eu estava diante de um homem enorme, verde, que me segurava junto

de si. Os olhos brilhavam, esverdeados, enquanto ele me erguia. - O incrível Hulk vai te esmagar!

- Puta merda! - murmurei, ainda trêmula por causa daquele pesadelo esquisito. Em segundos,

Tristan estava na janela do seu quarto.

- Você está bem?

Baixei os olhos e vi que estava vestindo só uma regata e calcinha, sem sutiã. Dei um grito,

cobrindo o peito com um cobertor.

- Meu Deus, vai embora! - exclamei, desesperada.

- Desculpe! Eu ouvi você gritar e... - Ele ergueu a sobrancelha, me encarando. - Você teve um

sonho erótico? - Tristan começou a rir, levando as mãos à boca. - Você acabou de ter um sonho

erótico.

- Vai embora! - falei, pulando da cama e fechando a cortina.

- Tá bom, safadinha. Eu te alertei sobre esses livros...

Ruborizei na hora e desabei na cama, cobrindo a cabeça com o lençol.

Maldito Hulk. Maldito Tristan Cole.

Capítulo 20

Elizabeth

- Você está me evitando o dia todo - comentou Tristan, enquanto mudava algumas mercadorias

de lugar na Artigos de Utilidade.

Sentei no balcão, observando o Sr. Henson fazer chá com uma mistura de ervas. Emma e Zeus

estavam correndo pela loja, caçando objetos aleatórios. Passamos a frequentar a loja do Sr. Henson

uma vez por semana para tomar chá ou chocolate quente. De vez em quando, ele fazia uma leitura de

tarô. Eu estava começando a me apaixonar pelo local.

- Você não tem do que se envergonhar, tenho certeza de que isso acontece com todo mundo -

continuou Tristan.

- Do que você está falando? Não estou te evitando. E não sei o que acontece com todo mundo,

porque não aconteceu nada comigo. - Bufei, evitando seu olhar. Sempre que nossos olhos se

encontravam, eu corava, imaginando sua camisa arrebentando quando ele se transformava no

monstro verde.

- Você teve um sonho erótico.

- Não foi um sonho erótico! - falei alto, parecendo um pouco culpada.

Tristan se virou para o Sr. Henson com uma risadinha.

- Elizabeth teve um sonho erótico ontem à noite.

- Cala a boca, Tristan! - gritei, batendo as mãos no balcão. Meu rosto estava vermelho como

um pimentão, e eu parecia queimar por dentro.

O Sr. Henson olhou para mim e depois para o chá, acrescentando mais algumas ervas.

- Sonhos eróticos são normais.

- O sexo foi bom? - perguntou Tristan, esforçando-se para me irritar ainda mais. Eu estava

prestes a dar um tapa na cara dele.

Meus lábios se abriram para negar, mas não consegui. Apoiei o rosto nas mãos e respirei fundo.

- Não quero falar sobre isso.

- Vamos lá, você tem que nos contar - insistiu, sentando-se ao meu lado.

Tentei fugir dele.

Tristan segurou meu braço e me forçou a virar em sua direção.

- Ah, merda - murmurou ele.

- Cala a boca, Tristan! - resmunguei de novo, sem conseguir encará-lo.

- Você sonhou que estava transando comigo? - berrou.

Dei um murro instantâneo em seu braço.

- Que reviravolta. - O Sr. Henson gargalhou.

Um sorriso arrogante apareceu nos lábios dele, e era oficial. Eu. Estou. Morrendo! Ele se

aproximou de mim e sussurrou:

- Fiz aquilo com a língua em seus lábios?

Corei ainda mais.

- De qual lábio você está falando?

Ele pareceu ainda mais convencido.

- Sua sem-vergonha, safada!

Levantei do banco e olhei para o Sr. Henson.

- Posso levar pra viagem?

- Para com isso, Elizabeth, preciso saber mais! - disse Tristan, rindo do meu constrangimento.

Eu o ignorei e peguei o chá que o Sr. Henson tinha feito, passando-o de uma xícara para um copo de

isopor.

- Não quero falar com você - adverti, já saindo da loja. - Vem, Emma, vamos embora.

- Só mais alguns detalhes! - implorou Tristan quando eu já estava na porta.

Respirei fundo e me virei.

- Você me levou para um quarto todo verde onde se transformou num monstro igualmente verde

e me detonou. E quando eu digo "detonou", significa em todas as acepções da palavra.

Ele piscou. Piscou de novo. Olhar vago. Olhar vago.

- Como é que é?

A confusão em seu rosto quase me fez gargalhar.

- Você queria saber.

- Você é uma mulher muito, muito estranha.

O Sr. Henson sorriu.

- No verão de 1976, aconteceu a mesma coisa comigo.

- O senhor teve um sonho erótico? - perguntei, confusa.

- Sonho? Não, querida. Eu me refiro a ser detonado em um quarto verde.

Momento constrangedor número 5.442 desde que voltei a Meadows Creek.

- Estou indo. Obrigada pelo chá, Sr. Henson.

- Vou cortar a grama mais tarde - avisou Tristan.

Eu sabia que ele não estava dizendo nada demais, mas, ainda assim, enrubesci.

Naquela tarde, Faye passou lá em casa porque eu precisava da ajuda dela para escolher alguns

tecidos e cores para a decoração de Tristan. Ela sempre teve um bom olhar para os detalhes.

Sentamos na varanda e apresentei os três conceitos diferentes que havia criado para a casa, mas

em vez de prestar atenção no trabalho, ela se concentrava no lindo homem que cortava a grama do

meu jardim. Emma estava ao lado dele, ajudando-o a puxar o cortador e tentando convencê-lo de

que era melhor do que ele na tarefa. Ela brigava com Tristan o tempo todo, dizendo que ele estava

fazendo tudo errado. Ele apenas ria e a provocava também. Faye o avaliou de cima a baixo e ficou

impressionada com sua transformação. Ela ainda não o tinha visto depois que ele havia tirado a

barba e revelado aquele rosto assimétrico. Até aquele dia, ela também nunca o tinha visto sorrir. A

barba de Tristan já estava crescendo de novo e, para ser sincera, eu a preferia grande. Adorava sua

barba quase tanto quanto seu sorriso.

- Não estou acreditando. - Faye suspirou. - Quem poderia imaginar que aquele cara

grosseiro, idiota e meio hippie pudesse se transformar nesse homem tão... gostoso?

- Bom, todos somos grosseiros e idiotas de vez em quando.

Ela se virou para mim, um sorriso travesso nos lábios.

- Ah, merda, você gosta dele.

- O quê? Não. Ele só me ajuda nas tarefas de casa. Basicamente, só com a grama.

A voz dela ficou mais alta. Faye era simplesmente incapaz de falar baixo.

- Você tem certeza de que é só a grama? Ou ele também ajuda a desentupir seu encanamento

usando uma vara bem grande?

- Cala a boca, Faye! - Ruborizei. - Não quero falar sobre isso com você. Vamos lá, preciso da

sua opinião. Qual disposição dos móveis você prefere para a sala de estar e a sala de jantar? Eu

queria incorporar umas peças de madeira que ele faz. Tristan trabalha muito com madeira, e pensei...

- A madeira dele é boa? É grossa? Tristan tem um pau bem grande e grosso?

Estreitei os olhos.

- Sua mente é sempre tão suja?

- Sempre, docinho. Sempre. Dá pra perceber que você gosta dele.

- Não, nada disso.

- Você gosta dele.

Senti um frio na barriga. Olhei para Tristan, que também estava olhando para mim, e sussurrei:

- Sim. Eu gosto dele.

- Meu Deus, Liz. Só você pra se apaixonar pelo cara grosseiro que passa por uma completa

transformação. Igual ao personagem do Brad Pitt naquele filme... Lendas da paixão. - Ela riu. -

Aliás, ele também não se chamava Tristan no filme?

- Nossa, como você é espertinha.

- É quase ridículo.

- Quase.

Ela se aproximou de mim e avaliou meu rosto.

- O que é isso?

- Isso o quê?

- Esse sorrisinho estranho. Essa cara de quem fez sexo! Você transou com ele!

- O quê? Não, eu...

- Não tente enganar uma ninfomaníaca, Liz. Você pegou esse cara!

Como uma garotinha que acabou de experimentar o primeiro beijo, eu me rendi.

- Eu peguei esse cara.

- Jesus amado! Aleluia! - Ela se levantou e começou a cantarolar pela varanda. - ALELUIA!

ALELUIA!!! A seca acabou!

Tristan olhou na nossa direção e ergueu a sobrancelha.

- Tudo bem aí, senhoritas?

Puxei Faye para que ela se sentasse e ri.

- Tudo ótimo.

- Incluindo a bunda gostosa dele - murmurou Faye com um sorriso. - Então, como foi?

- Bom, eu até dei um apelido para o brinquedinho dele.

Lágrimas se formaram em seus olhos, e ela levou a mão ao coração.

- Minha menininha está crescendo. Me conta, qual o apelido?

- O Incrível Hulk.

Ela recuou.

- Desculpa, o quê?

- O Incrí...

- Não, não. Eu ouvi da primeira vez. Você quer dizer aquele monstro verde? Liz, você está

trepando com um cara de pau verde? Porque, se estiver, você precisa tomar uma vacina antitetânica.

- Ela me olhou de cima a baixo. - E precisa melhorar seus padrões.

Eu gargalhei.

- Posso falar a verdade sem levar bronca?

- Com certeza.

- Nós transamos para nos lembrar de Steven e Jamie. Nós meio que... usamos o sexo para

recordar como era estar com eles.

- Quer dizer que você imaginava que Tristan era Steven quando trepava com ele?

- Sim. No começo, foi exatamente isso que fizemos. Mas paramos. Fiquei muito sensível e não

consegui lidar com a situação.

- Só que agora você gosta dele.

- Sim. O que é péssimo, porque sei que ele só via Jamie quando estava comigo.

Faye olhou para Tristan.

- Duvido.

- O quê?

- Ele vê você, Liz.

- Como assim?

- Veja bem, esse é o ponto de vista de uma mulher que já dormiu com milhares de caras

diferentes, imaginando que a maioria deles era o Channing Tatum. Consigo perceber a diferença

quando alguém está pensando em você ou em outra pessoa. Veja a forma como ele olha pra você.

Vi Tristan me observando. Será que ele realmente pensava em mim quando estávamos juntos?

E, se isso fosse verdade, porque eu ficava tão feliz com a ideia? Balancei a cabeça, sem querer

admitir o que estava realmente acontecendo entre nós dois.

- Mudando de assunto, você e Matty. Como estão as coisas?

- Péssimas. - Ela suspirou, levando a mão ao rosto. - Preciso terminar com ele.

- O quê? Por quê?

- Porque fui babaca e acabei me apaixonando.

Meus olhos brilharam.

- Você está apaixonada.

- Eu sei, é terrível. Bebo toda noite para esquecer. Agora, cala a boca e vamos falar da madeira

grande e grossa do Tristan.

Depois de horas rindo e falando sacanagem, Faye e eu finalmente decidimos as cores para cada

cômodo da casa dele.

            
            

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