Quando o táxi deixou meu pai e eu no hospital, corri para a emergência. Passei os olhos pela recepção à
procura de algo, de alguém conhecido.
- Mãe - chamei, e então ela me viu da sala de espera. Tirei o boné e corri em sua direção.
- Ah, filho.
Ela me abraçou, chorando.
- Como eles estão? Como...
Mamãe começou a soluçar, seu corpo estremecendo.
- Jamie... Jamie se foi, Tristan. Ela lutou muito, mas não conseguiu.
Eu a soltei.
- Como assim, ela se foi? Ela não foi a lugar algum. Ela está bem. - Olhei para meu pai, que me
encarava, chocado. - Pai, fala pra ela. Fala que Jamie está bem.
Ele abaixou a cabeça.
Tudo dentro de mim se inflamou.
- Charlie? - perguntei, sem saber se queria mesmo saber a resposta.
- Está no CTI. Ele não está reagindo muito bem, mas...
- Aqui. Ele está aqui. - Passei a mão pelo cabelo. Ele estava bem. - Posso vê-lo? - perguntei.
Minha mãe assentiu. Corri para a recepção e falei com as enfermeiras, que me levaram até o quarto
de Charlie. Levei as mãos à boca quando olhei para o meu filho e todas as máquinas ligadas a ele. Estava
entubado, vários medicamentos sendo injetados em suas veias, e seu rosto estava machucado, roxo.
- Meu Deus... - murmurei.
A enfermeira me deu um sorriso cauteloso.
- Você pode segurar a mão dele.
- Por que o tubo? P-p-por que ele está entubado? - gaguejei. Minha cabeça tentava se concentrar
em Charlie, mas a ficha começou a cair. Jamie se foi, minha mãe disse. Ela se foi. Mas como? O que
aconteceu?
- O acidente provocou um pneumotórax no pulmão esquerdo, e ele está com muita dificuldade pra
respirar. O tubo é para ajudá-lo.
- Ele não consegue respirar sozinho?
Ela balançou a cabeça.
- Ele vai ficar bem? - perguntei para a enfermeira e vi o remorso em seu olhar.
- Não sou médica. Só eles podem...
- Mas você pode me dizer, não pode? Coloque-se no meu lugar. Acabei de perder minha esposa. -
Falar isso em voz alta mexeu com minhas emoções e respirei fundo, em choque. - Se esse garotinho fosse
tudo que te restasse no mundo, você iria querer saber se ainda resta uma esperança, certo? Você
imploraria a alguém que te dissesse o que fazer. Como fazer. O que você faria?
- Senhor...
- Por favor - supliquei. - Por favor.
Ela olhou para o chão e depois para mim.
- Eu seguraria a mão dele.
Assenti. Soube naquele momento que ela havia acabado de me dizer a verdade que eu não queria
ouvir. Sentei na cadeira do lado da cama de Charlie e peguei sua mão.
- Oi, filho, sou eu. O papai está aqui. Sei que eu estava longe, mas agora estou aqui, tá? Estou aqui e
preciso que você lute. Você consegue fazer isso, cara? - Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e beijei sua
testa. - Papai precisa que você volte a respirar sozinho. Você tem que melhorar, porque preciso de você.
Sei que as pessoas dizem que os filhos precisam dos pais, mas é mentira. Preciso de você pra seguir em
frente. Pra continuar acreditando no mundo. Cara, preciso que você acorde. Não posso perder você
também, tá? Preciso que você volte pra mim... Por favor, Charlie... Volte para o papai.
O peito dele começou a inflar, mas, quando ele tentou expirar, as máquinas começaram a apitar. Os
médicos correram até o leito e tiraram minha mão da dele. Charlie tremia incontrolavelmente. Eles
gritavam um com o outro, dizendo coisas que eu não entendia, fazendo coisas que eu não compreendia.
- O que está acontecendo? - berrei, mas ninguém me ouviu. - O que houve? Charlie! - gritei, e
duas enfermeiras tentaram me tirar do quarto. - O que eles estão fazendo? O que... Charlie! - gritei
cada vez mais alto enquanto elas finalmente me arrancavam do quarto. - CHARLIE!
Na sexta-feira à noite, sentei-me à mesa de jantar e disquei um número que um dia foi muito
familiar para mim, mas que eu não usava há algum tempo. Segurei o telefone junto ao ouvido.
- Alô? - respondeu uma voz suave. - Tristan, é você? - O tom cauteloso em sua voz
provocava um aperto no meu estômago. - Filho, por favor, fale alguma coisa... - murmurou ela.
Levei a mão fechada à boca e a mordi, sem responder.
Desliguei o telefone. Sempre desligava. Continuei ali sozinho pelo resto da noite, deixando a
escuridão me engolir.
Capítulo 8
Elizabeth
No sábado de manhã, pensei que fosse acordar toda a vizinhança com minhas tentativas de ligar o
cortador de grama, que falhava o tempo todo. Steven sempre fazia isso parecer fácil quando aparava
a grama do jardim, mas eu não tinha a mesma sorte.
- Vamos lá. - Puxei a corda novamente e, depois de titubear, o aparelho morreu. - Jesus
Cristo!
Fiz várias tentativas e fiquei vermelha de vergonha quando alguns vizinhos olharam pela janela
para ver o que estava acontecendo.
Eu estava prestes a puxar a cordinha do cortador de grama mais uma vez quando senti uma mão
em cima da minha. Tive um sobressalto.
- Pare - advertiu Tristan, irritado. - Que diabos você está fazendo?
Franzi o cenho, olhando para os lábios dele.
- Cortando a grama.
- Você não está cortando a grama.
- Sim, estou.
- Não, não está.
- Então o que eu estou fazendo?
- Acordando o mundo todo, porra!
- Tenho certeza de que as pessoas na Inglaterra já estão acordadas.
- Cala a boca.
Hummm. Acho que alguém não gosta muito de papo de manhã. Ou de tarde. Ou de noite. Ou de
papo. Ele pegou o cortador e o levou para longe de mim.
- O que você está fazendo? - perguntei.
- Vou cortar sua grama. Assim você não acorda o mundo todo. Menos a Inglaterra, é claro.
Não sabia se ria ou se chorava.
- Você não vai conseguir cortar a grama. Acho que o cortador está quebrado. - Em questão de
segundos, ele puxou a corda com força, e o motor começou a funcionar. Ai, que vergonha. - É sério.
Você não pode fazer isso.
Ele nem se virou para me olhar. Simplesmente começou seu trabalho, fazendo algo que jamais
pedi que ele fizesse. Quase iniciei uma discussão, mas me lembrei da história de que ele tinha
matado um gato só porque estava miando muito e, bem, achei melhor preservar minha existência
patética. Preferi não correr o risco.
- Ficou ótimo - elogiei quando Tristan desligou o cortador. - Meu marido... - Fiz uma pausa
e respirei fundo. - Meu falecido marido sempre cortava a grama em linhas diagonais. E sempre
dizia: "Amor, vou recolher os tufos de grama amanhã. Estou muito cansado agora." - Dei um
sorriso triste e olhei para Tristan, sem vê-lo de fato. - Os tufos ficavam por aí pelo menos uma
semana. Às vezes, duas. Era estranho, ele sempre cuidava muito melhor do gramado dos outros.
Mesmo assim, eu gostava daqueles tufos - falei, meio ofegante, e lágrimas brotaram em meus olhos.
Virei-me para Tristan, secando-as. - Enfim, achei legal você também ter cortado em diagonal. -
Lembranças idiotas. Coloquei a mão na maçaneta da porta, mas meus pés se detiveram quando o
ouvi.
- Elas aparecem sem você perceber e acabam te derrubando - comentou ele baixinho, como
uma alma abandonada que se despede de sua família. Sua voz estava muito mais suave. Ainda soava
meio ríspida, mas dessa vez havia um pouco de inocência nela. - As pequenas lembranças.
Voltei-me e vi que ele estava encostado no cortador de grama. Seu olhar tinha mais vida do que
das outras vezes, mas era uma vida triste. Um olhar sombrio e devastado. Apoiei-me para não perder
o equilíbrio.
- Às vezes, acho que as pequenas recordações são as piores. Consigo lidar com as lembranças do
aniversário dele e até do dia em que ele morreu, mas quando as pequenas coisas vêm à tona, como o
modo como ele cortava a grama, ou ele pegando o jornal só pra ler as tirinhas, ou fumando charuto
na véspera do ano-novo...
- Ou a forma como ela amarrava os sapatos, pulava as poças de água da chuva, tocava a palma
da minha mão com o indicador e fazia o desenho de um coração nela...
- Você também perdeu alguém?
- Minha esposa.
Ah.
- E meu filho - sussurrou ele, ainda mais baixo.
Fiquei de coração partido.
- Sinto muito. Não imaginei... - Não achei as palavras enquanto ele olhava para minha grama
recém-cortada. A ideia de perder tanto o amor da minha vida quanto minha filha era demais para
mim; não consegui nem imaginar essa possibilidade.
- O jeito como ele rezava, a forma como escrevia o R ao contrário, os carrinhos de brinquedo que
ele desmontava para depois consertar...
A voz de Tristan estava trêmula, assim como seu corpo. Ele não se dirigia mais a mim. Nós dois
estávamos em mundos separados, feitos de nossas pequenas recordações, e, ainda assim,
conseguíamos sentir a dor um do outro. A solidão reconhecia a solidão. E hoje, pela primeira vez,
consegui enxergar o homem por trás da barba.
Vi a comoção em seus olhos quando ele colocou os fones de ouvido. Começou a varrer os tufos de
grama e não falou mais nada.
As pessoas da cidade achavam que ele era um idiota, e eu até entendia o porquê. Ele não estava
bem, sentia-se completamente destruído, mas eu não o culpava pela frieza. Na verdade, eu meio que
invejava a maneira como Tristan escapava da realidade, se desligava do mundo e se fechava para
tudo ao seu redor. Devia ser bom se sentir vazio de vez em quando. Só Deus sabe que eu pensava em
me desligar do mundo todos os dias, mas eu tinha Emma para manter minha sanidade.
Se eu a tivesse perdido, também abriria mão de todo o sentimento, de toda a dor.
Quando terminou tudo no jardim, Tristan permaneceu imóvel, mas sua respiração ainda estava
pesada. Ele me encarou com os olhos vermelhos e os pensamentos provavelmente confusos.
Enxugou a testa com a mão e pigarreou.
- Pronto.
- Quer tomar café? - perguntei. - Tem o suficiente pra nós dois.
Ele colocou o cortador de grama de volta na minha varanda.
- Não. - E saiu, desaparecendo de vista. Fiquei lá, de pé, com os olhos fechados. Levei as mãos
ao coração e, por um breve momento, também me desliguei do mundo.
Capítulo 9
Elizabeth
Na manhã seguinte, dei uma passada na oficina do Tanner para ver a surpresa que ele havia
mencionado na semana anterior. Emma, Bubba e eu fomos até o centro da cidade. Ela cantando sua
própria versão de Frozen, eu querendo cortar os pulsos e Bubba sendo o agradável e silencioso
bichinho de pelúcia zumbi.
- Tio T! - gritou ela, correndo e quase derrubando Tanner, que estava com a cabeça dentro do
capô de um carro. Ele usava uma camisa branca cheia de manchas de óleo, a mesma substância que
tinha no rosto.
Tanner virou-se e pegou Emma no colo, girando-a no ar antes de abraçá-la bem apertado.
- Oi, garotinha. O que é isso atrás da sua orelha? - perguntou ele.
- Não tem nada atrás da minha orelha.
- Ah, acho que você está enganada. - Ele tirou a moeda de trás da orelha dela, fazendo-a rir
muito, como sempre. - Tudo bem com você?
Emma sorriu e começou a contar, com uma expressão muito séria, que eu a deixei se vestir
sozinha naquele dia. O resultado foi uma saia de tutu preta, meias de arco-íris e uma camisa de
pinguins zumbis.
Eu ri. Tanner a encarava como se estivesse muito interessado na história. Depois de alguns
minutos, deu a ela algumas notas de 1 dólar para que comprasse doces na máquina de venda
automática com a ajuda de um de seus funcionários, Gary. Ouvi Emma repetir toda a história da
roupa para o pobre homem.
- Ela está ainda mais linda do que eu me lembrava. Tem seu sorriso.
Mesmo achando que o sorriso dela era mais parecido com o de Steven, agradeci o elogio.
- Então, tenho uma coisa pra você, vem cá.
Ele me conduziu até uma sala nos fundos, onde um lençol cobria um carro. Quando ele arrancou
o pano, minhas pernas ficaram bambas.
- Como? - perguntei ao contornar o jipe, passando meus dedos por ele. O carro de Steven
parecia novinho em folha. - Foi perda total.
- Bobagem. Amassados e arranhões sempre podem ser consertados.
- Isso deve ter custado uma fortuna.
Ele deu de ombros.
- Steven era meu melhor amigo. Você é uma das minhas melhores amigas. Só quis fazer alguma
coisa boa para quando você voltasse.
- Você sabia que eu ia voltar?
- Tínhamos esperança. - Tanner mordeu o lábio e olhou para o carro. - Ainda me sinto
culpado. Na semana anterior ao acidente, implorei a ele que trouxesse o carro aqui pra uma revisão.
Ele disse que ainda dava pra esperar alguns meses, que o jipe ainda estava bom. Não consigo deixar
de pensar que, talvez, se eu tivesse feito uma revisão e encontrado algum problema... Se ele tivesse
deixado eu dar uma olhada no motor, talvez ele ainda estivesse... - Ele levou a mão ao rosto e parou
de falar.
- Não foi culpa sua, Tanner.
Ele fungou e deu um sorriso triste.
- Bem... é que isso passa pela minha cabeça de vez em quando. Agora, vem aqui, vamos entrar.
Entrei pelo lado do motorista e sentei. Fechei os olhos e respirei fundo algumas vezes antes de
colocar a mão no banco do carona, esperando aquele toque, aquela sensação gostosa de segurar a
mão de uma pessoa. Não chore. Não chore. Estou bem. Estou bem. Então, senti o calor de outra mão
segurando a minha e abri os olhos, deparando-me com Emma, o rosto todo lambuzado de chocolate.
Ela sorriu, e eu automaticamente fiz o mesmo.
- Tudo bem, mamãe?
Uma respiração de cada vez.
- Sim, querida. Estou bem.
Tanner se aproximou e me entregou as chaves.
- Bem-vindas de volta, senhoritas. Lembrem-se: se precisarem de mim pra cortar a grama ou
qualquer outra coisa, é só ligar.
- O Pluto já cortou! - exclamou Emma.
- O quê? - perguntou Tanner, erguendo a sobrancelha.
- Acabei contratando um cara pra fazer o serviço. Bem, mais ou menos. Ainda tenho que pagar a
ele de alguma forma.
- O quê? Liz, você sabe que eu faria isso de graça. Quem você contratou?
Sabia que ele não ia gostar da resposta.
- O nome dele é Tristan...
- Tristan Cole?! - Tanner passou a mão pelo rosto, prestes a ficar vermelho. - Liz, ele é um
babaca.
- Não é.
Bem, sim, ele é.
- Acredite em mim, ele é um desequilibrado. Você sabia que ele trabalha para o Sr. Henson?
Devia estar num hospício.
Não sei por que, mas parecia que Tanner estava falando de mim.
- Você está exagerando, Tanner.
- Ele é doente. E Tristan é perigoso. Só... deixa que eu cuido do jardim pra você. Meu Deus, ele
é seu vizinho. Odeio isso.
- Ele cortou o gramado muito bem. Não precisa se preocupar.
- Preciso. Você confia demais nas pessoas. Liz, use mais a cabeça que o coração. Você tem que
pensar. - Ai, isso doeu. - Não estou gostando nada disso e duvido que Steven também fosse gostar.
- Bom, ele não está mais aqui - sibilei sentindo-me um pouco constrangida e muito magoada.
- Eu não sou boba, Tanner. Posso cuidar disso. Eu só... - Fiz uma pausa, dando um sorriso
forçado. - Obrigada. Pelo jipe. Você não tem ideia do que significa pra mim.
Ele deve ter percebido meu sorriso forçado, pois colocou a mão no meu ombro e disse:
- Desculpe, eu sou um idiota. Só fico preocupado. Se acontecer algo com você...
- Estou bem. Estamos em segurança. Prometo.
- Está bem. Então vá embora antes que eu fale mais alguma coisa de que vá me arrepender. -
Ele riu. - Emma, cuide da sua mamãe, tá?
- Por quê? Eu sou a criança, não ela - respondeu minha filha, insolente. Não consegui disfarçar
uma risada, porque aquilo era cem por cento verdade.
Capítulo 10
Elizabeth
Todas as sextas-feiras, depois de deixar Emma na casa dos avós, eu caminhava rumo ao mercado
central. Os moradores vinham até o centro de Meadows Creek para vender e trocar seus produtos. O
cheiro de pão fresco, os arranjos de flores e as fofocas de uma cidade pequena faziam o passeio valer
a pena.
Steven e eu gostávamos de ver as flores, então, quando a sexta-feira chegava e trazia consigo o
aroma das rosas recém-colhidas, eu sempre ficava bem ali, no meio de todo aquele movimento,
inspirando as recordações e expirando a dor.
Durante minhas visitas ao mercado, sempre via Tristan andando por lá. Não tínhamos trocado
nenhuma palavra desde que ele cortou a grama do meu jardim, mas eu não conseguia parar de
pensar naqueles olhos tristes. Não conseguia parar de pensar na esposa e no filho dele. Quando eles
morreram? Como? Há quanto tempo Tristan vivia esse pesadelo?
Eu queria saber mais.
De vez em quando, eu o via sair do galpão no quintal. Ele ficava lá por horas e saía apenas para
cortar madeira na serra de mesa.
Toda vez que ele passava por mim parecia que meu rosto ia pegar fogo, e eu fazia de conta que
não o via. Mas eu o via, sim. Eu sempre o via, e não sabia exatamente o porquê.
Todo mundo falava que ele era grosseiro, e eu acreditei nisso. Vi sua hostilidade. Mas também vi
uma parte dele que ninguém conhecia. Vi quando ele desmoronou ao saber que Zeus ficaria bem. Vi
quando ele se abriu com timidez, falando da perda da esposa e do filho. Vi o lado gentil e devastado
de Tristan, coisa que a maioria das pessoas não enxergava.
Quando eu estava parada no meio do mercado central, ocorreu-me que havia mais um lado de
Tristan que me intrigava. Todas as sextas, ele andava como se não enxergasse ninguém.
Concentrava-se apenas em sua missão, que consistia em comprar sacolas de mantimentos e flores.
Depois, ele desaparecia ladeira acima, até uma ponte, onde entregava as compras e as flores para um
mendigo.
Só soube disso quando retornei para casa um dia e o vi entregar as sacolas. Sem conseguir
disfarçar o sorriso, me aproximei. Mas ele começou a andar para casa.
- Oi, Tristan.
Ele olhou para mim sem dar a mínima.
Continuou andando.
Parecia até que estávamos voltando à estaca zero. Corri para alcançá-lo.
- Só queria dizer que achei seu gesto muito legal. Foi muito lindo o que você fez por aquele
homem. Acho que...
Ele parou e se virou na minha direção. Com o semblante fechado, estreitou os olhos.
- Que diabos você pensa que está fazendo?
- O quê? - gaguejei, confusa com seu tom de voz.
Ele se aproximou.
- Você acha que não percebo como olha para mim?
- Do que você está falando?
- Quero deixar uma coisa bem clara - disse ele com rispidez. Seus olhos se tornaram sombrios
novamente. - Não quero me envolver com você de maneira alguma, entendeu? Cortei a merda da
grama do seu jardim porque você estava me irritando. Só isso. Não quero nada com você. Então, para
de me olhar assim.
- Você... você acha que eu estou a fim de você? - perguntei bem alto quando chegamos no topo
da ladeira. Ele ergueu a sobrancelha e me lançou aquele olhar que dizia claro que sim. - Só achei
sua atitude legal, tá? Você deu comida para um mendigo, seu idiota! Não estava querendo te
convidar pra sair ou algo assim. Só estava tentando bater um papo com você.
- E por que você quer bater um papo comigo?
- Não sei! - respondi, as palavras saltando da minha boca. Não sei por que queria conversar
com alguém tão volúvel. Um dia, ele estava falando sobre seus demônios interiores, no outro, gritava
por eu ter dito oi. Não dava pra entender. - Fui muito burra por achar que poderíamos ser amigos.
- E por que eu iria querer ser seu amigo?
Senti um arrepio percorrer meu corpo. Eu não sabia se era a brisa fresca ou se era porque ele
estava muito perto de mim.
- Não sei. Talvez porque você pareça tão sozinho quanto eu. E pensei...
- Você não pensou.
- Por que você tem que ser sempre tão cruel?
- Por que você está sempre me observando?
Fiz menção de responder, mas nenhuma palavra saiu da minha boca. Olhamos um para o outro,
nossos corpos tão próximos que pareciam interligados, tão próximos que nossos lábios quase se
tocavam.
- Todos na cidade têm medo de mim. Você tem medo de mim, Elizabeth? - murmurou ele, sua
respiração tocando minha boca.
- Não.
- E por que não?
- Porque eu vejo você como você é.
A frieza no olhar de Tristan se suavizou por um segundo, como se ele estivesse confuso com
aquelas palavras. Mas era verdade. Eu o enxergava além da raiva em seu olhar, percebia a dor em sua
expressão severa. Via seu coração arruinado, que de alguma forma se parecia com o meu.
Sem pensar, Tristan envolveu minha cintura e pressionou seus lábios contra os meus. A confusão
que tomou conta da minha mente começou a desaparecer quando senti a língua dele entrando em
minha boca, e retribuí o beijo, até com mais vontade que ele. Céus, como sentia falta daquilo. Sentia
falta de beijar. A sensação de estar nos braços de alguém, de se agarrar a essa pessoa para não cair no
abismo. O calor que toma conta da sua pele quando outra pessoa te fornece o ar para respirar naquele
momento.
Eu sentia falta de ser abraçada, de ser tocada, de alguém que me quisesse...
Sentia falta de Steven.
O beijo de Tristan era furioso e triste, agonizante e pesaroso, verdadeiro e bruto.
Exatamente como o meu.
Minha língua passou pelo meu lábio inferior e pressionei as mãos em seu peito, sentindo as
batidas rápidas do seu coração na ponta dos meus dedos, em todo meu corpo.
Por alguns segundos, eu me senti como antes.
Inteira.
Completa.
Parte de algo esplêndido.
Tristan se afastou rapidamente, trazendo-me de volta à realidade, à minha triste existência.
Acabada.
Incompleta.
Sozinha o tempo todo.
- Você não sabe quem eu sou, então pare de agir como se soubesse - disse ele, voltando a
caminhar e me deixando para trás, imóvel, perplexa.
O que foi isso?!
- Você também sentiu, não é? - perguntei, vendo-o ir embora. - Parecia... parecia que eles
ainda estavam aqui. Senti que Steven estava aqui. Você sentiu sua esposa...
Ele se virou para mim com um olhar flamejante.
- Nunca mais fale da minha esposa como se você nos conhecesse.
Tristan voltou a andar depressa.
Ele sentiu.
Sei que sentiu.
- Você não pode... não pode simplesmente ir embora, Tristan. Precisamos conversar. Sobre eles.
Podemos nos ajudar a nos lembrar deles.
Meu maior medo era esquecer.
Ele continuou andando.
Corri para alcançá-lo mais uma vez.
- Além do mais, essa é a razão de se ter um amigo. Conhecer a pessoa. Ter alguém pra
conversar. - Meu coração batia disparado, e eu ficara cada vez mais irritada ao vê-lo ir embora
depois do beijo mais doloroso e saciável que eu já havia experimentado. Tristan me fez lembrar de
como era se sentir feliz, e eu o odiava por ter me abandonado. Odiava vê-lo acabar com aquele
pequeno instante de desejo, com aquela recordação do amor que tinha sido arrancado de mim. -
Meu Deus, você tem que ser um... um... monstro?
Ele se virou e, por um segundo, vi a tristeza escurecendo seu olhar, antes de sua expressão ficar
fria novamente.
- Não quero você, Elizabeth. - Ele ergueu as mãos e veio na minha direção. - Não quero nada
com você. - Ele deu um passo para a frente, e eu recuei. - Não quero falar sobre a droga do seu
marido morto. - Um passo para a frente. - E não quero ouvir você falar merda nenhuma sobre a
minha mulher morta. - Recuo. - Não quero tocar você. - Outro passo. Recuo. - Não quero te
beijar. - Mais dois passos. Recuo. - Não quero passar a língua pelo seu corpo. - Passos. Recuo.
- Tenho certeza de que não quero ser a porra de um amigo. Então, me deixe sozinho e cala a porra
da boca! - gritou ele, praticamente em cima de mim, as palavras saindo de sua boca como um
foguete, e sua voz, como um trovão. Tive um sobressalto, senti medo.
Quando ele finalmente recuou, o salto do meu sapato ficou preso numa pedra, e eu acabei caindo.
Rolei ladeira abaixo. Apesar de alguns arranhões e da vergonha, fiquei bem.
- Merda - murmurou Tristan, aparecendo diante de mim num instante. - Você está bem?
Aqui - disse ele, estendendo a mão para mim.
Recusei a ajuda e me levantei sozinha. Os olhos dele demostravam preocupação, mas eu nem
liguei. Em alguns segundos, provavelmente estariam repletos de raiva.
Pouco antes de eu cair, ele tinha me dito para calar a boca, e era exatamente o que eu estava
fazendo. Pude notar seu olhar patético em minha visão periférica, mas fui mancando para casa em
silêncio.
- Ele te empurrou? - gritou Faye ao telefone. Liguei para ela assim que cheguei e contei sobre o
incidente com Tristan. Eu precisava da minha melhor amiga para confirmar que, apesar de tudo, eu
estava certa, e Tristan, errado.
Mesmo que eu o tivesse chamado de monstro.
- Não foi bem assim. Ele gritou, e eu meio que tropecei.
- Depois que ele te beijou?
- Sim.
- Argh, eu odeio esse cara. Odeio.
Assenti.
- Eu também.
Era mentira, mas eu não podia contar a ela meus verdadeiros sentimentos por Tristan. O quanto
tínhamos em comum. Eu não podia contar a ninguém. Eu não queria admitir nem a mim mesma.
- Mas já que estamos falando nisso, me conta... - disse Faye, e eu quase pude ouvir o risinho
dela pelo telefone. - Ele beijou de língua? Ele fez algum som? Estava sem camisa? Ele te deixou
excitada? Você passou a mão no peito dele? Mordeu o queixo? Qual é o tamanho? É grande? Você
ficou tonta? Apalpou?
- Você me cansa. - Ri, mas minha cabeça ainda estava analisando o beijo. Talvez não tivesse
sido nada. Ou tivesse sido tudo.
Ela suspirou.
- Anda, me conta. Estou tentando trepar agora, e essa conversa está me distraindo.
- O que você quer dizer com tentando trepar? Faye, você está transando agora?
- O que você considera "transar"?
- Transar, oras, sexo!
- Olha, se você está querendo saber se tem um pênis tentando entrar na minha vagina, então a
resposta é sim. Acho que isso é quase transar.
- Pelo amor de Deus, Faye! Por que você atendeu o telefone?
- Bem, primeiro as amigas, depois as trepadas, certo?
Bufei diante da risada dela.
- Oi, Liz - ouvi Matty dizer ao fundo. - Se desligar agora, te dou um turno de trinta horas na
semana que vem.
- Vou desligar.
- O quê? Não. Ainda tenho muito tempo.
- Você é louca.
- Ai, Matty, para. Eu disse pra não morder aí. - Cacete! Minha melhor amiga era uma
aberração. - Tá bom, meu docinho, preciso ir. Acho que estou sangrando. Mas acho que você
deveria encontrar um tempo pra meditar e esfriar a cabeça.
- E o que significa meditar pra você?
- Tequila. Prateleira de cima, desce queimando, ajuda nas decisões difíceis. Tequila.
Parecia uma boa ideia.
Capítulo 11
Tristan
3 de abril de 2014
Quatro dias antes do adeus
De pé na varanda dos meus pais, eu observava a chuva forte que caía no balanço feito de pneu que eu e
meu pai tínhamos feito para Charlie. Ele ia e voltava, batendo contra a moldura de madeira.
- Como você está? - perguntou meu pai, aproximando-se de mim. Estava acompanhado de Zeus,
que logo encontrou um canto seco para se deitar. Virei-me e olhei para ele, um rosto muito parecido com
o meu, apenas mais velho e mais sábio.
Não respondi e continuei observando a chuva.
- Sua mãe comentou que você não está conseguindo escrever o obituário - continuou ele. - Posso
ajudar.
- Não quero sua ajuda - resmunguei, minhas mãos se fechando, as unhas cravadas nas palmas. Eu
odiava sentir a raiva aumentar com o passar dos dias. Odiava culpar pessoas próximas pelo acidente.
Odiava aquela pessoa fria que eu estava me tornando a cada momento. - Não preciso de ninguém.
- Filho... - Ele suspirou, colocando a mão no meu ombro.
- Só quero ficar sozinho - respondi, me afastando.
Ele abaixou a cabeça e passou a mão pela nuca.
- Tudo bem. Estarei lá dentro com sua mãe. - Ele se afastou e abriu a porta de tela. - Mas,
Tristan, só porque você quer ficar sozinho, não significa que esteja sozinho. Lembre-se disso. Sempre
estaremos aqui quando você precisar.
Ouvi a porta se fechar e respirei fundo.
Sempre estaremos aqui quando você precisar.
A verdade era que o "sempre" não durava para sempre.
Coloquei a mão no bolso e peguei o pedaço de papel que eu estava encarando há três horas. Eu tinha
terminado o obituário de Jamie de manhã, mas o de Charlie ainda estava em branco, apenas com o nome
dele escrito.
Como eu poderia fazer aquilo? Como eu escreveria a história de sua vida, quando ele nem teve a
chance de viver?
A chuva começou a cair no papel, e as lágrimas, dos meus olhos. Pisquei algumas vezes antes de enfiá-
lo de novo no bolso.
Eu não ia chorar.
As lágrimas que se fodam.
Meus pés desceram os degraus da varanda, e em segundos eu estava encharcado da cabeça aos pés, me
tornando parte da tempestade que caía.
Precisava de ar. Precisava de tempo. Precisava escapar.
Precisava correr.
Comecei a correr descalço, sem pensar, sem ter uma direção.
Zeus veio correndo atrás de mim.
- Volta pra casa, Zeus! - gritei para o cachorro, que já estava tão molhado quanto eu. - Vai
embora! - berrei, querendo ficar sozinho. Corri mais rápido, mas ele me acompanhou. Fiz tanto esforço
que meu peito parecia queimar, e respirar se tornou essencial. Corri até minhas pernas não aguentarem
mais e desabei no chão. Os raios caíam acima de nós, riscando o céu como se fossem cicatrizes, e comecei
a soluçar de maneira inconsolável.
Eu queria ficar só, mas Zeus estava bem ali. Ele acompanhou minha loucura e ficou do meu lado
quando cheguei no fundo do poço. Ele não ia me abandonar. Chegou perto de mim e lambeu meu rosto,
demonstrando seu amor, me dando seu apoio quando eu mais precisava.
- Tudo bem. - Suspirei, as lágrimas caindo enquanto eu o abraçava. Ele uivou, como se também
lamentasse. - Tudo bem - repeti, beijando sua cabeça e afagando-o.
Tudo bem.
Eu adorava correr descalço.
Correr era algo que eu fazia muito bem.
Gostava de sentir meus pés no chão quando corria.
Gostava de sentir a pele rasgando, de vê-la sangrar com o impacto dos meus pés no concreto da
rua.
Gostava de me lembrar dos meus pecados através das dores do meu corpo.
Eu adorava me machucar.
Mas só a mim. Adorava me ferir. Ninguém mais precisava sofrer. Fiquei longe das pessoas para
não machucar ninguém.
Machuquei Elizabeth, mas não foi de propósito.
Sinto muito.
Como eu poderia me desculpar? Como poderia consertar o estrago que fiz? Como apenas um
beijo pôde me fazer recordar?
Ela caiu por minha causa. Poderia ter quebrado um osso. Poderia ter batido a cabeça. Poderia ter
morrido...
Morte.
Jamie.
Charlie.
Lamento tanto.
Naquela noite, corri ainda mais. Corri pelo bosque. Rápido. Mais rápido. Com força. Mais força.
Vai, Tris. Corra.
Meu pé sangrou.
Meu coração chorava, batendo no peito, confundindo minha cabeça, envenenando meus
pensamentos, desenterrando as lembranças. Ela podia ter morrido, e a culpa seria minha. Eu seria o
responsável.
Charlie.
Jamie.
Não.
Tentei não pensar neles.
Senti a dor atravessando meu peito. Era uma dor boa. Seja bem-vinda. Eu a merecia. Mais
ninguém, só eu.
Sinto muito, Elizabeth.
Meu pé doía. Meu coração doía. Tudo doía.
A dor era assustadora, perigosa, real, boa. Eu me sentia muito bem, de uma forma terrível. Céus,
como eu adorava aquilo. Muito.
Porra, eu adorava a dor.
A noite foi ficando mais escura.
Sentei no galpão, pensando num jeito de pedir desculpas sem que ela quisesse ser minha amiga.
Pessoas como ela não precisavam de pessoas como eu para complicar suas vidas.
Pessoas como eu não mereciam amigos.
Mas o beijo dela...
O beijo dela me fez recordar. Por um momento, a recordação foi boa, mas eu estraguei tudo,
porque é isso que eu faço. Eu não conseguia tirar da cabeça a imagem de Elizabeth caindo. Qual era
o meu problema?
Talvez eu sempre acabasse machucando as pessoas.
Talvez por isso eu tenha perdido tudo o que tinha.
Mas eu só queria que ela parasse de falar comigo, só queria evitar que ela se machucasse.
Não deveria ter dado aquele beijo nela. Mas eu queria beijá-la. Eu precisava do beijo. Eu fui
egoísta.
Não saí do galpão até a lua estar bem alta. Quando saí, ouvi um barulho... alguém estava
gargalhando?
Vinha do bosque.
Eu não devia ter me importado. Devia cuidar da minha vida. Mas, em vez disso, segui o som e
encontrei Elizabeth cambaleando entre as árvores e rindo sozinha, segurando uma garrafa de tequila.
Ela era bonita. Na verdade, quis dizer que ela era linda. O tipo de beleza que não precisava de
muito esforço, que não era difícil de manter. O cabelo loiro caía em ondas, e ela usava um vestido
amarelo que parecia ter sido feito somente para o corpo dela. Eu odiava achar que ela era bonita,
porque a minha Jamie tinha aquele mesmo tipo de beleza.
Elizabeth dançava, tropeçando pelo bosque. Um valsa bêbada.
- O que está fazendo? - perguntei, chamando sua atenção.
Ela dançou até mim, na ponta dos pés, e colocou a mão no meu peito.
- Olá, olhos sombrios.
- Olá, olhos castanhos.
Ela riu novamente, com desdém. Estava completamente bêbada.
- Olhos castanhos. Gostei disso. - Ela encostou o dedo no meu nariz. - Você tem algum senso
de humor? Você é sempre tão sério, mas aposto que pode ser divertido. Diga algo engraçado.
- Algo engraçado.
Ela gargalhou bem alto. Era quase irritante. Mas não, não era nada irritante.
- Gosto de você. Nem sei por que, seu cabeça-dura. Quando você me beijou, eu me lembrei do
meu marido. O que é ridículo, porque você não se parece nada com ele. Steven era tão carinhoso. Ele
sempre cuidou de mim, me abraçava e me amava. E quando me beijava, era porque ele queria me
beijar. Quando parava de me beijar, era só pra tomar fôlego e continuar. Ele queria que eu ficasse
grudada nele. Mas você, olhos sombrios... quando se afastou, pareceu ter nojo de mim. Você me fez
ter vontade chorar. Porque você é cruel. - Ela tropeçou de novo, quase caiu para trás, e segurei-a
pela cintura. - Hum, pelo menos dessa vez você evitou meu tombo. - Ela riu.
Eu me senti mal quando vi o machucado e o corte em seu rosto, provocados pela queda.
- Você está bêbada.
- Não. Estou feliz. Não dá pra perceber que estou feliz? Estou demonstrando todos os sinais de
felicidade. Estou rindo, gargalhando, bebendo e dançando. É iiiiiiisso que pessoas felizes fazem,
Tristan - retrucou ela, afundando o dedo no meu peito. - Pessoas felizes dançam.
- É mesmo?
- Siiiim. Eu não esperava que você entendesse, mas vou tentar explicar - disse, a fala
engrolada. Ela fez uma pausa, se afastou, tomou um gole da tequila e começou a dançar novamente.
- Quando você está bêbado e dançando, nada mais importa. Você fica rodando, rodando, rodando,
e o ar fica mais leve, a tristeza diminui e você consegue esquecer um pouco seus sentimentos.
- E o que acontece quando você para?
- Ah, veja bem, só tem um pequeno problema quando a gente dança. Quando você para de
dançar... - Os pés dela pararam, e ela soltou a garrafa, que se espatifou no chão. - Tudo
desmorona.
- Você não está tão feliz quanto diz.
- É só porque parei de dançar.
Lágrimas escorreram de seus olhos, e ela começou a se abaixar para pegar os cacos de vidro.
Agachei, tentando impedi-la.
- Eu pego.
- Seus pés estão sangrando - comentou ela. - Você pisou na garrafa?
Olhei para baixo, para meus pés machucados e cortados por causa da corrida.
- Não.
- Bem, então, infelizmente, você tem pés muito feios. - Eu quase ri. Ela estreitou os olhos. -
Não estou me sentindo bem, olhos sombrios.
- Bom, você bebeu tequila suficiente para embebedar uma pequena multidão. Vamos lá, vou
pegar água. - Ela assentiu antes de vomitar nos meus pés. - Ou então pode vomitar em mim, você
que sabe.
Ela riu ao limpar a boca com as costas da mão.
- Acho que é o seu carma, porque você foi muito babaca. Agora estamos quites.
Parecia justo, afinal.
Eu a levei para minha casa após o incidente do vômito. Depois de lavar meus pés com a água
mais quente que a raça humana poderia suportar, encontrei-a sentada no sofá da sala, observando
tudo. Seus olhos estavam pesados, embriagados.
- Sua casa é chata. E feia. E escura.
- Que bom que você gostou da minha decoração.
- Posso emprestar meu cortador de grama para você arrumar seu jardim - ofereceu ela. - A
não ser que você prefira morar no castelo da Fera antes de conhecer a Bela.
- Não dou a mínima para o jardim.
- Por quê?
- Porque, diferente de certas pessoas, eu estou pouco me importando com o que os vizinhos
pensam de mim.
- Isso significa que você se importa de alguma forma. O que você quer dizer é que
definitivamente não se importa com o que eles pensam.
- Foi exatamente o que eu disse.
Ela continuou rindo.
- Não foi, não.
Meu Deus, que irritante. E linda.
- Bem, eu definitivamente não me importo com o que as pessoas pensam de mim.
Ela bufou.
- Mentiroso.
- Não é mentira.
- É, sim. - Ela mordeu o lábio inferior. - Todo mundo se preocupa com o que os outros
pensam. Todos se importam com a opinião dos outros. É por isso que eu ainda não consegui falar
pra minha melhor amiga que acho meu vizinho muito atraente, apesar de ele ser um idiota. E viúvas
não deveriam sentir isso por ninguém, nunca mais. Temos que ficar tristes pelo resto da vida. Mas
não tristes demais, porque a tristeza faz as pessoas à nossa volta se sentirem desconfortáveis. Então,
beijar uma pessoa e ficar excitada, sentir aquele frio na barriga, é algo que não pode acontecer... Isso
é um problema. As pessoas julgam. Não quero ser julgada, porque me importo com o que pensam.
Eu me aproximei dela.
- Cara, foda-se. Se você acha o Sr. Jenson gostoso, então que seja. Sei que ele deve ter 100 anos,
mas já o vi fazendo ioga no jardim de casa. Eu entendo sua atração. Até eu já fiquei excitado com o
cara.
Ela caiu na risada.
- Não é exatamente sobre esse vizinho que estou falando.
Assenti. Eu sabia.
Ela cruzou as pernas e se sentou, ereta.
- Você tem vinho?
- Pareço o tipo que bebe vinho?
- Não. - Ela balançou a cabeça. - Você parece o tipo que bebe cerveja bem escura, que faz os
pelos do peito crescerem.
- Exatamente.
- Tá. Me dá a cerveja dos cabeludos, por favor.
Saí da sala e voltei com um copo de água.
- Aqui. Beba.
Ela levantou a mão para pegar o copo, mas seus dedos se desviaram para meu antebraço.
Elizabeth ficou observando as tatuagens.
- São livros infantis. - As unhas percorreram os contornos de A menina e o porquinho. - Eram
os favoritos do seu filho?
Assenti.
- Quantos anos você tem?
- Trinta e três, e você?
- Vinte e oito. Quantos anos ele tinha quando...
- Oito - respondi friamente e vi seu rosto assumir uma expressão triste.
- Não é justo. A vida não é justa.
- Ninguém nunca disse que era.
- Sim... mas sempre acreditamos que ela é. - Elizabeth continuou olhando para as tatuagens e
encontrou Katniss Everdeen com o arco e flecha. - Às vezes, eu escuto você, sabia? Os seus gritos à
noite.
- Às vezes, eu escuto você chorar.
- Posso contar um segredo?
- Pode.
- Todos na cidade esperam que eu seja a mesma pessoa que eu era antes de Steven morrer. Mas
eu não sei mais ser aquela pessoa. A morte muda as coisas.
- Muda tudo.
- Desculpe por ter chamado você de monstro.
- Tudo bem.
- Como assim, tudo bem?
- Porque a morte me mudou, me transformou num monstro.
Elizabeth me puxou para perto de si, fazendo com que eu me ajoelhasse na sua frente. Passou os
dedos pelo meu cabelo e olhou bem dentro dos meus olhos.
- Você provavelmente vai me tratar mal de novo amanhã, não vai?
- Vou.
- Eu sabia.
- Mas não vai ser de verdade.
- Foi o que eu pensei. - Ela passou a ponta do dedo pelo meu rosto. - Você é bonito, um belo
monstro de coração partido.
Toquei o ferimento em seu rosto.
- Dói?
- Já senti dores muito piores.
- Sinto muito, Elizabeth.
- Meus amigos me chamam de Liz, mas você já deixou bem claro que não somos amigos.
- Não sei mais como ser amigo de alguém - sussurrei.
Ela fechou os olhos e encostou a testa na minha.
- Sou uma amiga muito boa. Se quiser, posso te dar umas dicas.
Ela suspirou e encostou levemente os lábios na minha bochecha.
- Tristan.
- Sim?
- Você me beijou.
- Beijei.
- Por quê?
Passei a mão pela sua nuca e puxei-a para perto, bem devagar.
- Porque você é linda. É uma mulher linda... destruída e linda.
Ela abriu um sorriso, e seu corpo estremeceu.
- Tristan?
- Sim?
- Vou vomitar de novo.
Elizabeth ficou com a cabeça dentro do vaso por mais de uma hora, e eu fiquei ali, segurando o
cabelo dela.
- Beba um pouco de água - falei, entregando o copo que estava na pia.
Ela tomou alguns goles.
- Normalmente sou melhor nesse negócio de bebida.
- Todos nós já passamos por noites desse tipo.
- Só queria esquecer por um tempo. Me livrar de tudo.
- Acredite em mim, sei exatamente como é. - Sentei-me ao lado dela. - Como está se
sentindo?
- Tonta. Boba. Idiota. Desculpe por ter vomitado no seu pé.
Eu ri.
- Acho que é carma.
- O que foi isso, um sorriso? Será que Tristan Cole acabou de sorrir pra mim?
- Não se acostume - brinquei.
- Droga. Que pena. Foi legal. - Ela se levantou, e eu fiz o mesmo. - Seu sorriso foi o melhor
momento do meu dia.
- E qual foi o pior momento?
- Quando você fez cara feia pra mim. - Ela ficou me encarando por um instante. - É melhor
eu ir. Muito obrigada por ajudar a curar minha ressaca.
- Sinto muito - repeti, com um nó na garganta. - Sinto muito por ter feito você cair mais cedo.
Ela pousou um dedo nos lábios.
- Tudo bem. Já te perdoei.
Ela voltou para casa muito mais sóbria, mas ainda um pouco cambaleante. Esperei que ela
entrasse antes de ir para a cama. Quando nós dois chegamos aos nossos quartos, ficamos olhando um
para o outro pelas janelas.
- Você sentiu também, não sentiu? - Ela suspirou, se referindo ao beijo.
Não respondi. Mas sim.
Eu também senti.
Capítulo 12
Elizabeth
Naquela noite, depois que Tristan e eu deixamos o parapeito das janelas, fiquei na cama pensando
na esposa dele, ainda um pouco bêbada. Pensei em como ela era. Se tinha o perfume de rosas ou de
lírios. Se sabia cozinhar, fazer bolos. Pensei no quanto ele a amava. Imaginei os dois juntos e, por um
momento, fingi que a ouvia sussurrar "eu te amo" junto à sua barba espessa. Senti as mãos dele
puxando-a para perto, o leve toque nas costas enquanto ela curvava o corpo, o modo como ela
pronunciava o nome dele.
Tristan...
Passei a mão pelo pescoço e imaginei que ele estava tocando o pescoço dela. Ele a deixava
excitada sem dizer uma palavra; ele a amava em silêncio, apenas com o toque. Os dedos dele
desciam pelo seu corpo, e ela gemia quando ele tocava seus seios. Tristan... Minha respiração
acelerou quando o senti provar a pele dela, a língua dele deslizando lentamente, lambendo um
mamilo antes de começar a sugá-lo, mordiscando-o, massageando-o. Ela se entregava a ele.
Tristan...
Passei as mãos pelo meu corpo enquanto Tristan invadia minha mente. Ele abaixou a calcinha
dela, e eu, a minha. A mão dele deslizou por entre as coxas dela, e eu coloquei um dedo dentro de
mim, bem devagar. Gemi, quase surpresa com as sensações que Tristan trazia à tona, o polegar
massageando meu clitóris.
Ela havia partido.
Éramos só ele e eu agora.
Sua barba roçava minha barriga, e sua língua lambeu meu umbigo. Gemi ao introduzir mais um
dedo em mim. Os dedos dele eram rápidos, iam fundo e com força, me fazendo suar. Sussurrei seu
nome como se eu pertencesse a ele, e, quando senti o toque de sua língua, estava prestes a me
entregar completamente. Eu erguia meu quadril para dar maior acesso a ele, meus lábios implorando
por mais. E ele continuava cada vez mais rápido, mais fundo e mais intenso. De forma carinhosa,
gentil. Isso, Tristan...
Meus lábios se entreabriram e pressionei meus dedos com mais força, sentindo-me à beira do
abismo eterno, a um passo de cair nas profundezas do nunca. Ele instigava minha imaginação, me
tocava e suplicava que eu gozasse em seus lábios. E foi o que fiz. Desmanchei-me ao seu toque, o
êxtase tomando conta do meu corpo. Não consegui me lembrar da última vez que me senti tão viva.
Estou bem.
Estou bem.
Estou bem pra cacete.
Depois, abri os olhos e vi a escuridão do meu quarto.
Afastei minhas mãos da parte interna da coxa. Vesti a calcinha, a felicidade se dissipando.
Não estou bem.
Olhei para o lado de Steven na cama e senti nojo de mim. Por um momento, juro que o vi do meu
lado, me olhando, confuso. Pisquei e estendi minha mão para senti-lo, mas ele já tinha ido embora.
Porque ele não estava lá.
O que foi que eu fiz? Como pude fazer isso? O que está acontecendo comigo?
Afastei o cobertor e fui tomar um banho. Entrei de calcinha e sutiã; minhas costas deslizaram pela
parede até eu me ver sentada na banheira, a água escorrendo pelo meu corpo. Implorei para que ela
levasse minha culpa pelo ralo, para que a tristeza me deixasse. Mas isso não aconteceu.
A água do chuveiro se misturou às lágrimas, e fiquei lá até que a água quente se tornasse fria ao
toque da minha pele. Estremeci e fechei os olhos.
Nunca me senti tão sozinha.
Capítulo 13
Elizabeth
Apesar dos protestos de Tanner, decidi que Tristan continuaria cuidando da grama do meu jardim.
Todos os sábados, ele vinha, aparava o gramado e ia para o centro da cidade trabalhar na loja do Sr.
Henson. Às vezes ele trabalhava de manhã, outras, tarde da noite. Não tínhamos conversado
novamente desde a minha bebedeira, e achei que era melhor assim. Emma sempre brincava com
Zeus no jardim, e eu ficava sentada na varanda, lendo um livro. Mesmo quando o coração está em
pedaços, ainda resta uma esperança quando se lê um romance. Ao virar as páginas, eu pensava que,
um dia, tudo ficaria bem novamente. Eu tinha esperança de que esse dia chegaria logo.
Toda semana, eu tentava pagar Tristan, mas ele se recusava a receber. Sempre o convidava para
comer alguma coisa, mas ele não aceitava.
Um sábado, ele chegou justo quando Emma estava no meio de uma crise emocional. Manteve
distância e tentou não se meter no assunto. Ela chorava.
- Não! Mamãe, temos que voltar! Papai não sabe mais onde estamos.
- Tenho certeza de que ele sabe, querida. Acho que só temos que esperar mais um pouco. Dê
mais um tempo para ele.
- Não! Ele nunca demora tanto! Onde estão as plumas brancas? Temos que voltar - dizia ela,
desesperada. Tentei abraçá-la, mas ela se desvencilhou de mim e entrou correndo em casa.
Respirei fundo e, quando olhei para Tristan, vi seu semblante fechado. Dei de ombros.
- Crianças. - Sorri, mas ele continuou com a mesma expressão séria.
Tristan virou de costas para mim e começou a andar na direção da sua casa.
- Aonde você vai?
- Para casa.
- O quê? Por quê?
- Não vou ficar aqui escutando sua filha choramingar a manhã inteira.
O Tristan cruel estava de volta com força total.
- Céus! Quando eu começo a acreditar que você é uma boa pessoa, você vai lá e faz de tudo pra
me lembrar que é mesmo um babaca.
Ele não respondeu, desaparecendo em sua casa escura.
- Mamãe! - Fui acordada por uma Emma superagitada, pulando na minha cama. - Mamãe, é
o papai! Ele veio! - gritava ela, puxando-me para que eu me sentasse.
- O quê? - murmurei, esfregando os olhos. - Emma, nós dormimos até mais tarde aos
domingos, lembra?
- Mas mamãe, papai apareceu! - exclamou.
Sentei-me e ouvi o barulho do cortador de grama. Vesti uma calça de moletom e uma camiseta e
segui minha garotinha, que estava muito empolgada. Quando saímos de casa, fui tomada pela
surpresa ao ver a varanda coberta de plumas brancas.
- Viu, mamãe? Ele achou a gente!
Levei as mãos à boca, chorando ao ver as plumas flutuando ao vento.
- Não chora, mamãe. O papai está aqui. Você falou que ele sempre ia nos encontrar, e ele nos
encontrou - explicou Emma.
Eu sorri.
- É claro, querida. Mamãe só está feliz, só isso.
Emma começou a pegar as plumas.
- Foto? - perguntou. Corri para pegar a velha Polaroid de Steven para tirar uma fotografia de
Emma com a pluma para a coleção "Papai & Eu". Quando voltei, Emma estava sentada na varanda
com um sorriso reluzente no rosto, rodeada de plumas.
- Tá, agora diga xis!
- Xiiiiss! - gritou ela.
A máquina revelou a foto, e Emma correu para guardá-la em sua caixa.
Olhei para Tristan, que estava cortando a grama como se nem percebesse o que estava
acontecendo. Fui até ele e desliguei o cortador.
- Obrigada.
- Não sei do que está falando.
- Tristan... muito obrigada.
Ele revirou os olhos e disse:
- Dá pra me deixar trabalhar?
Tristan deu as costas para mim, mas segurei a mão dele. Era quente e áspera.
- Obrigada.
Quando nossos olhares se encontraram, senti o toque de sua mão se tornar ainda mais caloroso.
Ele abriu um sorriso amplo. Um sorriso que eu sempre soube que ele era capaz de dar.
- Não foi nada. Achei a porcaria das plumas na loja do Sr. Henson. Não deu trabalho nenhum.
- Ele parou. - Ela é uma boa menina. Muito chata, mas boazinha.
- Toma café com a gente? - convidei.
Ele balançou a cabeça.
- Venha para o almoço então.
Ele recusou.
- Jantar?
Ele mordeu o lábio inferior e olhou para baixo, pensando se deveria ou não aceitar meu convite.
Quando ergueu a cabeça, quase caí para trás com a simples resposta:
- Tá.
Os vizinhos sempre cochichavam, se perguntando por que eu deixava Tristan cortar a grama do
meu jardim, mas eu começava a não me importar tanto com o que os outros pensavam de mim.
Sentei-me na varanda, cercada de plumas brancas, enquanto ele trabalhava e Emma brincava com
Zeus.
De vez em quando, Tristan se lembrava de como sorrir.
Sentamos à mesa na hora do jantar. Emma tagarelava sobre Zeus ter comido um inseto morto que
ela achou na varanda. Ela fazia muita bagunça e muito barulho ao comer seu espaguete. Fiquei em
uma ponta da mesa, e Tristan, na outra. De vez em quando, eu notava seu olhar, mas na maior parte
do tempo ele dedicava sua atenção a Emma com um sorriso de canto de boca.
- E Zeus ENGOLIU o bicho! Como uma comida gostosa! E agora ele deve estar grudado nos
dentes dele!
- Você comeu o bicho também? - perguntou Tristan.
- Não! É nojento!
- Ouvi dizer que eles têm muita proteína.
- Não ligo, Pluto! É nojento! - Ela fez uma careta, e nós rimos. - U-u-u-á-á-á! U-u-u-á-á-á! -
continuou ela, mudando para sua imitação de gorila. Depois de ter assistido a Tarzan semanas atrás,
ela havia passado a explorar mais suas raízes primatas. Eu nem sabia como explicar isso a Tristan,
mas logo em seguida vi que não precisava.
- U-u? - respondeu ele, rindo. - Á? Áááá! Áááá!
Será que ele sabia que tinha feito meu coração pular de alegria de manhã?
- Tá bom, Jane. Acho que está na hora de vestir seu pijama. Já passou da sua hora de dormir.
- Mas... - protestou ela.
- Sem "mas...". - Eu ri, fazendo um gesto em direção ao quarto.
- Tá, mas posso ver Hotel Transilvânia no meu quarto?
- Só se você prometer que vai dormir.
- Prometo!
Ela saiu correndo. Eu e Tristan nos levantamos.
- Obrigado pelo jantar - disse ele.
- De nada. Você não precisa ir agora. Tenho vinho...
Ele hesitou.
- E cerveja também - completei.
Isso o convenceu. Eu não quis admitir que a única razão pela qual tinha comprado cerveja era a
esperança de que ele um dia ficasse para jantar. Depois que coloquei Emma na cama, levamos nossas
bebidas para a varanda. Zeus dormia ao nosso lado. De vez em quando, o vento levava uma pluma
embora. Ele não falou muito, mas eu já estava me acostumando com isso. Ficar em silêncio era a
versão dele de ser legal.
- Fico pensando numa maneira de recompensar você pela grama.
- Não preciso do seu dinheiro.
- Eu sei... mas talvez eu pudesse ajudar você com a casa? Na decoração? - ofereci. Eu podia
contar a ele que tinha me formado em design de interiores, e por isso poderia ajudá-lo. A casa dele
era muito escura, e eu adorava a ideia de transformá-la só um pouquinho.
- Não.
- Pelo menos pense no assunto.
- Não.
- Você é sempre tão cabeça-dura?
- Não - respondeu ele. Sorriu. - Sim.
- Posso fazer uma pergunta? - Acabei pensando alto. Ele assentiu. - Por que você dá comida
ao mendigo?
Ele fechou os olhos.
- Um dia, eu estava correndo descalço quando parei na ponte e desmoronei completamente.
Todas as lembranças vieram à tona, e eu comecei a sentir certa dificuldade em respirar. Tive um
ataque de pânico. Aquele homem se aproximou de mim, ficou passando a mão nas minhas costas e
permaneceu comigo até que eu conseguisse recuperar o fôlego. Ele perguntou se eu estava bem, e eu
respondi que sim. Depois, ele disse para eu não me preocupar, porque os dias sombrios durariam
apenas até o sol chegar. Então, quando eu disse que ia embora, ele me ofereceu seus sapatos. É claro
que não aceitei... e ele não tinha nada. Morava debaixo da ponte com um cobertor velho e sapatos
desgastados. Mesmo assim, ele os ofereceu a mim.
- Uau!
- Sim. A maioria das pessoas vê apenas um drogado debaixo da ponte, sabe? Um problema para
a sociedade. Mas eu vi alguém que estava disposto a ajudar um estranho.
- Nossa... Isso é tão bonito.
- Ele é uma pessoa boa. Descobri que tinha servido ao Exército e depois, quando voltou da
guerra, passou a sofrer de transtorno de estresse pós-traumático. A família dele não entendia por que
ele tinha mudado tanto. Ele arrumou um trabalho e acabou sendo demitido por causa dos ataques de
pânico. Perdeu tudo por servir ao país e lutar por nós. Isso é uma merda, sabe? Ele era um herói até
tirar o uniforme. Depois disso, se transformou num problema para a sociedade.
Aquilo partiu meu coração.
Eu já tinha visto aquele homem debaixo da ponte milhares de vezes, mas nunca investiguei sua
história. Pensei em tudo que Tristan contou, no possível motivo de ele ter se viciado em drogas, na
forma como se tornou alguém que eu preferia nem olhar.
Era incrível a capacidade da nossa cabeça de inventar histórias sobre pessoas desconhecidas, que
precisavam muito mais de amor do que nós poderíamos supor. Era muito fácil julgar as pessoas, e eu
pensei em tudo que Emma estava aprendendo comigo. Eu precisava ter cuidado com a forma como
tratava os outros, pois ela sempre observava minhas ações.
Mordi o lábio inferior.
- Posso fazer mais uma pergunta?
- Não sei. Isso vai se tornar um hábito? Porque eu odeio perguntas.
- Essa é a última da noite, eu prometo. O que você escuta? Com aqueles fones no ouvido?
- Nada - respondeu ele.
- Nada?
- As pilhas acabaram há meses e eu não tive coragem de comprar novas.
- E o que você ouvia?
Ele mordiscou o polegar.
- Jamie e Charlie. Há alguns anos, eles gravaram uma música. Eu fiquei com ela.
- Por que você ainda não trocou as pilhas?
- Acho que ouvi-los de novo vai me matar. E eu já estou praticamente morto - sussurrou.
- Sinto muito.
- Não é sua culpa.
- Eu sei, mas ainda assim sinto muito. Nem consigo imaginar... se eu tivesse a chance de ouvir a
voz de Steven mais uma vez, não hesitaria.
- Fale sobre ele - murmurou Tristan. Aquilo me pegou de surpresa. Ele não parecia ser do tipo
que demonstrava interesse na vida dos outros, mas eu usava qualquer oportunidade que tinha para
falar de Steven. Não queria esquecê-lo.
Naquela noite, ficamos na varanda com nossas lembranças. Ele contou tudo sobre o humor bobo
da Jamie, e eu o convidei a entrar no meu coração e conhecer meu Steven. Em alguns momentos,
ficamos em silêncio, e foi perfeito. Tristan sofria com as mesmas dores que eu; talvez sofresse ainda
mais, porque perdeu o filho também. Nenhum pai deveria perder um filho, parecia ser algo
irrecuperável.
- Tenho que perguntar. A varinha no seu dedo indicador... Que livro é esse?
- Harry Potter - respondeu ele com autoridade.
- Ah. Nunca li.
- Você nunca leu Harry Potter? - perguntou, preocupado.
- Desculpe, isso é um problema?
Ele me encarou, perplexo, me julgando.
- Não, é que você sempre está com um livro na mão. É inacreditável que não tenha lido Harry
Potter. Era o favorito do Charlie. Acredito que existem duas coisas no mundo que todos deveriam ler,
porque ensinam tudo sobre a vida: a Bíblia e Harry Potter.
- Verdade? Só essas duas coisas?
- Sim. São tudo de que as pessoas precisam. E, bem, eu ainda não li a Bíblia, mas está na minha
lista. - Ele riu. - Acho que esse é o motivo de nada dar certo na minha vida.
Toda vez que ele ria, uma parte de mim voltava à vida.
- Eu já li a Bíblia, mas não Harry Potter, então, talvez possamos trocar umas informações.
- Você já leu a Bíblia?
- Sim.
- Toda?
- Sim - respondi, ajeitando os cabelos num rabo de cavalo para que ele pudesse ver a tatuagem
com as três cruzes atrás da minha orelha. - Quando eu era mais jovem, minha mãe saía com muitos
homens. Na época, achei que ela teria um relacionamento mais sério com um cara chamado Jason.
Eu o adorava! Ele sempre me trazia doces e outras coisas. Mas era muito religioso, e mamãe falou
que, se eu lesse a Bíblia, talvez ele acabasse nos amando e fosse meu novo pai. Ele até morou com a
gente um tempo. Passei semanas lendo a Bíblia no meu quarto, e um dia fui gritando até a sala
dizendo: "Jason! Jason! Eu consegui. Li a Bíblia toda." Eu estava trêmula, animada, porque achei
que realmente teria um novo pai. Queria aquela oportunidade, mesmo sabendo que meu pai
verdadeiro era melhor que qualquer outro. Na minha cabeça, se eu tivesse um pai de novo, minha
mãe voltaria a ser a pessoa que sempre foi em vez de alguém que eu mal conhecia.
- O que aconteceu com Jason?
Fechei os olhos por um instante.
- Quando cheguei na sala, vi que ele estava carregando as malas para o carro. Mamãe disse que
ele não era "o cara certo" e teve que ir embora. Lembro que fiquei com muita raiva dela... Gritei e
chorei, perguntando como ela poderia ter feito aquilo. Por que sempre tinha que estragar tudo. Mas
era o que ela fazia. Ela sempre estragava tudo.
Tristan suspirou e deu de ombros.
- Mas parece que ela fez um bom trabalho com você.
- Tirando minha falta de conhecimento sobre Harry Potter.
- Sua mãe deveria namorar um bruxo da próxima vez.
- Acredite em mim, deve ser um dos próximos da fila.
Às três da manhã, ele se levantou para ir embora. Corri para dentro de casa e peguei um pacote
com duas pilhas AA. A princípio, ele hesitou, mas depois aceitou-as. Enquanto atravessava o jardim
com Zeus, colocou os fones no ouvido e apertou o play. Vi quando ele parou e cobriu o rosto com as
mãos, soluçando.
Fiquei comovida com o sofrimento dele. Uma parte de mim desejou não ter dado as pilhas, mas a
outra estava feliz por ter feito aquilo. Sua reação demonstrava que ele ainda estava vivo, ainda
respirava.
Às vezes, a pior parte de existir sem a pessoa que amamos é ter que se lembrar de respirar.
Ele virou na minha direção.
- Me faz um favor?
- Qualquer coisa.
Ele apontou para a minha casa.
- Abrace-a com força todos os dias e todas as noites, porque não sabemos o dia de amanhã. Eu só
queria tê-los abraçado mais uma vez.