seguinte, ele exerceria sua função ainda mais. Se
havia alguém no mundo em que eu confiava, além
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da mulher que escolhi para dividir a vida comigo,
era Vladic.
- Não se preocupe, irmão - senti seu
aperto forte em meu ombro e desviei o olhar da
janela do carro e o encarei - Tudo está sob
controle.
- Espero que tenha razão, Vladic.
- O que está incomodando, Dmi? É por
causa da arena? Teme o que Kyara irá dizer?
- Não. Isso não é algo que ela irá
apreciar, mas quando a pedi em casamento, deixei
claro o que somos e o que fazemos.
Eu não sabia como explicar o que me
incomodava. Ivan tinha repassado os planos de
segurança durante a cerimônia, os três dias de festa,
a noite na arena, até minha viagem de lua de mel.
Contudo, eu tinha uma incômoda sensação de que
algo estava fora do lugar.
- Não sei dizer, Vladic. Talvez sejam só
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coisas da minha cabeça.
Ou estivesse preocupado demasiadamente
com Kyara. Ela andava tensa com o casamento e
fazendo muitas perguntas sobre os Kamanev, em
busca de repostas que eu não poderia dar ainda. A
preparação do casamento já vinha sendo exaustiva
demais para ela. Embora ela tivesse tentado
disfarçar, notei sua perda de peso e ar fadigado. No
entanto, o que realmente me deixou preocupado foi
tê-la encontrado desmaiada no banheiro.
Eu amava Kyara, mas só tive noção da
grandiosidade de meus sentimentos por ela quando
a vi caída. Não conseguia entender como meu pai
suportou a partida de seu grande amor. Em uma das
poucas conversas que tive com Vladic, inclusive
naquele mesmo dia, a única explicação que ele
sugeriu era que tinha sido por mim e pela Bratva.
Já eu acreditava que foi pela Bratva, não
porque ele não me amasse, mas o trabalho passou a
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ser sua mulher, e quando não estava mergulhado
nele, ficava na estufa, pensando e lembrando de seu
amor perdido. Meu otets podia achar que eu não
soubesse, mas na estufa ele costumava conversar
com mat' em voz alta, como se ela ainda estivesse
viva.
- Você só tem que se preocupar em
colocar o terno e se divertir - disse ele abrindo um
sorriso - O resto deixe com a gente.
Assenti e tornei a olhar pela janela.
Provavelmente a maior parte de minha tensão era a
grandiosidade do evento. Toda a Bratva estaria
presente, além de que eu deixaria claro a todos que
não era um homem a quem se devia ameaçar.
Quando finalmente chegamos em casa,
Vladic foi para escritório e eu subi a escada em
direção ao quarto. Enviei duas mensagens a Kyara,
uma, quando saí da sala de Ivan e outra, na metade
do caminho, avisando que estava chegando. Em
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ambas não obtive resposta, por isso acreditava que
ela estivesse no quarto tirando um cochilo.
Um sorriso veio ao meu rosto ao pensar na
forma que iria acordá-la. O sexo entre a gente
estava cada vez mais quente, mas nessa última
semana andei pegando um pouco mais leve,
poupando suas energias. A partir de hoje isso
mudaria.
- Kyara? - chamei no quarto vazio,
pois, a porta do banheiro estava fechada e não
entreaberta como ela costumava esquecer.
Fiquei bastante incomodado em ver que
ela também não estava ali e que seu telefone se
encontrava em cima da cama. Dei uma olhada
rapidamente e vi que minhas mensagens não
tinham sido visualizadas por ela. Franzi a testa, não
havia mais nada que precisasse ser verificado em
relação a cerimônia e comemoração, e mesmo que
tivesse, dei ordem expressas a Savin e Ertel que
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Kyara não deveria mais ser incomodada com isso,
então, duvidada que estivesse presa no escritório
dando andamento em alguma complicação de
última hora, mas ela poderia estar passando tempo
no computador. Porém, o único na sala era Vladic.
- Precisa de algo?
- Achei que Kyara pudesse estar aqui.
Não está no quarto e nem com o telefone dela.
Vladic se ergueu da mesa, vindo até mim.
- Já verificou na biblioteca?
Não o respondi, fui em direção à
biblioteca, tendo Vladic a me acompanhar. Assim
como nos lugares que verifiquei, Kyara não estava
lá.
- Talvez tenha ido na estufa? - sondou
Vladic mais uma vez.
Andei apressadamente até a estufa e de lá,
para a piscina, Kyara não se encontrava em
nenhuma das duas. Então, chamei o primeiro
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Boyevik que esbarrei pelo caminho, e ordenei
imediatamente que reunisse mais homens e
fizessem uma busca detalhada por toda a
propriedade.
Meu maior terror era que Kyara tivesse
passado mal mais uma vez e não tivesse tido a sorte
que teve no banheiro, e bateu com a cabeça em
algum móvel. E se...
- Nós vamos encontrá-la - disse Vladic
ao voltarmos para o escritório, depois de ter ido aos
outros cômodos verificar se em algum momento
nossos caminhos haviam se desencontrado - A
casa é enorme. Ela pode ter parado em algum lugar
para descansar e ter pegado no sono.
Vladic estava sendo otimista, eu pensava
em coisas bem mais preocupantes, mas não era do
tipo de fazer alarde, embora a inquietação que tive
por todo o dia parecesse finalmente ter encontrado
uma explicação.
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Uma hora depois, o chefe de segurança da
casa surgiu com dois de seus homens.
- Procuramos em cada canto, senhor -
ele baixou os olhos diante do meu olhar frio e
implacável sobre ele - Aqui, a Srtª. Smirnov não
está.
Avancei até ele, agarrando sua camisa pela
lapela, e apesar de ser um homem
consideravelmente robusto, ergui-o tanto ao ponto
de fazê-lo ficar nas pontas dos pés.
- Onde está minha mulher?
Eu já a considerava assim por direito. Os
papéis que iríamos assinar e a bênção religiosa
passavam apenas de meras formalidades diante de
meu povo.
- Calma aí, Dmitri - disse Vladic ao me
puxar para longe do homem - Matá-lo não terá
muita serventia, pelo menos, não agora.
Vladic tinha razão, eu puniria esse
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imprestável outra hora, minha missão agora era
encontrar Kyara.
- Talvez ela tenha ido embora - sugeriu
o Boyevik - Minha irmã desistiu do casamento na
porta da igreja.
A calma que decidi manter saiu voando
como um pássaro pela janela. Meu punho foi
certeiro em direção à face do Boyevik que tinha
ousado sugerir isso.
- Se vocês não têm nada inteligente para
dizer - disse Vladic quando veio me conter pela
segunda vez - Fiquem calados, porra!
- Ela não fugiu - disse aos homens, mas
encarava Vladic - Pode me soltar.
Levei a mão ao queixo e comecei a andar
lentamente de um lado ao outro enquanto tentava
manter minha serenidade e refletir com clareza.
- Reúnam todos os empregados - disse
ao chefe de segurança - Alguém deve ter visto ou
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ouvido alguma coisa.
Assim que os três homens saíram, Vladic
se colocou à minha frente, dando voz a um dos
meus pensamentos obscuros.
- Você acha que a Tambovskaya teria
tanta ousadia?
Eu tinha levado um deles diante de seus
olhos, então, a vingança poderia ser esperada. Mas
havia também uma segunda opção e essa eu não
queria sequer imaginar.
- Eu sei que Kyara não fugiu, Vladic -
o aperto em meu peito foi forte o suficiente para me
fazer respirar fundo - Vou descobrir onde ela está
e seja lá quem for que a levou de mim, irá lamentar
ter nascido.
E eu sempre cumpria cada promessa
minha.
Não foi preciso interrogar todos os
empregados. Assim que Darya, assustada e em
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prantos, foi colocada diante de mim, meu mundo
desmoronou à minha volta.
Sonya tinha vindo visitar Kyara e foi após
a visita dela que Kyara não tinha sido mais vista
pela casa.
- Ela disse que veio falar com a irmã -
pranteou ela, torcendo o avental em seu uniforme
- A Srtª Kyara disse que iria recebê-la na sala. Eu
não sabia que...
Ela caiu sobre meus pés manchando os
sapatos pretos com suas lágrimas.
- Por favor, Papa - implorou ela - Eu
não sabia.
No momento, pouparia Darya por dois
motivos. O primeiro, o erro tinha surgido dos
Boyevik responsáveis pela segurança que haviam
permitido que Sonya Kamanev, com seu sorriso
falso e palavras adocicadas, entrasse. Segundo,
Kyara tinha um grande carinho por Darya, e ficaria
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furiosa comigo se eu fizesse algo drástico com ela.
Porque eu iria recuperar Kyara de volta, era só uma
questão de tempo.
- Contate o Ivan - disse a Vladic
enquanto ia até uma das gavetas de minha mesa
onde tirei um revólver - Reúna os Boyevik, vamos
até a casa Kamanev.
Enquanto eu meditava durante o caminho
se arrancava todos os dedos de Boris por ter ousado
tocar em Kyara, ou cada um de seus olhos pelo
atrevimento de sequer olhá-la, isso só para
começar, Vladic cuidava dos detalhes em relação a
invasão à mansão Kamanev.
Sonya também não ficaria de fora. Ela
lamentaria amargamente ter abusado da confiança
de Kyara e, principalmente, por ter invadido minha
casa, tirando dela o que eu tinha de mais precioso.
- Ivan já está lá - disse Vladic ao me
encarar com certo alarme - Olha, Dmitri, eu sei
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que você está puto, e tem toda a razão de estar, mas
vamos manter a cabeça fria, ok. Não queremos que
a Kyara se machuque e isso inclui ela se magoar se
você sair ferido.
- Estou calmo, Vladic - o tranquilizei.
O que era realmente verdade. O ódio
explodindo em mim por Boris Kamanev servia
como um analgésico que me fazia ficar calmo o
suficiente para confrontá-lo.
- É isso que me preocupa - disse
Vladic.
Eu precisava recuperar Kyara e levá-la de
volta para casa. Depois, eu brincaria com o que
seriam meus novos ratinhos preferidos, Boris e
Sonya Kamanev.
- Vamos acabar logo com isso - disse a
Vladic e mal esperei o carro ser estacionado em
frente à casa cercada de carros pretos.
Ivan veio imediatamente ao meu encontro
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quando saí.
- É tudo muito estranho - disse ele -
Tem uns dez minutos que chegamos e nenhum
Boyevik de Kamanev veio verificar tanta
movimentação.
Direcionei meu olhar para o grande portão.
Não havia sinais de segurança ali, como também
não parecia existir em volta da casa.
- Vamos entrar e passem por cima de
quem tentar resistir.
Embora eu quisesse ser o primeiro a entrar
na casa, o protocolo de segurança exigia que a vida
do Pakhan fosse protegida. Em momentos como
esse eu desejava ser um homem comum,
enfrentando um verme.
Após se prepararem e gestos de comando
dado por Ivan, um grupo de Boyevik de ação frontal
invadiu a propriedade. Outros passaram pelo
portão e escalaram muros até que eu tivesse sinal
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positivo para entrar. Contudo, nossa ação ofensiva
se mostrou desnecessária. Nem Boris, Sonya e
Kyara se encontravam ali. Só havia serviçais
assustados na casa, a quem começamos a
interrogar.
- Chega! - disse ao Boyevik com alicate
na mãos, após ele arrancar o sexto dente de um
empregado que estava quase desmaiando diante
dele - Estamos perdendo tempo.
Eu não teria problema algum se
arrancassem todos os membros do homem, se
suspeitasse que ele realmente sabia de alguma
coisa. Estava claro que Boris deixara aquelas
pessoas ali apenas com intuito de nos confundir e
perder tempo, enquanto levava Kyara sabe-se lá
para onde.
- Vejam os aeroportos, portos, estradas e
cace cada Kapitan envolvido com Boris - disse a
Ivan e virei em direção a Vladic - Nós vamos
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retornar para a minha casa e fazer uma base de
investigação lá. Vou encontrar Boris Kamanev nem
que eu tenha que ir até o inferno.
- Nós atravessaremos esse portão juntos
- disse Vladic se colocando ao meu lado - Eles
não sabem com quem mexeram.
Principalmente Kamanev, com esse eu
queria lidar pessoalmente.
Levaria algum tempo, infinitamente longo
para mim, para que uma base de investigação e
segurança fosse instalada num dos cômodos
inativos na casa. No momento, não havia nada o
que fazer além de esperar, e se eu queria recuperar
Kyara das mãos do desgraçado do Boris, tinha que
pensar e agir friamente. As minhas emoções
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precisavam ser desligadas e isso estava acabando
comigo por dentro.
Na primeira formação da Bratva, os
primeiros bárbaros, também conhecidos como
ladrares, criaram um código de conduta: Os
Ladrões Dentro da Lei, com 18 leis. A primeira
delas era abandonar seus parentes. A segunda era
não ter família própria. Sem esposa, sem filhos. Os
antigos Vor acreditavam que esse elo deixaria os
guerreiros fracos. Os cargos eram disputados na
arena, através de lutas sangrentas e mortais.
Isso em nossa irmandade foi mudando
quando o terceiro Pakhan, Vasiliy Bondarenko,
atreveu-se a se apaixonar pela filha bastarda de um
guerreiro. A Bratva foi dividida no que é hoje, e da
outra metade surgiu a Tambovskaya, que ainda
segue essas práticas em relação a ascensão dos seus
líderes. Por isso que na Bratva, um filho matar o
pai, irmão contra irmão, não era considerado crime
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desde que o assunto fosse resolvido em família. E
era nas práticas da Tambovskaya que Boris
acreditava e queria que a irmandade voltasse a
seguir.
Só que a Tambovskaya é um grupo de
selvagens parados no tempo, mais preocupados em
guerrear entre si do que evoluir e combater os
inimigos de verdade. A Bratva não perdeu sua
essência como os antigos Vor suspeitaram, ela
ficou organizada e mais forte. Temos em nossas
mãos governos, países, outras organizações, e eu
iria provar a Boris e a qualquer membro da
Tambovskaya que ficamos cada vez mais fortes.
- Vamos lutar, Vladic - disse ao
entramos em casa.
- É claro que vamos.
Quando cheguei à escada, virei para ele
que claramente não tinha compreendido o que eu
realmente havia falado.
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- Vamos lutar agora... - continuei a
subir a escada - no pátio.
- Você quer treinar agora?
Vladic foi um dos primeiros a enxergar
meus sentimentos por Kyara, se não o primeiro.
Acho que ele percebeu antes de mim. Ele sabia que
internamente eu estava destruído. Mas um Pakhan,
mesmo na Bratva, tinha que se mostrar sempre
firme. Meu pai, embora tenha morrido por dentro
junto com minha mãe, não deixou cair uma lágrima
até o sepultamento dela. Nós tínhamos que provar
que estar apaixonados não nos deixava fracos.
- Quanto tempo levará para Ivan chegar e
ajeitar tudo?
- Conhecendo Ivan, não mais do que uma
hora.
- Então, teremos uma hora de treino -
disse a ele e fui em direção ao meu quarto -
Encontro você no pátio em cinco minutos.
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Fechei a porta deixando-o no corredor com
o olhar confuso. Escorei-me contra a porta olhando
em volta. Silencioso e muito vazio sem Kyara aqui.
Meus olhos caíram em um cabide com uma enorme
capa protetora.
Segui desnorteado até ela. O vestido de
noiva de Kyara. Passei a mão no plástico escuro,
recordando que ela tinha avisado que queria fazer
mais um ajuste essa manhã e que eu nem deveria
chegar perto do quarto sem avisá-la primeiro.
- Onde você estiver - sussurrei
encostando minha testa contra o embrulho - Fique
bem. Eu vou te encontrar, eu juro.
Permaneci ali parado por mais dois ou três
minutos até abrir o closet e buscar uma de minhas
roupas de treino. Vladic já fazia o aquecimento
quando cheguei ao pátio. Sempre preferi treinar
com ele porque além de ser um dos homens mais
fortes que já conheci, era um lutador espetacular e
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não pegava leve comigo por ser o filho do Pakhan.
- Pronto? - indagou ele flexionando os
braços.
Apenas assenti, me coloquei em posição
de ataque e avancei sobre ele, acertando o primeiro
golpe. Eu precisava disso, extravasar minha fúria e
frustração em algo. Vladic sabia que meu ataque
não era contra ele. Minha raiva não era com ele e o
ódio que parecia querer me cegar não era para ele.
Contudo, era seu corpo sofrendo as consequências.
Nariz escorrendo sangue e lábio cortado.
Eu também não estava apenas batendo,
levei uns precisos e merecidos socos que cortaram
o supercílio direito e outro que fazia meu queixo
arder feito o inferno. Nesse momento, estávamos
apenas vestidos com as calças. Com peito e braços
nus, suávamos do cabelo às juntas dos dedos dos
pés. Em certo momento da luta, Vladic preparou a
montada sobre mim e fez um golpe de queda me
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arremessando contra o chão, dando em mim uma
gravata que me manteve imobilizado contra o solo.
- Já chega, Dmitri! - rugiu ele forçando
meu rosto contra o chão enquanto eu tentava me
soltar.
Fui capaz me virar, mas tudo que consegui
foi que Vladic aplicasse um novo golpe, desta vez,
de estrangulamento.
- Não está lutando - disse Vladic
lentamente diminuindo a pressão em meu pescoço
- Está agindo como um garoto de rua brigando.
Ele tinha razão. Depois da primeira gota
de sangue que tirei dele ao dar o primeiro golpe
com o pé, senti necessidade de mais e mais. Eu
queria ver muito sangue.
- A gente vai procurar e recuperar a
Kyara. Enquanto fazemos isso, você pode dar
quantos socos em mim quiser, meu irmão - disse
ele ao tirar o braço do meu pescoço - Mas
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enquanto isso, não vou deixar você enlouquecer.
Você é Dmitri Milanovic, o Pakhan.
Vladic, por toda a vida, e agora Kyara, a
mulher que meu coração escolheu amar, eram os
únicos que conheciam o Dmitri, as outras pessoas
conheciam o filho e, agora, atual Pakhan. Esses
dois eram as pessoas mais importantes da minha
vida, por significados diferentes. Eu não conseguia
ver minha vida sem eles. Acabaria como o meu pai,
somente com o Pakhan sob minha pele seca.
- Vladic - murmurei em um tom
abalado, ele continuou me mantendo preso ao chão,
mas sabia que não precisava mais me conter.
Não precisava dizer mais nada, Vladic
entendia tudo através do meu olhar. Saindo de cima
de mim, ele esticou a mão para me ajudar a ficar
em pé. As pessoas que haviam parado seus afazeres
para nos ver lutar, rapidamente voltaram às suas
atividades.
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Vladic me fez voltar para casa e eu fui
direto para o chuveiro. O corte no supercílio estava
feio, provavelmente iria precisar de alguns pontos,
mas não tão ruim como pretendia deixar Boris
quando colocasse minhas mãos nele. Fiz os
cuidados que pude em frente ao espelho, depois,
peguei um conjunto de terno no closet, preto, que
era assim como me sentia por dentro, sombrio. A
minha vida toda fui preto e cinza, as cores vieram
com Kyara e seu sorriso de querubim.
Quando desci para a sala de investigação,
Ivan e sua equipe já estavam na ativa. Os
equipamentos que ele iria precisar estavam
terminando de ser montados.
- Papa, ordenei que trouxessem o
Dembinsky imediatamente - disse Ivan assim que
entrei – Os outros Kapitany estão sendo caçados.
Além do terno escuro que ele costumava
usar, desta vez tinha um tipo diferente de headset
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na cabeça, assim como os demais homens em seu
comando.
- Eu quero interrogar o Dembinsky, no
meu escritório - disse a ele e fui em direção à
mesa onde aparelhos de escuta e computadores
estavam sendo instalados e testados.
Isso me fez pensar em Kyara. A tela de
bloqueio do meu computador era uma imagem
abstrata se formando, mas quando dava o enter, o
plano de fundo surgia com uma foto nossa, a
mesma que havia em meu celular e que ela
praticamente tinha me obrigado a colocar ali. Na
verdade, eu troquei o gesto, que disse a ela ser
piegas, por uma boa foda em cima da mesa. Mas eu
gostava de olhar para a imagem, vez ou outra,
quando as coisas no trabalho ficavam mais calmas.
Menos de uma hora depois, um Boyevik
surgiu, avisando que Dembinsky já estava em meu
escritório. Caminhei cegamento até lá e quando
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avistei o Kapitan, fui direto em seu pescoço,
fazendo-o se erguer da cadeira.
- Onde ela está, seu desgraçado?
Dembinsky agarrou meus pulsos e seu
rosto foi ficando vermelho conforme eu o
pressionava. Por mim, estava tudo ótimo, poderia
apertar seu pescoço até ver a vida esvaindo de seus
olhos assustados, sentindo um enorme prazer.
Dmitri Milanovic estava adormecido, esse era
apenas de Kyara, sob a minha pele estava apenas o
Pakhan. Ele mataria cada Kapitan com suas
próprias mãos e usaria seus ossos para palitar os
dentes.
Mas eu não podia matar Dembinsky, antes,
precisava das informações que ele tinha.
- Eu não.... - ele tentou falar enquanto
puxava o ar profunda e desesperadamente,
massageando a garganta dolorida, quando o soltei
- não sei do que está falando.
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- Ah, mas você sabe - me agigantei
diante dele o intimidando ainda mais com o olhar.
Suas mãos seguravam firme o braço da
cadeira, puxei o dedo mindinho com força e
Dembinsky urrou de for quando o quebrei.
- E vai me contar tudo o que sabe
enquanto quebro cada um dos seus dedos,
considerando se vou ou não arrancar cada um deles.
Dembinsky era um homem velho e assim
como as crianças, eram menos resistentes à tortura.
Protegemos os mais fracos, desde que nunca
infrinjam a lei, ou traiam seu Pakhan como ele
havia feito.
Nove dedos quebrados depois e muito
sangue jorrando do nariz e boca estourada,
Dembinsky implorava por misericórdia. Ele só
deixou mais claro, contando em detalhes, os planos
de Boris que já conhecíamos, as conversas que
rolavam em todos os encontros e deu nomes e
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confirmou todos os Kapitany que se uniram a Boris
contra mim. Era um número significativo, mas não
me inspirava preocupação. Oito Kapitany de
segunda elite, Dembinsky e Kamanev.
- Eu não sei onde ele está - balbuciou
ele cuspindo sangue - Kamanev nunca
compartilhou com a gente essa parte do plano. A
ideia era aproveitar que todos teriam acesso no seu
casamento e destruí-lo.
Eu sabia quando um verme como ele
estava mentindo ou dizendo a verdade. E assim
como o empregado de Boris, Kapitan Dembinsky
havia confessado tudo o que sabia e eu não perderia
mais tempo com ele. Neste caso, tempo era tudo.
Kamanev não queria apenas a minha morte para
ocupar meu lugar. Ele tinha obsessão doentia por
Kyara. Só de pensar que o maldito poderia estar
tocando-a contra sua vontade me deixava maluco.
- Leve-o daqui, Vladic - ordenei ao me
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afastar de Dembinsky, me controlando para não pôr
fim à sua vida de merda com minhas próprias mãos
- Deixe-o nu e leve-o para os corvos famintos se
alimentarem.
Dembinsky merecia uma morte mais cruel,
ser devorado lentamente pela bicadas da criação de
corvos que mantínhamos em uma das instalações
ao redor da arena para onde os Kapitany estavam
sendo levados, um a um.
- Não! - ele gritava ao ser arrastado
pela porta, mas com as mãos nas costas mantive
meu olhar fixo na janela - Eu sei de outra coisa
muito importante. Por favor, eu juro lealdade.
- Tarde demais, Dembinsky - sussurrei
quando a porta foi fechada atrás de mim - Para
você e todos os que ajudaram Boris até aqui.
Antes de tudo isso acontecer, eu tinha
ideia de fazer uma briga justa. Meus melhores
soldados contra os Kapitany que fizeram aliança
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com Kamanev. Se Kapitan ganhasse pouparia sua
vida e os manteria como escravos. Se meu Boyevik
ganhasse, herdaria o título de Kapitan.
As ações de Boris e o sequestro de Kyara
mudaram tudo isso. Não haveria piedade de
ninguém. Um Kapitan lutaria contra o outro por sua
vida nas jaulas até que só restasse um. Seria um
banho de sangue cruel, no qual meus olhos iriam se
deliciar. Depois disso, duvidava que qualquer
pessoa na Bratva ousaria ameaçar o Pakhan outra
vez.
Estava prestes a voltar para a sala onde
Ivan estava quando meu celular tocou em minha
mesa.
- Milanovic?
Fechei os meus dedos até que os nós
começassem a ficar brancos e minha pele, esticar.
- Kamanev?
Eu sabia que era ele. O risinho provocativo
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não deixava dúvidas disso.
- Peguei você - foi tudo o que ele disse
ao desligar.
Apertei o telefone com a mesma força e
gana que tinha feito no pescoço de Dembinsky.
Eu vou acabar com o desgraçado do
Boris, nem que seja a última coisa que faça em
minha vida!
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