sentimentos me dominarem, isso não podia
acontecer nunca.
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- O que você descobriu, Vladic?
- Você quer se sentar?
- Não sou a porra de uma mulherzinha -
olhei zangado para ele.
Isso. Eu tinha que me concentrar na raiva,
lutadores em competição faziam isso, ficavam na
raiva para buscar energia, por isso não era
incomum lutadores passarem semanas antes da luta
provocando um a outro, inflamavam as torcidas e
faziam com que eles mantivessem o foco de quem e
por que deveriam vencer.
- O que você descobriu? - perguntei,
agora com calma. Uma gota de sangue deslizou
pelo meu rosto e Vladic me analisou antes de
responder.
- Precisa ver esse corte. O Dr. Kushin
está lá embaixo, pode dar alguns pontos.
- Não precisava chamar o médico. Eu
mesmo poderia dar os pontos mais tarde.
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Será que como Boris, Vladic me achava
um fraco também?
- Não fiz só por você. Sei que é casca
grossa - explicou ele cruzando os braços - Fiz
por Kyara. Ela pode...
Mais uma vez ele não concluiu. Não
sabíamos como iríamos encontrar Kyara e ela
poderia realmente precisar de ajuda médica.
- Obrigado, Vladic - dessa vez me
sentei na cama esfregando meu rosto - Não pensei
nisso. Acho que não tenho pensado em muitas
coisas, além de encontrá-la logo. Você viu naquele
dia como o Boris olhava para ela. Não é só para me
atingir, ele a quer. Nesse momento, ele pode...
- Dmi, a Kyara sabe se cuidar - disse
Vladic colocando a mão em meu ombro - Lembra
como foi com a gente? Ela tem garras. Só precisa
se manter segura até a gente chegar.
Ele tinha razão, Kyara tinha unhas afiadas
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quando precisava ter, mas Boris era um louco,
somente uma mente insana tentaria algo como ele
fez, enfrentar e desafiar o Pakhan.
- Ele me ligou há pouco - informei a ele
- O Boris. O desgraçado riu na minha cara.
- Contou a Ivan?
- Entreguei o telefone para que tentasse
rastrear a ligação. O número era restrito.
Louco ou não, burro o Boris não era.
- Mas o que você descobriu com
Dembinsky? - voltei ao assunto principal da sua
vinda ao meu quarto - Ele disso algo ao sair que
não me interessei.
- Tem a ver com seu pai e Kamanev.
Ergui da cama em uma postura rígida.
- Você vai me dizer que...
- Isso mesmo - Vladic me interrompeu
- Foi o Boris que manipulou a Yasha para
envenenar o seu pai. Lembra que muitas coisas
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estranhas aconteceram naquele tempo? - houve
incêndios, furtos e mortes, até achamos que a
Tambovskaya estava agindo, mas o líder deles
alegou que não tinham nada a ver com os ataques
que estávamos recebendo - Foi apenas para o
manter distraído do seu pai. E o veneno fez parecer
infarto.
- Eliminar meu pai foi o primeiro passo
para que Boris chegasse onde ele queria - concluí
por fim - Agora, ele quer a Bratva e a Kyara
também. Tudo o que ele sempre mais quis estava
comigo. Mas ele não terá nenhum dos dois. E vou
fazer com que ele pague por ter dado uma morte
tão desonrosa ao meu pai.
- Pode ter certeza que estarei ao seu lado
quando isso acontecer - jurou Vladic.
Meus olhos estavam úmidos, mas não me
permiti liberar as emoções. Estava feito, otets
Milanovic estava morto ao lado de minha mat'; que
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os dois tivessem o descanso merecido.
Cheguei ao escritório e o Dr. Kushin me
encarou com seus olhos de texugo assustado. A
briga com Vladic deixaria Kyara chateada quando
me visse, mas com os devidos cuidados logo os
hematomas desapareceriam.
- Acho que vou precisar de pontos,
doutor.
- Não será o primeiro - ele fez uma
tentativa de gracejar, mas ao notar que nenhuma
expressão surgiu em meu rosto, ficou sério e
indicou a cadeira para que eu me sentasse enquanto
ele colocava sua maleta na mesa - Sei que pode se
remendar sozinho, sempre pôde.
Era parte de ser um guerreiro, e embora
não exercesse a função de um, precisava saber
como lutar, mas também como cuidar dos
ferimentos que recebia.
- Mas o Sr. Guriev também explicou que
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estou aqui de plantão para atender a futura Sra.
Milanovic. Esperamos que nada aconteça. Ela
estava tão feliz com o casamento. Espero que ela
esteja bem, principalmente no estado dela.
- Estado dela? - ele tinha acabado de
colocar a luva e estava com a seringa na mão
quando me virei bruscamente para ele - Que
estado?
Ele mesmo tinha garantido que Kyara
estava bem quando a consultou no dia que a
encontrei desmaiada no banheiro.
O Dr. Kushin ficou pálido e deu alguns
passos para trás. Vladic, que estava atrás, impediu
que se asfaltasse mais com o corpo servindo como
barreira.
- Fale logo, homem! - urrei ao ficar em
pé - O que a Kyara tem?
- Ela disse que iria contar na lua de mel
- disse ele nervoso, tremendo a agulha na sua mão
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- Mas eu pensei que iria contar logo. As mulheres
quase nunca conseguem guardar um segredo, ainda
mais um assim. Pensei que contaria no mesmo dia.
Ele estava enrolando para conseguir minha
piedade, mas só estava me deixando mãos irritado.
- Kushin?
- Ela vai ser a esposa do Pakhan, eu
também tenho que ter a confiança dela. Eu juro que
ela disse que ia contar.
Avancei até Kushin, disposto a arrancar a
confissão nem que fosse com meu punho enfiado
na garganta dele.
- Fale de uma vez - disse Vladic.
- Ela está grávida.
Foi como se eu tivesse levado um soco no
estômago, e pareceu tão real que cambaleei alguns
passos para trás.
- O que disse? - indaguei desnorteado.
- A Srtª Smirnov está grávida. Apenas
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algumas semanas, mas sim. Isso explica o desmaio
daquele dia e outros sintomas.
Kyara estava grávida de um filho meu!
A mulher que eu amava, com quem iria me
casar nas próximas horas, carregava um bebê no
ventre enquanto era mantida prisioneira nas mãos
de um lunático que me odiava.
- Você não me contou nada! - avancei
na direção dele, mas Vladic rapidamente levou o
homem para trás, segurando agora a mim - Sua
obrigação era me contar independente do que ela
dissesse.
Eu a teria protegido melhor. Se eu
soubesse que Kyara estava grávida acho que nem
teria saído de perto dela.
- Dmitri, a gente precisa dele. E foi um
pedido dela, a futura koroleva. Provavelmente ela
queria te fazer uma surpresa. Você, matar o Kushin,
vai deixar Kyara triste - ele olhou por sobre o
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ombro o médico que praticamente chorava - E o
mesmo aconteceria com a sua mat' [1]se estivesse
viva.
Acontece que eu já não estava
raciocinando bem apenas por saber que Kyara
havia sido sequestrada, agora, saber que meu filho
no ventre dela também corria perigo no mesmo dia
que descobri o assassino do meu pai, me tirava todo
o raciocínio lógico.
Se Boris soubesse disso, que o fruto do
nosso amor estava crescendo dentro dela... Não
conseguia nem imaginar o que ele seria capaz de
fazer, apenas para me desestabilizar. Encontrá-la
agora não era questão apenas de precisa tê-la
comigo, mas de sobrevivência para Kyara e o bebê.
- Tire-o daqui - disse a Vladic ao me
curvar e agarrar firme a borda da mesa - Agora!
Assim que senti a porta fechar às minhas
costas, passei o braço sobre a mesa jogando tudo no
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chão, inclusive a maleta do médico, espalhando boa
parte dos utensílios dentro dela sobre o carpete.
Vidros se quebraram, outros materiais rolaram pelo
chão.
Não satisfeito com isso, fui encolerizado
em direção à estante de livros e a derrubei também.
Tudo o que havia no escritório que pudesse ser
derrubado ou danificado sofreu as consequências
da minha ira.
- Maldito! - urrei erguendo a grande e
pesada mesa, virando-a contra o chão - Maldito!
Maldito!
Como já não havia mais nada a ser
atacado, comecei a socar a parede com força.
Cada murro que eu dava, imaginava ser
Boris Kamanev e isso me fazia socar a parede cada
vez mais.
- Pare com isso! - Vladic me conteve e
me afastou da parede manchada de sangue -
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Quebrar a sua mão não vai te ajudar.
- Meu filho - desabei contra o chão e
Vladic se ajoelhou ao meu lado.
Algo tão bonito e que eu não soube pelos
lábios dela; não pude comemorar enquanto via seus
olhos brilharem de felicidade. O desgraçado
Kamanev também tinha roubado isso de mim.
- Cara, alguns meses atrás você nem
pensava em se casar - disse Vladic me amparando
pelos ombros - Agora, terá uma esposa e um
garoto gritando por você pelos cantos.
- Ou uma menina - consegui dizer -
Como a Kyara. Vai ser bonita pra caralho.
- Vamos fazer um acordo - disse ele se
afastando de mim e rastejando pela confusão na
sala até achar a única garrafa no bar que eu não
tinha desperdiçado em minha fúria - Prometo que
encontraremos Kyara e seu filho, porque só eu
estando morto para não ver esse menino nascer.
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Sequei o meu rosto e aceitei a mão que ele
me dava. Só Vladic para conseguir um pálido
sorriso de mim.
- Você afoga suas mágoas - me
estendeu a garrafa - Pelo menos por essas horas,
Dmitri, você está precisando. E quando descer pela
manhã, preciso que esteja forte.
Eu não queria anestesiar minha dor na
bebida. E muito menos, esperar todo esse tempo
para que Kyara fosse encontrada.
- Ivan...
- Está fazendo o possível, cara - disse
ele insistindo para que eu pegasse a garrafa de
vodka - Todos nós estamos. Mas isso pode durar
algumas horas, como pode durar dias.
No fundo, eu sabia que ele tinha razão.
Um dos motivos que mais me deixava puto com
tudo isso é que eu sabia que Boris estava agindo às
minhas costas. Sabia os motivos das reuniões e iria
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pegá-lo no que eu acreditei ser o momento certo,
mas Boris moveu uma peça que eu não sabia estar
na jogada.
Kyara!
- Você me avisou, Vladic - murmurei
pegando a garrafa - É culpa minha. É tudo culpa
minha.
- O único culpado é o Kamanev - disse
ele - Você fez o que achava certo. Eu achei certo.
Você é meu irmão - disse colocando a mão em
meu ombro - Deixe-me carregar um pouco esse
fardo para você.
Nós éramos irmãos de coração, mas se
fôssemos de sangue, não sei se eu o amaria tanto,
talvez houvesse entre a gente inveja e competição.
Eu preferia um irmão que eu escolhia para ser. Não
eram assim os amigos de verdade, quem
escolhíamos para estar do nosso lado e chamar de
irmão?
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- Está bem - disse passando pelo
amontado de lixo que havia espalhado - Confio
em você, Vladic.
Saí em direção ao meu quarto, já tomando
alguns goles pelo caminho.
Eu havia me tornado o que Boris me
alegava ser: um fraco, porque nesse momento, eu
não tinha condições alguma de lidar com a
frustração e raiva que toda essa merda me causava.
Ao chegar ao quarto, um detalhe novo me
chamou atenção, a folha dobrada em cima da
mesinha de cabeceira do lado onde Kyara
costumava dormir. Caminhei até ela, sentei no
chão, as costas apoiadas contra a cama e comecei a
ler.
Eram os votos de casamento. Votos que
prometemos não ler, mas eu não tinha como não
quebrar essa promessa. Estava faminto por um
pouco de Kyara perto de mim.
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"Eu não sou muito boa com as palavras,
acho que poucas pessoas têm esse dom, mas aqui
expresso com toda sinceridade o que há em meu
coração.
Dimitri.
Meu amor... meu cavaleiro de armadura
negra. Não o que me levou para o seu lindo
castelo, mas o que me libertou das muralhas que eu
mesma havia erguido em volta de mim. Você não
tem apenas duas cores, Dmitri, você é todo o meu
arco-íris.
É seu amor que me liberta todos os dias.
Nunca me senti tão livre, tão protegida e tão
amada. Quero ficar sempre presa em teus braços,
eu te escolhi e te escolheria mil vezes..."
O discurso continuava inflamado, mas já
não conseguia ler. A dor em meu peito era forte
demais. Coloquei a garrafa ao meu lado junto com
a carta enquanto a madrugada escura lá fora surgia.
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Até isso me fazia lembrar Kyara e de quantas vezes
ela passou admirando o céu.
Será que olhava para ele agora?
- Querubim, onde você estiver, estou
pensando em você.
Dmitri Milanovic sofria terrivelmente por
Kyara, mas estava na hora de eu deixar o meu lado
negro falar por mim.
Ele era implacável e traria os dois de volta.
Irina Novitsky
Não haverá mais casamento e o Pakhan
não quer ser incomodado.
Essa foi a única informação que tive
quando o boyevik bateu à minha porta uma hora
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antes de eu começar a me preparar para a
cerimônia. Para mim, a informação e a ordem não
foram suficientes.
Por que Kyara não me ligou avisando?
Afinal, eu era uma das damas de honra. Por que
Dmitri, e até mesmo o insuportável do Guriev, não
entraram em contato comigo se tinham meu
telefone? Por que nenhum deles respondia
nenhuma das minhas dezenas de ligações o dia
todo?
Caramba! Eu tinha me tornado mais do
que a cientista maluca que Dmitri supervisionava.
Eu era a amiga da sua futura esposa, amiga de
todos eles, menos de Guriev. Minha relação com
Vladic era estranha de se explicar. Eu o detestava,
mas ele mexia comigo como nenhum outro homem
foi capaz até hoje. Até Dmitri, a quem sempre
considerei um homem lindo, e o cientista novato e
atraente que eu tinha solicitado que trouxessem dos
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Estados Unidos, não exerciam a mesma fascinação
sobre mim.
Vladic era um grosso, ignorante e burro.
Bom, não realmente burro. Dentro do que ele fazia,
no que ele foi treinado para fazer, não havia pessoa
mais eficiente e preparada que ele. Talvez quem
chegasse mais perto fosse Ivan Trotsky, o chefe dos
Obshchak[2]. Que também tinha muitos músculos,
tatuagens e fazia mais a linha galã de cinema do
que Vladic.
Ele não tinha o rosto perfeitinho. O nariz
era quebrado devido as porradas que deve ter
levado guerreando, treinando o porquê agia como
um cretino mesmo. As orelhas típicas de um
lutador, queixo quadrado e duro. Uma muralha de
músculos, músculos por toda a parte para ser mais
exata e eu sempre admirei mais a massa encefálica
do que a muscular, sorri ao pensar nisso, podia usar
isso contra Vladic quando o encontrasse de novo.
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mantidas. Mas Dmitri me deu algo que talvez eu
não tivesse em outro lugar, a oportunidade de
mostrar que era boa, ou podia ser, no meu trabalho.
Não importava para ele se eu usava saia ou um par
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