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alertava.
- Vim ver como você está - ele se
ergueu e foi até o interruptor de luz, fazendo o
quarto clarear.
Eu não sabia se ficava aliviada por ele ter
se afastado ou se me sentia amedrontada por ter
agora seus olhos lascivos em cima de mim.
- Há quanto tempo está aqui?
Que ele me tocava, não deveria ser muito
tempo, acordei rapidamente ao sentir um toque
estranho. Mas há quanto tempo Boris estava no
quarto?
Lembrei dos primeiros dias na casa de
Dmitri quando ele também me manteve presa. Em
uma das noites, senti a presença dele, que admitiu
ter visitado meu quarto, em uma de nossas
conversas na casa da Suíça, mas ele nunca ousou
me tocar quando estive dormindo.
- Com medo de mim, Kya? - ele tornou
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a se aproximar, a cada passo que dava, eu me
encolhia na cama um pouco mais - Eu nunca te
faria mal, a menos que merecesse.
A revolta despertando dentro de mim
confirmava que neste caso ele me machucaria
muito. Minha maior vontade era avançar contra a
garganta de Boris.
- Seja uma boa menina sempre - ele
continuou a dizer, eu dei uma olhada no quarto à
procura de algo como defesa.
A única coisa por perto era o abajur em
uma mesa próximo à cama. Contudo, Boris
acompanhou meu olhar e fechou a cara em claro
sinal de raiva.
- Não sei que tipo de lavagem cerebral o
Milanovic fez com você - disse ele estreitando os
olhos -, mas eu vou reverter. Voltará a ser a
mesma Kyara por quem me apaixonei.
Eu não acreditava em um amor como o
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dele, e mesmo que acreditasse, a Kyara que ele diz
estar apaixonado não existia mais. Aquela era
medrosa e obediente por medo de represálias. Sou
mais forte hoje e meu amor por Dmitri, estar ao
lado dele, me ajudava a crescer. O problema é que
Boris era um surtado. Ele queria ser meu Joker mas
eu não tinha pretensão alguma de ser a Harley
Quinn.
- Ainda sou a mesma, Boris - disse em
uma voz mansa - Sua irmãzinha.
Para lidar com um louco às vezes era
preciso agir como tal. Contudo, minhas palavras
finais foram como gatilho na ira de Boris que veio
até mim como um búfalo desnorteado e agarrou o
meu queixo com força.
- Você nunca foi minha irmã, nunca -
seu aperto agressivo criou lágrimas em meus olhos
- Será a minha mulher e mãe dos meus filhos. E
eles serão incríveis, meu amor. Guerreiros fortes e
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inteligentes. Uma mistura perfeita de nós dois.
Pensei no bebê em meu ventre e levei o
braço em volta dele como se assim pudesse o
manter protegido de Boris. Graças aos céus ele não
notou o meu gesto e se notou, não soube ler.
Pensar em qualquer contato íntimo com
Boris que rendesse frutos me fazia ficar enjoada a
ponto de querer vomitar.
- Seremos invencíveis - continuou
Boris - Não essa merda patética que são
Milanovic e Vladic Guriev. Falando em Dmitri,
acabei de falar com ele.
Sua revelação me deixou estática.
- O que disse a ele?
- Que estava comigo. Que veio por livre
espontânea vontade e que não pretende voltar.
Pior que ser sequestrada por Boris, eram as
mentiras que ele poderia inventar. Mas Dmitri
jamais acreditaria nele. Ele sabia que eu o amava.
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Tinha que saber. Mas também, o que poderia
pensar um homem que a noiva desaparece um dia
antes do casamento?
- É mentira! - levantei avançando sobre
Boris - É tudo mentira.
Ele agarrou meu pulso, apertando-o forte
até me fazer contorcer.
- Sim, é tudo mentira, não disse nada a
ele, apenas queria ouvir o desespero dele por você.
E queria ver como você iria reagir a isso - disse
ele em um tom de desprezo - Pelo visto, terei um
longo trabalho. Mas posso ser paciente, Kyara.
Esperei por você todos esses anos. Depois, todos
esses meses longe e, agora, posso esperar mais
algumas semanas. Sei como te amansar e logo
estará pedindo que eu a foda, e terá esquecido
completamente Dmitri Milanovic. Até porque não
terá outra coisa para fazer, ele estará morto.
No fundo, eu sabia que não seria assim,
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com raiva e de forma agressiva, que eu conseguiria
lidar com Boris. Dmitri dizia que nas situações
mais tensas precisava-se ter calma e paciência, mas
era muito difícil conseguir suportar calada a tortura
psicológica que Boris fazia.
- A guerra vai começar, Kya. É melhor
escolher logo de que lado prefere ficar - disse
Boris - Ou fará companhia na mesma vala suja
que Dmitri.
Eu preferia um milhões de vezes morrer e
ser jogada em uma vala imunda ao lado de Dmitri
do que pensar em passar um dia que fosse ao lado
de Boris como sua mulher.
- Pense muito sobre isso - reafirmou ele
abrindo a porta - Tempo é o que não lhe falta.
Pelo contrário, pensei ao vê-lo sair, meu
tempo corria rapidamente como areia pelos vãos
entre meus dedos. Eu precisava continuar a me
fortalecer física e psicologicamente para escapar
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daqui, ou, pelo menos, achar uma forma para que
Dimitri me encontrasse e salvasse a mim e o nosso
bebê.
Não sabia quantas horas tinham se passado
desde que Boris saiu do meu quarto e os breves
cochilos que me permiti ter encolhida na cama, mas
o dia já havia clareado quando abri meus olhos
outra vez.
Era o dia do meu casamento com Dmitri.
Evento para o qual passei semanas me preparando e
ansiando. Um sonho que hoje não iria se realizar.
Abracei meu corpo chorando baixinho. Foram dias
preocupada pelo vestido não estar na medida certa.
Agora, me casaria até com essas roupas que usava
se tivesse o homem que eu amava ao meu lado.
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Ainda estava entregue a essa dor física que
a ausência de Dmitri causava em mim quando a
porta foi aberta. Agradeci silenciosamente e
aliviada por não ser Boris, não tinha forças para
lidar com ele.
Feliks trazia uma bandeja com o café da
manhã. Sem olhar para mim ou dizer qualquer
coisa, colocou a comida sobre o criado-mudo e
saiu.
Comi pelo menos um pouco. Embora
soubesse que deveria me alimentar mais, eu não
conseguia.
Mexia distraidamente algo em meu prato
quando, para minha surpresa, Sonya entrou no
lugar do Boyevik.
Fiquei sem reação por alguns segundos
enquanto ela avançava pelo quarto. Diversos
sentimentos passaram por mim.
Raiva. Mágoa. Tristeza. Dor por ter sido
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enganada e traída.
- Sonya.
Ela corria a mão pelo guarda-roupa e
continuou a fazer isso ignorando meu chamado.
- Sonya! - finalmente consegui reagir
indo até ela - Por que você fez isso?
Inconscientemente eu já tinha essa
resposta. Ela nunca foi para mim, por esses anos
todos, a irmã que eu fui para ela. Fui seu bibelô, a
garota que ela se divertia e culpava pelas
traquinagens que aprontava; a garota que mentia e
cubria seus rastros quando era adolescente e a
mulher que colocou os sonhos de ir embora de lado
para ajudar a evitar que Boris a tornasse uma
mulher infeliz se descobrisse a vida leviana que
levava.
- Eu sempre amei você, Sonya - disse a
ela. Dizer essas palavras me feriam por dentro -,
mas você nunca me amou, não é mesmo? Fui
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apenas alguém que você manipulou e usou quando
bem quis.
Só depois de ser amada profundamente por
Dmitri, ter o carinho de Vladic, o respeito e afeto
de Irina e todas as outras pessoas novas em minha
vida, e perder tudo isso, que dei-me conta que os
Kamanev, excluindo os que já morreram, nunca
sentiram nada sincero por mim.
Ela parou de passar a mão sobre a madeira
do guarda-roupa e olhou para mim. Eu não
conseguia ver qualquer expressão em seu rosto.
Braveza, mágoa, arrependimento então, nem sinal.
Seu rosto era uma máscara fria e sem expressão.
- Não vai me dizer nada, Sonya?
Ela começou a caminhar e acreditei que
viria até mim quando seguiu até a porta. E tão
surpresa como me deixou ao entrar, ela saiu. Fiquei
parada no lugar com os punhos cerrados, as unhas
machucando as palmas das minhas mãos.
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Não conseguia acreditar nesses breves
minutos. Frustração e raiva começaram a fazer meu
sangue ferver. Eu tinha desperdiçado meu tempo
desejando respostas quando deveria ter feito Sonya
entender que ela precisava me libertar. Que todo
esse plano de Boris era absurdo e que ajudando-o,
sua vida estava em perigo. Não porque como das
outras vezes estivesse preocupada com ela, mas
porque Sonya podia representar minha única
possibilidade de fuga.
Mexi a maçaneta só para constatar que
estava fechada. Bati o punho contra a porta
chamando Sonya na esperança que estivesse no
corredor ou talvez em algum quarto ao lado do
meu. Gritei até minha garganta arder e minha voz
começar a ficar rouca. Alguns minutos após eu ter
desistido e retornado à cama, Feliks entrou, pegou a
bandeja com os restos do café da manhã e saiu.
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Uma coisa era não sair de casa sem Dmitri
e os Boyevik para manter garantida minha
segurança, outra, era me ver trancada em um quarto
mais uma vez. Dessa vez com a certeza de que o
homem que mantinha as chaves iria me fazer mal,
não apenas fisicamente.
Eu tinha que tentar fugir, mas não
conseguia pensar em nada, então, caminhei até a
janela mais uma vez. Grudei minhas mãos e rosto
contra as grades de ferro. Boyevik armados e
cachorros ferozes faziam o patrulhamento lá em
baixo. Havia muitos homens nos muros, espalhados
pelo campo aberto e de onde eu conseguia ver no
enorme portão. Mesmo que eu conseguisse fugir do
quarto, escapar daqui não seria fácil. Havia muita
gente e cães para me perseguir.
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Meu maior medo era levar um tiro, não por
mim, mas colocasse em risco a vida meu filho.
Voltei para a cama e sentei abraçando meus
joelhos. Para fugir, eu precisava conhecer a casa.
Então, meu plano era praticamente igual ao que tive
quando cheguei à casa de Dmitri, conhecer o
terreno e decidir o melhor momento para a fuga.
Só que diferente de Boris, a intenção de
Dmitri nunca foi me manter trancada no quarto, ele
só usou isso nos primeiros dias para me forçar a dar
informações que acreditava que eu soubesse.
Boris queria me dobrar como um bambu
envergando com o vento. Se eu quisesse que me
tirasse do quarto para conhecer a casa e saber onde
estava, precisava jogar como ele e Sonya, de forma
fria e dissimulada.
Se era a Kyara cordial de antes que Boris
queria de volta, seria a camuflagem dela que eu
usaria para escapar. E comecei a agir quando Feliks
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veio ao quarto trazer o almoço. Pedi educadamente
e com um sorriso doce que ele dissesse a Boris que
queria uma audiência com ele.
- Soube que exigiu me ver - disse ele ao
entrar, parando ao lado da porta aberta, mas que
tinha Feliks à sua guarda.
Boris até era um rapaz bonito, mas
monstruoso por dentro, o que o tornava desprezível
no final.
- Eu solicitei - o sorriso que tentei
emitir soava tão falso que meus lábios tremeram,
me fazendo baixar a cabeça para o prato - Almoça
comigo?
Não obtive nenhuma resposta por um
tempo considerável, até que ergui novamente o
olhar. Boris me encarava com incredulidade,
depois, com suspeita. Eu precisava ser mais
convincente. Ele era louco, mas não burro.
- Não envenenei a comida, Boris - disse
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soltando um risinho e levei uma colherada a boca
- A menos que tenham descoberto que as tintas
nas paredes possam ser usadas como veneno, você
não tem que se preocupar.
Seriam tóxicas ao ponto de causar mesmo
que um desconforto temporário? Irina certamente
saberia se algo como isso era possível.
- É uma pena, mas já fiz minha refeição
- apesar disso, ocupou a segunda cadeira na mesa
de dois lugares - Talvez possamos jantar juntos.
Assenti, mas por dentro tremia com a
possibilidade. Um jantar daria ideias românticas a
Boris e isso era tudo o que eu queria evitar.
- Estava pensando, como você disse, eu
tinha muito para pensar - em diversas formas
muitos cruéis de como Dmitri iria acabar com ele
quando o encontrasse foi uma delas - Você
planejou isso há muito tempo, não é?
Precisava mantê-lo falando para que seu
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foco nunca ficasse em mim, ou melhor, no meu
corpo, como seus olhos estavam.
- Pegar você de volta ou destruir o
Pakhan?
- Vamos começar pelo Pakhan - disse
voltando a comer.
Boris sempre gostou de falar de si mesmo
e das coisas horríveis que fazia como se fossem
dignas de admiração. Massagear o seu ego era a
melhor forma de aproximação. Ela adorava
bajuladores.
- Desde que procurei Milanovic, o filho,
a primeira vez e ele me tratou como se fosse nada.
Eu quase sorri. Esse era o Dmitri que eu
conhecia e amava. Desejei tê-lo conhecido muito
antes. Sem dúvida alguma teria me apaixonado da
mesma forma.
- Eu disse sobre as mudanças que
precisavam acontecer na Bratva, mas ele não me
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ouviu - o ódio em sua voz era tão claro como a
água que eu bebia - Os Milanovic são fracos. O
velho era um decadente que só precisou de um
empurrãozinho para ir dessa para uma pior.
Cuspi a água sobre o prato e procurei
rapidamente o guardanapo enquanto tentava
controlar uma crise de tosse.
- O que... o que você quer dizer?
- Implantei uma espiã na casa dos
Milanovic e entreguei o veneno que causou o
ataque cardíaco dele.
Olhei para ele sem conseguir acreditar.
Boris era ainda mais maquiavélico do que eu
pensei.
- Acha que um plano como o meu foi
pensado da noite para o dia? Acha mesmo que sou
só um cara com raiva ou ciúme de Dmitri? -
indagou se exaltando - Não, minha querida.
Dembinsky, Plotnikov, Matvee, Kovalyov e
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Vakhstein, viemos pensando sobre isso há algum
tempo.
Prendi com força o talher em minha mão,
tentando focar a maior parte da minha atenção
nisso. Boris matou o pai de Dmitri, homem que ele
amava e admirava. Já era a terceira pessoa que eu
sabia que Boris havia executado. Roman, por na
adolescência ter se apaixonado por mim. Fjodor
Kamanev e, agora, Mikhail Milanovic. Quantas
pessoas mais que não mereceram morrer, estavam
na lista de Boris que só parecia crescer?
- Otets Fjodor...
- Meu pai? - ele indagou mostrando seu
desprezo - Não sabia de nada ou teria corrido ao
Milanovic dizendo que seu filho havia ficado
louco.
E ele não estaria errado.
- Nós primeiro tivemos que manter
Dmitri e Vladic bem ocupados para não conseguir
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prestar atenção no que acontecia debaixo de seu
nariz - ele riu se achando um grande gênio -
Quem poderia imaginar que envenenariam o
Pakhan dentro de sua própria casa? Um dos seus.
Se antes eu desprezava Boris, agora, eu o
odiava com todas as forças. Só vi Mikhail
Milanovic uma vez, de longe, na época seu olhar
frio me assustou, mas depois de conhecê-lo através
de seu filho, que usava no trabalho a mesma
armadura, compreendia os dois. Era um escudo
necessário para intimidar e manter o controle.
Ainda assim, malucos como Boris tendiam a surgir
das trevas.
- Meu pai era um fraco que não merecia
estar em meus planos - continuou Boris - E
enquanto avançamos, precisávamos de mais
dinheiro e mais recursos. Eu tive que eliminar o
velho e tomar o controle da família. Mas essa é
uma história muito longa, Kya. Infelizmente, não
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tenho como ficar e passar a tarde contando tudo a
você.
E eu sentia que já tinha escutado o
suficiente. Boris era terrivelmente diabólico.
- É sobre isso que queria falar -
apressei-me em dizer antes que ele saísse - Não
suporto mais ficar trancada no quarto. Posso andar
pela casa e conhecer o jardim?
Ele me estudou por um tempo e abri um
enorme sorriso para ele, fingindo ver Vladic ou
alguém que eu sentia carinho à minha frente.
Precisava ser convincente por mais que isso me
enojasse.
- Hoje não. Mas amanhã eu mesmo a
levo para dar uma volta - disse ele em um tom
brando como se eu fosse uma doente precisando de
cuidados - Descanse, você ainda está muito
abalada.
Sustentei o sorriso até que Boris,
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acompanhado de Feliks, saíssem do quarto. Depois,
joguei o guardanapo em direção à porta, o tecido
não chegou à metade do caminho.
Um dia, Boris Kamanev, esse assassino
odioso, iria pagar por tudo que estava fazendo.
Eu tinha fé nisso porque eu tinha fé em
Dmitri.
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