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Antes de sair da cama, peguei o papel com
os votos de Kyara que havia deixado cair no chão e
depositei no mesmo lugar que ela havia deixado.
Levantei e segui para o banheiro onde joguei a
garrafa vazia no cesto de lixo. A água caindo sobre
minha cabeça podia relaxar os músculos tensos em
meu corpo, mas a minha mente seguia frenética.
Saí do box e encarei o espelho enquanto
me secava. Precisava dar um jeito no corte do
supercílio que sempre voltava a sangrar quando
tocado. Havia uma caixa de primeiros socorros no
gabinete. Eu mesmo daria um jeito nessa merda.
Depois dos pontos, segui para o closet e
retirei uma das dúzias de ternos que havia dentro
dele. Calcei os sapatos e olhei para o anel do
Pakhan em meu dedo. Eu tinha mandado que
ajustassem uma réplica, com detalhes mais suaves e
femininos para Kyara, o mesmo anel que meu pai
havia dado à minha mãe, e meu avô, para sua
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esposa.
Colocaria no dedo de Kyara logo após a
aliança na cerimônia de casamento. Ainda estava
guardado no mesmo lugar no bolso do terno que
constava meus votos a ela. Isso não era o nosso
fim, só era um adiamento não planejado.
Desci e fui à sala montada para a
investigação à procura de Ivan. Deveria estar
possesso por Vladic ter permitido que eu apagasse
por tanto tempo, mas ele tinha razão, meu corpo e
mente precisaram dessa pausa para enfrentar as
horas difíceis que teríamos pela frente.
Eu sabia que não havia nenhuma notícia
importante ou avanço no caso, Vladic teria me
acordado imediatamente se tivesse. Mas eu queria
saber em que pé as coisas andavam.
Encontrei Ivan com Vladic e, ao lado
deles, dois dos seus homens. Havia pelo menos uns
dez dentro da sala, avaliando equipamentos,
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concentrados em escutas e analisando mapas.
- Papa - Ivan foi o primeiro a me ver e
cumprimentar.
- Dmitri - Vladic veio até mim e me
deu uma boa estudada com os olhos.
Bati suavemente em seu braço.
- Está tudo bem, Vladic.
E podia dizer que realmente estava. Eu
precisava manter a cabeça calma e agir com frieza,
isso que traria Kyara e meu filho seguros de volta
para casa. E eu faria tudo para tê-los comigo de
novo, até sufocar meus sentimentos.
- O que você tem de importante, Ivan?
Conseguiu algo com o meu celular.
Até onde eu sabia, queriam investigar de
que lugar originou a ligação de Boris.
- Veio de Moscou e encontramos o
telefone em uma lixeira - disse Vladic - Mas
isso não ajuda muito. Ele pode ter ido de
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helicóptero e voltado para seja lá qual buraco
mantém-se escondido.
Olhei para Ivan e tive certeza que ele
pensava o mesmo.
- Se Boris queria fazer acreditar que
estava em Moscou... - dei voz aos meus
pensamentos.
- É porque ele realmente não está -
disse Vladic.
A procura por Kyara era como tentar
encontrar uma agulha em um palheiro.
- Mais alguma coisa? - perguntei a
Ivan.
- A Srtª Novitsky tem ligado
constantemente.
- Ela era uma das damas de honra. O que
disseram para os envolvidos no casamento e
convidados?
- Apenas que foi adiado e que o Pakhan
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não receberia visitas ou faria audiência até o
próximo comunicado - Disse Vladic.
- Mas Irina é insistente - disse Ivan e
olhou em volta da sala - Nós temos equipamentos
de alta tecnologia aqui, acha que Irina pode ser útil
em alguma outra coisa? Ela é boa com essa coisa
de tecnologia, pode ter alguma coisa nova. Devo
chamá-la?
- Acho melhor não a envolvermos nisso
- disse Vladic.
Acreditava nunca ter chamado a atenção
dele em qualquer circunstância. Vladic era
sarcástico e tinha um humor ácido, mas sempre
agia de acordo com cada ocasião e seu trabalho era
executado de forma exemplar. Mas sua birra, ou
seja lá como devesse denominar a sua relação com
Irina, não era bem-vinda agora.
- Não me interessa suas desavenças com
Irina - disse em tom extremamente seco - Eu
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quero Kyara de volta!
- Não é por isso - protestou ele - Irina
já se envolveu muito no caso Tambovskaya, não é
justo trazê-la para isso também. Com todo respeito,
Pakhan, ela é só uma cientista.
A questão com Irina era outra, eu podia
ver. Puxei Vladic para um canto, mantendo a
conversa entre a gente.
- Ela é importante para você - disse a
ele, estudando seu olhar consternado.
- Não, eu só acho que...
- Corta essa, Vladic, não tenho saco para
essas suas desculpas - cortei-o antes que viesse
com uma justificativa que nem ele mesmo
acreditava - Vou dar mais algum tempo a Ivan.
Eu conseguia entender Vladic querer
proteger Irina de qualquer respingo que essa guerra
pudesse causar, faria o mesmo por Kyara se
estivéssemos em papéis diferentes, mas minha
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família vinha em primeiro lugar. E por considerá-lo
como parte dela, daria esse tempo a Ivan para que
conseguisse mover céus e terra para encontrar
minha mulher e meu filho.
- Mas se ele repetir que Irina pode ser
uma peça importante - disse a ele -, vou mandar
buscá-la. Por agora vou pedir que ele veja se
alguém ligado ao laboratório de Irina pode ser tão
útil quanto ela.
Vladic assentiu e retornamos para o lado
de Ivan. Logo depois minha atenção estava
completamente focada em cada informação nova
que recebia. Uma delas veio de Nikolai algumas
horas mais tarde.
- A arena está pronta - disse ele -
Todos os traidores já se encontram lá e os Kapitany
de Primeira e Segunda Elites que não o traíram
estão sendo enviados para assistir o torneio e
realizar um novo juramento ao Pakhan.
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Não era apenas mais um ritual para
reafirmar minha supremacia. Os Kapitany
possuíam seu próprio exército de Boyevik e eu
precisava de cada soldado que pudesse se aliar aos
meus e partirmos juntos para enfrentar Boris
quando finalmente o encontrasse.
- Ivan, você fica aqui cuidando das
investigações - disse a ele - Mantenha uma linha
direta comigo. Quando tiver que ir para a arena,
quero que todas as informações sejam direcionadas
para lá. Quando der o sinal, partiremos com os
Boyevik.
Boris seria esmagado antes de conseguir
entender o que acontecia à sua volta.
Acertei os últimos detalhes com Nikolai e
só percebi que Vladic tinha saído quando precisei
dizer algo a ele. Concluí que saiu para resolver algo
importante e tornei a me concentrar em Ivan. Isso
era o que me mantinha longe de enlouquecer.
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Vladic Guriev
Fazia dois dias que Kyara tinha sido
sequestrada e iríamos para o terceiro. Embora
Dmitri estivesse agindo com racionalidade, sabia
que por dentro ele estava acabado. Eu conhecia
esse garoto desde que era um bolinho enrolado no
cobertor.
Ainda me lembro de quando criança, me
pendurar em seu berço para poder olhá-lo de perto.
Eu cresci e fui criado não apenas para ser seu
homem de confiança. Fui treinado para dar a minha
vida por ele, e daria.
Estava fazendo o possível para ser a razão
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quando ele era a emoção. Segurando as pontas,
mantendo tudo e todos em ordem, obrigando
Dmitri a manter a calma, mas estava foda. Eu
também gostava de Kyara, gostei dela desde a
primeira vez que a vi e notei que com ela, mesmo
negando, Dmitri era diferente.
As pessoas queriam a glória de ser o
Pakhan, mas não tinham ideia do peso e
responsabilidade que isso trazia. Fiquei feliz que
ele tivesse encontrado alguém que pudesse ficar ao
seu lado e suavizar uma parte de sua vida.
Estava tudo errado. Hoje seria o casamento
deles. Era para estar iniciando mais duas semanas
de lua de mel onde teria que aguentar ouvir pelos
cantos os dois foderem na casa da Suíça.
Deveríamos estar comemorando a chegada do novo
Milanovic e futuro Pakhan.
Em vez disso, tinha aguentado Dmitri
tentando se manter em pé. Eu, muito próximo de
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explodir a bomba relógio dentro de mim enquanto
observava as horas avançarem e Kyara estava sabe-
se lá Deus onde, presa a um maluco.
Enquanto Nikolai falava, eu me
concentrava em manter esses pensamentos
turbulentos no lugar quando meu telefone tocou.
Era Irina. Eu tinha ignorado dezenas de
ligações dela. Primeiro, porque Dmitri estava
desnorteado demais para que eu prestasse atenção
em qualquer outra pessoa que não fosse ele. Já
enfrentamos situações difíceis, como a morte de
Mikhail Milanovic e antes dele, sua esposa. Nós
dois fizemos missões em campo e já colocamos
nossas vidas em risco, mas era diferente. Dmitri
estava apaixonado e ele deixava a porra do coração
falar por ele.
É por isso que não queria Irina metida
nessa merda. Eu não conseguiria me concentrar
sabendo que sua vida poderia estar em risco. O
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lance com a Tambovskaya ainda me deixava muito
puto. Não que eu estivesse perdidamente
apaixonado como Dmitri. Mas a gente tinha uma
ligação de amor e ódio. Mais ódio do que amor e
grande parte, devo admitir, por minha culpa. A
garota me tirava do sério não só pela inteligência,
mas também por não ter se mostrado nem um
pouco mexida por qualquer tentativa de sedução
que eu tivesse jogado sobre ela, então, passei
apenas a provocá-la, raiva era melhor que nenhum
sentimento. E já que estava sendo sincero comigo
mesmo, irritar Irina sempre me deixava de pau
duro.
Ela era uma chata, intelectual arrogante e
nem se vestia do jeito sexy que eu apreciava, acho
que era por isso que mantinha meu interesse nela.
Por baixo de toda frieza e roupa sem graça, deveria
existir uma tigresa selvagem querendo ser domada.
Por experiência sabia que as recatadas ou ignoradas
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por outros homens eram as mais quentes na cama.
O telefone voltou a tocar. Aproveitei que
Dmitri estava ocupado com Ivan e Nikolai e saí.
- O que você quer, Novitsky?
- Vladic? Até que enfim consegui falar
com você - disse ela - Quero saber o que está
acontecendo. O casamento foi cancelado, mas não
dizem nada. Ouço murmúrios aqui e ali. Como está
Kyara? Quero falar com ela.
Tentamos manter o máximo de informação
possível em relação ao sequestro de Kyara em
segredo. Não desejávamos que nenhuma
informação tática do que faríamos chegasse a
Boris, a não ser as que queríamos no momento
certo.
- Isso não é possível - disse a ela - O
mensageiro foi claro. O Pakhan não irá receber
ninguém.
- Não quero ver o Dmitri - ataca ela -
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Quero falar com Kyara!
O atrevimento de Irina me divertia mais do
que irritava. Esse não era o dia. Estava há horas
sem dormir e lidando com uma situação muito
tensa.
- Já disse que não é possível.
- É verdade, não é? - disse ela com
choro na voz - Alguma coisa aconteceu a Kyara.
Foi Kamanev ou a Tambovskaya?
- O Kamanev e é tudo o que eu posso te
contar. Falo com você quando puder.
Encerrei a ligação aos berros dela no
mesmo momento que vi Nikolai se aproximar.
- Ele está reagindo bem - disse ele,
acendendo um cigarro.
- Você acha? - declinei do cigarro que
oferecia e cruzei os braços.
Uma das coisas que Nathasha Milanovic
nos proibia era fumar e beber feito um gambá perto
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