Levei quase uma semana para sair do buraco desta vez, mas ao menos não me deixei afundar
totalmente. Sabia que estava encrencado, equilibrando-me na beira do abismo e mais uma vez
achando que seria capaz de dar um salto e voar – ganhar altitude e pairar sobre o precipício
que eu tinha consciência de que iria me engolir. Isso já aconteceu antes, mas felizmente não
agora.
Esta é a minha vida: o tempo todo me aproximando e me afastando da beira de um buraco que
ora me fascina, ora me apavora – um buraco cheio de qualquer coisa que a minha imaginação
dite no momento. É imperativo que eu me mantenha distante, mas quanto mais perto chego,
melhor me sinto. Ou pior. E essa é a ironia ridícula, porque sou compulsivamente atraído para
esse perigo e, quanto mais perto chego, mais perto quero chegar. Essas profundezas
representam uma fuga inimaginável – às vezes pura euforia, outras vezes, uma dor tão intensa
que não consigo nem começar a descrever. Seja como for, a beira do abismo me chama com
suas mentiras que soam como promessas. Mentiras doces, sedutoras, às quais nem sempre
consigo resistir.
Os remédios ajudam. Assim como a terapia. Minha força de vontade também ajuda, quando
consigo encontrá-la. Assim como meu intelecto, que, por incrível que pareça, não está
amarrado às outras funções do meu cérebro deficiente. Tenho o conhecimento mais profundo
que a experiência pessoal é capaz de proporcionar. Em meio a tudo isso, quase sempre sei o
que está acontecendo comigo, mesmo que às vezes me sinta distante, como um espectador.
Ainda assim, tento pôr em prática uma das muitas estratégias destinadas a evitar que eu seja
engolido. Nem sempre funciona.
Minha maior influência é minha esposa. Graças a ela estou decidido a manter uma boa
distância do precipício, mesmo que nem sempre eu consiga. Às vezes, como quando ela ficou
doente, o precipício vem até mim. Às vezes, isso acontece sem motivo algum. O abismo cresce
de forma inexplicável, mesmo que eu corra dele para salvar a vida, até ficar sem chão sob meus
pés e me ver perdido outra vez. Por mais que eu me esforce, é em vão.
Para muita gente, esse abismo não existe, mas ele é uma ameaça real para quem sofre de
transtorno bipolar. Sei que pareço um dependente químico, mas nenhuma droga causa a mesma
sensação que a loucura quando está prestes a nos dominar, nem o desespero que vem
imediatamente após você ter cedido a ela.
7 DE JUNHO – MAIS TARDE
Reli a última coisa que escrevi no diário procurando identificar alguma merda reveladora
capaz de levar meu psiquiatra, Gleason Webb, a torcer o nariz e me mandar refazer tudo. Mas
não vi nenhum trecho em que eu possa ter extrapolado. Aquele ali sou eu, sim, e acho que
descrevi a situação bastante bem para um pirado.
Eu estava esperando Lucy na escadaria da frente desta clínica que às vezes parecia ser o meu
lar longe de casa. Estava tendo um bom dia, interna e externamente. Podia sentir meu eu
estável emergindo aos poucos, porém com confiança. Eu tinha que admitir que sentira falta
desse cara. Ele me deixa satisfeito. Não é lá muito excitante, mas é cômodo e seguro, e posso
contar com ele para pensar com clareza.
Consultei o relógio e me perguntei onde estaria Lucy – a essa altura já deveria ter chegado.
Levantei-me e comecei a andar de um lado para outro, mas logo tornei a me sentar. Ela
chegaria quando chegasse, não havia motivo para ficar nervoso. Sorri porque de repente me
dei conta de que os remédios tinham funcionado. Eu era capaz de argumentar comigo mesmo e
isso me alegrou... O milagre dos psicotrópicos. Lucy ficaria feliz – ela gostava mais do Cara
Estável do que de mim, o que não era propriamente verdade. Lucy me amava – mesmo com
parafusos soltos, peças sobressalentes e partes danificadas. Ela amava o pacote todo – dizia
que devia ser assim ou não faria sentido me amar. Jurou, faz uma eternidade, que isso era
verdade e fez jus a esse juramento. Quem teria acreditado nisso? Essa mulher ainda me
fascina, sobretudo em momentos como este, quando saio do buraco com o cérebro embotado e a
primeira coisa que consigo enxergar com nitidez é o seu amor. Todo ser humano que não bate
bem deveria ter a mesma sorte.
Mickey estava esperando por mim sentado na escada do Edgemont Hospital. De calça jeans e
camiseta cinza, não lembrava em nada um paciente. Assim que atravessei a rua e ele me viu, seu
rosto se iluminou e tive vontade de rir. Ele parecia tão bem, tão saudável. Os ombros largos e as
pernas compridas são sua marca registrada. Mas o sorriso é o que mede sua sanidade e, daquela
distância, ele parecia perfeitamente bem. Mickey ficou de pé e empurrou os óculos escuros para o
alto da cabeça, onde o cabelo escuro continuava farto, a mecha prateada caindo sobre a testa do
mesmo modo como quando o conheci. Caminhou ao meu encontro com um sorriso tímido e, ao chegar
perto, me envolveu num longo abraço apertado – mas não apertado demais, o que era um bom sinal.
Cheguei a pensar que dava para ver o meu Mickey ali dentro, naqueles olhos escuros que poucos dias
antes tinham uma expressão insana e desfocada.
– Como você está? – perguntei.
Mickey se afastou e passou a mão no meu cabelo.
– Melhor, Lu. Estive com Gleason hoje de manhã. Ele confirmou que posso ir para casa na sexta.
Dei um beijo nele.
– Bom para você. Bom para mim.
– É. – Ele me puxou de novo para seus braços. Aquele era o meu Mickey.
– O que você estava fazendo aqui fora?
– Esperando você. Peony disse que ficaria de vigia.
Ele olhou para cima e segui seu olhar. De fato, a enfermeira de Mickey, Peony Litman, me acenou
da janela do terceiro andar. Tinha no mínimo 70 anos e, fiel à sua formação conservadora, vestia-se
toda de branco e usava touca.
– Ela falou que podemos dar uma volta, se você se responsabilizar por mim.
Olhei para cima e acenei. A enfermeira sorriu e acenou em resposta.
Edgemont é um velho hospital colonial que passou por algumas reformas. Na aparência, continua
feioso e antiquado, mas essa instituição é eficiente o bastante para atender Brinley e New Brinley. O
hospital fica no meio de um terreno impecavelmente cuidado e, nessa tarde amena, havia vários
pacientes ali fora. Fiz Mickey passar o braço em volta do meu ombro e inspirei a suave fragrância de
lilases e lavandas.
– Senti saudade de você, meu bem – disse ele.
– E eu de você.
– Pelo menos não peguei um avião nem roubei nada. Não saí cavucando o jardim...
– Graças a Deus.
Na semana anterior, o humor e a energia de Mickey haviam alçado voo aos poucos, à medida que
ele ajustava a medicação. Este é o problema de Mickey: aliviar os sintomas depressivos com
remédios, Prozac por exemplo, às vezes o leva à hipomania – ele gosta disso, razão pela qual ele não
se dispõe a reverter o quadro, sempre achando que pode controlar essa energia. Dessa vez, porém,
apesar da tentativa de seu médico de tratá-lo como paciente ambulatorial, Mickey não conseguia
dormir. Se não houvesse intervenção, em seguida viria a psicose. Graças a um ajuste na medicação e
alguns dias de internação em Edgemont, ele agora estava próximo do que se considera normal para o
restante do mundo, mas que, para o meu Mickey, está longe disso. Ainda assim, é mais fácil
recuperar-se disso que dos surtos depressivos.
– O que você tem feito? – perguntei.
– Nada de mais. Um bocado de estabilização. Quando fica chato, conto as papadas de Peony.
– Não implique com ela. É um trabalho duro cuidar de você. Jared apareceu por aqui?
– Duas vezes. Ele teve notícias do arquiteto e quis me mostrar alguns projetos. São bons. Acho que
vamos derrubar aquela parede do fundo para abrir espaço para mais mesas.
Mickey e o sócio vinham falando sobre essa expansão da casa noturna desde o ano anterior. Seria
ótimo ver algo finalmente acontecer.
Ele olhou para mim.
– Preciso lhe contar uma coisa, Lu.
Parei. Essas palavras costumavam ser um prelúdio à catástrofe, por isso me preparei. Será que ele
havia comprado outro ônibus no eBay, contratado mais imigrantes para pintar a nossa casa ou pegado
emprestada uma cabra para comer nossa grama?
– Estou ouvindo – falei.
– Não é nada ruim. É só que há uns quatro meses, Lucy, eu... Eu estava bem, então comprei uma
passagem para nós num cruzeiro.
Fitei-o com uma expressão séria.
– Num cruzeiro?
– Queria lhe fazer uma surpresa.
– Ok, estou surpresa. Quando viajamos?
– Bom, devíamos ter viajado na quinta-feira, seu último dia de aulas.
– Ah... – suspirei. – Seria divertido. Por que não me contou?
– Eu ia contar, mas queria que fosse surpresa.
– Que amor.
– Estou pedindo reembolso. Talvez consiga metade do dinheiro, porque foi uma internação de
emergência. Sinto muito, meu bem.
– Eu também! Dá para imaginar? Sexo na praia à meia-noite. Nós dois nadando nus no mar... Acho
que preferia que você não tivesse me contado.
– Sexo na praia?
– Sexo na praia, Michael. E muito.
Mickey abriu um sorriso – meu marido estava deslumbrante e com uma expressão espantosamente
normal.
– Que tal irmos para o Havaí no seu aniversário, em setembro?
– Hummm.
– Sério. Vamos. Isso vai me manter bem.
Não posso dizer quantas vezes esse mesmo plano não deu certo – talvez nem sejam tantas quanto eu
imagino, já que aprendemos a não planejar demais. Mesmo assim a ideia do Havaí me pareceu
fabulosa. Beijei o queixo dele.
– Lucy, juro que vou fazer dar certo.
– Tenho uma sugestão – falei. – Juntamos o dinheiro, fazemos as reservas, eu compro o biquíni.
Daqui a três meses, no meu aniversário, com ou sem você, eu vou para o Havaí.
– Ah, eu irei também. Você não vai sem mim.
– Sei disso, mas só por garantia... Você vai ter que cumprir a promessa.
Ele passou o braço em volta de mim e continuamos a passear, sonhando e fazendo planos, até os
remédios deixarem a boca de Mickey seca demais para falar. Quando voltamos à Unidade
Psiquiátrica no terceiro andar, Peony estava de prontidão para nos deixar entrar.
– Lucy! Que bom ver você, meu bem. Como vai?
– Nada mal.
– Já começaram as férias de verão na escola?
– Sim. Como isso é bom!
A velha enfermeira estalou a língua.
– Todo mundo acha que meu trabalho é difícil, mas eu não trabalharia com adolescentes nem pelo
dobro do que ganho.
Sorri. Eu sentia a mesma coisa com relação ao trabalho dela. Peony entregou a Mickey os
comprimidos e um copinho descartável com água e o observou tomá-los. Depois que ele engoliu, ela
examinou sua boca e debaixo da língua. Esse pequeno gesto invasivo sempre me surpreendia. Na
nossa vida normal, Mickey era um empresário brilhante, divertido, bem-sucedido. Um bom amigo e
ótimo de papo. O cara que preparava o jantar se chegasse em casa antes de mim e que resmungava
quando eu lhe pedia que desse um pulo no Mosely para comprar absorventes. Que fazia rodízio nos
meus pneus e pagava a conta de luz. O cara ao qual eu ainda não conseguia resistir quando saía do
banho. E que também era esse cara aí, que de vez em quando se desviava do rumo cuidadosamente
mantido, a ponto de Peony precisar checar se não havia escondido o remédio debaixo da língua.
Apertei sua mão e ele respondeu apertando a minha.
Depois de anos de paciência, perseverança e competência, Gleason – o Dr. Gleason Webb – enfim
chegara a um coquetel eficaz para tratar o transtorno bipolar de Mickey. Medicamentos que meu
marido às vezes abandonava por motivos que tinham sentido apenas para ele, mas que sempre
conduziam a uma reintrodução gradual do coquetel, situação em que nos encontrávamos nesse
momento. É necessário um pequeno punhado de comprimidos diários para manter o equilíbrio do
meu marido: um estabilizador de humor, em geral litium, às vezes Depakote, com frequência ambos;
vez por outra Risperdal, para impedi-lo de ouvir vozes; Neurontin, para que não tenha convulsões –
efeito colateral do Risperdal; Mantidan, para os sintomas semelhantes aos do Parkinson que podem
ser provocados pelo uso do Depakote; Propranolol para os tremores e Benadryl para a rigidez
muscular causada por eles; Rivotril para a ansiedade e Stilnox para ajudá-lo a dormir. Sem contar os
antidepressivos acrescentados quando necessário. Tudo isso funciona como mágica para normalizar
o comportamento, o humor e as reações de Mickey, mas depende de ele tomar o que lhe é prescrito e
nas horas certas, o que costuma ser uma loteria.
Esta é a música de fundo da nossa vida: Mickey está tomando os remédios? Se eu fosse outro tipo
de esposa, daquelas que contam os comprimidos, e observasse Mickey engoli-los, como faz sua
enfermeira, a resposta seria um sim retumbante. Mas nunca consegui me imaginar tirando dele essa
responsabilidade, essa dignidade, por isso nunca o encorajei a depender de mim. Na saúde ou na
doença, eu gostava dele com autonomia, não dependente. Isso não significa que eu não fique de olho
nele nem que deixe de cuidar da situação durante os surtos. É isso que se faz quando se ama alguém
como Mickey. Não estou reclamando. Fui informada de como seria esse tipo de vida. Tive dezenas
de oportunidades de mudar de ideia. A verdade é que acho que amei Mickey desde o momento em
que o vi. Graças a Deus, porque agora não consigo me imaginar amando – ou sendo amada por –
outra pessoa. Apesar dos reveses (e de um cruzeiro cancelado), sei que escolheria Mickey de novo.