apontou para o fim do corredor, onde encontrei um escritório com a porta entreaberta. Pigarreei e
bati. Mickey ergueu os olhos do computador.
– Oi.
– Oi. Eu só queria agradecer pela diversão.
– O prazer foi meu – respondeu ele com um sorriso largo.
Anotei meu telefone em um guardanapo, que entreguei a ele com meu melhor sorriso.
– A noite foi ótima.
Ele pegou o guardanapo, surpreso com a minha atitude.
– Você estava muito à vontade no palco – comentou, com um sorriso meio sem graça.
Depois se calou. Nem mais uma palavra. Por isso, antes que o constrangimento fosse grande
demais, acrescentei:
– Bom, obrigada mais uma vez.
Saí confusa e um pouco decepcionada, mas me recusei a acreditar que havia interpretado mal as
atitudes dele.
Mickey Chandler me intrigou. Ao provocá-lo no palco, vislumbrei algo muito real por trás daquela
máscara de palhaço. Ele sabia que eu tinha visto isso e dava para dizer que não estava seguro sobre
como se sentia a respeito. Porém, foi esse vislumbre do homem escondido atrás do bufão que tanto
mexeu comigo. Tentei não pensar muito no assunto, mas preciso admitir que voltei a ele algumas
vezes ao longo dos oito meses seguintes.
Foi no final de maio de 1999 que Priscilla apareceu no meu apartamento próximo ao campus às
quatro da manhã. Abri a porta zonza de sono, mas ao ver minha irmã ali tremendo, despertei por
completo. Seu cabelo estava molhado.
– Priss? O que houve?
– Preciso que você me leve para casa – disse ela, entrando apressada. Estava descalça. – Cadê a
chave do seu carro?
– Priscilla, o que está havendo?
– Você pode me levar? – perguntou, remexendo nos travesseiros e andando pelo quarto. – Cadê a
sua bolsa, droga?!
Agarrei a mão dela e minha irmã tentou se desvencilhar, mas não deixei.
– Pare, Priscilla! O que está havendo?
– Encontrei um caroço! – gritou ela. Então repetiu, mais baixo, apavorada: – Encontrei um caroço.
Olhei para ela, sem respirar.
– Por favor, Lucy. Podemos ir?
Fomos de carro para Brinley, de pijamas, Priss silenciosamente em pânico e eu me perguntando se
tinha deixado escapar alguma coisa. Encontrava minha irmã com frequência quando estava em
Boston, mas nunca vira a Morte rondá-la. Agora, sentia medo de olhar. Já tínhamos passado da
metade do caminho em silêncio quando estendi o braço para pegar sua mão.
– Priss, fale comigo.
Ela apertou minha mão e soltou.
– Apenas dirija, Lu.
Charlotte prescreveu uma biópsia ainda naquela manhã. Então esperamos. Estávamos todas no
consultório na hora que o resultado chegou. Lily e eu segurávamos, cada qual, uma das mãos de
Priss. Graças a Deus a notícia não foi terrível. O caroço era maligno, mas estava encapsulado e seria
removido por completo – quase um motivo de comemoração, mas não exatamente. A área em torno
precisaria ser examinada com todo cuidado em busca de células anormais. Se alguma fosse
encontrada, aí sim haveria motivo para preocupação. Por isso, Priss foi operada e mais uma vez
aguardamos. Foi um longo dia de espera para Lily e para mim.
– Acho que não consigo vê-la passar por isso – disse Lily mais de uma vez.
– Ela é durona demais para ser derrubada por essa coisa – retruquei.
Tarde da noite finalmente recebemos a notícia de que as células em volta do tumor estavam sadias.
Quase derretemos de alívio, sobretudo Lily. Ron a levou para casa por volta das onze horas, mas eu
fiquei porque Priscilla estava inquieta.
Ela adormeceu quase meia-noite – graças a uma dose generosa de Demerol. Eu precisava de
distração, então fui até a lanchonete beber alguma coisa. O lugar estava pouco iluminado e
silencioso. A maioria das cadeiras havia sido empilhada sobre as mesas para que o chão pudesse ser
limpo. Apenas um homem atendia no balcão. Pedi uma porção de batatas fritas e uma Coca-Cola, e
ele disse que levaria até a mesa. Procurei um lugar para me sentar e percebi que estavam ali apenas
um casal de médicos, sentado a uma mesa no canto, e um sujeito desacompanhado.
Reconheci na mesma hora a mecha de cabelo grisalho, e meu olhar encontrou o de Mickey
Chandler. Como ele não desviou os olhos, fui até sua mesa e falei:
– Oi, comediante. Lembra-se de mim?
Ele me olhou como se visse um fantasma.
– A aniversariante.
– Isso mesmo.
– Tudo bem?
– Foi um dia longo, mas tudo bem. E você?
– Joia.
– Joia? Ninguém mais usa essa palavra. Você é velho mesmo, não é?
Nessa noite, Mickey não revidou com uma observação espirituosa. Não mostrou seu sorriso, e os
olhos pareciam meio assombrados.
Pigarreei.
– Bom, foi legal ver você – falei.
O funcionário da lanchonete se aproximou com minhas batatas. Mickey puxou uma das cadeiras com
o pé.
– Quer se sentar?
– Tem certeza? Não quero perturbar a sua meditação.
Dessa vez, ele estalou a língua com aprovação.
– Eu me lembro de você. Sempre com uma gracinha na ponta da língua.
Sentei e o garçom botou uma grande travessa de batatas fritas entre nós dois.
– Que fome, hein? – provocou Mickey.
– Pedi para você.
Passamos um tempo batendo papo. Falamos sobre a minha universidade, o clima de Boston e meus
estudos.
Então ele perguntou:
– O que você faz aqui no meio da noite?
– Minha irmã Priscilla está lá em cima se recuperando de uma cirurgia. Lembra-se dela? A que
queria comer você no jantar.
– Ah, aquela irmã. Ela está bem?
– Está, graças a Deus. Foi um alívio para todos nós. Era câncer, mas eles tiraram.
– Então as notícias são boas.
Assenti.
– São ótimas. E você, Sr. Chandler, o que faz aqui no meio da noite?
Ele olhou em torno e depois tornou a me encarar.
– Parece que estou apenas sentado aqui com uma linda universitária.
– Ora, ora. Isso é enrolação. Qual é a história real?
– É engraçado, na verdade. Eu estava passando e pensei: "Aposto que consigo uma boa mesa na
lanchonete do hospital sem fazer reserva."
Aquilo não era engraçado, e ele sabia disso. Esperei pela resposta, mas ela não veio.
– Você mora por aqui? – indaguei, depois de pigarrear.
– Pertinho, em East Haddam. Tenho uma casa no lago. E você?
– Moro em Brinley. Quer dizer, não no momento. Ainda vou ficar em Boston mais um ano, mas
voltarei para lá assim que me formar. Você tem uma esposa nessa casa no lago?
– Não.
– Não?
– Não.
Sorri, e isso me fez bem depois daquele dia difícil.
– Me fale da sua casa.
– É antiga. Na verdade é um buraco negro de consumir dinheiro que está na minha família há anos.
Tem uma grande quantidade de madeira e vidro ainda originais e a estou reformando. Depois, vou
vendê-la. Gosto disso. É bom para mim. Exercício físico. Posso trabalhar a noite toda se quiser.
Assenti.
Ele sorriu. Não foi um sorriso pleno, e sim algo mais vulnerável, mais revelador e sem fingimento,
um incentivo à minha coragem.
– Por que você nunca me ligou?
Ele me olhou de soslaio.
– Não sei.
– Não sabe?
Ele balançou a cabeça.
– Lembro muito bem que me diverti com você naquela noite, Lucy. – Então seu olhar se fixou em
algum ponto acima do meu ombro. – Mas aquilo não foi real. Aquele cara não sou eu.
– Como assim?
Seus olhos voltaram a me fitar.
– Estou dizendo que você não gostaria da pessoa que eu sou de verdade.
– É? Tem certeza de que não é algo mais simples? Tipo você já tem outra? Ou será que é gay? Você
é gay?
– Não. Não é isso.
– Que ótimo. Você se achou muito velho para mim? Foi isso?
– Não pensei no assunto, mas já que você mencionou, sou velho demais para você, sim.
– Quantos anos você tem, 40?
– Ei, não deixe meu cabelo enganar você. Só faço 30 no mês que vem.
– Trinta não é ruim. Você é um assassino em série?
– Ainda não. – Mickey sorriu.
Observei aquele homem incrivelmente bonito ali sentado, vestindo uma camiseta branca e uma
camisola de hospital que ele usava como se fosse um paletó. Camisola de hospital? Observei seu
rosto, ouvi sua voz e sua profunda tristeza me chamou a atenção.
– Está falando sério? Achou que eu não gostaria de você?
– Seriíssimo.
– Por quê? O que há em você para não gostar? – Como não tive resposta, fui direta: – Só estou
perguntando porque continuo interessada.
Ele tentou parecer envergonhado, mas deu a impressão de que não tinha energia para isso.
Entrelaçou os dedos e me encarou fixamente. Não desviei o olhar, e levou um bom tempo até que ele
dissesse alguma coisa.
– Tenho muitos problemas, Lucy – falou, depois de pigarrear.
– Não temos todos? – indaguei, tomando um gole da minha Coca. Ele não respondeu, então pousei o
copo na mesa. – Afinal, do que estamos falando? Ex-mulher? Dívidas? Um passado criminoso? O
quê?
– Nada com que não se possa conviver.
– Você está absolutamente certo. O que é, então?
– Um longo histórico de doença mental, para começo de conversa.
Engoli em seco. Dureza. Doença mental?
– Só isso? – falei com voz trêmula. – É só isso que você tem?
– Acredite, é suficiente. Você devia se levantar agora mesmo e fugir.
Recostei-me na cadeira e cruzei os braços.
– Você vai se arrepender – disse ele, rindo. – Sou um homem doente.
Como não reagi, seu sorriso sumiu e ele baixou o olhar para as mãos.
– O que foi? – insisti baixinho.
Ele balançou a cabeça e não ergueu os olhos.
– Sou paciente aqui. Lá em cima, na ala psiquiátrica.
Fiz uma pausa, mais que ligeiramente surpresa. Tentando disfarçar, disparei:
– Você tentou se matar?
Ele me encarou e negou com a cabeça:
– Não dessa vez. Não fui racional a esse ponto.
Precisei de um instante para digerir essa resposta e ao mesmo tempo fazer um breve levantamento
do lugar: luzes fracas, mobiliário industrial, médicos conversando assuntos sérios no canto. Mas isso
era tudo. Não vi nenhuma aparição conhecida à espreita. Encarei seu olhar tristonho.
– Quer falar sobre isso?
Ele balançou a cabeça.
– Na verdade, não há nada que falar. As substâncias ficam descompensadas e eu surto. Fim da
história.
– Por quê?
– É complicado.
– Sou muito inteligente, garanto que posso entender.
Ele estalou a língua.
– Espertinha.
– Desculpe. Sou bastante intrometida, não sou?
– É, sim.
Fez-se um silêncio constrangedor e pensei que talvez esse fosse um bom momento para eu ir
embora, mas então Mickey Chandler prendeu meu olhar no dele.
– Você quer mesmo saber?
Assenti.
– Muito bem. A questão é que nunca sei como vou acordar de manhã, e odeio isso. Odeio não ser
capaz de confiar no cara que vejo no espelho.
– Não o culpo. Por que você é assim?
– Existe algum problema com as substâncias do meu sangue, ou com a falta delas, por isso preciso
tomar um monte de remédios para compensar. Se não tomo, começa a confusão. Só sou considerado
estável quando estou quimicamente ajustado, e às vezes nem os comprimidos resolvem. – Ele
contemplou as mãos. – Por isso fico frustrado e paro de tomá-los, aí tudo sai de controle e acabo
voltando para o hospital.
– Que horror. Essa sua doença tem nome?
– Transtorno bipolar.
– Já faz tempo que você tem isso?
– Faz.
Olhei para ele:
– Para todos os efeitos, você parece normal. Qual é o seu tratamento?
– Terapia e medicação. Depende dos sintomas. Lítio. Às vezes antipsicóticos, mas quase sempre
estabilizadores de humor e, de vez em quando, antidepressivos, mas eles são perigosos porque
podem desencadear hipomania. Às vezes preciso de tudo isso junto. E mais os comprimidos para os
efeitos colaterais. Os médicos me usam um pouco como cobaia porque meu ciclo é rápido, ou seja,
alterno entre altos e baixos depressa, e a ideia é me manter no meio-termo.
– Essa é a sua zona de segurança?
– Isso mesmo. Segura, mas chata. – Ele deu de ombros. – É difícil explicar, mas quando a gente
sabe que pode se sentir invencível, tão repleto de energia que se acha capaz de conquistar o mundo,
seguro e estável não parece algo bom. Eu costumo me automedicar para ver se fico no limite.
Assenti.
– Posso entender por quê.
– Sério? Consegue mesmo entender?
– Por que não? Quem não quer se sentir bem?
– Bom, o meu "bem" escapa ao controle bem depressa. Aí paro de raciocinar direito, não tomo os
remédios e começo a passar dos limites. Não como. Não durmo. Trabalho como um maníaco. Fico
hiperativo e irracional, fazendo coisas bizarras porque tenho ideias bizarras. E aí surto. – Ele bateu
com os nós dos dedos algumas vezes na mesa. – Por fim me dou conta do que fiz e entro em
depressão. Então fico mais hiperativo e irracional e às vezes, se a situação fica muito feia, a única
coisa que eu quero é... acabar com tudo. – Mickey Chandler respirou fundo e balançou a cabeça. –
Não acredito que estou sentado aqui lhe contando tudo isso.
Senti vontade de chorar por ele, tão exposto, tão desprotegido.
– Quem cuida de você? Quem o ajuda com os remédios e diz se... Sei lá, se está pirando? Quem
junta os pedaços quando você desmonta?
– Bom... – começou ele, dando de ombros. – O meu médico, Gleason, está sempre lá depois da
crise. E quase sempre também quando deixo de fazer o que deveria. Mas, basicamente, sou só eu
mesmo.
– Você não tem família? Não tem namorada? Ninguém para ajudar?
– Não. Já tive um monte de gente, mas em geral ninguém está disposto a bancar essa parte. – Mickey
suspirou. – Antes de ficar esperto e comprar o Colby's, na época em que apenas fazia stand-up em
outros bares, cansei de ouvir observações muito valiosas dos meus empregadores, porque, quando
surtava, eu não era muito engraçado, o que é importante no meu trabalho. Aí eu acabava sendo
demitido. – Ele passou as mãos pelo cabelo. – Mas na fase da hipomania, sou um sujeito bastante
divertido, e isso sobe à cabeça. Quero ser mais produtivo, mais engraçado, melhor, e posso fazer
tudo isso no período ascendente. Só não consigo manter. Preciso passar pela crise. E sei quando a
hora está chegando. Posso sentir, mas não consigo evitar. Aliás, até conseguiria, mas sempre acho
que ainda tenho tempo para isso, até que não tenho mais. E então desabo, rápida e totalmente, e
decepciono todo mundo – disse ele, balançando a cabeça. – Por isso a maioria dos meus
relacionamentos é de curta duração. É um jeito muito instável, doentio e idiota de viver.
Assenti.
– Não sei o que lhe dizer – falei.
– Assustei você, não foi?
– Não. Quero dizer, talvez um pouco. Não posso acreditar que você precise viver assim. Você tem
parentes, certo?
– Um irmão em Denver, mas não somos próximos. Falo com meu pai de vez em quando, mas ele
mora em Nova Orleans há anos e não vou até lá com frequência – explicou Mickey, dando de
ombros.
– Você tem mãe?
– Não, ela morreu quando eu era criança.
– Entendo um pouquinho disso – falei –, mas pelo menos tenho minhas irmãs.
– Arrumei um sócio fenomenal, que é mais que compreensivo, e tenho Gleason... o Dr. Webb, meu
psiquiatra.
– Então você vem lutando contra o transtorno bipolar praticamente sozinho durante a maior parte da
vida?
– Basicamente.
– Acho isso incrível. Você é incrível.
Ele negou com a cabeça.
– Não, não sou. Não passo de um cara tentando jogar com as cartas que recebeu. Você talvez não
acredite, mas sou um monte de outras coisas além de doente mental.
Sorri.
– Não duvido.
Mickey Chandler estava partindo meu coração. Tentei me manter distante, porque não fazia muito
sentido estar profundamente atraída por um doente mental.
– Aliás, você tem permissão para estar aqui no meio da noite ou será que fugiu?
Ele deu um sorriso.
– Na verdade estou ótimo hoje, por isso ganhei o direito de vir à lanchonete.
– Então, parabéns pelo bom comportamento.
Ele riu e me lembrei de como o seu sorriso me ganhara na noite do meu aniversário. Peguei-me
procurando indícios da doença naquele sorriso, mas não vi nada. Havia algo em seus olhos, mas não
no sorriso.
– Me fale de você, Lucy Houston.
– Ah, já está tarde, talvez numa outra hora. – Comecei a me levantar da cadeira, mas Mickey
segurou meu pulso.
– Acho que não, mocinha. Eu botei tudo para fora, agora é a sua vez.
Voltei a me sentar, profundamente concentrada em sua mão. Não queria que ele me soltasse, mas me
desvencilhei mesmo assim.
– Então trate de usá-lo – falei. – Prometo que vou dizer que sim.