Ela me deu o número do telefone e, embora eu soubesse que jamais ligaria, decorei-o mesmo
assim. Não pude evitar. Ninguém me via como ela. Tenho certeza de que isso soa estranho, mas
olhar para mim e me ver são duas coisas muito diferentes. E eu conheço a diferença, já que fui
olhado por mulheres – e não poucos homens – durante a maior parte da minha vida adulta.
Lucy, porém, parecia me ver não sob o prisma da atração de uma mocinha, mas sob uma luz
muito mais generosa, crua e reveladora. Para começar, ela me desarmou por completo quando
eu flertava com sua irmã, que, devo confessar, era muito bonita – loura, inteligente e muito
interessante, apesar de definitivamente não fazer o meu tipo. Mas eu estava me divertindo e
aproveitando sua companhia enquanto as pessoas chegavam à minha casa noturna para uma
festa de aniversário. Então, essa garota – ela era apenas uma garota – entrou, e o clima mudou
na mesma hora. Para melhor. Todo mundo a conhecia e sem dúvida a adorava. Sei que é clichê,
mas não consegui tirar os olhos dela enquanto ela circulava pelo salão. Abraçava todo mundo e
ria com todos. Vestia um suéter preto justo, uma saia curta e botas – e, em matéria de beleza,
era exatamente o meu tipo. Achei que talvez ela tivesse me flagrado olhando-a, porque quando
enfim se aproximou de nós, fiquei meio ansioso. Porém não era comigo que ela queria falar,
mas com a moça que eu estava paquerando, e quase desmoronei ao descobrir que as duas eram
irmãs. Ela sorriu para mim de um jeito ostensivamente aprovador e disse que se chamava Lucy
Houston. O nome lhe caía como uma luva. Mais baixa que a irmã, ela tinha um incrível cabelo
castanho que logo desejei tocar. Priscilla parecia uma autêntica modelo – muito bem tratada.
Lucy, por sua vez, era mais natural e, acreditem, não precisava de coisa alguma para
embelezá-la: tinha a pele clara, grandes olhos verdes, o nariz pequeno e arrebitado, lábios
carnudos e beijáveis. Acrescente a tudo isso o fato de ela dar a impressão de ser muito legal e
Lucy Houston se torna praticamente irresistível.
Descobri, afinal, que estávamos comemorando seu 21o aniversário – jovem demais para os
meus 29 anos. Porém algo aconteceu quando ela subiu no palco comigo. Eu só estava tentando
fazer meu número, contar algumas piadas, arrancar umas gargalhadas, aquela coisa de
sempre. Chamei-a para fazer uma rápida figuração e ela não hesitou. Então o restante do
mundo desapareceu e só ficou ela. Não sei o que Lucy fez, mas de alguma forma conseguiu que
eu saísse de trás do personagem que mostrava ao mundo e olhou para quem sou de verdade. E
não titubeou. Quando a beijei, por pura diversão, e ela retribuiu, acho que a reconheci de um
jeito cósmico, como uma parte perdida de mim mesmo que eu não sabia que tinha perdido. Não
sei se esse tipo de coisa acontece com pessoas normais, mas para mim foi irrefutável. E para
alguém situado bem aquém da bendita linha da normalidade, foi chocante a ponto de apavorar.
Fiquei apavorado a ponto de me tornar um imbecil. Aquela garota deslumbrante me deu seu
número de telefone e deixei que ela fosse embora.
Conheci Mickey Chandler em 1998, quando eu estudava na Universidade Northeastern, em Boston.
Lily me convenceu a passar meu aniversário de 21 anos em Brinley, onde organizou uma festa e
convidou todos que conhecíamos. A desculpa para o evento foi o meu aniversário, mas eu sabia que
minha irmã precisava de uma distração. Ela e o marido, Ron, tinham acabado de passar pela
experiência terrível de uma adoção que dera errado.
Achei que a pobrezinha jamais se recuperaria da longa espera por aquele filho precioso, que
chamou de James Harrison Bates, em homenagem ao nosso pai e ao sogro. Todos nos apaixonamos
pelo menino, um garotão saudável e encantador. Então nós o perdemos. A mãe, que tinha 15 anos,
mudou de ideia. A menina – com a mãe, que era uma idiota, e o advogado – simplesmente bateu à
porta de Lily e pediu o filho de volta. O termo jurídico é revogação de adoção e em Nova York, seu
local de origem, a mãe tem 45 dias para ir à justiça cancelar seu consentimento. Ela fizera isso no
último dia do prazo, o que abriu uma ferida profunda no coração de Lily que achei que nunca iria
cicatrizar.
Minha irmã jurou que jamais tentaria de novo. Não dava para culpá-la. Não depois de dois abortos
espontâneos e procedimentos exaustivos para resolver o problema – incompetência istmo-cervical. E
mais uma adoção fracassada. Da primeira vez, a mãe mudara de ideia antes de o bebê nascer e,
apesar de ter sido um golpe para Lily, não doeu tanto quanto a perda de Jamie. Depois dele, o
assunto "bebê" virou tabu. Mais tarde, tornou-se desnecessário – eu jurei jamais ter filhos e Priscilla
se casou com sua carreira, insistindo que não estava interessada em constituir família. Mas na época
em que Lily perdeu esse filho, Ron ficou tão desesperado para curar sua dor que comprou para ela
uma mansão vitoriana dilapidada no centrinho histórico de Brinley, e a loja de antiguidades que os
dois batizaram de Fantasmas no Sótão tornou-se seu filho. O contrato foi assinado na véspera do meu
aniversário de 21 anos, o que fez com que a minha grande festa também fosse uma comemoração para
eles.
Lily fez de tudo para que o meu aniversário fosse fabuloso. Encontrou um lugar para a festa e
contatou o proprietário para transformar a ocasião num grande evento. Convidou todos os meus
amigos e até algumas das minhas mães postiças. Foram várias ao longo dos anos, já que eu tinha
apenas 17 anos quando nossa mãe morreu – e aos olhos das mulheres de Brinley ainda não era adulta.
Três mulheres em especial haviam representado esse papel, e todas estavam no Colby's na noite da
minha festa – Jan Bates, Lainy Withers e Charlotte Barbee. Das três, era de Jan que eu me sentia mais
próxima. Artista talentosa, certa vez ela pintara um retrato de Lily, Priss e eu com nosso pai e o deu
de surpresa a mamãe sem motivo algum. Jan chegara à imagem do quadro a partir de fotos tiradas
quando éramos muito novas, mas ninguém seria capaz de dizer que nunca havíamos posado para ele.
O quadro ficou pendurado no quarto de minha mãe até ela morrer e agora está em cima da lareira de
Lily. Jan e Harrison Bates eram os amigos mais íntimos dos meus pais e não poderiam ter nos dado
mais carinho e apoio, mesmo se fossem parentes.
Lily me arrancou do abraço de Jan e me envolveu no seu, que retribuí. Minha irmã tinha emagrecido
muito e havia uma tênue linha de sofrimento em torno de seus olhos, mas ela conseguiu esconder tudo
isso, sobretudo ao ouvir Ron cantar "Parabéns para você", desafinando a ponto de machucar nossos
ouvidos. Priscilla – nossa joia reluzente – se retirara para um canto, onde flertava com um cara
bonito, que dava a impressão de que precisava ser resgatado. Eu me aproximei dos dois e ela abriu
seu sorriso alvo e brilhante. Minha irmã mais velha estava deslumbrante numa calça jeans justa e
uma camiseta mais justa ainda. Flertava como uma cortesã, mas era a rainha dos contrastes. Quem a
visse nesse momento, não diria que vinha obstinadamente galgando os degraus do direito empresarial
e poderia fazer um oponente perder a capacidade de formar frases completas. Priss era casca-grossa
e uma ameaça tripla: bonita, brilhante e determinada. Só que tinha um ponto vulnerável de cuja
existência pouca gente, além de Lily e de mim, sequer suspeitava.
– Oi – falei.
– Oi – respondeu ela, tirando a mão do braço bem torneado do amigo por tempo suficiente para me
dar um abraço. – Feliz aniversário, Lu – sussurrou depressa no meu ouvido.
Em seguida voltou a seu lugar junto ao cara bonito, que agora me encarava.
Sorri.
– Meu nome é Lucy.
Ele se levantou. Era alto, com ombros muito largos e cintura delgada. Eu, ao contrário, sou bem
baixinha, meio moleca e precisei erguer os olhos para encontrar os dele. Ele estendeu a mão, que
apertei.
– Este é... Bom, para ser honesta – disse Priss com um sorriso –, nem sei o seu nome.
– É Mickey.
Ele abriu um sorriso bonito que deixava entrever um encanto extra por mim. Virei-me para Priss e
seu olhar me avisou de que ela o vira primeiro. Uma pena, já que ele era muito interessante. Tinha
um cabelo maravilhoso, escuro e anelado, com uma mecha grisalha que lhe caía na testa e tornava
difícil calcular sua idade. Trinta anos, eu diria. A boca era fantástica e seus belos olhos escuros não
se desviaram de mim um vez sequer enquanto eu o avaliava. Eu bem que podia me acostumar com
isso, pensei. Só que eu jamais disputava homens com Priscilla e não estava disposta a começar
agora. Por isso recolhi minha mão e disse apenas:
– Muito prazer.
Os olhos dele continuaram presos aos meus por tempo suficiente para eu saber que, se estivesse
competindo com Priss, ela teria problemas. Minha irmã, porém, estava nitidamente à vontade e
deixei-a assim enquanto circulava pelo salão e reencontrava meus amigos.
Naquela noite, o Colby's – uma casa noturna na cidade vizinha mais próxima a Brinley – fervilhava
com música, cerveja e muita conversa. Eu estava botando o assunto em dia com Chad Withers, meu
amigo desde o jardim de infância, que agora dirigia com o pai a única funerária de Brinley. Chad me
contava sobre sua anêmica vida amorosa, quando alguém deu umas batidinhas num microfone
estridente e falou:
– Esse negócio está funcionando?
Todos pararam e voltaram a atenção para o pequeno palco no canto do salão. Achei que Ron
tivesse contado à gerência sobre o meu aniversário e que a certa altura isso seria lembrado. Porém,
fiquei surpresa ao ver o amigo bonitão de Priscilla assumir o posto de mestre de cerimônias com um
grande sorriso no rosto.
– Sejam bem-vindos ao Colby's! É um grande prazer tê-los aqui. Estão se divertindo? Vocês todos
são de Brinley, certo? – perguntou ele.
Chad assoviou por entre os dedos.
– Ótimo, ótimo. Dizem que Brinley tem fama de ser divertida. Sei que isto aqui deve ser o
equivalente ao bingo no auditório da prefeitura, mas... – Mickey riu e depois pôs a mão no coração
fingindo pedir desculpas. – Brincadeirinha. Adoro Brinley. O pessoal de lá é muito legal. E rico,
pelo que ouvi dizer, o que é ainda melhor, então... bem, fiquem à vontade para gastar muito dinheiro.
O Howie, ali no bar, faz drinques especiais e esta noite está criando um chamado "A maioridade de
Lucy", em homenagem à nossa convidada especial.
As gargalhadas ecoaram pela boate e senti meu rosto corar.
– É. A dose custa 21 pratas, então bebam. Estou atrasado com o pagamento da hipoteca. – Ele
estalou a língua e depois enfiou a mão no bolso e a tirou de lá. – Muuuuito bem, meu nome é Mickey
Chandler e adoramos comemorações especiais aqui no Colby's, principalmente aniversários. Esta
noite estamos festejando Lucy Houston. – Ele deu um tapinha no bolso e pegou um pedaço de papel
dentro dele. – Quero agradecer à irmã da aniversariante, Lily, por me fornecer todos os detalhes
sórdidos sobre Lucy, se é que me entendem. Aliás, onde ela está? Alguém viu a aniversariante?
No ambiente pouco iluminado, um holofote me encontrou e eu fiz uma reverência exagerada
enquanto meus amigos me saudavam com gritos e aplausos.
Mickey aplaudiu duas ou três vezes.
– Ali está ela. Lucy tem agora 21 anos, tomem cuidado. Vejamos... Você estuda, certo?
Assenti.
– Faz faculdade em Boston, aproveitando a vida com as colegas de quarto, suponho. Vou lhe fazer
uma pergunta: a geladeira tem cantinhos individuais para você e suas amigas? Acertei, não foi? E
aposto que botou seu nome no queijo e em cada um dos ovos, certo? Admita, Lucy. – Mickey deu uma
risada. – Com os homens não é assim. É tudo propriedade coletiva, certo, pessoal? Comida, cerveja,
garotas. É de quem chegar primeiro. Não é verdade?
Chad assoviou, como se soubesse bem do que Mickey estava falando, e eu ri, só porque ele era
muito lindo! O mais importante foi que Lily riu, e ela precisava desesperadamente disso, o que me
transformou em uma fã instantânea de Mickey.
– Lucy, suba aqui – disse ele. – Me dê uma ajuda antes que eu estrague tudo e todo mundo volte
correndo para o bingo.
Nunca fui tímida e, antes mesmo que ele terminasse o convite, eu já estava passando por Priscilla a
caminho do palco. Ela pareceu um pouco aborrecida, mas não havia nada que eu pudesse fazer. No
palco, o lindo sorriso de Mickey voltou – aquele de quando nos vimos pela primeira vez – e, sem
minha irmã para impedir, eu me deixei aquecer pelo calor dele. Minhas irmãs são louras bonitas, mas
o cabelo bom mesmo é o meu – grosso e castanho-acobreado –, herdado de nosso pai. Naquela noite
eu o deixara solto e Mickey estendeu o braço e correu as mãos por entre os fios, aproximando-se
para examiná-lo. Que cheiro bom ele tinha!
– Por que você não é loura como suas irmãs? – indagou ele longe do microfone, esfregando uma
mecha entre os dedos. Então, se deu conta do gesto e a soltou. – E aí, Lucy? Vinte e um anos. O que
vocês, as garotas de 21, fazem para se divertir?
– Bom, Sr. Chandler, garanto que deve ser a mesma coisa que os velhos pervertidos fazem para se
divertir.
– Por acaso essa é uma piada de velho? – retorquiu Mickey, fingindo-se ofendido. – Está querendo
acabar comigo? Mas vou lhe dar um pouco de corda, já que você é uma aniversariante tão sexy.
– Puxa, obrigada. Você também não é de se jogar fora – retruquei, estendendo a mão para dar um
tapinha em seu peito. Foi aí que ele me olhou de um jeito que eu não trocaria por dinheiro algum.
Ele logo se recompôs.
– Vocês adoram universitárias, não é? Mulheres jovens e deslumbrantes? Mas temos que agir na
hora certa, quando estão em pleno desabrochar mas ainda são bobinhas a ponto de nos darem uma
chance. Depois que começam a levar a vida a sério, acabou. Caras como nós não têm mais a menor
chance, certo, Lucy?
– Você está falando especificamente de mim?
Mickey olhou em torno com uma expressão teatral.
– Não estou vendo mais ninguém aqui no palco. – Então pegou mais um punhado do meu cabelo. –
Acho melhor checar se não é louro. Sim, estou falando de você – respondeu, bem perto de mim.
– Bom, eu garanto que você teria uma chance comigo.
Mais uma vez, ele ficou desconcertado e meus amigos passaram a provocá-lo. Abri um sorriso
largo.
– É por pena. Acertei? – perguntou ele. – Você é uma aluna exemplar que sente pena de um cara que
se formou magna-cum-nada e acabou como comediante de uma pequena casa noturna.
– Está brincando? – entoei. – Um comediante formado? Gamei!
Seus olhos risonhos não largaram os meus enquanto ele decidia o que dizer em seguida.
– Então, está ótimo! – falou. – Vamos lá!
Mickey Chandler me puxou para perto dele e, com um grande floreio, se inclinou para dar um beijo
de aniversário na universitária. Acho que a ideia era que fosse um selinho inofensivo, mas eu
mergulhei fundo – afinal, era meu aniversário –, e para ser honesta, ele também. Alguma coisa no
jeito como nossas línguas dançaram e nossos dentes se chocaram pareceu quase familiar. Foi
delicioso e não seria eu que daria um fim àquilo.
Quando enfim nos afastamos, eu estava sem fôlego e meio envergonhada. A máscara de Mickey
caíra de novo e ele deu a impressão de não acreditar no que acabara de acontecer. Ri e saí do palco
aos tropeços, sob a execução de "Parabéns para você". Para os presentes, a coisa toda não passou de
uma grande diversão. Exceto para Priss, que parecia meio chateada. Mas não me arrependi. Era a
minha noite e o número de Mickey. Ele continuava a me olhar, tentando demonstrar indiferença. Isso
me deixou feliz. Ao voltar para junto do bar, Priss me deteve:
– O que foi aquilo?
– Nada. Só brincadeira.
– Tive a impressão de que foi mais que isso – disse ela, mordida.
Eu ri, olhando para o palco, onde Mickey Chandler continuava com os olhos fixos em mim enquanto
contava uma história engraçada sobre dois cachorros e um caixa eletrônico. Tentei imaginar o que
ele via. Priscilla, alta, loura e deslumbrante, com toda aquela volúpia siliconada vazando do bustiê,
repreendendo a irmã caçula, mais baixa e bem menos voluptuosa – porém bastante atraente de saia e
botas –, que não aceitava o puxão de orelha.
Mickey se preparava para descer do palco e falei:
– Esta é a sua chance, Priss.
Minha irmã levou um segundo para ponderar a sugestão, mas depois olhou por cima do meu ombro:
– Tenho uns assuntos para resolver. Considere o cara divertido meu presente de aniversário.
Virei-me e vi Trent Rosenberg olhando minha irmã como se ela fosse um filé e como se ele não
comesse havia mais de um ano. Trent tinha sido seu namorado no ensino médio, e ele e Priss eram o
boato mais antigo que circulava em Brinley. Eu queria acreditar que minha irmã estivesse acima dos
padrões dele. Sobretudo porque Trent tinha mulher e filhos.