O Arqueiro
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Capítulo 5 O Arqueiro

– Está bem – concordei, penteando o cabelo com os dedos. – Estudo na Northeastern, mas disso

você já sabe. Vou me formar na primavera. Depois vou dar aulas de história geral. Tenho duas irmãs

que você já conheceu, Lily e Priscilla. Nasci aqui em Brinley e vou voltar para cá para ser

professora.

– Seus pais?

– Eles eram maravilhosos. Infelizmente, meu pai foi morto quando eu era pequena. Era policial. E

minha mãe morreu quando eu tinha 17 anos. De câncer. O câncer também levou minha avó e minha

tia, acabando com minha ascendência materna. – Isso soou bem mais íntimo do que eu pretendia e me

esforcei para corrigir o tom: – Por isso Priscilla está aqui. Descobriram logo, graças a Deus, mas

nós, as irmãs Houston, estamos sempre preparadas para o pior. – Eu continuava a mexer no cabelo, o

que costumo fazer em momentos de ansiedade. Parei, meio constrangida. – Este é o meu demônio. A

incógnita que me aguarda toda manhã ao despertar. Estou saudável hoje? Será que aconteceu alguma

rebelião celular enquanto eu dormia? Alguma revolta citoplasmática da qual eu devesse estar ciente?

É um inferno. E, se quer saber, meu inferno é pior que o seu, porque não só preciso me preocupar

comigo e com as minhas células, como também vivo ansiosa por causa de minhas irmãs. É exaustivo

se preocupar tanto assim. É um jeito muito instável, doentio e idiota de viver.

Mickey Chandler riu ao me ouvir repetir as palavras dele. Também ri, sem me dar conta de quanto

precisava disso. O acesso de riso foi tão delicioso depois de um dia inteiro de aflição por conta de

Priscilla que perdi o fôlego.

Mickey se inclinou para a frente:

– Ao menos agora sabe por que não liguei para você.

– Pois devia ter ligado.

Ele me avaliou e sorriu.

– Eu me lembro de tudo daquela noite. Não dava para acreditar que você tinha me beijado. Não

dava para acreditar que você tivesse me dado seu telefone.

– Por que não? Gostei de você.

Mickey Chandler balançou a cabeça e ficou sério de repente.

– Você gostou dele.

– Gostei de você. Ainda gosto.

Ele me olhou com intensidade, e pensei que nunca havia conhecido alguém como Mickey Chandler.

Ele era real e tinha um defeito grave. Não fingia perfeição. O pacote estava aberto, danificado e

sentado ali, me encarando, e eu achei tudo incrivelmente reconfortante, ainda que um pouco

assustador.

Desviei o olhar primeiro para consultar o relógio de parede.

– Tenho mesmo que voltar para ficar com a minha irmã – falei, empurrando a travessa de batatas

fritas para perto dele. – Ela vai cuspir fogo se acordar e não me encontrar. – Fiquei de pé e o

presenteei com meu sorriso mais sincero. – Mas só para deixar registrado, Sr. Chandler, foi você que

me beijou.

De repente me deu uma vontade enorme de revisitar aquele momento, apesar do que descobrira essa

noite.

Mickey abriu um sorriso.

– Você não me apavorou – garanti. – Eu só quero que saiba disso. Posso ver que, apesar do seu

diagnóstico, você é um cara bom. E, na minha opinião, nós dois temos problemas, coisas que fogem

ao nosso controle, embora você possa tomar seus remédios e controlar parte dos seus.

Ele continuava a sorrir.

– Não vejo nenhum grande mal – insisti – em duas pessoas, com problemas que basicamente se

resumem a questões de saúde, dividirem uma pizza um dia desses. Se eu lhe der meu telefone de

novo...

– Eu sei seu telefone, Lucy. De cor.

O olhar que ele me lançou me fez estremecer, e torci para que não tivesse dado para notar. Depois

torci pelo contrário.

quatro

4 DE JUNHO DE 2011 – PARA A TERAPIA DE GRUPO

O transtorno bipolar é genético. Minha mãe tinha e eu tenho. Não sei dizer ao certo quanto ao

meu irmão. Descobri que algumas pessoas acham que saber isso a respeito de alguém explica,

justifica ou condena tudo. Não é justo. Um indivíduo é infinitamente mais complexo que isso.

Gosto de pensar na minha doença mental como um complemento para o resto de mim, como um

tipo de diabetes emocional. O Depakote é a minha insulina, os humores são o açúcar no meu

sangue. Como qualquer bom diabético, me esforço bastante para manter os níveis equilibrados.

Se não fizer isso, adoeço.

É preciso talento para lidar com esse transtorno. É preciso coragem para controlá-lo a fim de

que ele não me controle. Às vezes é preciso encontrar um bom guia. No meu caso, precisei de

um destino. Lucy é meu destino. Não importa se estou encurralado num canto escuro ou

debruçado sobre um precipício estonteantemente brilhante, meu objetivo é sempre voltar para

ela. Gleason me diz que é nisso que sou diferente de minha mãe; ela não tinha um destino, nada

era mais importante do que a própria doença. Ela não confiava em nada além disso. Nem no

meu pai, nem em mim ou no meu irmão. Seu mundo girava em torno da dor – sombria, densa,

abrangendo todo o sofrimento emocional. E isso acabou por defini-la. Recuso-me a permitir

que a doença me defina.

Mas conheço a dor de minha mãe; por isso trapaceio com os remédios.

Depois de dar os comprimidos a Mickey, Peony Litman nos dispensou e seguimos para a área comum

de mãos dadas.

– O que você vai fazer amanhã? – indagou Mickey, passando o braço pelos meus ombros. – Poderá

vir para a minha sessão com Gleason?

– Eu gostaria, mas amanhã é a cerimônia fúnebre de Celia, lembra?

– É mesmo. Como pude esquecer? Você tem visto Nathan?

Balancei a cabeça.

– Liguei para ele no início da semana, mas ele não atendeu.

Mickey e eu nos calamos, perdidos na crueldade de uma vida encerrada prematuramente. Celia

Nash assistia ao jogo de futebol do filho no último outono quando foi picada por uma abelha e

morreu em consequência disso. Na época, eles moravam em Phoenix, onde Nathan era bem-sucedido

trabalhando como ortopedista. Depois da morte da esposa, porém, ele decidiu trazer os filhos de

volta para Brinley, a fim de ficar perto dos pais e dos sogros. Agora, passados seis meses, a família

ia fazer uma cerimônia fúnebre para Celia e enterrar suas cinzas no Cemitério de River's Peace.

Apertei com carinho o braço de Mickey, recordando quanto Celia e Nathan haviam sido felizes.

Estávamos prestes a nos sentar, mas um técnico de laboratório veio atrás de Mickey para colher

uma amostra de sangue com o intuito de testar o nível de Depakote. Enquanto eu o esperava, ouvi o

toque de um celular e levei um minuto para me dar conta de que era o meu. Não consegui atender,

mas a tela mostrava o número de Charlotte Barbee. Meu coração pulou. Eu saíra do seu consultório

havia apenas três horas. Não era tempo suficiente para descobrir algo errado, certo? Eu pensava no

que Charlotte poderia querer comigo, quando Peony veio me dizer que havia um recado para mim no

posto de enfermagem.

Era da Dra. Barbee, e ela queria me ver.

Charlotte estava atendendo sua última paciente, e a recepcionista, Bev Lancaster, me informou de que

ela não demoraria muito. Bev percebeu minha ansiedade e fez o que pôde para me tranquilizar com

um sorriso solidário.

– Quer um bombom, Lucy? – ofereceu, apontando para o pote de cristal ao lado do telefone.

Balancei a cabeça, mas peguei um assim mesmo. Bev conhecia meu histórico médico, claro, por

isso era capaz de imaginar o motivo da minha angústia.

– Ela já deve estar acabando – disse, juntando suas coisas. Eram cinco horas e seu expediente havia

terminado.

Eu ficara o máximo possível no hospital, assentindo enquanto Mickey falava, mas sem de fato

prestar atenção no que ele dizia. Devia ser algo sobre o Havaí. Por fim, falei que estava com dor de

cabeça e que precisava voltar para casa. Prometi ligar mais tarde. Agora estava ali, presa na sala de

espera chique de Charlotte, tentando me livrar da sensação de tontura causada por seu telefonema.

Ao sair, Bev apertou meu ombro com carinho:

– Vai dar tudo certo, meu bem, você vai ver.

– Ah, sei disso – respondi, sem demonstrar a menor convicção.

Então fiquei sozinha. Examinei a sala de espera de Charlotte, intencionalmente tranquilizadora:

painéis de madeira escura, estofados macios demais, iluminação suave. Não dava a impressão de ser

o último lugar na face da Terra em que uma pessoa gostaria de estar – o que de fato era para mim

naquele momento. Sentei-me numa cadeira forrada em toile de Jouy preto e marfim retratando

senhoras francesas que tomavam chá e deviam falar mal de seus amantes.

A porta do consultório se abriu e Charlotte seguiu Elaine Withers até a sala de espera.

– Lembre-se do que recomendei – disse Charlotte com voz grave. – Repouso. Repouso.

Lainy olhou para mim e revirou os olhos azul-claros.

– Como Charlotte é mandona, Lucy. Não sei como a aguento.

Fiquei de pé e sorri para minha vizinha.

– Sabe, sim, Lainy.

– Só espero que ela seja mais boazinha com você do que foi comigo, meu bem – falou Lainy antes

de sair.

Observei a porta se fechar e esperei que Charlotte dissesse alguma coisa. Como isso não aconteceu,

respirei fundo e me virei a tempo de vê-la me olhando como minha mãe teria feito. Ela sorriu.

– Vamos nos sentar aqui, querida. Todo mundo já foi e está tranquilo. É menos clínico.

– Tenho motivos para me preocupar?

– Depende.

Tornei a me sentar entre as senhoras bebedoras de chá, e ao ver Charlotte se acomodar na cadeira

em frente, senti meu coração bater forte. A conversa que eu tinha imaginado ficou pairando

silenciosamente entre nós enquanto eu fitava a amiga de mamãe nos olhos. Cada ruga em seu rosto

era, para mim, bonita, maternal e terna. E não vi pena em seus olhos escuros, o que achei muito

tranquilizador.

– O que foi, Charlotte? Por que estou aqui?

Charlotte levou uma das mãos ao rosto e me observou.

– Lucy, não é o que você está pensando. Os resultados oncológicos ainda não chegaram.

– Então o que está havendo?

– Bem, achei que você devia ser informada do resultado de um exame que fiz.

– É algo sério?

Charlotte olhou para mim e sorriu.

– Lucy, você está grávida.

Minutos, horas talvez, se passaram. O que ela dissera? Eu vira sua boca mexer. Ouvira algo sair

dela, mas o impacto congelou as palavras e elas não chegaram a ser registradas, portanto não podiam

ser verdadeiras.

Charlotte estava assentindo.

– Você está bem, querida?

– Acho que não ouvi direito.

– Ouviu, sim. Eu disse que você está grávida. Grávida.

Aquela única palavra causou em mim um efeito visceral, como fogo se espalhando no meu sangue.

Grávida.

– Não.

Enquanto Charlotte fazia que sim com a cabeça, todos os motivos por que isso era impossível

brotaram em meu íntimo. A doença mental de Mickey, o câncer que a minha linhagem parecia atrair

como ímã. Todas as mulheres da minha vida que haviam sido levadas por essa doença cruel.

Inclusive eu mesma, quase. Embora Mickey e eu fôssemos adorar constituir uma família, tínhamos

aceitado a realidade desses fatores inquestionáveis e tomado a decisão mais difícil de nossas vidas

havia muito tempo.

– Como pode, Charlotte? – Minha visão estava embaçada, não por lágrimas, mas porque eu parecia

incapaz de piscar. – Verifique de novo, porque simplesmente não é possível. – Mesmo ao balbuciar,

eu tentava me lembrar de quando tinha sido minha última menstruação.

Charlotte estendeu o braço e pegou minha mão.

– Não entendo. Minhas trompas...

– Acontece – disse ela, baixinho. – Às vezes. Com certeza é raro, mas às vezes um nadadorzinho

corajoso consegue ultrapassar o nó.

– Depois de todos esses anos, tenho um nó que pode deixar passar um espermatozoide?

– Ou trompas que se religaram. É difícil dizer, mas acontece.

– Charlotte...

Minha cabeça girava. Aquilo era sério demais. Quanto tempo fazia que eu não menstruava? Meu

ciclo não era regular e eu não prestava muita atenção a isso, mas, santo Deus, havia quanto tempo

que ela não vinha? Charlotte sorriu para me tranquilizar, enquanto eu continuava ali sentada

balançando a cabeça por não saber mais o que mais fazer.

– Não consigo sequer me lembrar de quando foi minha última menstruação.

– Não faz diferença, Lucy. Isso não muda nada.

– Para mim faz, Charlotte. O que vou fazer?

– Que tal esquecer esse assunto por hoje? Deixe estar. Você é uma mulher fazendo o que as

mulheres fazem. Você está grávida. É normal, bonito, natural...

– Inacreditável. Insano.

– Hoje não, Lucy – falou Charlotte com calma. – Não pense mais nisso hoje. Vamos pensar nas

coisas difíceis amanhã. Não é o fim do mundo.

– Sério?

Charlotte pegou minha mão:

– Sério.

– Por que agora, depois de todo esse tempo? O que houve? – Uma dezena de sentimentos gritava

dentro de mim.

Conforme foi passando o entorpecimento, percebi que me sentia muito aliviada por não terem dito

que eu estava doente de novo, mas essa notícia me encheu de medo. A ansiedade era tanta que eu mal

conseguia respirar. E, para ser honesta, senti também uma felicidade repentina e incompreensível. Eu

estava grávida? Eu estava grávida!

Quando enfim saí do consultório de Charlotte, fiquei dando voltas de carro durante algum tempo e

tentei seguir seu conselho: simplesmente aceitar. Não me preocupar. Não me apavorar. Não

funcionou. Atravessei a estrada que liga Brinley ao condado vizinho. O sol estava se pondo, de um

jeito sereno e familiar, e acabei chorando tanto que precisei parar o carro no acostamento.

Grávida.

Eu devia ter ido jantar com Charlotte como ela sugerira, porém senti necessidade de me afastar.

Mas então me arrependi por estar sozinha. Grávida?

Apesar de tudo, comecei a imaginar coisas que não devia. Eu, mãe. Com um bebê. Ah, como adoro

o cheiro dos bebês, aqueles olhões numa pessoinha tão pequena. De cabelo cacheado. Imaginei uma

criancinha despertando de um pesadelo e me chamando no meio da noite: "Mamãe!" Dei partida no

carro, liguei o rádio e fui para casa.

Cresci na casa onde moro com Mickey. É um velho chalé vitoriano com árvores frondosas

plantadas por meu pai antes de eu nascer. Às vezes, quando paro diante dela, sinto como se tivesse

15 anos de novo e minha mãe me esperasse, saudável, na sala de estar triangular. Eu daria qualquer

coisa para que ela estivesse ali agora. Pego a correspondência e dou uma olhada nas contas. Se

alguém estiver me observando, dou a impressão de não pensar em nada além dos envelopes que

tenho nas mãos. Apanho o jornal e destranco a porta da frente. Um assalto no Nicklecade é a

manchete da primeira página. Imagino ler ali: LUCY CHANDLER GRÁVIDA! ONDE ELA ESTÁ COM A

CABEÇA?

Então ouço de novo, em minha cabeça, uma vozinha me chamar, chorando: "Mamãe, mamãe." Ela

teve um pesadelo. Ela? Mal consigo entrar em casa antes de ficar apavorada outra vez.

Os mesmos pensamentos me seguem escada acima e para dentro do chuveiro. Estão comigo ao abrir

uma lata de sopa de tomate e ao despejá-la, intocada, pelo ralo da pia. Um bebê. Eu poderia instalá-

la – por algum motivo estou convencida de que é uma menina, o que só aumenta a minha angústia –

no antigo quarto de Priscilla. No momento não passa de um quarto de entulho, com uma esteira, um

computador e montes de roupa para passar que nunca chegam a ver o ferro. Toda essa parafernália

pode ser trazida aqui para baixo. Priscilla tinha o melhor quarto da casa, ao lado do de nossos pais,

com um confortável banco sob a ampla janela e uma luminosidade maravilhosa. Perfeito para um

bebê.

Fiquei com ele depois que sobramos apenas eu e minha mãe, quando ela estava morrendo. Era

próximo o bastante para que eu a ouvisse me chamar no meio da noite quando precisava de um

analgésico ou queria ir ao banheiro. Sem dúvida daria para ouvir uma criança com pesadelos. Não.

No que eu estava pensando? Isso não podia estar acontecendo.

O telefone tocou e o identificador de chamadas mostrava que era do Hospital Edgemont. Mickey.

Eu não podia falar com ele naquele momento. Ainda não. Não imediatamente. Mickey talvez fique

eufórico com essa guinada nos acontecimentos, esquecendo-se do nosso acordo, do nosso juramento,

dos nossos motivos. Ah, como ele adoraria ser pai. Apesar das suas inúmeras dificuldades, Mickey

adoraria essa notícia. O que não me ajudaria em nada.

O telefone parou de tocar, então fui até o antigo guarda-roupa no nosso quarto e abri a porta, que

rangia. De um lado, o espelho refletia minha aparência lamentável: o cabelo molhado e embaraçado,

a velha camiseta de torcida de Mickey – aquela que sempre usava para dormir quando ele não estava

– e meus olhos inchados, em choque. Do outro lado estava pendurado o contrato que meu marido e eu

assinamos. Redigido em várias cores de caneta – uma vez que, ao longo dos anos, fomos

acrescentando cláusulas conforme ditavam as circunstâncias – e numa moldura de metal barato, ele

continha as condições que estabelecemos para a nossa relação. Era um compromisso inviolável.

Depois que adoeci, redigimos o triste adendo: sem filhos.

Tomamos essa difícil decisão após um colapso nervoso bastante grave que obrigou Mickey a ficar

internado durante sete semanas no Hospital Estadual de Connecticut. Foi no auge da minha luta

infernal contra o câncer. Depois que ele teve alta, adicionamos essa cláusula. Sem filhos. Redigida

em tinta azul-escura, sublinhada e selada com nossas lágrimas. Nunca contei a Mickey que mais

tarde, depois do ano terrível em que quase morri – quando ambos já estávamos bem –, eu me

arrependi... Mas apenas por alguns instantes.

Soltei o contrato do prego em que estava pendurado. O simples fato de esta criança ter pais que

precisaram de um documento para manter seu casamento provavelmente já era motivo suficiente para

não deixá-la nascer. O que ela pensaria se um dia deparasse com as cláusulas do nosso contrato?

Mickey Chandler se compromete a jamais bater na esposa ou praticar contra ela qualquer tipo

de abuso.

Mickey jamais terá relações sexuais com qualquer outro ser humano.

Lucy tampouco.

                         

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