Quando eu comecei a frequentar o morro depois de ir embora daqui com a minha mãe, eu acabei conhecendo Perigo, ele ainda não era dono do morro, se tornou alguns meses depois após a morte do seu pai. Eu me mudei para cá e logo depois meu pai faleceu, até então a nossa relação era saudável, depois tudo começou a subir a sua cabeça e se tornou tudo um inferno.
Eu não frequentava as reuniões da sua família e amigos, ele me mantinha longe de todos, quando ele saia do morro ele saia sozinho e eu não tinha permissão de colocar os meus pés nem para fora do lado, meu corpo era todo marcado por causa de suas agressões, ele chegava em casa de noite, cheirando o perfume de outras mulheres, bêbado e drogado e a maioria das vezes descontava em mim.
Eu desço as escadas e encontro ele limpando as suas armas, fuzil e revolver em cima da sala.
- Porque está com braço enfaixado? – ele pergunta
- Você me machucou, esqueceu? – eu pergunto
- Não me lembro – ele fala
- Memória curta a sua – eu respondo
- Eu só me lembro de você arrumar barraco no meio do morro – ele fala se levantando e vindo atrás de mim e me jogando contra a parede e beijando meu pescoço – você não deveria se importar com quem eu pego da porta para fora, porque aqui dentro é você que está, é você que tem minha proteção.
- E você vai se importar se eu sair pegando todo mundo? – eu falo – seus amigos, os vapores, quem mais? Deixa-me ver – ele tampa a minha boca.
- Você me tira do sério Maria Luiza, estou de boa contigo agora caralho – ele fala e eu o encaro – não me faça te machucar - eu o encaro.
- Me larga Miguel – eu falo implorando
- Você precisa me obedecer – ele fala
- Um dia você disse que me amava, é esse amor que sente por mim? – eu pergunto e ele me encara com raiva – eu jamais vou te obedecer em nada.
- Você vai me obedecer – ele fala.
- Sabe quantos amigos seus querem ficar comigo? Um monte. Sabe quantos inimigos seus te matar por mim? Muitos – ele me encara.
- Você quer virar x9 sua desgraçada? – ele pergunta com raiva.
- Você não me valoriza, você me troca pelas outras – eu falo para ele – você realmente acha que eu quero ficar com você ainda? Qualquer um daria a vida para me ter ao lado dele porque só não enxerga a mulher foda que você tem do seu lado.
- Você vai se arrepender por dizer isso – ele fala e eu me defendo do seu tapa.
- Me machuca mais uma vez, é só isso que um bosta que nem você sabe fazer – eu falo.
- Cala boca – ele fala e eu dou um chute e o empurro contra a mesa e saio correndo.
Ele consegue me alcançar e eu jogo o abajur nele, ele estava com raiva e eu precisava sair daqui o quanto antes.
Eu subo as escadas e quando ele ia subir atrás a casa é invadida por policiais, eu consigo subir todos os degraus e me esconder no andar de cima.
- Perigo, abaixa a arma – o policial fala – deita porra! – eles jogam Perigo no chão. – vasculhem a casa para ver se tem mais alguém.
Eu corro para o nosso quarto, pego a mala de dinheiro que Perigo tinha guardado e os meus documentos e pulo a janela, o morro está um caos tinha policial para tudo que era lado e vários vapores e chef de boca ajoelhados no meio da quadra. Eu começo andar pelas vielas do morro, se algum policial me pegasse eu seria reconhecida na hora e seria levada junto, eu era fiel de Perigo, eu sei de muita coisa e se eu ficasse, com certeza Perigo iria mandar eles calarem a minha boca com medo de que eu falasse demais e se fosse pega a mesma coisa, o meu destino era ser morta.
Eu jogo a mala para dentro de um buraco quando vejo dois policiais vindo em minha direção.
- Seu nome – o policial fala apontando a arma para mim.
- Luana – eu respondo rapidamente.
- Documento – ele pede.
- Eu estava na rua quando vocês invadiram aqui, eu não tenho documento comigo – eu falo. – eu sou moradora, estava apenas escondida com medo de um tiroteio maior.
Eles se encaram.
- Vai para sua casa – ele fala – agora!
Eu apenas assinto com a cabeça e desço as escadarias, olho para trás vendo que os policiais já tinha virado o beco e volto para pegar a mala.
Eu consigo sair do morro pelo matagal e começo a correr o mais rápido possível, eu não poderia ser pega de forma nenhuma por ninguém, nem pelos parceiros de Perigo e nem mesmo pela polícia.
- Para onde moça? – o taxista pergunta quando entro no carro.
- Rodoviaria, por favor – eu falo.
Eu não faço idéia para onde eu iria, eu iria apenas pegar o primeiro ônibus e sair do Rio de Janeiro, eu sou fiel de Perigo a muitos anos e comigo guardo tantos segredos e tantas conversas naquela casa que poderia acabar com muitos traficantes, eu era como se fosse a peça que falta em um quebra cabeça de 3mil peças, a peça mais importante que contém muita informação, eu poderia usar para acabar com ele, só que eu acabaria morta e eu não queria isso.
- Para onde? – A moça pergunta.
- Qual é o proximo ônibus que sai? – eu pergunto
- Para o pará – ela fala.
- Pode ser – eu respondo e ela me encara arqueando as sobrancelhas, eu abro a bolsa e pego o dinheiro entregando para ela.
- Boa viagem – ela fala me entregando o bilhete da passagem.
Eu descarto meu celular com muita dor no coração no lixo da rodoviária, alguém poderia me rastrear, até mesmo a policia. Eu olho para todos os lados com medo, todo mundo era suspeito, eu entro dentro do onibus e sinto um alivio grande quando ele começa a sair do Rio de Janeiro.
Eu estava livre do Perigo!