Idiota. É assim que ainda me sinto desde aquele telefonema, mas por razões muito diferentes. Hoje estou certo da minha idiotice por não recordar o meu último dia, e especialmente considerando que poderia ser o meu último dia nesta existência. Só um verdadeiro idiota afoga os seus problemas em álcool, não aprendi nada nestes últimos cinco anos, quando o álcool ajudou, quando não me arrependi de beber enquanto organizava as minhas memórias confusas e, em alguns casos, procurava a minha roupa?
Sempre acreditei que quando bebesse, o meu gémeo maléfico surgiria para me humilhar e envergonhar. Como na altura em que ela me obrigou a participar num concurso de canto, naquele bar de merda, onde fui desqualificado quando o meu gémeo vomitou no meio do palco.
E o que aconteceu à promessa que fiz a mim próprio naquele dia fatídico de nunca mais beber? É isso que me está a incomodar neste momento. Deitei fora todo o esforço que fiz em todos estes meses sem beber.
As memórias que vivem em mim são dolorosas. O problema com a depressão é que ela o assombra mesmo que queira fugir dela. É um vilão bastante insistente que procura o seu infortúnio e se alimenta do seu infortúnio, do qual já tive muitos para o alimentar.
A minha vida tem sido sempre um desafio constante e contínuo. Tive grandes amigos que me apoiaram tanto nos meus piores momentos, e que eu apaguei da minha vida. Se os tivesse agora ao meu lado, se os tivesse há alguns dias atrás, talvez a minha história fosse diferente, primeiro: lembrar- se- ia da minha história; segundo: não me teriam deixado beber; terceiro: não estaria a assar sob este sol absurdo, auto- punindo a minha culpa. E a lista poderia continuar.
Mas sou novamente responsável pela minha autodestruição. Nunca quis explicar- lhes as coisas que estava a experimentar, porque não suportaria os seus olhos reprovadores, os seus julgamentos e muito menos as suas rejeições. Por isso, afastei- me deles. Evitar festas, celebrações, aniversários, reuniões. Ignorar chamadas, mensagens e e- mails. Devo dar- lhes crédito pela persistência e insistência; porque era difícil ignorá- los.
Mas o meu medo levou- me a melhor e no fim isolei- me neste novo mundo onde eu estava, um mundo que por sinal nunca gostei, mas era o mundo onde eu pensava pertencer. Por isso, tranquei- me na minha torre, a minha própria prisão pessoal. Da qual tenho a certeza de ter conseguido sair, mas será a minha saída uma verdadeira libertação?
O riso puxa- me para fora da pequena letargia em que eu estava a começar a afundar- me.
- Ai! Não sabíamos que estavas lá! ....
A rapariga pára a frase mesmo no meio, no momento em que repara que não é "eram" mas "são". Ela olha para a garrafa vazia com tanta repugnância como olha para mim. Reflexivamente tento arranjar a minha camisa, não sei porque a quero sem rugas quando deveria estar mais preocupado com o vómito que a adorna. Ela, claro, é perfeita num - demasiado curto - vestido de Verão Bershka, que destaca a sua figura perfeita em todos os lugares certos, com um drapeado quase angelical e delicado sobre a coxa; e ele, bem, como algo saído de um anúncio da República das Bananas, calções brancos, carrinhas azul claro para combinar com a sua camisa, óculos Ray Ban na cabeça, e uma cara tola agarrada à cintura. Ele ignora- me completamente, ele só tem olhos para ela. E opto por odiá- lo, não porque ele não olha para mim, mas porque ele pode olhar para ela assim; odeio- a não só pelo seu perfeito cabelo de cabeleireiro, mas por ter alguém a olhar para ela assim, mesmo que ela não retribua metade da devoção.
Não me preocupo em responder, por isso olho para longe deles e concentro- me no surf.
- É o seu aniversário, sabe, e nós queríamos um espaço para algo romântico", diz ela enquanto ele sorri para o seu cabelo, inalando o seu cheiro. A sua pele rasteja e ela não consegue deixar de sorrir.
Sei que ela me pede para sair, sei que está a ser educada, mas também sei que não me importo. Ignoro- a completamente. Alguns segundos de silêncio mais tarde, ele compreende primeiro que eu não me vou mexer. Ela não é bruta, está apenas esperançosa de conseguir o que quer. Ela está habituada a conseguir o que quer. A sua surpresa é que não será esse o caso hoje, pelo menos não de mim, ela não vai receber o que pede.
Ouço uma exalação de frustração e eles partem. Voo para a paz da minha solidão, mas qualquer vestígio de sono desaparece.
Não posso deixar de me lembrar do meu último aniversário. Não foi assim há tanto tempo, apenas três meses. Estava a celebrar o meu 27º aniversário em absoluta solidão, tentando convencer- me de que era isto que eu queria. A todos os que me convocaram, desenhei uma reunião imaginária onde estavam todos os meus amigos inexistentes. Era uma noite quente de Agosto, por isso mantive- me hidratado com limonada fria. Às 22 horas, após um telefonema do Dominic a dizer que não ia conseguir, porque me disse que havia muito trabalho na empresa, decidi tocar a canção de aniversário no Youtube e apagar a minha vela.
Poupei algumas fatias de bolo e devorei o resto sem vergonha, era o meu aniversário, e sem muito barulho celebrei mais um ano de vida, uma vida triste e vazia.
Lembro- me de me olhar ao espelho antes de ir dormir, e de fazer a mesma cara de nojo que a rapariga tinha há uns momentos atrás. Olhei para a mancha de vómito na minha camisa, e senti o mesmo nojo. Mas depois olhei para a mancha de sangue nas minhas calças. Levantei- o esperando encontrar uma ferida bastante desagradável para o justificar, mas não havia nada. O sangue não era meu.