A violenta brecada do táxi foi o ponto final na assustadora corrida pelas ruas estreitas e congestionadas de Madrid, capital da Espanha. O motorista voltou-se para a silenciosa passageira e disse, em um sotaque espanhol perfeito:
- Chegamos, senorita. Edifício Aviaho.
O cerimonioso tratamento local de "Senorita" era completamente desperdiçado com Tereza Del' Carmo. Ela engoliu a bola que se formava em sua garganta pelas muitas e perigosas "finas" tiradas de outros carros pelo caminho e relaxou as mãos, que se apertavam, nervosas, contra o assento do velho e maltratado Chevrolet. Se bem que o modo de dirigir em outros países que não o seu já a tivessem deixado um tanto nervosa, sempre conseguia manter certo controle. Mas desta vez não. A lembrança do acidente ainda era muito recente. Um acidente que, por ironia, havia acontecido em sua própria cidade.
Suas mãos ainda tremiam quando abriu a bolsa para pegar a carteira:
- Cuánto... Quanto devo pagar? - perguntou ao motorista.
- Dezesseis Euros, senorita.
Tereza contou o dinheiro e deu-o ao motorista.
- Obrigada. Fique com o troco.
A gorjeta generosa provocou um entusiasmado agradecimento, enquanto ela saía do carro.
Depois que o táxi se afastou, várias pessoas tiveram que se desviar de Tereza, que ficou parada na calçada. Por instantes, ela olhou o monstro de concreto e aço que era um orgulhoso ilustre da arquitetura espanhola. Mas não o admirava, nem estava impressionada com o edifício mais alto do país. Estava pensando em Altamiro Munhoz, o homem que era o motivo de sua longa viagem de Los Angeles até ali. Se por acaso ele estivesse numa das janelas do prédio e olhasse para baixo, poderia vê-la.
E daí?, perguntou a si mesma. Mesmo que estivesse parado diante dela, ele não saberia quem era, nem por que estava ali.
"Você devia virar e voltar para casa!", exclamou uma voz no fundo de seu cérebro, e Tereza hesitou. Depois sacudiu os ombros, decidida a não se deixar dominar pela voz em seu interior.
Subiu os degraus de entrada do prédio sem hesitar, com a cabeça erguida, relanceando os olhos pelas esmeraldas e jóias de ouro expostas na vitrine da Joalheria Vancestes.
Um rapaz simpático, com ar esportivo e farto bigode negro, chegou à pesada porta de vidro junto com ela; abriu-a, gentil, e foi recompensado com um sorriso agradecido.
Os saltos dos sapatos de Tereza batiam rigorosos no piso de mármore do saguão.
Não reparou nos quadros nas paredes, nem nos clientes da Avianca encostados ao balcão à sua esquerda, nem nos guichês e caixas de correio à direita. Só parou diante do balcão de informações, onde um senhor com farda azul e amarela atendeu-a.
- Exportadora Visteon? - repetiu ele. - Trigésimo quinto andar, señorita.
O homem havia sido cortês, mas sem o sorriso que subia tão facilmente aos lábios dos norte-americanos. Desde que chegou à Espanha, naquela manhã, Tereza se ressentia dessa fria e distante gentileza.
Agradeceu e Seguiu. Com a confiança de quem sabe onde vai e para quê, dirigiu-se aos elevadores.
O rapaz que lhe abriu a porta ainda estava ali, esperando pelo elevador, que chegou lotado. Depois que os passageiros saíram, ele esperou que ela entrasse e só então o fez.
Consciente das batidas de seu coração que se acelerava, Tereza observava os números que se iluminavam indicando os andares. Quando o trigésimo quinto estava próximo foi de novo assaltada pela dúvida. E se Altamiro Munhoz se recusasse a recebê-la? Afinal, executivos ocupados não costumam dar atenção a subalternos.
Procurando acalmar-se, Tereza tratou de prestar atenção nas pessoas que entravam ou saíam cada vez que o elevador, parava. O rapaz de bigode continuava ali. Notou que de vez em quando ele lhe lançava discretos olhares de admiração e isso aumentou-lhe a confiança. Não que Tereza fosse orgulhosa de sua aparência. Sabia que era razoavelmente atraente e naquele momento em especial agradecia à natureza por ter sido generosa com ela. Sabia que os homens eram mais atenciosos com as mulheres que achavam atraentes. Altamiro Munhoz não era homem para brincadeiras e, com a vida de Tobby, seu irmão, na balança, ela estava disposta a lançar mão de todos os trunfos ao seu alcance.
Quando, afinal, a porta do elevador abriu-se no trigésimo quinto andar, ela retribuiu o sorriso do rapaz e saiu. Na porta dupla à sua frente estava escrito Exportadora Visteon Munhoz com letras douradas. Abriu-a e entrou, sem se dar chance de recuar.
A recepcionista era uma jovem com cabelos presos em um rabo de cavalo, de modo a mostrar um par de brincos de esmeraldas e brilhantes em suas orelhas. O rosto bonito estava tão bem maquiado e tão sem expressão que Tereza não pôde deixar de pensar em um manequim.
- Pois não - perguntou a moça, em inglês.
Tereza não se surpreendeu ao ser reconhecida como estrangeira. Afinal, a combinação dos cabelos de um loiro escuro, quase castanho, com olhos azuis como os dela não devia ser comum na espanha.
- Quero falar com o Sr. Munhoz, por favor. Meu nome é Isis Morales - deu o nome falso sem hesitar.
- Tem hora marcada? - indagou a recepcionista, indiferente.
- Não - respondeu Tereza, sem demonstrar sua inquietação. - Cheguei hoje de manhã dos Estados Unidos e preciso muito falar com ele.
- Sinto, mas o Sr. Munhoz não recebe ninguém sem hora marcada. - A recepcionista fez uma pausa e indagou: - Quer falar com a assistente dele?
Tereza conhecia bastante o mecanismo de escritórios para saber que a secretária, depois da recepcionista, era o maior obstáculo a ser transposto. Respondeu:
- Sim, por favor. Se for possível, falo com ela.
- Pois não...
Esmeraldas e brilhantes faiscaram quando a moça se inclinou para o telefone; faziam jogo com o anel que tinha na mão direita. O espanhol dela era claro o suficiente para Tereza entender. Depois de desligar, a moça disse: