Estava sentada há minutos quando viu uma elegante mulher madura sair de uma das salas. Ela parou para falar rapidamente com a recepcionista antes de se dirigir a Tereza, que se levantou. Apesar da baixa estatura, a mulher tinha uma figura imponente, dominadora.
- Sou a Sra. Agatha, secretária-executiva do Sr. Munhoz - identificou-se, com aquela gentileza sem sorriso. - Soube que quer falar com ele. Talvez eu possa ajudá-la.
- Agradeço pela atenção, Sra. Ágatha - respondeu Tereza -, mas o que eu tenho a dizer ao Sr. Munhoz é pessoal e muito confidencial.
- O Sr. Munhoz está muito ocupado... - Os olhos da secretária tornaram-se frios. - A menos que me explique com mais clareza o motivo da sua visita, nada posso fazer.
Aquela mulher era uma rocha, pensou Tereza, e não adiantaria implorar. Demonstrando uma insolência que não possuía, falou:
- Garanto que o Sr. Munhoz me receberá, se a senhora lhe disser que estou aqui, Sra. Ágatha. Por favor, faça apenas isso.
A mulher parecia não esperar tal atitude de Tereza. Hesitou, depois disse:
- Bem... Com licença, então. Vamos ver o que o Sr. Munhoz acha.
Mal acreditando no parcial sucesso de sua audácia, Tereza teve que se dominar para não suspirar de alívio enquanto a Sra. Ágatha se afastava. Os minutos seguintes determinariam o êxito ou o fracasso de sua missão... Uma missão de vida ou morte.
Para disfarçar a apreensão, sentou-se e pegou uma das revistas arrumadinhas na mesa de vidro e começou a folheá-la.
- Srta. Isis Morales!
Levou algum tempo para Tereza compreender que a secretária voltou e estava falando com ela. Era com coisas assim (não responder ao ouvir seu novo nome) que tinha de tomar cuidado. Um erro estragaria todos os cuidadosos planos. Tinha de ficar alerta.
- Pois não? - ergueu os olhos da revista, falando com ironia.
- O Sr. Munhoz vai recebê-la.
Incrível! A jogada deu resultado. Procurando se acalmar, Tereza pôs a revista de volta na mesinha. Pegou a bolsa e o envelope que deixou sobre o sofá. Seguiu a secretária pelo longo corredor acarpetado, que dava no santuário do presidente da maior companhia de exportação da Espanha.
Pararam diante da pesada porta de madeira maciça no fundo do corredor. A secretária abriu-a e fez um gesto seco com a cabeça, indicando-lhe que entrasse. Tereza respirou fundo, ergueu os ombros e, fixando um sorriso no rosto, entrou no enorme e elegante escritório.
A pesada cortina estava aberta; o sol entrava forte pela parede inteira de vidro que dava para a cidade e arranha-céus enormes e as montanhas ao longe. As outras paredes tinham painéis de madeira. Um canto distante da parede de vidro estava ajeitado para conversas informais.
Mas a atenção de Tereza não estava presa à decoração. Concentrou-se imediatamente no homem que se levantou ao vê-la entrar. Com mais de um metro e oitenta, Altamiro Munhoz era bem mais alto do que ela esperava. Sentiu-se intimidada e ao mesmo tempo atraída pelo rosto com que se familiarizou através de fotografias enquanto arquitetava os planos. Em outras circunstâncias, talvez os traços marcados, aristocráticos, fossem mais suaves do que naquele momento. Aquele rosto seria constrangedor se não fosse bonito. Sentiu um arrepio de alarme diante dos olhos azuis que a examinavam enquanto se aproximava. Notou a determinação do queixo forte e quadrado. Havia apenas uma nuança de desalinho no cabelo negro, de corte conservador, assim como era conservadora a camisa branca que realçava a pele branca e bronzeada e o terno escuro, elegantíssimo.
Se não estivesse tão atenta às reações dele, não teria notado o brilho rápido que passou pelos olhos azuis. Então, ficou satisfeita por ter escolhido o conjunto verde-maçã que ia tão bem com seus olhos verdes.
- Sr. Munhoz - Tereza estendeu a mão, com o mais encantador dos sorrisos. - Agradeço a gentileza de me receber.
- Srta. Morales...
Sentiu como que um pequeno choque quando a mão grande e forte apertou a dela. Talvez fosse um aviso: um homem como Altamiro Munhoz poderia moer-lhe os ossos se desconfiasse da verdadeira finalidade de sua visita. Teve a impressão de que milhares de borboletinhas esvoaçavam em seu estômago e sentiu vontade de sair correndo, de fugir. Mas já não dava para recuar.
- Não quer se sentar? - convidou Altamiro, indicando as duas elegantes poltronas de couro diante de sua mesa.
- Obrigada - murmurou.
Fazendo enorme esforço para não se sentar na beiradinha, Tereza acomodou-se numa das duas poltronas de couro claro e macio. Em vez de ir sentar-se na cadeira giratória, executiva, Altamiro preferiu a própria escrivaninha. Obrigada a olhá-lo de baixo para cima, Tereza sentiu-se ainda pior. A sensação esquisita no estômago transformou-se em medo quando compreendeu que aquela atitude dele havia sido calculada. Sempre soube que era um homem perigoso, mas a facilidade com que punha o adversário em desvantagem era assustadora.
Tereza esforçou-se para dominar o pânico enquanto Altamiro se inclinava para pegar uma caixinha metálica, toda decorada, em cima da enorme escrivaninha. Lamentando não fumar, Tereza recusou o cigarro: isso lhe daria o que fazer com as mãos. Cruzou-as, vulgarmente, no colo.
- Importa-se se eu fumar?
- Não. Claro que não.
Tentou reunir coragem enquanto ele acendia o cigarro com um isqueiro de ouro tão fino quanto o dedinho mínimo dela. Expelindo a fumaça, guardou o isqueiro no bolso do paletó.
- Bem, Srta. Morales? Quem sabe queira ter a bondade de me falar sobre o que tem, de tão pessoal e confidencial, para me dizer.
O inglês dele era bom e seria fácil para Tereza descobrir que o leve sotaque tornava aquela voz máscula, profunda, ainda mais atraente. Mas iria pensar nisso mais tarde. Seria agora ou nunca!