Ao ver que havia sido notado, o homem caminhou até ela. Tereza pôs-se de pé, nervosa. Quando quis falar, a voz não saiu e sentiu tudo girar.
- Está se sentindo mal, señorita? - indagou o homem, segurando-a pelo braço e ajudando-a a sentar-se de novo no banco.
Tereza não reagiu. Mesmo atordoada como estava, percebeu genuína gentileza na atitude daquele estranho.
- Obrigada... - murmurou, tentando regularizar a respiração. Pouco depois, voltava ao normal.
- Está bem agora, señorita?
- Estou sim, obrigada. - Sentiu-se arrependida por ter desconfiado dele e explicou: - Acho que é a altitude. Já estou bem.
- Ah, sí. - O homem sorriu, mostrando uma falha nos dentes da frente. - Espanha é alta... por isso se sentiu mal.
Ficou apreensiva outra vez quando o homem olhou cuidadosamente ao redor e depois sussurrou, furtivo:
- Quer comprar esmeraldas? Vendo barato...
Aliviada, teve vontade de rir. Estava ficando paranóica! Até mesmo para Tereza, que não entendia de pedras preciosas, as esmeraldas que o homem mostrou pareceram inexpressivas, e o jeito dele indicava que não se tratava de uma transação normal. Só faltava ela ser presa por compra ilegal de pedras preciosas! Mas, apesar de parecer um tanto sinistro, o homem foi atencioso. Notou-lhe as roupas surradas, mas limpas, e não teve coragem de recusar alguns pesos por uma esmeralda pequenina. Mas não podia se deixar levar por impulsos. O pouco dinheiro que tinha devia ser gasto com juízo.
Tinha que se manter num bom hotel até Altamiro Munhoz se decidir a procurá-la, então o jeito era economizar na comida.
Lembrou-se de que estava há mais de sete horas sem comer e talvez isso também tivesse contribuído para o mal-estar. Resolveu procurar um restaurante que oferecesse boa comida por preço razoável.
Encontrou o que procurava num misto de salão de chá com restaurante. Seguindo o conselho da garçonete vestida de branco, pediu um chocolate quente batido e croissant - deliciosos enroladinhos de massa folheada com queijo.
Os últimos raios de sol colocaram tons delicadamente rosados no céu quando saiu do restaurante. Seguindo o fluxo compacto de espanhóis que voltavam para casa depois de um dia de trabalho, foi para o Hotel Tacalônia.
Ao chegar ao quarto, constatou que, apesar do cansaço, estava agitada demais para conseguir dormir. A lembrança do rosto de Tobby, como o havia visto na última visita à ilha-presídio, não lhe saía da cabeça. Como ele estava diferente do irmão com quem crescera, e de quem tanto gostava!
Fisicamente, eram tão opostos que muita gente duvidava até que fossem irmãos, quanto mais gêmeos. Tobby tinha os cabelos pretos iguais aos do pai, olhos castanhos, compleição forte, enquanto ela herdara a aparência nórdica da mãe e seus cabelos castanhos. Tereza herdara também o decepcionante gosto da mãe. Decepcionante porque vivia vestida com simplicidade, esportivamente, quando a silhueta esbelta e firme seria valorizada por vestidos e saltos altos. Preferia cavalgar, nadar e esquiar a ser "feminina".
Filhos de pais ativos, ambos eram apaixonados por atividades ao ar livre, e isso influenciara na escolha da profissão. Haviam se separado pela primeira vez ao se formarem em geologia e ao aceitarem cargos oferecidos em lugares diferentes. Tinham se visto pouquíssimo durante anos, apenas quando mudavam de lugar de trabalho.
Há seis meses, Tobby foi contratado como consultor por Altamiro Munhoz e viajou para a Espanha. Estava determinado a indicar o melhor uso para as extensas propriedades dos Munhoz, terras que pertenciam à família de Altamiro desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Era tudo o que Tereza soube por uma carta do irmão, que recebeu na remota região do Brasil onde estava trabalhando. Levara três meses para receber a carta.
Aceitara o trabalho no Brasil mais para se afastar de amigos bem-intencionados, que tinham cismado que devia se casar. Não entendiam que homem algum podia fazer com que ela se esquecesse daquele que ia ser seu marido. James se tornara mais um algarismo nos infindáveis números de estatística de acidentes de carro, uma semana antes do casamento. Com vinte e cinco anos apenas, Tereza ficou viúva sem ter sido casada. Tobby fora a única pessoa que entendera sua necessidade de sufocar os sentimentos de culpa que a atormentavam. Culpa por ter sobrevivido ao mesmo acidente que acabou com a vida de James.
A região remota no Brasil parecera-lhe o purgatório que desejava para expiar sua culpa. Lá encontrara certa paz no pesado trabalho - não apenas fazendo sua obrigação, mas também enfrentando a falta de conforto e passando por cima de altos preconceitos que encontrava nas pessoas que procurava ajudar com seu trabalho.
Já conhecia aquela situação. Mesmo nos Estados Unidos, onde as mulheres já tinham conseguido ser reconhecidas em várias profissões que até então eram privilégio apenas dos homens, muitos fazendeiros a olhavam com incredulidade divertida, quando aparecia para apanhar amostras das terras. Depois, quando o árduo trabalho tinha sido completado, eles se recusavam a aceitar seus conselhos sobre quais as melhores terras para criar gado ou para determinadas plantações. O orgulho masculino não aceitava que uma "coisinha linda" como ela pudesse saber mais do que eles sobre seu próprio trabalho.
Por que os homens tinham que ser tão mesquinhos?, perguntava Tereza a si mesma sempre que se encontrava nessa situação. E não ficaria surpresa se Altamiro Munhoz fosse mais um deles...