Com um sorriso sem graça, o melhor que ela conseguia para tentar - em vão - esconder seu temor, a moça seguiu na direção da primeira mesa.
Devorada pelos olhares, ela se aproximou e um deles apenas apontou para Lorenzo, sem nada falar.
A moça olhou ao seu cobrador, que arqueou as sobrancelhas, mas não pôde evitar o olhar à mesa mais atrás, onde o homem continuava quieto.
Não falava com ninguém, nem precisava para ser notado. Sua presença era um aviso silencioso, um magnetismo que fazia o ambiente se curvar para ele.
O olhar de um azul frio e cortante parecia atravessar quem ousava fitá-lo. Sob a penumbra, escurecia, tornando-o ainda mais indecifrável.
Todavia, quando a luz tocava os olhos, brilhavam como lâminas afiadas - muito assustador, mas belo.
O cabelo negro alinhado e a pele pálida apenas reforçavam seu ar de uma elegância muito contida.
Ele se vestia com precisão: terno impecável, cortes sob medida, um perfume discreto amadeirado, que se misturava ao aroma da madeira e do tabaco.
A moça se viu hesitante em muitos dos passos que deu, mas seguiu até Lorenzo, que fitou seus olhos.
- Boa noite, senhor. Como posso servi-lo? - Tecer aquela fala foi um verdadeiro parto para ela.
- Vinho... e aos meus homens também - pediu.
Sorrateiro, sua mão empurrou um papel em sua direção - era tudo que ela não queria. Pegou o papel e colocou ao bolso, cumprimentando e se virando.
- Não servirá o cliente atrás de mim? - Ele a interrompeu e as batidas de seu coração aceleraram.
- C-claro! - Ela suspirou, tragando coragem.
Tornou a se virar, enquanto o som da guitarra e de sua respiração compuseram a sinfonia de sua agonia. O homem não a olhou enquanto chegava.
- B-boa noite, senhor. C-como posso... servi-lo?
Os movimentos do homem eram lentos, calculados; como um predador observando sua presa, eram carregados de uma confiança felina. Ele a fitou, e o olhar evidenciou que ele não pedia, tomava.
- Quero sua carta de vinhos e seu cardápio. Por ora, eu aceito água. - Tinha a voz forte, e exibia a maturidade de quem já viu e fez mais do que deveria.
Foi um vexame ter que tirar a comanda para anotar com as mãos tão trêmulas, mas a moça ainda fez um esforço descomunal para não se desesperar.
Ao menos, para não ser tomada por desespero...
- Devia sorrir mais para ele... - Foi um sussurro de Lorenzo quando ela passou, que mais soou como uma ameaça do que meramente um conselho.
Sophia se afastou para buscar tudo, pensando que quanto mais rápido terminasse de servi-los, mais rápido poderia chorar escondida no banheiro.
Indo à vinícola, onde estavam os barris, a moça acendeu a luz e recostou na parede para ver o montante que estaria escrito no pequeno papel.
Os números saltaram diante de seus olhos. Cinquenta mil euros. O ar ficou preso nos pulmões. Seu corpo ficou frio, e um tremor subiu suas mãos.
Sophia piscou várias vezes, tentando apagá-lo.
Mas, o valor persistia no papel...
Há três meses, juntou um bom montante e abateu a dívida para meros quarenta mil, mas os juros eram impraticáveis - era um círculo vicioso...
Teria gritado, se não estivesse no trabalho.
Uma lágrima escorreu em seu rosto, mas Sophia a enxugou rapidamente e respirou fundo. "Foco!", ela se exigiu, correndo o olhar por todos os barris.
Classicamente servido em belos jarros de porcelana, produzidos localmente, os vinhos, além do flamenco, eram as maiores atrações do restaurante.
Passos pesados, na madeira do corredor, já deixaram a moça ansiosa. Ela rapidamente correu para um cantinho entre barris para se esconder.
Não era incomum que os mafiosos, quase que donos de todos os restaurantes e bares da redondeza, usassem as dependências para os seus negócios.
- A dívida de um morto me interessa pouco, Lorenzo. - A voz do homem misterioso soou, mas eles não entraram no local. - E aquele problema?
- Evidentemente, eles querem briga, Alessio! - Lorenzo respondeu. - Sei que não faz seu estilo, mas ainda não conseguimos negociar direito... e nada.
- Por enquanto, eu vou fingir que isso não é sua velha incompetência. - Num tom de voz mais baixo, serviu até mesmo para que Sophia sentisse medo.
O forte arfar de Lorenzo foi audível.
- Faça assim: marque de novo e me avise do que der; se a notícia for ruim, tomarei providências e cuidarei disso, eu mesmo! - Estava impaciente.
- S-sim, senhor! - Lorenzo assentiu.
Recostaria na porta da vinícola, mas o fato de estar apenas recostada o fez precisar se apoiar para não cair - reflexo de seu estado tão assustadiço.
A barulheira assustou Sophia, que tapou a boca e o nariz para seu ofegar não acabar lhe revelando.
Alessio ainda olhou ao interior do lugar. Seus passos lentos adentraram à vinícola, fazendo Sophia segurar a respiração - o silêncio era sufocante.
A moça podia ouvir o próprio coração no peito.
Não tardou para os passos se deterem e a sombra de Alessio bloquear parte da luz. Ele hesitou por um instante. Teria ouvido alguma coisa?
O tempo se arrastou... até ele se afastar.
- Senhor? - Lorenzo chamou sua atenção.
- Bom... tenho uma reunião de negócios cinza e não quero ser atrapalhado. Mova os homens a outro lugar, que seja ao meu lado - mandou, autoritário.
- S-sim, senhor! - Lorenzo assentiu.
- Ah, ainda deve dar tempo de tomarem seu vinho. - Com tom de voz mais calmo e casual, os passos de Alessio se afastando ecoaram por ali.
Lorenzo ainda correu o olhar pela vinícola e respirou fundo, gostava do cheiro daquele lugar, mas depois saiu, apagando a luz e fechando a porta.
Sophia finalmente relaxou, soltando todo o ar dos pulmões. Respirou fundo por poucos minutos, mas saiu de seu cantinho para ir na direção da luz.
Serviu as jarras de vinho e voltou ao salão para servir as mesas dos homens. O corpo já estava mais controlado e isso ajudou com tamanho peso.
O homem misterioso, que agora sabia chamar Alessio, já estava de volta ao seu lugar. Sentado do mesmo jeito, com a mesma quietude incômoda.
- A carta e o cardápio, senhor! - A moça tirou do bolso do avental para colocar ao seu lado, cuidando de servir a água logo em seguida.
- Agradeço! - Seu sorriso foi muito sutil, e aparentemente forçado para exibir mínima simpatia.
Após lhes servir, a moça retornou ao balcão.
Tinha uma ou duas mesas ainda não atendidas por ninguém, mas ela optou por se dedicar àqueles que exigiam total atenção comumente.
- Boa notícia! - Um sussurro de Álvaro ao seu lado quase lhe fez desfalecer. - Calma, amiga! - riu.
- Desculpa! - Ela meneou a cabeça.
- Quinhentos euros... - Manteve o sussurro.
- É suficiente por hoje. - Suspirou, cabisbaixa.
- Giuseppe estava falando de um evento naquele hotel dos gringos, onde eles estão aceitando candidaturas para artistas... são dez mil euros...
A moça o olhou rápido. Era inacreditável. Por semanas, respiraria sem ser esmagada pela dívida.