Entrando na zona mais simples da cidade, as fachadas se tornavam mais desgastadas, os prédios mais baixos e as vozes mais espaçadas.
As luzes eram escassas, e os poucos comércios abertos eram mercearias modestas e bares de clientela fixa - incluindo a dupla de amigos.
Era uma Corleone menos vistosa, sem dúvida, mas ainda pulsante na quietude da noite. Decidiram parar no bar onde sempre compravam suas bebidas.
Sob a luz dourada de um letreiro gasto, as mesas de ferro ocupavam a calçada, onde homens de gestos lentos conversavam entre goles de vinho tinto.
O cheiro de tabaco pairava, misturando-se ao aroma amadeirado escapando da porta entreaberta.
- O que teremos hoje? - Álvaro a perguntou.
- Sei lá... O de sempre? - Ela deu de ombros.
- O de sempre. Espera aqui! - Ele se levantou e saiu, seguindo ao pequeno interior do ambiente, muito acolhedor em sua rusticidade. - Boa noite!
Sendo um velho cliente, a recepção era sempre calorosa - afinal, o jovem já costumava comprar vinho ali desde o momento rebelde da adolescência.
- O que será hoje? - O atendente perguntou. Era um homem adulto, herdeiro do ambiente. - O que houve que não está acompanhado da menina?
- Está no carro... cansada! - Deu uma piscadela.
Sua sexualidade não era vastamente conhecida e Sophia sempre cumpria o papel de sua namorada...
A mentalidade interiorana de muitos por ali era o que colaborava para Álvaro não ser assim tão honesto quanto a quem realmente era.
- O de sempre hoje! - Álvaro falou.
O homem caminhou às prateleiras de madeira, onde garrafas de vinho local, grappa e limoncello brilhavam sob a luz das lâmpadas penduradas.
O balcão de mármore envelhecido era o ponto de encontro dos clientes habituais, que brindavam sem pressa. Álvaro cumprimentou ambos, sutil.
Limoncello era um licor de limão italiano e aquela produção siciliana em específico era a preferida de ambos - por seu sabor e por seu preço...
Retornando ao carro, Álvaro se deparou com Sophia olhando ao lado de fora com desinteresse, lutando para manter os olhos teimosos abertos.
- Eita... Hoje você está mal mesmo! - Ele falou.
- Estou mesmo... - Ela suspirou, recostando a cabeça na janela fechada. - Me acorda na chegada...
Deixou que os olhos se fechassem e logo se entregou ao sono, embalada pelo balanço do carro.
Preocupado, Álvaro foi ainda mais devagar, permitindo aquele instante de descanso para a amiga, já esperando que ela se agitaria ao chegar.
Sophia tinha um bom senhorio, muito bondoso com ela, mas o senhor era também muito impaciente e a julgava muito pelo trabalho como dançarina.
Até relevava quando a moça atrasava o aluguel, ajudava quando atrasava com as contas, mas sempre lhe relembrava que ter dois empregos seria melhor.
Como se a dança não fosse um emprego...
A moça não desanimava, mas este era mais um dos vários motivos do dia para acinzentar seu humor.
Chegaram na frente da construção simples de dois andares, com paredes de estuque em tons de creme já desbotado pelas intempéries do tempo.
As janelas de madeira, pintadas de verde, exibiam vasos de gerânios vermelhos, que adicionavam muita vida à fachada simplória.
Uma pequena escadaria levava à porta de entrada, ladeada por trepadeiras que subiam pelas grades de ferro forjado - dava um tom clássico...
- Amiga... chegamos... - Álvaro tocou seu ombro e bastou. Sempre bastava, afinal, Sophia repudiava a ideia de ser tocada enquanto dormindo.
Já esteve à beira de um abuso quando os homens da máfia, aos quais seu pai devia, invadiram sua casa na calada da noite e ameaçaram sua integridade.
Enquanto ele tentou combater, a moça apenas correu pela própria vida; correu o suficiente para chegar na Sicília e receber ajuda de um senhor.
Só soube que o bom samaritano era envolvido com outra máfia quando, com sua morte, a ajuda começou a ser cobrada por seu filho mais velho.
A justificativa era simples: para evitar uma guerra, pagaram a dívida de seu pai, transferindo a dívida para eles e esta seria paga por ela, obviamente.
- Ai, Al! - Já tinha cerrado o punho direito, antes de abrir os olhos, se preparando para a briga.
- Calma... Limoncello... - Com um sorriso travesso, ele pegou a garrafa para agitar. - Eu entro primeiro e você já fica para ser alugada por Carmo?
- Claro, claro... - Suspirou, assentindo com a cabeça. Já cuidou de esticar o corpo e seu bocejo se estendeu, mas a moça deixou o carro, olhando a rua.
Poucos vizinhos tinham veículos ou os deixavam na rua, o que tornava a omissão impossível para o carro que, há dez metros de sua casa, sempre estava.
Fosse no dia, onde ela podia ver o homem mal-encarado no interior, ou à noite, quando sua silhueta macabra se recortava no breu, era desconfortável.
A moça entregou suas chaves a Álvaro, para ele entrar com as bebidas, enquanto seguiu a passos lentos na direção da breve escadaria externa.
Bastou ouvir o choque das chaves com o pequeno chaveiro metálico em forma de coração, e o velho homem, na casa vizinha, olhou pela janela.
- Sophia, boa noite! - falou, como se fosse alguma surpresa que ela chegasse naquele horário.
- Boa noite, Carmo. Como está? - sorriu, indo em sua direção. - Suportando esse calorão todo?
- Ah, não tanto - riu -, mas estou bem.
- Consegui reunir o dinheiro desse mês. - A moça falou, antes mesmo de ele levantar o assunto.
- Hmm, que bom! - Ele sorriu. - Finalmente decidiu me ouvir e arrumar um segundo emprego?
- Não, conquistei com ajuda da dança!
Não era o intuito soar orgulhosa ou afrontosa, de certa forma, mas não pôde evitar - julgar o que era um trabalho sério, ou não, era muito pretensioso.
- Vou buscar o resto do dinheiro e trago! - Ela se agitou, indo em direção à sua casa para pegar o envelope com o aluguel, colado sob a mesa de centro.
O interior de sua casa era acolhedor, com pisos de terracota e tetos baixos, que mantinham o ambiente fresco, principalmente durante o verão.
A sala de estar tinha móveis simples, mas bem cuidados, incluindo um sofá de tecido floral e a mesa de centro de madeira escura.
A cozinha adjacente era compacta, equipada com utensílios básicos e uma mesa pequena de seis lugares para as refeições ou para cozinhar.
No andar superior, o quarto de Sophia era iluminado por uma única janela, que dava vista aos telhados vizinhos. Tinha uma cama de ferro antiga e um armário muito modesto para as suas roupas.
O aluguel de quinhentos euros era um bom negócio, algo que o velho bom samaritano ajudou a obter, e de onde ela não saiu desde a chegada à Itália.
Levou o envelope ao exterior, onde Carmo já cuidou de lembrá-la que o prazo para o próximo aluguel, dado o atraso deste, era de duas semanas.
Óbvio que a moça entrou cabisbaixa.
Álvaro ainda estava na cozinha, então ela apenas se jogou no sofá e suspirou. Sempre estava devendo.