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Depois de ir às compras, Felipe não parou de pensar que precisava de um celular novo, com todas aquelas novas funções e interfaces e a inteligência artificial implantada. Aquele era um sonho distante e agora estava próximo o suficiente para tocá-lo.
Na manhã seguinte, quando acordou, não pensou duas vezes no que ia fazer, nem ao menos comeu algo, apenas tratou de colocar uma boa quantia na carteira e sair até a loja de eletrônicos mais próxima.
A rua estava ligeiramente vazia, com exceção dos donos de cachorros levando-os a passear, quase não tinha movimento, o que facilitou a rapidez com que Felipe andava, consumido pela ansiedade.
Foi só quando chegou à loja que sua animação se desfez, pois os celulares custavam mais do que ele havia imaginado. E tinham tantos aparelhos incríveis, com câmeras de alta qualidade e uma infinidade de aplicativos, mas infelizmente, o valor era bem mais alto do que ele tinha pensado.
- Mas a gente parcela para você - disse a vendedora. - No cartão ou no carnê.
Felipe riu desgostoso, pois ele sabia que sistema algum aprovaria para ele um parcelamento, até porque ele não tinha comprovação de renda. Então, apenas agradeceu a atendente e saiu da loja.
No caminho de volta, passou por uma loja de uma operadora, onde, na vitrine, haviam outros modelos de celular e ele parou para olhar.
- Procurando um celular novo, amigo? - O vendedor abordou-lhe.
- É. Sonhando - respondeu ele.
- Dependendo do plano que o senhor fizer, consigo um bom desconto no aparelho - disse o vendedor. - Com qual o senhor está sonhando.
- Com aquele ali. - Felipe apontou para um modelo que também tinha visto na outra loja.
- Esse é bom - respondeu o vendedor. - Duzentos e cinquenta e seis giga de memória, dezesseis de RAM. Na loja, ele tá saindo por três, três e cem, mas com o plano, vai ficar dois e cem.
Felipe pensou um pouco. Ele não estava com todo esse dinheiro na mão, mas era uma oferta tentadora que, se fosse o caso, valeria a pena voltar para casa para pegar o dinheiro.
- Qual plano eu precisaria contratar? - perguntou ele ao vendedor.
- Eu tenho planos a partir de oitenta e nove e noventa. São cinquenta mega de internet, com redes sociais ilimitadas e incluso o nosso aplicativo de streaming.
- Streaming. - Felipe repetiu sem entender muito bem.
- É bastante coisa - disse o vendedor. - Podemos fechar?
- Eu não estou com o dinheiro aqui - respondeu Felipe.
- A gente passa no cartão ou divide no boleto - insistiu o vendedor.
- Eu não tenho cartão - disse Felipe. - Volto com o dinheiro. Seu nome é?
- Bruno - respondeu o vendedor.
- Certo Bruno. Eu volto aqui. Obrigado.
Foi engraçado para Felipe ver a expressão desapontada do vendedor quando ele se despediu, porque ele realmente voltaria e seria ainda mais engraçado ver a reação dele quando voltasse.
Apressado, ele voltou para casa, ainda ansioso, imaginando-se desbloqueando aquele celular e configurando-o. Ele não tinha entendido muito bem o que streaming queria dizer, mas ele tinha certeza de que não teria dificuldade.
Ao chegar ao prédio, Felipe nem se deu ao trabalho de esperar o elevador e subiu correndo os quatro lances de escada que levava até seu apartamento, parando apenas para destrancar e trancar a porta.
No quarto, ele abriu a maleta e pegou mais mil reais, encarando o vazio que ficou no lugar de que ele tirou as notas e pôs-se a pensar que aquele dinheiro não duraria muito tempo e ele precisaria de um emprego o mais rápido possível.
Depois de colocar o dinheiro na carteira, ele trancou a maleta e a pôs de volta no guarda roupa, na parte mais alta, onde depois colocaria as roupas de cama na frente para escondê-la.
De volta à rua, o andar apressado de Felipe se tornou mais cauteloso devido ao valor que ele carregava na carteira. Mas, ainda assim, tentava manter uma postura despreocupada, para não atrair atenção de possíveis ladrões.
Já se aproximava da hora do almoço, então já haviam mais pessoas na rua e o fluxo de carros estava mais intenso o que dava mais um motivo para Felipe ser cuidadoso. Quando chegou à loja, Bruno estava finalizando um atendimento e olhou perplexo para Felipe quando o viu. E com um aceno, Felipe se aproximou dele.
- Já tomou sua decisão, amigo? - Bruno perguntou. - Por favor, sente-se
- Eu disse que voltaria. - Felipe respondeu, puxando a cadeira para sentar-se. - Vou fazer como sugeriu.
- Maravilha! Me empresta o documento, por favor?
Felipe tirou a identidade da carteira e entregou a Bruno que, ao analisar o documento, mudou um pouco sua expressão.
- Ainda não tive tempo de trocar - disse ele. - Espero que isso não seja um empecilho para nós.
- Cla - claro que não, sr. Felipe - gaguejou o vendedor. - O senhor já tem uma linha nossa ou deseja fazer portabilidade?
- Na verdade, desejo uma linha nova - respondeu ele.
- Certo, vou cadastrar o chip.
Bruno pegou um chip lacrado e começou a mexer no computador, preenchendo as informações e confirmando-as com Felipe como endereço e e-mail e data de vencimento de fatura.
Ele estranhou o fato de não precisar de comprovante de residência, ao mesmo tempo que ficou aliviado por isso, uma vez que ele não tinha.
- Prontinho - disse Bruno. - Vou imprimir seu contrato e pegar seu aparelho. Tenho disponível no cinza, preto e azul. Qual o senhor prefere?
- Azul. - Felipe respondeu sem pensar muito, pois era a cor do aparelho que estava na vitrine.
Bruno assentiu e foi para o fundo da loja, deixando Felipe sozinho enquanto sentia os olhares pesando sobre ele. Quando voltou, o vendedor trouxe consigo o aparelho e alguns papeis.
Aqui está seu contrato e a nota do aparelho - disse ele. - Pode ficar a vontade para ler e assine no final de cada via.
Felipe pegou os papeis e deu uma lida rápida em cada um e depois assinou-os, ansioso, e devolveu-os a Bruno.
- Qual será a forma de pagamento? - Ele perguntou.
- Dinheiro - respondeu Felipe. - À vista.
Felipe entregou o dinheiro ao vendedor que conferiu as notas uma a uma e depois emitiu um recibo de pagamento, entregando-o a Felipe.
- O seu plano já está em vigência - disse ele. - A primeira fatura o senhor paga apenas o valor proporcional. - Ele fez uma pausa e baixou a voz - Quer uma ajuda para configurar o aparelho? As coisas mudaram bastante nos últimos anos.
Felipe não estranhou a possibilidade de o vendedor tê-lo reconhecido, mas sim o fato de sua voz ter se mantido compreensiva ao invés de assustada. Então ele aceitou a ajuda e passou a observar e prestar atenção nas instruções.
- Agora existem os aplicativos de streaming, então, não precisa mais alugar um filme por um período de tempo ou comprar uma música pra ouvir quantas vezes quiser. É só assinar o serviço que preferir e pagar mensalmente por ele, mas o seu plano já tem incluso o nosso streaming, que é bem completinho. Eu vou instalar pro senhor o aplicativo. O seu acesso é o número do CPF, aí é só clicar em redefinir senha para adicionar a sua. Alguma dúvida?
-Não. - Felipe respondeu. - Obrigado pelas instruções.
- Eu que agradeço, senhor Felipe - disse o vendedor. - Foi uma honra te atender. Espero que aproveite bastante o aparelho e o nosso plano.
Com um aperto de mão, Felipe se despediu e saiu da loja carregando uma sacola com os papeis e a caixa do celular, mas o aparelho mesmo já estava no bolso, esperando chegar em sua nova casa.