Capítulo 5 Informações

Lara tinha trabalhado muito naquela quinta feira e não via a hora de chegar em casa e tomar um bom banho, mas finalmente tinha acabado de restaurar aquele quadro em que trabalhara por tantos dias.

As ruas do centro de São Paulo estavam cheias como sempre e Lara, baixinha como era, quase passava despercebida. Era por isso que ela odiava quintas feiras, o dia do rodízio da placa de seu, em que ela era obrigada a ir de transporte público, o que era um caos, porque ela não alcançava a barra do metrô para se segurar.

Em pleno horário de pico, lá estava ela no meio da multidão para entrar no trem sentido Tucuruvi. Entrar não foi difícil, mas Lara não conseguiu um lugar para segurar e ficou ali, no meio do vagão, sem poder se segurar, equilibrando-se entre uma perna e outra, enquanto o trem balançava.

Perto da Sé, uma freada brusca e ela perdeu o equilíbrio, empurrando o rapaz ao seu lado. Ele era bem mais alto que ela e assustou-se com o empurrão, mas quando a viu, segurou-a pelo braço e sorriu.

- Tudo bem? - Ele perguntou.

- Tudo - respondeu ela, sem graça. - Desculpe.

- Esquenta não - disse ele. - Troca de lugar comigo. Aqui tem uma barra pra você segurar.

- Obrigada.

Tímida, Lara trocou de lugar com o rapaz que ainda sorria para ela. Ele era bonito, loiro e de olhos claros, mas o que chamou a atenção dela foi a gentileza dele. Alguns olhares dos dois se encontraram durante o trajeto, ela sorriu algumas vezes e ele sorriu de volta, mas logo sua estação chegou e quando foi descer, notou na mão dele a aliança prateada. Então apenas seguiu seu caminho.

Era sempre assim, fechada, Lara não se dispunha muito a relacionamentos, mas, quando alguém chamava a sua atenção, não demorava muito e ela descobria algo que acabava com o encanto. O que para ela já era algo normal, mesmo que sua terapeuta dissesse o contrário.

Quando estava chegando ao prédio em que morava, uma fina chuva começou a cair. "Ótimo" pensou ela com sarcasmo, já que a última coisa que ela precisava era chegar encharcada em casa.

Felizmente, Beto estava na portaria e destravou o portão assim que ela pisou na calçada, então logo ela estava em área coberta

- Bem no dia do seu rodízio, dona Lara? - Beto comentou.

- É. São Pedro não gosta muito de mim - respondeu ela.

- Não fale assim - repreendeu o porteiro. - Ele tem a chave do céu, se não gostar de você, não te deixa entrar lá.

Beto era um homem católico e de muita fé. Carregava um crucifixo enorme no peito e sempre quando a portaria estava mais tranquila, ele tirava um terço do bolso e passava a rezá-lo.

- Tudo bem, Beto - respondeu Lara. - Vou me esforçar para mudar isso. Agora eu vou subir e tomar um banho, porque estou exausta.

Ela subiu de elevador até o quarto andar e entrou em seu apartamento, ligando em seguida a televisão para ouvir música e foi direto para o banheiro. A água do chuveiro estava quente na medida certa, então ela relaxou e deixou que o calor levasse todo cansaço e estresse.

Quando terminou o banho, enrolou-se na toalha e saiu do banheiro, ao mesmo tempo que o interfone tocou, o que a fez suspirar desanimada enquanto caminhava até a cozinha.

- Pois não? - Ela atendeu.

- Oi Larinha. - A voz de Dona Ivone soou do outro lado. - Tá ocupada, meu amor?

- Não, Dona Ivone - respondeu ela. - Eu acabei de sair do banho.

- Ah, pois bem. Eu acabei de tirar um bolinho do forno, vem tomar um cafezinho comigo.

Lara respirou fundo em silêncio.

- Claro, Dona Ivone. Só vou me vestir e já subo.

- Venha logo, estou esperando.

Lara devolveu o interfone ao gancho e foi para o quarto se vestir. Ela já estava pronta para colocar seu pijama, mas, ao invés disso, colocou uma calça de moletom e uma camiseta branca. Então, tirou a toalha da cabeça e tirou apenas o excesso de água dos cabelos, para em seguida sair de casa.

Dona Ivone morava no sexto andar e era uma senhora simpática, daquelas que é impossível não fazer amizade e, como os pais de Lara moravam no interior, acabava sendo um lugar de aconchego.

- Oh minha querida, entre - disse Dona Ivone ao abrir a porta. - Estou passando um café fresquinho. Sente-se.

A mesa estava posta com xícaras, o açucareiro, requeijão, leite e claro, o bolo que ela havia feito. Lara sentou-se e ficou brincando com o desenho de frutas na toalha. Então, Dona Ivone veio da cozinha carregando o bule de café e um prato com torradas.

- Pegue um pedaço do bolo, Larinha - disse a senhora, sentando-se à mesa. - É de coco, receita da minha mãe. Você vai adorar.

Lara sorriu e pegou para si um pedaço de bolo, enquanto Dona Ivone lhe servia uma xícara de café. De fato, o bolo estava divino, parecendo algodão doce de tão leve.

- É bom, não é? - Dona Ivone comentou. - Minha mãe fazia esse bolo no dia do aniversário de casamento dela, porque meu pai gostava e ela dizia que tinha conquistado ele com essa receita. Pena que eu não tive a mesma sorte.

- Ainda há tempo, Dona Ivone. - Lara respondeu. - A senhora ainda pode conhecer alguém que goste.

- Ah não, menina - disse ela. - Eu estou muito bem, tenho você para me fazer companhia e os meus sobrinhos cuidam de mim de vez em quando.

- A senhora disse que sua mãe fazia esse bolo no aniversário de casamento - comentou Lara. - Seria hoje? Por isso a senhora fez o bolo?

- Você é muito esperta. - Ela respondeu. - Era sim. E sempre chove nesse dia desde que eles se casaram. Acho que Deus tenta me agradar mantendo essa tradição, então, para compensar eu faço esse bolo.

- É mesmo uma delícia.

- Se quiser, eu te passo a receita - sugeriu a senhora. - Afinal, a senhorita já está na hora de arrumar um namorado.

- Acho que acabaram os homens bons no mundo, Dona Ivone.

- Aí é que você se engana. Temos um morador novo no prédio, eu o vi hoje, quando fui pegar minha correspondência na portaria. Ele é um, como vocês dizem hoje, um gato e muito educado também.

- E como a senhora sabe que ele está disponível? - Lara perguntou.

- Não tem aliança e o Beto disse que mora sozinho - respondeu ela. - Disse que quem arrumou o apartamento dele foi o próprio dono. Parece que eles são irmãos e ele está recomeçando a vida.

- Ele pode só ter se divorciado - comentou ela.

- O importante é que está solteiro. Você devia conhecê-lo.

Lara apenas concordou, porque sabia que não a faria mudar de ideia e até ficou curiosa para saber quem era, mas não fez nenhuma pergunta para não dar esperanças para a vizinha. Então, apenas continuou tomando seu café e trocou o assunto para a saúde de Dona Ivone, o que rendeu conversa até tarde da noite.

                         

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