Capítulo 2 Lembranças

A empresa estava um caos naquele dia e Felipe estava com a cabeça cheia. Ele, Cléber e Sérgio tinham ficado até mais tarde em reunião, discutindo o que deveriam fazer para aumentar os lucros.

Haviam muitos esquemas fraudulentos, mas nenhum desviava dinheiro dos caixas da empresa, mesmo assim, Cléber insistia que aquele era o problema. Felipe não participava, mas sabia de todo o esquema e apenas fazia vista grossa, pois não queria problema com quem estava envolvido.

Já o Sérgio, além de participar, acreditava que era alguém importante no esquema, o que às vezes fazia Felipe rir, porque Sérgio era um peixinho entre os tubarões, mas defendia os comparsas com tudo de si.

- Você devia se preocupar mais, Felipe - disse ele naquela noite. - Se o esquema vazar, tá todo mundo na merda, inclusive você.

- Tá, mas daí a você achar que o Cléber tá conspirando. - Felipe respondeu. - Você já tá levando isso longe demais. O que ele ganharia com isso?

- Você é cego, Felipe? - Sérgio gritou. - O cara trabalha com segurança de dados. Se ele denunciar o esquema, vai sair como heroi e a nossa empresa vai à falência.

- Eu já te disse, cara. - Felipe insistiu. - Ele tem tanto a perder quanto a gente.

- Você que sabe, Felipe. Eu só acho que você devia dar mais valor ao que construiu. Tantas noites sem dormir, estudando, trabalhando virado. Lembra do seu primeiro carro? De quando comprou sua casa? Você conquistou tudo com muito suor e lágrimas. Esse seu currículo, do qual você se orgulha tanto, vai virar lixo se descobrirem que a empresa vende os dados dos clientes na dark web. Então, se eu fosse você, ficaria esperto.

Sérgio saiu da sala de Felipe batendo a porta atrás de si e o deixando pensativo sobre tudo aquilo. Então ele foi até a cristaleira que tinha na sala e pegou a garrafa de uísque, servindo-se de uma dose generosa.

Sentou-se em sua cadeira e olhou pela janela, lembrando-se de todo o esforço para chegar até ali, onde se sentia vitorioso, o homem com a vida completa que sempre sonhara em ser. Ocupava o cargo máximo de sua área, estava noivo de uma bela jovem, não havia mais nada que pudesse querer.

Então o telefone tocou, fazendo Felipe revirar os olhos, pois era Cléber, pedindo para que ele fosse até sua sala. Ele bebeu o copo de uísque todo de uma vez e levantou-se, saindo em direção à sala do sócio, que ficava do outro lado do andar.

- O que foi dessa vez, Cléber? - Ele perguntou ao chegar lá.

- Queria conversar a sós com você - respondeu o sócio. - Acho que você tem mais cabeça que o Sérgio.

- Não tô afim de ficar no meio do fogo cruzado de vocês. - Felipe respondeu sem ânimo.

- Você sabe que isso não tá certo, Felipe. - Cléber insistiu. - Os usuários confiam em nós.

- Cléber, para com isso. Eles são tubarões e a gente é só atum. Se você continuar com isso, eles te tiram da jogada.

Cléber levantou-se e começou a andar pela sala, inquieto. E Felipe já não sabia mais o que fazer, porque, apesar de serem sócios, dos dez, ele e Cléber eram os únicos que não participavam do esquema de venda de dados. Nunca nem havia chegado a oferecer a ele que participasse. E talvez fosse isso que incomodava tanto o colega.

- Tem certeza de que o que te incomoda é mesmo a venda dos dados? - Cléber parou de andar ao ouvir. - Ou será que você também gostaria de ter uma parte nisso tudo?

- Felipe, eu lutei tanto quanto você pra chegar onde cheguei. E você sabe o quanto a gente evitou o caminho mais fácil, quanta gente vimos crescer mais rápido de maneira desonesta. Eu não consigo mais ficar parado, sem fazer nada. Isso tem que acabar.

- O que você pretende fazer? - Felipe perguntou, receoso.

- Alguma coisa - respondeu ele, olhando para o céu pela janela. - Nem que eu tenha que expor esse maldito esquema.

Felipe estremeceu ao ouvir aquelas palavras saindo da boca de Cléber. Então Sérgio não estava tão maluco e ele tinha razão, pois, se Cléber denunciasse aquele esquema, não sobraria nada e tudo pelo qual ele tinha lutado se perderia.

- Cléber, você não tá pensando direito - disse ele. - Se você denunciar o esquema, a gente perde tudo o que construiu.

- Você acha que eu ligo? - Cléber gritou. - Eu construo de novo! Não me importo! Eu tenho todas as provas necessárias, um e-mail que eu enviar e tudo acaba!

O desespero tomou conta da mente de Felipe. Ele precisava parar o sócio de alguma forma, pois não podia deixá-lo jogar fora todos aqueles anos de esforço. Pela fresta da gaveta entreaberta, ele pôde enxergar o revólver do sócio.

Cléber tinha voltado a andar pela sala e agora tinha o celular nas mãos. Felipe abriu a gaveta da mesa e pegou a arma, erguendo-a na direção do sócio.

- Cléber, eu não posso deixar você fazer isso. - Suas mãos tremiam ao empunhar a arma.

- Vai fazer o quê? - Cléber questionou. - Me matar? Vai em frente, essa vai ser a única forma de me parar mesmo.

Cléber virou as costas para ele e voltou a mexer no celular, andando em direção à saída da sala. Felipe precisava pará-lo, então mirou no ombro do sócio e puxou o gatilho. O som do tiro assustou Cléber, que se moveu para o lado, mudando de lugar o alvo que Felipe tinha mirado.

O tiro atingiu Cléber de forma que seus ombros se arquearam para trás antes que seu corpo caísse para frente. Os olhos de Felipe se arregalaram com a cena e ele podia ouvir seus batimentos cardíacos. Em meio a adrenalina, ele se aproximou do corpo e percebeu que o sócio já não respirava.

Felipe levou as mãos à cabeça, pensando no que fazer. Então, enfiou a arma por dentro da calça e saiu dali para a sua sala, onde, com um pano com álcool, em meio às lágrimas, ele limpou o revólver e guardou-o no cofre escondido em sua sala.

            
            

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