Virei o meu rosto olhando para o Adrian que agora me varria de cima a baixo, olhando-me com os olhos semicerrados enquanto engolia o seu vinho. Meu corpo próximo ao do Joe, Joe me ajudando com os meus sentimentos e Adrian com a mandíbula cerrada me corroendo. Será que agora ele acha que também vai decidir quem é que fica perto de mim?
- Adrian é estranho - ele bufou. - Provavelmente deve achar que você é algum tipo de propriedade para ele.
- Só porque sou sua prima?
- Vocês não têm o mesmo sangue, nós temos o mesmo sangue - Joe vira a taça.
- E mesmo assim eu estava disposta a ter algo com você - declaro.
As costas do Adrian agora descansavam na parede, e seus olhos continuavam fixos em mim, mas eu desviava e continuava falando com o Joe.
- Não sei se vou suportar tudo isso, Joe - seguro na sua mão, querendo chorar, mas enxugo qualquer lágrima que queira sair, não posso aparentar ser uma fraca.
- Adrian te viu nascer, te segurou quando era um bebê, talvez isso o faça achar que é o seu dono.
- Mas ele nunca foi.
Meu peito subia e descia ainda mais rápido, minha respiração estava mais acelerada e ver o Adrian me olhando de longe me deixava menos sóbria, porque eu engolia o vinho fazendo a minha visão ficar embaçada.
- Você está bem?
- Não estou - viro a taça.
Lembro-me de como era horrível o nosso convívio quando éramos apenas crianças, Adrian fingia a minha inexistência, tentei falar com ele por diversas vezes, ele me ignorava, virava o seu rosto e se escondia de mim.
Quando eu estava no ensino médio, sofria bullying, era taxada de tanta coisa naquela época, odeio como foi a minha época na escola. Mas quando os garotos vieram para cima de mim tentando me agarrar à força, Adrian apareceu com aquela jaqueta e sozinho agrediu cinco meninos e venceu a luta.
Naquele dia, eu tive um pingo de esperança de que ele sentisse algo por mim. Limpo a lágrima que escorre pela minha pele.
Naquele dia, eu achei que o homem que me ignorava na verdade sentia algo de alguma forma, porque ele me defendeu, mas quando eu fui perguntar, ele me disse que só estava com pena porque eu era uma garotinha.
É assim que ele me vê, como uma garotinha, sempre foi assim. "Eu não gosto de você, te ajudo porque é uma garotinha."
Odeio o fato de ele ter me ajudado com todas as matérias que envolviam números no ensino médio, tive que ficar olhando para aquele monstro por um semestre inteiro, odeio o meu passado com ele.
"Só estou te ajudando com a matéria porque é uma garotinha."
"Te vejo como uma garotinha, Adeline."
"Você é uma garotinha pequena e indefesa, Adeline."
Era sempre assim, mas eu nunca fui indefesa e estou prestes a mostrar isso para ele pelos próximos meses, sou muito mais que isso, Adrian, eu juro que serei o seu inferno.
- Adeline - Joe me chama.
- Oi - enxugo os meus olhos.
- Vem cá - ele me puxa para um abraço.
Repouso a minha cabeça no seu peito, escondendo o meu rosto choroso do Adrian, fugindo de qualquer coisa que me fizesse olhá-lo. O peito do Joe agora estava sendo o meu único porto seguro.
Escuto a voz do Adrian, ele pigarreia antes de puxar o meu corpo e me chamar.
- Adeline - sua voz rouca, sua mão puxando o meu pulso, me deixa tensa. - Precisamos falar sobre a festa.
- Não me toca - puxo o meu braço das suas mãos grandes que mais parecem as de um monstro que quer me machucar.
Na verdade, ele já estava me machucando, fez isso no momento em que me selou a ele por papel.
- Não vou ser rude com você, quero apenas conversar a sós - olhou para Joe com desaprovação.
Joe saiu deixando a gente sozinhos no canto da sala.
- O casamento, Adeline - ele parece mais calmo agora. - Faça como você quiser, não vou encher mais a sua cabeça, não era isso que eu queria - avisa.
Ele pega a minha mão, tira uma aliança de dentro da caixinha e coloca no meu dedo, e me olha profundamente depois de enfiar aquela aliança em mim. Então ele me dá a outra aliança.
- Coloque em mim, Adeline - pede.
- Quer mesmo continuar com isso? - Fico desacreditada.
- Sim, garotinha.
Pego a sua mão grande, não tem escapatória, já estou vendida e tem homens em volta de toda a nossa casa, não tenho vontade de fugir, mas mesmo se tivesse, não teria como. Pego a aliança toda cravejada de diamantes e enfio no seu dedo longo e grande, o que me faz engolir em seco, imaginando uma coisa.
- Você é minha agora, Adeline, não te quero nos braços de outro homem, espero que esteja avisada.
- Não deveríamos trocar as alianças no casamento?
- Não precisamos de tanta cerimônia no dia, estou te selando a mim agora, espero que se comporte até o dia da cerimônia.
- Você é um monstro - digo, raivosa, com a voz baixa.
- Não é a primeira vez que me diz isso, Adeline, não ligo de ser monstro mais uma vez se isso significa te selar em minha vida, não gostamos um do outro e isso basta - diz rígido.
Não disse mais nada, não tinha palavras que o fizessem voltar atrás, Adrian estava certo de que queria por queria um casamento sem amor comigo e eu o faria pagar mais cedo ou mais tarde.
Nossos pais nos chamaram para brindar a nossa união, nós fomos para o centro da sala com todos os olhares à nossa volta. Senti minhas bochechas queimarem, no entanto, mantive a pose que eles queriam, a da garota noiva de um delinquente sem noção.
- Palmas para o casal - mamãe disse.
- Estamos orgulhosos dos dois, vai ser uma festa incrível - meu pai brindou com Adrian, que apenas assentiu com um olhar frio e distante.
- Como está a minha filha? - Mamãe se aproximou, tocando no meu rosto.
- Feliz - sussurrei, mentindo.
- Não fique com esse olhar, querida, ou as pessoas notarão - apertou o meu pulso.
Adrian logo se intrometeu quando a viu segurando a minha mão, ele puxou o meu pulso da minha mãe e segurou ele mesmo.
- Pode ficar tranquila, senhorita Valkiria, vou cuidar bem de sua filha - avisou.
- Um brinde aos noivos - meu pai levantou a taça saudando.
As pessoas riram e brindaram, Adrian se virou para mim e brindou em minha taça. Ele segurou meu queixo antes de sair, suas mãos estavam frias e pesadas sobre o meu rosto.
- Até o casamento, Adeline.
- Até o casamento.