Estávamos no seu apartamento, abri a porta e dei de cara com um lugar limpo e organizado, muito diferente desse badboy.
O sofá grande no meio da sala, uma escada que dava para ver o corredor e a porta dos quartos lá em cima. Nós provavelmente não dormiremos juntos, e eu nem iria querer se ele pedisse.
Ele se afastou de mim, abriu uma gaveta e pegou um dos charutos caros que ele gosta de fumar, foi para a varanda na sala que tinha uma linda visão para os prédios da cidade. Ele estava fumando e tragando sem parar, parecia tão ansioso quanto eu.
- Adrian... - o chamei.
- O que foi? - Voltou para a sala, dessa vez se aproximando de mim. - Você passou muita maquiagem.
- Era um casamento - respirei fundo. - É assim que vamos viver?
Ele assente, então, por fim, eu choro, não conseguia mais segurar. Fiz isso o casamento inteiro, não queria chorar, mas a vontade era muito mais forte do que eu.
Assustei-me quando sua mão pesada segurou o meu rosto e limpou as lágrimas, quando ele apertou as minhas bochechas, largou o cigarro e se concentrou em limpar todas as lágrimas com os seus dedos.
- Você é um monstro, Adrian - continuo chorando.
Espero que ele veja toda a dor que eu sinto e que nada em mim por ele vai mudar, nunca vou me esquecer da forma como me rejeitou quando éramos mais novos.
- Eu sou, não chore na minha frente, suba e tire esse vestido e desça para jantar - murmura.
- É sério, Adrian? Tudo isso a troco de quê? Não vou ter os seus filhos, seu babaca - deixo claro.
Ele me deixa sem saída, me colocando contra a parede.
- Fique tranquila, você é a minha garotinha e sabe disso, sempre vai ser a minha pequena - engole em seco. - Não tenho a intenção de me deitar com você, o que acha de inseminação artificial?
Me tirou uma boa gargalhada. Viro o meu rosto para parar de olhá-lo enquanto sorrio desacreditada, sua mão puxa o meu queixo e me faz voltar a olhá-lo.
- Isso não pode ser verdade? - Mordi o lábio de baixo, balançando a cabeça em negação.
Seu rosto está próximo do meu, meu corpo imóvel, tenho medo de mexer qualquer parte. Medo de que qualquer centímetro de mim o sinta.
- Não... - Sussurro baixo. - Nunca.
Meus dedos seguram seu terno, apertando com força enquanto reprovo toda a vontade de estar perto dele naquele momento.
- Sim, Adeline, preciso de crianças e não podemos fazer do modo tradicional porque não queremos - sua mão ainda segura o meu queixo enquanto ele sussurra.
Sinto sua barba curta raspar na minha bochecha, mas só me encolho na parede, tentando nos afastar o máximo que consigo.
- Adrian, não quero ter os seus filhos - suspiro, sentindo seu corpo me apertando.
Ele bufa, encosta a testa na parede ao lado e ficamos ali por alguns minutos repensando em tudo o que fez a gente chegar até aqui e só então ele me solta.
- Vá se trocar, você tem a vida inteira para pensar sobre isso - avisa, tirando o seu terno.
O que esperar desse casamento, um casamento sem amor, sem confiança. Ele também está em pedaços, assim como eu, mesmo não querendo mostrar.
- Sua porta é do lado da minha, a porta do lado esquerdo - ele diz.
Adrian nunca nem trocou mensagem comigo, por que decidiu se casar com alguém com quem ele nunca nem conversou direito? Entro no meu quarto, está tudo do jeito que eu gosto. O que me admira é como ele sabia que era disso que gostava?
O quarto é claro, tem flores em cima da minha mesa de escritório, um notebook para os estudos, uma prateleira para os livros. Como ele foi cuidadoso em escolher todos os detalhes.
Abro a porta do guarda-roupa e vejo roupas bonitas, camisolas bem tampadas, eu não uso isso e esse é o problema, a forma como Adrian me vê, como se a gente ainda fosse crianças.
Eu uso camisola curta e de renda e talvez isso seja demais para ele. Depois do banho, eu pego a camisola que tem no meu guarda-roupa e visto, não vou colocar as minhas coisas para não assustá-lo.
Desço de cabelo molhado com a camisola rosa comprada por ele, com mangas e que me cobre bem. Ele já está sentado na mesa e percebo que não tem nenhuma empregada, o que me faz entender que ele mesmo preparou a comida.
- Não tem empregada?
- Dispensei por hoje, queria que você ficasse a sós, um tempo para pensar na sua nova jornada presa a mim - declara. - Sente-se, aponta para a cadeira ao lado da sua na mesa.
Me sento, ele coloca um prato para mim, coloco carne e outras coisas que tinha na mesa, fico boquiaberta com o gosto, está delicioso.
Nunca o vi com roupas confortáveis, essa é a primeira vez e ele está bonito mesmo com roupas comuns.
- Você quem fez?
- Sim, espero que você tenha gostado.
Eu assinto e pigarreio antes de começar a falar.
- As camisolas que me comprou... - Olho para a mesa.
- O que tem?
- Não vou usá-las, não é algo que eu vista - aviso.
Ele semicerra os olhos antes de falar algo.
- E o que você costuma vestir, Adeline? - A voz dele é grossa e forte e me causa certo arrepio.
Não posso falar para ele que gosto de roupa de renda e que às vezes não costumo dormir com nada no corpo.
- Camisolas... - Engulo em seco. - De renda - digo baixo.
Meu coração bate forte, tentei não dizer, mas se eu escondesse isso teria que continuar com essas camisolas horríveis.
- Do que? - Puxa o meu queixo, fazendo meu olhar atravessar o seu.
Hesito por uns minutos, mas depois declaro logo de uma vez.
- De renda - digo mais alto.
Ele ri.
- Rendinha? - Diz, rindo. - Minha pequena tem usado rendinha.
Assinto, envergonhada.
- Não sabia que a minha pequena era tão grandinha a ponto de usar essas coisas, não use na minha frente, não quero perder o que eu acho sobre você.
Aquilo me irrita, como assim? O que ele acha que ainda sou?
- Adrian - o chamo, levantando-me da cadeira.
- Diga, pequena.
- Eu sou adulta agora, não somos mais crianças ou adolescentes, eu sou uma mulher - murmuro, olhando nos seus olhos. - Eu mudei muito.
Ele desvia o olhar e fica sério, sem querer reparar no meu corpo quando me aproximo.
- Prefiro não pensar nisso - ele se levanta, passando a mão na cabeça.
E foi sempre assim, se escondendo de mim, me afastando dele em todos os momentos possíveis. Me vendo como se a gente ainda fosse criança e não percebendo que somos adultos agora. Eu cresci, Adrian, e vou mostrar para você que não sou mais aquela garotinha.