Quando acordei, o quarto do hospital estava silencioso, apenas o som do monitor cardíaco apitava ritmicamente ao lado da minha cama.
A luz do sol da tarde entrava pela janela, mas não trazia calor.
O meu corpo estava vazio e dolorido, uma dor surda que vinha de um lugar profundo.
Olhei para o lado. A minha mãe, Clara, dormia numa cadeira, o rosto cansado e marcado pela preocupação.
Lembrei-me dos gritos, do sangue, da sensação de pânico enquanto os médicos corriam à minha volta.
O meu bebé, o nosso bebé, tinha-se ido.
Peguei no meu telemóvel com a mão a tremer. Havia dezenas de chamadas não atendidas e mensagens do meu marido, Pedro.
Ignorei-as e abri o Instagram.
A primeira foto no meu feed era da minha cunhada, Sofia. Ela sorria, radiante, segurando um pequeno cão branco nos braços.
A legenda dizia: "Bem-vindo à família, Floco! Obrigada ao meu irmão incrível, Pedro, por conduzir durante a noite toda para me trazeres este anjinho! Melhor presente de aniversário de sempre!"
A foto tinha sido publicada há oito horas.
Foi exatamente quando eu estava a sangrar na ambulância, a caminho do hospital.
Respirei fundo. O ar arranhou a minha garganta.
Fechei a aplicação e disquei o número do Pedro.
Ele atendeu no primeiro toque, a sua voz soava irritada e cansada.
"Finalmente! Estás a ver as minhas chamadas? Fiquei preocupado. O que aconteceu? Estás bem?"
A sua preocupação soou oca, uma formalidade.
"O bebé... perdemos o bebé, Pedro."
A minha voz saiu como um sussurro, fraca e quebrada.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade.
"Oh. Sinto muito, meu amor. Mas... tu estás bem, certo? Foi isso que os médicos disseram?"
Ele não perguntou o que aconteceu. Não perguntou como eu estava a sentir-me.
"Estou no hospital. Tive uma hemorragia."
"Hospital? Merda. Eu estou a caminho. Acabei de deixar a Sofia em casa, estou a umas quatro horas de distância. Devia ter ficado aí."
A voz da Sofia ecoou ao fundo, alta e clara. "Pedro! Esqueceste-te da comida especial do Floco! Volta aqui!"
Senti uma náusea a subir pela minha garganta.
"Tu foste buscar um cão para a Sofia?"
"Sim, era o aniversário dela, lembras-te? Ela queria muito este cachorro de um criador em outra cidade. Eu prometi-lhe."
"Tu prometeste-lhe", repeti, a voz vazia de emoção.
"Sim, Ana. Eu sei que o timing é péssimo, mas eu não podia desapontá-la. Ela ficou tão triste ultimamente."
"E eu, Pedro? E o nosso filho?"
"Claro que me importo! Mas já aconteceu, não há nada que possamos fazer agora, pois não? Temos de ser fortes. Tu precisas de descansar. Eu vou já para aí."
A sua lógica era fria, cortante.
"Não te incomodes. Fica com a tua irmã. Ela precisa de ti."
Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder.
Bloqueei o seu número.
Olhei para a minha barriga, agora coberta por um lençol fino. Estava vazia. O lar do meu filho tinha-se tornado um túmulo.
Se o nosso bebé ainda estivesse aqui, eu talvez o perdoasse. Teria engolido a dor para lhe dar uma família.
Mas agora, não havia nada que me prendesse a ele.
A única coisa que sentia era um nojo profundo.