Na semana seguinte, contratei um advogado de divórcio.
O melhor da cidade.
"Quero tudo," disse-lhe na nossa primeira reunião. "A casa, o carro, metade dos seus bens. E quero a custódia total e exclusiva do nosso filho."
O advogado, um homem chamado Sr. Mendes, olhou para mim por cima dos seus óculos.
"Senhora Alves, o seu filho... faleceu."
"Eu sei," respondi, a minha voz firme. "Mas no processo de divórcio, quero que seja registado que ele me abandonou no momento da morte do nosso filho. Quero que a sua negligência parental seja um facto legalmente documentado."
O Sr. Mendes assentiu lentamente, a sua expressão a tornar-se séria.
"Entendo. É pouco ortodoxo, mas podemos argumentar por danos emocionais e negligência. Vai ser uma luta."
"Eu não me importo," disse eu. "Eu tenho tempo. E tenho a verdade do meu lado."
Os papéis do divórcio foram entregues ao Pedro uma semana depois.
A resposta dele foi imediata.
Ele apareceu no meu local de trabalho.
Eu era gestora numa pequena galeria de arte. Era um trabalho tranquilo, um lugar de beleza e calma.
Ele destruiu essa calma no momento em que entrou.
"Clara! Precisamos de falar!" ele gritou, ignorando os olhares chocados dos poucos clientes presentes.
A minha colega, a Ana, tentou intervir. "Senhor, não pode entrar aqui a gritar."
Pedro ignorou-a. Ele marchou até à minha secretária.
"Um divórcio? É assim? Vais tirar-me tudo depois do que aconteceu?"
Levantei-me, o meu rosto impassível.
"O que aconteceu, Pedro, foi que deixaste o nosso filho morrer sozinho."
"Eu não o deixei morrer! Eu não sabia!" a sua voz estava cheia de uma auto-piedade que me enojava.
"Tiveste 17 chamadas perdidas minhas. Isso não foi suficiente para te fazer pensar que algo estava errado?"
"Eu estava com o Leo! A Sofia disse-me que estavas a ser dramática!"
"E tu acreditaste nela em vez da tua esposa," concluí por ele. "Isso diz tudo o que preciso de saber."
"Clara, por favor," ele baixou a voz, tentando parecer conciliador. "Eu cometi um erro. Um erro terrível. Mas amo-te. Eu amava o Lucas."
"O teu amor não vale nada," disse eu, a minha voz cortante. "As tuas ações mostraram isso. Agora, por favor, sai da minha galeria. Estás a perturbar os meus clientes."
"Eu não vou a lado nenhum até me ouvires!"
"Então vou chamar a segurança," respondi, pegando no telefone da secretária.
Ele olhou para mim, o seu rosto uma mistura de descrença e raiva.
Ele viu a determinação nos meus olhos. Ele sabia que eu não estava a brincar.
Ele deu um passo atrás, abanando a cabeça.
"Tu mudaste, Clara. Estás tão fria."
"A morte do meu filho arrefeceu-me," disse eu. "Tu devias tentar. Talvez te desse alguma perspetiva."
Ele saiu furioso da galeria, batendo a porta com força suficiente para fazer tremer os quadros nas paredes.
Sentei-me, as minhas mãos perfeitamente firmes.
A luta tinha apenas começado.