Eu mantive minha voz firme, calma. Por dentro, um nó se formava no meu estômago. Eu era Maria, mãe solteira, educadora por profissão e por vocação. Ensinar o certo e o errado para Sofia era a minha missão mais importante.
Ela havia pegado a borracha na papelaria do bairro sem que eu visse. Um deslize infantil, um desejo momentâneo. Em casa, ao descobrir o pequeno objeto na mochila dela, meu coração afundou. Não pela borracha, mas pelo que aquilo representava. Conversei com ela, expliquei sobre honestidade, e ela chorou, arrependida. A decisão de voltar à loja, devolver o item e pedir desculpas foi minha. Era a lição que precisava ser ensinada.
"Mas e se o moço brigar comigo?"
"Eu estarei com você. Faremos isso juntas."
Entramos na pequena loja, o cheiro de papel e tinta preencheu o ar. O lugar estava vazio, exceto por um homem atrás do balcão. Era João, o dono. Um homem de meia-idade, com o rosto marcado por uma amargura permanente.
Eu me aproximei, empurrando Sofia gentilmente à minha frente.
"Com licença, senhor. Aconteceu um engano."
Comecei, com a voz mais polida que consegui.
Sofia estendeu a mão trêmula, oferecendo a borracha.
"Eu peguei sem pagar. Desculpa."
João olhou para a borracha, depois para o rosto assustado da minha filha. Seus olhos se estreitaram. O silêncio durou um segundo, um segundo pesado e denso.
E então, o inferno começou.
Num movimento rápido e brutal, ele se esticou por cima do balcão e agarrou o braço de Sofia.
"AHÁ! EU SABIA!"
O grito dele ecoou pela loja, fazendo as prateleiras de cadernos vibrarem.
Sofia soltou um grito agudo de dor e pavor.
"LADRA! PEQUENA VAGABUNDA!"
"Solta ela! Solta a minha filha agora!" gritei, tentando puxar Sofia para perto de mim.
Mas ele era mais forte. Ele a puxou com tanta violência que a arrastou para o lado dele do balcão, derrubando uma pilha de canetas no chão.
"Mamãe!" O choro de Sofia agora era desesperado.
Eu contornei o balcão, o pânico tomando conta de mim. O corpo de Sofia, de apenas sete anos, tremia incontrolavelmente sob o aperto de João. O rosto dela estava vermelho, molhado de lágrimas e ranho. O terror nos olhos dela era algo que eu jamais esqueceria.
"Você está machucando ela! Foi um erro, ela é só uma criança!"
"Criança? Criança que aprende a roubar cedo!" ele rosnou, o rosto a centímetros do dela.
Uma mulher, Ana, a esposa dele, saiu de uma porta nos fundos, atraída pelo barulho. Seu rosto era tão duro quanto o do marido.
"O que foi, João? Pegou uma?"
"Peguei! A duplinha que anda me roubando há meses!"
Nesse momento, um cliente que estava prestes a entrar na loja parou na porta. Ele não disse nada. Apenas sacou o celular e começou a filmar. A luz vermelha piscando no aparelho era mais uma agressão, uma camada extra de humilhação.
Enquanto eu assistia, paralisada, Ana se aproximou e cuspiu as palavras com desprezo.
"Olha só pra cara de sonsa da mãe. Traz a filha pra fazer o serviço sujo. Acha que a gente é otário?"
Cada palavra era uma facada. Eu tinha vindo ali para ensinar uma lição sobre honestidade, e estava sendo acusada de ser a mentora de um crime, enquanto minha filha era agredida na minha frente.