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O Renascer do Curador
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Capítulo 1

Meu nome é Gu Avelar, sou curador de arte, e esta é a minha segunda vida.

Não é uma metáfora, é um fato. Eu morri e, de alguma forma, voltei ao ponto de partida, com a chance de refazer tudo.

Na minha frente, no salão principal do instituto de arte, Clara sorria, recebendo elogios pela sua proposta de exposição. Ao seu lado, como um cachorrinho fiel, estava Renan, seu aprendiz. Vê-los juntos me causava um nó no estômago, uma memória física da traição que me destruiu.

Na minha vida passada, eu amava Clara. Éramos parceiros nos negócios e na vida, um casal que o mundo da arte via como promissor. Eu era o talento, o cérebro por trás das nossas curadorias, e ela, o rosto público, a negociadora carismática. Eu não me importava, o sucesso dela era o meu.

Que ingênuo eu fui.

A inveja a consumia por dentro, corroendo o amor que eu achava que tínhamos. Ela queria o reconhecimento só para si. Renan, medíocre e oportunista, viu em sua ambição uma oportunidade para subir na vida. Juntos, eles tramaram minha queda.

A lembrança ainda é nítida, como uma ferida que nunca cicatriza. A exposição mais importante da minha carreira, a que me colocaria no mapa internacional. Eles me acusaram de desviar fundos, forjaram documentos, sabotaram peças cruciais da exposição na noite da abertura. O escândalo foi devastador. Perdi meu emprego, minha reputação, e fui mergulhado em dívidas que nunca conseguiria pagar.

Clara e Renan tomaram meu lugar, usando minhas ideias e contatos para construir a carreira deles sobre as minhas ruínas.

O pior não foi a ruína profissional. Foi o que a minha desgraça fez com a minha família. Meus pais, artistas humildes e íntegros, usaram todas as suas economias para tentar me ajudar a limpar meu nome. O estresse, a vergonha e a dor os consumiram. Meu pai teve um ataque cardíaco fulminante. Minha mãe, de coração partido, definhou logo depois.

Eu perdi tudo. Meus pais, minha carreira, meu amor, meu futuro. A dor me levou a um lugar escuro do qual não houve retorno. Até que eu acordei.

Acordei aqui, meses antes da grande traição, no dia da seleção de projetos do instituto. Com todas as memórias intactas.

Desta vez, eu não seria o gênio em ascensão. A fama precoce foi o que me tornou um alvo.

Por isso, quando chegou minha vez de apresentar um projeto, escolhi deliberadamente uma proposta modesta, quase secundária. Um estudo de caso sobre técnicas de restauração de cerâmica antiga. Era um trabalho sólido, mas sem o brilho ou a ambição que todos esperavam de mim.

Vi a confusão nos rostos dos diretores. Vi o desprezo sutil no olhar de Clara.

Ela se aproximou de mim depois das apresentações, com Renan a reboque.

"Gu, o que foi aquilo? Um estudo sobre cerâmica? Você é melhor do que isso. Achei que tínhamos ambições maiores."

Sua voz era mel. Veneno puro.

Eu dei de ombros, forçando um sorriso cansado.

"Estou um pouco esgotado, Clara. Quero pegar algo mais calmo este ano."

Renan soltou uma risadinha.

"Deixando o caminho livre para os verdadeiros talentos, Avelar?"

Eu o ignorei. Meus olhos estavam em Clara. Na minha vida passada, eu teria visto preocupação em seu rosto. Agora, com a clareza da morte, eu via apenas o brilho mal disfarçado de triunfo. Ela acreditava que eu estava perdendo meu toque, que minha genialidade estava se esvaindo. Perfeito.

Deixei que eles acreditassem na minha mediocridade. Deixei que me subestimassem.

Enquanto eles se afastavam, rindo e planejando seu futuro glorioso, um sorriso frio se formou nos meus lábios.

Aproveitem o palco, desgraçados.

Desta vez, a última risada será minha.

Do outro lado do salão, vi Sofia. Ela era uma restauradora de arte, quieta e incrivelmente talentosa. Na vida passada, ela sempre foi gentil comigo, uma presença calma no meio do caos. Ela me olhava agora com uma expressão de preocupação genuína, a única pessoa no salão que parecia sentir que algo estava errado.

Eu me lembrei de seus sentimentos não declarados por mim, algo que eu só percebi tarde demais. Desta vez, eu não cometeria o mesmo erro.

Sofia seria minha aliada. A única pessoa em quem eu podia confiar.

A guerra estava apenas começando, e eu já tinha minhas peças posicionadas no tabuleiro.

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