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A Mulher Esquecida
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Capítulo 1

A festa de gala da construtora de Ricardo fervilhava, as luzes dos lustres de cristal refletiam nas taças de champanhe e nos sorrisos falsos dos convidados, mas para Sofia, tudo parecia distante e abafado. Ela era a esposa, a renomada arquiteta de interiores que dava um verniz de classe aos empreendimentos do marido, mas naquela noite, como em tantas outras, ela era invisível. Todos os olhos, especialmente os de Ricardo, estavam fixos em Patrícia.

"A minha musa inspiradora", Ricardo dizia a quem quisesse ouvir, com o braço possessivamente em volta da cintura de Patrícia.

Patrícia, a irmã de seu falecido sócio, sorria, um sorriso que não alcançava seus olhos astutos, ela absorvia a adoração, exibindo uma resiliência que Ricardo elogiava publicamente, uma resiliência forjada, segundo ele, pela trágica perda do irmão. Sofia sabia a verdade, essa resiliência era a fachada para encobrir os negócios ilícitos que Ricardo herdou do sócio e a existência do filho ilegítimo que ele tinha com ela.

Sofia segurava sua taça com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos, ela observava seu marido e a amante dele no centro do salão, um casal perfeito sob os holofotes, enquanto ela, a esposa legítima, era apenas uma sombra na periferia. A humilhação era uma brasa constante em seu peito.

Ricardo subiu ao pequeno palco, pegou o microfone e o barulho diminuiu, ele sorriu, um sorriso de predador que ele reservava para os negócios e para as câmeras.

"Boa noite a todos", sua voz ressoou pelo salão, "É uma honra tê-los aqui para celebrar mais um ano de sucesso da nossa empresa."

Ele falou sobre projetos, lucros e expansão, mas então seu olhar encontrou o de Sofia por um breve momento, um olhar vazio, protocolar.

"E eu não poderia deixar de agradecer à minha querida esposa, Sofia", ele disse, e um holofote perdido finalmente a encontrou, fazendo-a piscar, "O pilar da minha vida, a mulher que com sua elegância e talento transforma meus prédios em lares. Um brinde a Sofia!"

Os aplausos foram educados, mas Sofia sentiu o gosto amargo da hipocrisia, as palavras dele eram ocas, um roteiro ensaiado para manter as aparências, segundos depois, seu olhar já havia voltado para Patrícia, com um calor que ele nunca mais dirigiu a ela.

A festa acabou tarde, o ar da noite estava frio quando saíram do salão, Ricardo caminhava na frente, com uma mão protetora nas costas de Patrícia, que reclamava do frio. Sofia os seguia em silêncio, sentindo-se como uma serviçal.

Quando chegaram ao estacionamento subterrâneo, o silêncio foi quebrado não por suas vozes, mas pelo som de pneus cantando e portas de uma van se abrindo com violência, homens mascarados e armados os cercaram em segundos.

"Ricardo Bastos!", um deles rosnou, a voz distorcida pela máscara, "Você tem uma dívida conosco."

O pânico tomou conta de Ricardo, seus olhos saltaram de Sofia para Patrícia.

Patrícia gritou, um som agudo e performático, "Ricardo, meu amor! O bebê! Nosso filho!"

Ela colocou a mão sobre a barriga, uma barriga que mal começava a aparecer, mas que naquele momento se tornou a coisa mais importante do mundo.

O líder dos sequestradores agarrou o braço de Sofia, puxando-a com força, a dor subiu por seu ombro.

"A escolha é sua, Ricardo", disse o homem, "O dinheiro ou sua esposa."

Sofia olhou para o marido, um fio de esperança desesperada em seu coração partido, ela era sua esposa, mãe de sua filha.

Mas Ricardo olhou para o rosto assustado de Patrícia, para a mão dela em sua barriga, e sua decisão foi instantânea e brutal.

"Levem-na!", ele gritou, empurrando Sofia na direção dos homens, "Levem-na! Mas deixem a Patrícia em paz! Ela está grávida, ela é frágil, ela precisa de mim!"

O olhar de Sofia encontrou o de Ricardo pela última vez naquele momento, e o que ela viu ali não foi medo ou dor, foi alívio, ele a estava descartando, trocando sua vida pela conveniência de proteger sua amante e seu novo herdeiro.

"Ricardo...", ela sussurrou, mas a palavra foi engolida quando um capuz sujo foi jogado sobre sua cabeça, mergulhando-a na escuridão.

Ela foi arrastada para a van, o som do motor acelerando foi a última coisa que ouviu de seu antigo mundo.

O ano seguinte foi um borrão de dor e escuridão, ela foi mantida em um porão úmido, alimentada com restos, torturada não apenas fisicamente, com brutalidade casual, mas psicologicamente, com as palavras dos seus captores.

"Seu marido não atende nossas ligações", eles riam, "Ele disse que você não vale o resgate. Disse que a outra está grávida de novo e precisa da proteção dele."

Cada palavra era uma faca girando na ferida aberta pela traição dele, a esperança morreu lentamente, substituída por uma raiva fria e uma vontade de sobreviver que ela não sabia que possuía. Ela aprendeu a ser um fantasma, a observar, a esperar.

E a oportunidade veio, uma noite, um dos guardas, bêbado, esqueceu a porta destrancada, Sofia não hesitou. Ela correu, com o corpo fraco, mas a mente afiada pela adrenalina, correu por ruas que não reconhecia, até que a exaustão a derrubou. Um estranho a ajudou, deu-lhe comida e algumas moedas para uma passagem de ônibus.

A viagem de volta para casa foi longa, ela era uma espectadora em sua própria vida, observando o mundo passar pela janela suja do ônibus. Quando finalmente chegou à sua rua, ao seu bairro luxuoso, algo estava errado, a casa, em vez de estar silenciosa e em luto, estava iluminada, cheia de música e risadas.

Ela se aproximou cautelosamente, esgueirando-se pelo jardim lateral que ela mesma projetara, o som de uma festa chegou aos seus ouvidos, e pela grande janela da sala de jantar, ela viu a cena que selou seu destino.

Ricardo estava na cabeceira da mesa, sorrindo, erguendo uma taça, Patrícia estava ao seu lado, radiante, segurando um bebê recém-nascido envolto em rendas brancas, era o batizado do segundo filho deles. Seus amigos e familiares estavam todos lá, rindo e comemorando, ninguém parecia se lembrar dela, ninguém sentia sua falta.

Um nó se formou na garganta de Sofia, onde estava Clara? Onde estava sua filha?

O pânico a impulsionou, ela deu a volta na casa, indo para os fundos, para o quintal, e foi então que ela ouviu, um gemido baixo, um som que partiu o que restava de seu coração.

Em um canto escuro do jardim, ao lado da casinha do cachorro que eles nunca tiveram, havia um canil de metal, e dentro dele, encolhida em um monte de trapos sujos, estava Clara.

Sua filha de cinco anos, agora com seis, estava magra a ponto de seus ossos se destacarem, seu cabelo estava emaranhado e sem vida, e em seus olhos grandes e assustados havia um vazio que nenhuma criança deveria conhecer.

Sofia caiu de joelhos, o ar fugindo de seus pulmões, o som da festa, das risadas, do brinde de Ricardo, misturou-se com o gemido de sua filha faminta, trancada como um animal.

Naquele instante, todo o amor que um dia sentiu por Ricardo se transformou em pó, toda a dor se solidificou em uma única e avassaladora certeza.

Ela não ia apenas deixá-lo, ela ia destruí-lo, ela ia fazê-lo pagar, ela ia tirar sua filha daquele inferno e apagar cada vestígio dele de suas vidas. A esposa submissa estava morta, enterrada no porão onde ele a abandonou, o que emergiu foi uma mãe, e não havia nada no mundo mais perigoso. O tempo de sofrer tinha acabado, era hora de lutar.

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