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A Mulher Esquecida
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Capítulo 2

Duas semanas depois, Sofia estava pronta, o tempo que passou escondida na casa de uma antiga empregada leal foi usado para se recuperar minimamente e planejar seu próximo passo, ela não voltaria como uma vítima suplicante, ela voltaria como uma aparição, um fantasma vindo para assombrar o banquete.

A ocasião era perfeita: o anúncio oficial do noivado de Ricardo e Patrícia. A notícia correu pela alta sociedade como fogo em palha seca, a viúva de luto mal fora declarada legalmente morta e o viúvo já estava refazendo a vida com a "musa inspiradora".

Sofia escolheu um vestido simples, preto, que acentuava sua magreza e a palidez de seu rosto, ela não usou maquiagem, as olheiras profundas e as cicatrizes finas em seu rosto, que ela se recusou a esconder, eram seu testemunho.

Quando ela entrou no salão de festas do hotel mais caro da cidade, um silêncio se espalhou como uma onda, a música parou, as conversas morreram, as cabeças se viraram. Ricardo e Patrícia estavam no centro do salão, prestes a cortar um bolo de noivado de vários andares.

O queixo de Ricardo caiu, a faca de prata que ele segurava caiu de sua mão e bateu no chão com um barulho metálico que ecoou no silêncio mortal. Seus olhos se arregalaram em puro choque e descrença.

"Sofia?", ele sussurrou, a palavra quase inaudível.

Mas o choque inicial foi rapidamente envenenado, Patrícia, mestra da manipulação, reagiu instantaneamente, ela soltou um pequeno grito e se agarrou ao braço de Ricardo, seu rosto se contorcendo em uma máscara de medo e dor.

"Ricardo, quem é essa mulher?", ela choramingou, alto o suficiente para que todos ouvissem, "Ela... ela se parece com a Sofia, mas não pode ser... é um truque cruel!"

As palavras dela foram o gatilho, a mente de Ricardo, que por um segundo pareceu vacilar, endureceu, seu choque se transformou em irritação e depois em fúria. Como essa mulher ousava aparecer aqui e estragar seu momento, sua nova vida perfeitamente construída?

Os sussurros começaram entre os convidados, como o zumbido de vespas.

"Meu Deus, é a Sofia Bastos!"

"Mas ela não estava morta? Sequestrada e morta?"

"Olhe para ela... parece um fantasma."

"Então a história da 'musa' era verdade o tempo todo... pobre Sofia."

A narrativa que Ricardo havia vendido à sociedade, a de um marido de coração partido encontrando consolo nos braços da amiga da família, estava se desfazendo diante de seus olhos.

Patrícia sentiu a mudança na atmosfera e intensificou seu teatro, lágrimas brotaram de seus olhos, ela levou a mão ao peito, ofegante.

"Eu não aguento isso", ela soluçou para Ricardo, "Depois de tudo o que passamos... ela volta do túmulo para nos assombrar? Para tentar roubar nossa felicidade? Meu coração..."

Ela se apoiou nele, fingindo uma fraqueza que não possuía.

Ricardo, encurralado e humilhado publicamente, fez sua escolha, ele abraçou Patrícia, protegendo-a, e olhou para Sofia com um desprezo gelado.

"Patrícia é a mulher que esteve ao meu lado na minha hora mais sombria", ele declarou em voz alta, para todo o salão ouvir, "Ela me deu força, me deu um novo motivo para viver, me deu um filho! Esta... esta mulher que apareceu aqui esta noite é uma estranha para mim."

A dor daquelas palavras foi física, Sofia sentiu como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões, ele não estava apenas negando-a, estava apagando a existência dela, o casamento deles, a família que um dia foram.

Foi então que ela viu, no pescoço de Patrícia, brilhando sob as luzes, o colar. Era o seu colar, um pingente de diamante único que Ricardo lhe dera em seu primeiro aniversário de casamento, ele havia dito que era tão único quanto o amor deles. Mas agora, o design original havia sido alterado, pequenas esmeraldas, a pedra de nascimento de Patrícia, foram adicionadas ao redor do diamante, profanando a memória, transformando um símbolo de seu amor em um troféu para sua substituta.

A visão daquele colar em seu pescoço foi mais dolorosa do que qualquer tortura física que ela suportou, foi a prova final e inegável de que ela havia sido completamente e totalmente substituída, sua vida, seu amor, suas memórias, tudo foi roubado e refeito para caber em outra pessoa.

Um convidado mais ousado, um antigo sócio de Ricardo, se aproximou.

"Ricardo, o que está acontecendo? É a Sofia, não é?"

Ricardo nem sequer olhou para o homem, seus olhos estavam fixos em Sofia, cheios de uma fúria fria.

"Eu não sei quem é essa mulher", ele repetiu, cada palavra um martelo cravando o prego em seu caixão, "Minha noiva é Patrícia. A mãe do meu filho. O futuro da minha família. Segurança!", ele gritou, sua voz ecoando com autoridade, "Tirem essa impostora daqui agora!"

Dois seguranças corpulentos se moveram em direção a Sofia, a humilhação era completa, ela não era mais Sofia Bastos, esposa e arquiteta, ela era uma "impostora", uma louca a ser removida para que a festa pudesse continuar. Ela não resistiu, ela os deixou agarrar seus braros, mas antes de ser arrastada para fora, ela olhou diretamente nos olhos de Ricardo, e no seu próprio olhar não havia lágrimas, nem súplica, apenas um vazio gélido que prometia um acerto de contas.

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