Ele nem sequer olhou para a pequena figura de Clara, encolhida na grama.
Sofia não recuou, ela largou a marreta, que caiu com um baque surdo, e apontou para a filha.
"Sua propriedade?", ela cuspiu as palavras, sua voz baixa e perigosa, "Você está preocupado com um pedaço de metal? Olhe para a sua filha, Ricardo! Olhe para ela!"
Ricardo finalmente baixou o olhar para Clara, mas em seus olhos não havia compaixão, apenas irritação, como se a menina fosse mais um incômodo.
"O que tem ela? Está um pouco suja, e daí? As crianças se sujam."
"Ela estava trancada ali dentro!", gritou Sofia, a compostura se quebrando, "Faminta, machucada, apavorada! Enquanto você celebrava seu noivado com essa... essa mulher!"
Ricardo olhou de Sofia para Patrícia, com uma expressão de genuína confusão, como se a acusação fosse tão absurda que ele não conseguia processá-la.
"Do que você está falando? Isso é ridículo. Patrícia me disse que Clara estava dormindo tranquilamente no quarto dela, com uma babá."
Patrícia, a atriz consumada, entrou em cena, lágrimas brotando instantaneamente em seus olhos.
"Ricardo, meu amor, ela está mentindo!", ela soluçou, agarrando-se a ele, "Ela está tentando nos separar! Eu nunca faria mal a Clara, eu a amo como se fosse minha. Essa mulher... ela é um monstro, ela deve ter tirado a menina da cama e a colocado lá só para me incriminar!"
A mentira era tão descarada, tão vil, que Sofia ficou sem fôlego.
Nesse momento, Clara, vendo seu pai, encontrou um pingo de coragem, ela se levantou sobre as pernas trêmulas e deu um passo à frente.
"Papai...", ela disse, com a voz fraca, "Tia Patrícia me bateu. Ela disse que..."
Clara não conseguiu terminar a frase, Ricardo se moveu com uma rapidez assustadora, ele se desvencilhou de Patrícia e deu um tapa forte no rosto da criança, o som estalou no ar da noite, agudo e chocante.
Clara caiu no chão, mais pelo choque do que pela força do golpe, com a mão em sua bochecha agora vermelha.
"Cale a boca!", Ricardo rosnou para a filha caída, seu rosto contorcido de fúria, "Não ouse mentir para mim! Peça desculpas à sua tia Patrícia agora mesmo! Você se tornou uma criança manipuladora e mentirosa!"
O mundo de Sofia parou, ela olhou para a mão de Ricardo, a mão que um dia a acariciou, agora usada para bater em sua própria filha para defender uma mentira, ela olhou para o rosto choroso de Clara, para a expressão triunfante e maliciosa que passou rapidamente pelo rosto de Patrícia antes que ela a escondesse atrás de uma máscara de angústia.
Ricardo não se importava com a verdade, ele não queria a verdade, a verdade era inconveniente, ela mancharia sua nova vida perfeita, era mais fácil acreditar na mentira de Patrícia, era mais fácil silenciar a vítima.
"Peça desculpas!", ele gritou novamente para a criança soluçante no chão.
Sofia se moveu, colocando-se entre Ricardo e Clara, um escudo humano contra sua crueldade.
"Não se atreva a tocar nela de novo", disse Sofia, com uma calma aterrorizante, "Nunca mais."
Ricardo a encarou, o desprezo em seu rosto era total.
"Você as duas se merecem", ele cuspiu, "Louca e mentirosa."
Ele se virou, ignorando completamente sua filha chorando no chão, e passou o braço em volta dos ombros de Patrícia.
"Vamos, meu amor. Não vamos deixar que elas estraguem nossa noite. Eu vou te levar para dentro, você precisa descansar."
Ele a guiou para a casa, consolando a perpetradora e abandonando a vítima, deixando Sofia sozinha no jardim escuro com a filha quebrada, o som dos soluços de Clara era a única trilha sonora para a ruína completa de sua família.
Sofia se ajoelhou e abraçou a filha com força, balançando-a suavemente, ela não tinha palavras de consolo, o que se pode dizer a uma criança cujo pai acabou de puni-la por dizer a verdade?
No meio de seus soluços, Clara olhou para Sofia com olhos cheios de uma dor que nenhuma criança deveria entender.
"Mamãe...", ela sussurrou, a bochecha vermelha latejando, "Eu fui má? É por isso que o papai bateu em mim?"
A pergunta, a auto-culpa plantada por seus agressores, foi a coisa mais devastadora que Sofia já ouvira, naquele momento, ela soube que não havia redenção para Ricardo, não havia esperança, não havia nada a ser salvo, havia apenas a fuga, e ela levaria sua filha para longe daquele veneno, não importava o custo.
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