"O Sr. Bastos disse para a senhora esperar aqui", disse a voz abafada do outro lado da porta.
O quarto era luxuoso, mas impessoal, não era o seu lar, a casa que ela havia decorado com tanto amor e cuidado. A lembrança da casa a atingiu com a força de um soco, a casa que agora pertencia a Patrícia. Ela se lembrava de cada detalhe do seu quarto, as paredes em um tom suave de azul, as cortinas de linho, a poltrona de leitura no canto.
Ela podia imaginar perfeitamente o que encontraria lá agora, as paredes provavelmente pintadas de dourado ou um vermelho vulgar, o gosto ostentoso de Patrícia manchando cada superfície, suas roupas penduradas em seu armário, seus perfumes baratos no ar, apagando qualquer vestígio de Sofia. A ideia de Patrícia dormindo em sua cama, ao lado de seu marido, a encheu de uma náusea amarga.
Mas o pensamento de seu quarto profanado foi rapidamente substituído por uma urgência muito maior, uma necessidade que queimava mais forte que a humilhação e a raiva.
Clara.
Sua filha estava naquela casa, sozinha, à mercê daquela mulher.
A maternidade é um instinto primitivo, uma força que não pode ser contida por portas trancadas ou ordens de um marido traidor, Sofia vasculhou o quarto, seu coração batendo descontroladamente, ela encontrou um telefone no criado-mudo e discou o número da única pessoa em quem podia confiar, a empregada que a ajudou.
"Maria? Sou eu. Preciso que você vá para a casa. Agora. Diga a eles que precisa pegar algo que esqueceu. Apenas me diga se Clara está bem. Vá para o quintal."
A espera foi uma agonia, cada segundo se arrastava, ela andava de um lado para o outro no quarto, imaginando os piores cenários, finalmente, o telefone tocou.
"Senhora Sofia...", a voz de Maria estava embargada, trêmula, "É pior do que pensamos. A festa... eles deixaram a menina lá. No canil. Com um prato de restos que nem um cachorro comeria."
A imagem que se formou em sua mente foi tão vívida e horrível que ela teve que se apoiar na parede para não cair, sua filha, sua pequena Clara, trancada no escuro e no frio, enquanto seu pai e sua madrasta comemoravam seu noivado.
A fúria lhe deu uma força que ela não sabia que tinha, ela não ia esperar mais, ela não ia ser uma prisioneira, ela correu para a porta e começou a bater com os dois punhos.
"Abram esta porta! Abram agora ou eu vou quebrar tudo aqui dentro!"
Sua comoção atraiu os seguranças, ela os confrontou com a ferocidade de uma leoa.
"Me levem para casa agora! Eu quero ver a minha filha!"
Talvez tenha sido a loucura em seus olhos, ou talvez a menção de "filha" tenha atingido um nervo, mas eles cederam, levando-a no carro de volta para a mansão.
A casa estava escura e silenciosa, a festa de noivado obviamente continuava no hotel, Sofia não entrou pela porta da frente, ela correu diretamente para o quintal, para o canto escuro que agora assombrava seus pesadelos.
E lá estava, o canil de metal, um caixote frio e cruel sob a luz fraca da lua.
Ela se ajoelhou na grama úmida e olhou através das grades, Clara estava encolhida no canto mais distante, tremendo, não de frio, mas de medo, seus olhos grandes e vazios fixos na escuridão, ela nem parecia ter notado a chegada de Sofia.
"Clara? Meu amor, sou eu, a mamãe."
A menina se encolheu ainda mais, um pequeno gemido escapando de seus lábios, Sofia viu o prato de comida intocado perto da grade, uma mistura gordurosa de sobras da festa, imprópria para qualquer ser humano, muito menos para uma criança.
Com as mãos trêmulas, Sofia lutou com o ferrolho enferrujado, abrindo a porta do canil, ela entrou no espaço apertado e frio e rastejou até sua filha.
"Meu amor, está tudo bem. A mamãe está aqui."
Ela estendeu a mão para tocar o rosto da menina, e foi então que viu, sob a luz da lua, as marcas, hematomas roxos e amarelados em seus bracinhos finos, um arranhão feio em sua bochecha. O corpo de Clara era um mapa de negligência e abuso.
Quando Sofia finalmente a pegou nos braços, a menina era assustadoramente leve, quase etérea, seus ossinhos pontudos sob a pele fina, ela não chorou, não abraçou de volta, ela apenas ficou rígida, seu pequeno corpo tremendo incontrolavelmente, um testemunho silencioso do trauma profundo que havia sofrido.
"Mamãe...", a voz de Clara era um sussurro rouco, como se ela não a usasse há muito tempo, "Tia Patrícia disse... disse que eu sou uma menina má. Que eu faço barulho. Ela disse que os monstros vêm pegar as meninas más que fazem barulho."
Cada palavra era uma punhalada no coração de Sofia.
"Ela disse que o papai não gosta de meninas más", continuou a criança, com a voz desprovida de emoção, "É por isso que ele me colocou na casinha do cachorro. Para os monstros não me encontrarem."
A inocência distorcida da lógica da criança era a coisa mais cruel que Sofia já tinha ouvido, Ricardo e Patrícia não apenas a haviam abusado fisicamente, eles haviam quebrado seu espírito, envenenado sua mente com medo e auto-aversão.
Uma raiva primordial, vulcânica, explodiu dentro de Sofia, ela olhou para o canil, a prisão de metal que simbolizava toda a crueldade e o abandono que sua filha sofreu, não era suficiente tirar Clara dali, ela precisava destruir o símbolo, apagar a sua existência.
Ela colocou Clara gentilmente na grama, enrolando-a em seu próprio casaco.
"Fique aqui, meu amor. A mamãe já volta."
Ela marchou até o pequeno galpão de jardinagem, seus movimentos eram bruscos e cheios de propósito, ela ignorou as ferramentas delicadas e pegou a mais pesada que encontrou, uma marreta.
Com a marreta nas mãos, ela voltou para o canil, a raiva lhe dando uma força sobre-humana, ela ergueu a ferramenta bem alto e a desceu com um grito gutural, um som de pura fúria e dor.
O metal rangeu e amassou sob o impacto, ela golpeou de novo, e de novo, e de novo, cada golpe era por uma lágrima que sua filha derramou, cada golpe era por uma noite que ela passou com fome e com medo, cada golpe era pela traição de Ricardo e pela crueldade de Patrícia.
Ela não parou até que o canil fosse uma pilha de metal retorcido e irreconhecível, uma ruína disforme no gramado perfeitamente cuidado, ela ficou ali, ofegante, com a marreta na mão, o coração batendo forte no peito, não com exaustão, mas com uma sensação selvagem de justiça. Foi o primeiro ato de sua nova vida, um ato de destruição para abrir caminho para a proteção.
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