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Meu Lar, Uma Farsa
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Capítulo 2

O mundo girou. Por um segundo, pensei que fosse desmaiar ali mesmo, no meio do restaurante de luxo, com os cacos do bolo de aniversário espalhados aos meus pés.

Mas a raiva, uma raiva pura e quente, me manteve de pé.

Eu caminhei até a mesa deles. Meus passos eram pesados, cada um ecoando a batida furiosa do meu coração.

"Maria? O que você está fazendo aqui?"

A voz de Pedro era fria, cortante. Não havia surpresa, não havia culpa. Apenas aborrecimento, como se eu fosse uma funcionária incompetente que interrompeu uma reunião importante.

"O que eu estou fazendo aqui?" Minha voz saiu trêmula, quase um sussurro. "Eu vim para a 'surpresa'. Para o nosso aniversário de casamento."

Apontei para a bagunça no chão. "Eu trouxe um bolo."

Ana revirou os olhos.

"Sério, mãe? Você tinha que fazer uma cena? Que vergonha."

Vergonha. Ela sentia vergonha de mim. A filha que eu carreguei na barriga por nove meses, que amamentei, que cuidei durante noites de febre. A filha para quem eu trabalhava até a exaustão.

Isabela, a outra mulher, permaneceu em silêncio, mas seu sorriso debochado dizia tudo. Ela estava se deliciando com a minha humilhação.

Pedro se levantou, a cadeira arrastando ruidosamente no chão. Ele agarrou meu braço, sua força me assustando.

"Vamos conversar lá fora. Você está estragando nosso jantar."

"Nosso jantar?" Eu puxei meu braço com força, me libertando. "Quem é ela, Pedro? E que jantar é esse? Você me disse que não tínhamos dinheiro nem para pagar o aluguel!"

As mentiras. As noites em que eu comia pão seco para que Ana pudesse ter um iogurte melhor. As roupas que eu deixava de comprar para mim para pagar o material escolar dela. Os fins de semana que eu passava trabalhando enquanto ele dizia que estava "procurando oportunidades".

Tudo era uma farsa.

"Isso não é o que parece," ele começou, com a desculpa patética dos traidores. "Isabela é uma parceira de negócios. Estamos fechando um grande acordo. Este é um jantar de negócios."

Ele me achava tão estúpida assim?

"Um jantar de negócios? Com sua filha? E você segurando a mão da sua 'parceira de negócios'?" Eu ri, um som amargo e quebrado. "E a Ana? Ela também é sua sócia?"

Ana se intrometeu, sua voz cheia de veneno.

"A Isabela é muito mais legal que você! Ela me entende. Ela me dá presentes bons, não as porcarias que você compra em promoção."

Cada palavra era um golpe. Eu olhei para a menina que eu tinha criado, para o rosto dela, e vi uma estranha. Uma cúmplice.

"E você," eu me virei para ela, a dor me fazendo tremer. "Você está aqui, comendo lagosta, enquanto eu estou em casa me preocupando com as contas? Você mentiu para mim. Vocês dois mentiram para mim."

"Nós não mentimos!" Pedro elevou a voz, atraindo olhares de outras mesas. "Nós só te poupamos da verdade. Você é muito dramática, Maria. Não saberia lidar com o sucesso. Ia querer gastar tudo com bobagens."

Bobagens. Como pagar as contas em dia. Como ter comida na geladeira. Como consertar o chuveiro quebrado há meses.

"E o que vocês estavam comendo?" A pergunta saiu da minha boca antes que eu pudesse contê-la. A pergunta que martelava na minha cabeça. "Que 'ingrediente especial' era esse?"

O rosto de Pedro se fechou. Ele trocou um olhar rápido com Ana.

"Isso não é da sua conta."

"É da minha conta, sim!" Eu insisti, minha voz subindo. "Ana falou de um 'bicho inútil'. O que vocês fizeram?"

Eu olhava para minha filha, implorando com os olhos para que ela dissesse que era uma piada de mau gosto, um mal-entendido.

Mas Ana apenas me encarou com frieza, seus olhos idênticos aos do pai.

"Você é tão patética," ela cuspiu as palavras. "Sempre se preocupando com coisas estúpidas."

Naquele instante, olhando para os dois, para a cumplicidade deles, para o desprezo em seus olhos, eu entendi.

Não era apenas uma traição. Não era apenas uma mentira sobre dinheiro.

Era um sistema.

Uma conspiração elaborada para me manter no escuro, trabalhando como uma mula, enquanto eles viviam a vida boa às minhas custas.

Eu era a provedora. A idiota útil. A base sobre a qual eles construíram seu castelo de mentiras e luxo.

E meu sacrifício, meu amor, meu esforço... não significavam absolutamente nada. Eram apenas o combustível que alimentava a festa deles.

A dor era tão avassaladora que se transformou em uma calma gelada. A mulher que chegou naquele restaurante cheia de esperança tinha morrido ali, ao lado dos restos espatifados de um bolo de aniversário.

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